A Era dos Impérios 1875-1914

Eric J. Hobsbawm · Capítulo 32 de 51

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A Era dos Impérios 1875-1914

Capítulo 3

 

Por m otivos óbvios, é m ais fácil docum entar o m ovim ento consciente das cam panhas pela em ancipação fem inina e as m ulheres que realm ente conseguiram penetrar nas esferas de vida até então reservadam ente m asculinas. Am bos consistem em articuladas m inorias de m ulheres de classe m édia e superior do Ocidente que, por sua própria raridade, foram registradas — tanto m elhor docum entadas porque até seus esforços e, em alguns casos, sua própria existência haviam despertado resistência e debate. A sim ples visibilidade dessas m inorias desviava a atenção da grande onda que era a m udança histórica na posição social das m ulheres, que os historiadores podem apreender apenas obliquam ente. De fato, m esm o desenvolvim ento consciente do m ovim ento pela em ancipação não é inteiram ente apreendido se nos concentrarm os em suas porta-vozes m ilitantes. Pois um a im portante parte dele e quase certam ente a m aioria das que nele tom aram parte fora da Inglaterra, da Am érica e, possivelm ente, da Escandinávia e dos Países Baixos não o fizeram m ovidas por um a identificação com os m ovim entos especificam ente fem ininos, m as pela sua identificação com a liberação da m ulher com o parte de m ovim entos m ais am plos de em ancipação geral, tais com o os m ovim entos operários e socialistas. Não obstante, essas m inorias devem ser brevem ente exam inadas.

Conform e sugerim os, os m ovim entos especificam ente fem inistas eram pequenos: em m uitos países do continente suas organizações consistiam em algum as centenas ou, na m elhor das hipóteses, de um a dois m il indivíduos. Seus m em bros eram predom inantem ente das classes m édias e sua identificação com a burguesia e em particular com o liberalism o burguês, cuj a extensão ao segundo sexo defendiam , dava-lhes a força que possuíam e determ inava suas lim itações. Abaixo do nível da burguesia educada e próspera, o voto fem inino, o acesso à educação superior e o direito de sair para o trabalho e de ter profissão, além da luta pelos direitos e pelo status legal igual ao m asculino (especialm ente no tocante aos direitos de propriedade), dificilm ente despertariam um fervor engaj ado com o outros assuntos. Nem devem os esquecer que a relativa liberdade das m ulheres da classe m édia de fazer cam panha em prol de tais exigências repousava, pelo m enos na Europa, na transferência dos encargos dom ésticos a um grupo de m ulheres m uito m aior, o das em pregadas.

As lim itações do fem inism o de classe m édia ocidental não eram apenas sociais e econôm icas, m as tam bém culturais. A form a de em ancipação a que aspiravam seus m ovim entos, a saber, a de ser tratada legal e politicam ente com o o hom em e a de tom ar parte, com o pessoas, sem considerações quanto ao sexo, na vida da sociedade, presum ia a transform ação do padrão de vida social, j á bastante distanciado do tradicional "lugar da m ulher". Para tom ar um caso extrem o: os hom ens em ancipados de Bengala, desej ando dem onstrar sua ocidentalização, quiseram tirar suas m ulheres do isolam ento e trazê-las "para a sala de visitas", m as com isto produziram entre elas tensões inesperadas, um a vez que não ficou nada claro para estas m ulheres o que ganhariam em troca da perda da autonom ia (subalterna m as m uito real) sobre aquela parte da casa que era, incontestavelm ente, delas. Um a "esfera fem inina" claram ente definida — quer a das m ulheres isoladam ente em suas relações de casa, ou a das m ulheres, coletivam ente, com o m em bros da com unidade — poderia agredir as progressistas, com o um a m era desculpa para m anter a inferioridade fem inina, com o de fato, entre outras coisas, evidentem ente o era. E é claro que assim crescentem ente veio a se tornar, com o enfraquecim ento das estruturas sociais tradicionais.

