A Era dos Impérios 1875-1914

Eric J. Hobsbawm · Capítulo 31 de 51

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A Era dos Impérios 1875-1914

Capítulo 2

 

Retrospectivam ente, o m ovim ento pela em ancipação parece bastante natural, e m esm o sua aceleração na década de 1880, à prim eira vista, não surpreende. Tal com o a dem ocratização da política, um grau m ais elevado de direitos e oportunidades iguais para as m ulheres, estava im plícito na ideologia da burguesia liberal, por m ais inconveniente e inoportuno que aparentasse ser aos patriarcas em suas vidas privadas. As transform ações internas da burguesia, após a década de 1870, inevitavelm ente ofereciam m aior cam po de ação para as suas m ulheres e especialm ente para suas filhas, pois, com o vim os, criavam um a substancial classe ociosa de m ulheres com m eios independentes do casam ento, e conseqüentem ente, um a procura por atividades não dom ésticas. Além disso, quando não se exigia m ais trabalho produtivo de um núm ero crescente de hom ens da burguesia, m uitos deles tendo se engaj ado em atividades culturais que severos hom ens de negócios teriam preferido deixar às m ulheres da fam ília, as diferenças de sexo só poderiam parecer atenuadas.

Além disso, certo grau de em ancipação fem inina era, provavelm ente, necessário para os pais da classe m édia, pois nem todas as fam ílias dessa classe e praticam ente nenhum a da classe m édia baixa era, sob qualquer aspecto, suficientem ente rica para m anter suas filhas com todo o conforto, quando elas não casavam nem trabalhavam . Isto talvez explique o entusiasm o de tantos hom ens da classe m édia (que j am ais adm itiram m ulheres em seus clubes e associações profissionais) pela educação de suas filhas, no sentido de elas alcançarem um a certa independência. De igual m odo, não há nenhum a razão para se duvidar das genuínas convicções dos pais liberais, nesses assuntos.

A ascensão dos m ovim entos operários e socialistas com o m ovim entos fundam entais para a em ancipação dos desprivilegiados, incontestavelm ente incentivou