Todavia, dentro dos seus lim ites, essa esfera havia oferecido a essas m ulheres recursos individuais e coletivos disponíveis que não eram inteiram ente desprezíveis. Por exem plo, elas eram as perpetuadoras e form adoras da língua, da cultura e dos valores sociais, as essenciais forj adoras da "opinião pública", as iniciadoras reconhecidas de certas espécies de ação pública (com o a defesa da "econom ia m oral"), e, não m enos, elas eram as pessoas que não só haviam aprendido a m anipular seus hom ens m as tam bém , em alguns assuntos e em algum as situações, esperava-se que eles cedessem a elas. O dom ínio dos hom ens sobre as m ulheres, por absoluto que fosse em teoria, não era arbitrário ou irrestrito na prática coletiva com o o dom ínio dos m onarcas absolutos por direito divino não era um despotism o ilim itado. Esta observação não j ustifica que um a form a de dom ínio sej a m elhor que a outra, m as talvez aj ude a explicar por que m uitas m ulheres — que, por desej arem algo m elhor, haviam aprendido com o passar das gerações a "aproveitar o sistem a" — perm aneciam relativam ente indiferentes às reivindicações da classe m édia liberal, as quais aparentem ente não ofereciam tais vantagens práticas. Afinal, m esm o dentro da sociedade burguesa e liberal, as francesas da classe m édia e da pequena burguesia, que nada tinham de tolas e raram ente eram dadas a um a suave passividade, não se deram ao trabalho de apoiar em grandes núm eros a causa do sufrágio fem inino.

Desde que os tem pos estavam m udando e a subordinação da m ulher era universal, aberta e orgulhosam ente anunciada pelos hom ens, isso deixava um pleno espaço para m ovim entos de em ancipação fem inina. Na m edida, porém , em que havia para estes a possibilidade de obter apoio entre as m assas de m ulheres do período, paradoxalm ente esse apoio não era aos m ovim entos especificam ente fem inistas, m as sim às dem andas das m ulheres dentro dos m ovim entos de em ancipação hum ana universal. Daí a atração dos novos m ovim entos social-revolucionários e socialistas. Estes eram especificam ente com prom etidos com a em ancipação das m ulheres — a m ais popular exposição do socialism o, pelo líder do Partido Social Dem ocrata Alem ão, foi significativam ente A Mulher e o Socialismo, de August Bebel. Na verdade, os m ovim entos socialistas ofereciam , em larga m edida, o am biente público m ais favorável para as m ulheres que não eram atrizes, ou as poucas filhas favorecidas da elite, para que desenvolvessem sua personalidade e seu talento. Mais que isto, eles prom etiam um a total transform ação da sociedade o que, com o bem sabiam as m ulheres realistas, haveria de requerer

um a m udança no antigo padrão das relações entre os sexos[i].

Nessa m edida, a verdadeira escolha política para as m assas de m ulheres européias não estava entre o fem inism o e os m ovim entos políticos m istos, m as entre as igrej as (notadam ente a Igrej a Católica) e o socialism o. As igrej as, lutando num a poderosa ação de retaguarda contra o "progresso" do século XIX (cf. A Era do Capital, cap. 6:1), defendiam os direitos, tais com o j á os possuíam as m ulheres na ordem tradicional da sociedade, e com zelo tanto m aior, visto que o conj unto dos fiéis e, sob certos aspectos, seu próprio pessoal, estava se tornando surpreendentem ente fem inino: em fins do século havia, quase certam ente, m uito m ais religiosas profissionais do que em qualquer tem po, desde a Idade Média. Dificilm ente pode ter sido por acaso que os m ais conhecidos santos católicos da época que com eça em m eados do século XIX tenham sido m ulheres: Santa Bernadette de Lourdes e Santa Teresa de Lisieux — am bas canonizadas em princípios do século XX — e que a Igrej a tenha dado incentivo notável ao culto da Virgem Maria. Nos países católicos, a Igrej a ofereceu arm as poderosas, e rancorosas, às esposas contra os m aridos. Muito do anticlericalism o, portanto, adquiriu um m atiz de hostilidade antifem inina, com o na França e na Itália. Por outro lado, as Igrej as defendiam as m ulheres à custa de tam bém com prom eter suas piedosas seguidoras a aceitar a tradicional subordinação e a condenar a em ancipação fem inina que os socialistas ofereciam .

Pelas estatísticas, as m ulheres que optaram pela defesa de seu sexo por m eio da devoção foram de núm ero enorm em ente superior ao das que optaram pela liberação. Realm ente, enquanto o m ovim ento socialista atraía desde o início um a avant-garde de m ulheres excepcionalm ente capazes — principalm ente, com o se poderia esperar, as da classe m édia e superior — não há m uitos sinais, antes de 1905, de participação fem inina significativa em partidos operários e socialistas. Durante a década de 1890 não m ais do que 50 m ulheres (ou 2 a 3%) eram m em bros do reconhecidam ente pequeno Parti Ouvrier Français. Quando recrutadas em m aiores núm eros, com o na Alem anha, após 1905, o eram principalm ente com o esposas, filhas ou (com o no fam oso rom ance de Gorki) m ães de socialistas. Antes de 1914 não havia equivalente ao, digam os, Partido Social Dem ocrata Austríaco de m eados da década de 1920, do qual 30% dos m em bros eram m ulheres; ou ao Partido Trabalhista Inglês da década de 1930, do qual aproxim adam ente 40% dos m em bros individuais eram m ulheres; em bora na Alem anha a percentagem delas j á fosse substancial. A porcentagem de m ulheres organizadas em sindicatos perm aneceu consistentem ente baixa: era desprezível em 1890 (a não ser na Inglaterra),

norm alm ente não m ais de 10%, em 1900[j ]. No entanto, um a vez que as m ulheres não votavam na m aioria dos países, o índice m ais próxim o de suas sim patias políticas não está à nossa disposição, e m aiores especulações são ociosas.

A m aioria das m ulheres, portanto, perm aneceu fora de qualquer form a de m ovim ento pela em ancipação. Além disso, m esm o as m ulheres cuj as vidas, carreiras e opiniões dem onstravam seu intenso interesse no sentido de quebrar a tradicional gaiola da "esfera fem inina" m anifestavam pouco entusiasm o pelas cam panhas m ais ortodoxas das fem inistas. O período prim itivo da em ancipação fem inina produziu notável safra de m ulheres em inentes, m as algum as das m ais ilustres entre elas (por exem plo, Rosa Luxem burgo ou Beatrice Webb) não viam razão para restringir seu talento à causa de um só sexo. Verdade é que o reconhecim ento público era então m ais fácil: de 1891 em diante, o livro de referências inglês Men of the Time (Hom ens dos Tem pos) m udou o título para Men and Women of the Time (Hom ens e Mulheres dos Tem pos), e a atividade pública para as causas fem ininas ou para aquelas consideradas de interesse especial para m ulheres (por exem plo, o bem -estar das crianças) era, por si, capaz de proporcionar notoriedade pública. Não obstante, o cam inho da m ulher no m undo dos hom ens perm aneceu difícil, o êxito exigia esforços e dotes absolutam ente especiais e o núm ero das que o conseguiam era m odesto.

De longe, a m aior proporção delas praticava atividades reconhecidam ente com patíveis com a fem inilidade tradicional, tais com o as artes teatrais ou (para m ulheres de classe m édia, especialm ente as casadas) literárias. As "m ulheres dos tem pos" registradas em 1895 eram em seu m aior núm ero, na Inglaterra, as escritoras (48) e as figuras do palco (42). Na França, Colette (1873-1954) era am bas as coisas. Antes de 1914, um a m ulher j á recebera o Prêm io Nobel de literatura (Selm a Lagerlöf, da Suécia, 1909). Carreiras profissionais abriram -se, por exem plo, na educação, com a grande expansão da educação secundária e superior para m eninas, ou — o que é certo na Inglaterra — no novo j ornalism o. Em nosso período, a política e as cam panhas públicas da esquerda tornaram -se outra opção prom issora. A m aior percentagem de m ulheres inglesas de destaque, em 1895 — um terço — apareceu sob o título "Reform adoras, Filantropas, etc." O fato é que a política revolucionária e socialista oferecia oportunidades não igualadas em outras partes, conform e o dem onstrava o núm ero de m ulheres da Rússia czarista que operavam num a variedade de países (Rosa Luxem burgo, Vera Zasulich, Alexandra Kollontai, Anna Kuliscioff, Angélica Balabanoff, Em m a Goldm an), e poucas em outros países (Beatrice Webb na Inglaterra, Henrietta Roland-Holst nos Países Baixos).

Diferente da política conservadora que, na Inglaterra — em bora quase em nenhum lugar

m ais —, retinha a lealdade de m uitas das aristocráticas senhoras fem inistas[k], m as sem oferecer tais possibilidades; e diferia da política partidária liberal, em que os políticos eram , nessa época, essencialm ente do sexo m asculino. Não obstante, a facilidade relativa com que as m ulheres im prim iam sua m arca na vida pública é sim bolizada pela outorga do prêm io Nobel da paz a um a delas (Bertha von Suttner, em 1905). A tarefa m ais árdua, indubitavelm ente, era a da m ulher que arrostava a resistência, institucional e inform al, dos hom ens, entrincheirada nas profissões organizadas, a despeito da cabeça-de-ponte, pequena, m as em rápida expansão, estabelecida por elas na m edicina: 20 m édicas na Inglaterra e no País de Gales em 1881, 212 em 1901, 447 em 1911. Isto dá a m edida da realização extraordinária de Marie Sklodkowska-Curie (outro produto do Im pério czarista), que ganhou dois prêm ios Nobel de ciências durante esse período (1903 e 1911). Todavia, essas lum inares não dão a m edida da participação fem inina no m undo m asculino, que poderia ser im pressionante, considerando-se os pequenos núm eros envolvidos; pensa-se no papel desem penhado por um punhado de inglesas em ancipadas na revivescência do m ovim ento operário depois de 1888; em Annie Besant e Eleanor Marx, e nas propagandistas itinerantes que tanto contribuíram para a form ação do j ovem Independent Labour Party (Partido Trabalhista Independente), Enid Stacy, Katherine Conway, Caroline Marty n. Não obstante, apesar do apoio de praticam ente todas essas m ulheres aos direitos fem ininos e de, particularm ente na Inglaterra e nos EUA, a m aioria apoiar vigorosam ente o m ovim ento político fem inista, elas dedicaram ao m ovim ento um a atenção apenas m arginal.

Aquelas que nele realm ente se concentraram eram as norm alm ente com prom etidas com a agitação política, um a vez que exigiam direitos que, do m esm o m odo que o voto, requeriam m udanças políticas e legais. Dificilm ente poderiam esperar m uita coisa dos partidos conservadores ou confessionais, e suas relações com os liberais e radicais, com quem estavam as afinidades ideológicas do fem inism o da classe m édia, eram às vezes difíceis, especialm ente na Inglaterra, onde foram os governos liberais que se atravessaram no cam inho do vigoroso m ovim ento sufragista de 1906-1914. Ocasionalm ente (com o entre os tchecos e finlandeses), elas eram associadas aos m ovim entos de oposição de libertação nacional. Dentro dos m ovim entos socialistas e operários, as m ulheres eram incentivadas a concentrar-se em seu próprio sexo, e m uitas fem inistas socialistas realm ente assim o fizeram , não apenas porque a exploração das m ulheres trabalhadoras exigia, obviam ente, ação, m as tam bém por haverem descoberto a necessidade de lutar pelos direitos e interesses das m ulheres dentro de seu próprio m ovim ento, a despeito do seu com prom isso ideológico com a igualdade. Pois a diferença entre um a pequena avant-garde de m ilitantes progressistas e revolucionários e o m ovim ento operário de m assas era que este últim o consistia prim ordialm ente não apenas em hom ens (apenas em virtude de o grosso dos assalariados e, m ais ainda, da classe operária organizada, ser de hom ens), m as de hom ens cuj a atitude para com as m ulheres era tradicional e cuj os interesses, com o sindicalistas, m andavam excluir do trabalho m asculino os com petidores m al pagos. E as m ulheres eram a form a quintessencial do trabalho m al pago. Contudo, no interior dos m ovim entos operários, estas questões eram em udecidas e, até certo ponto, contornadas pela m ultiplicação das organizações fem ininas e dos com itês do interior destes, especialm ente após 1905.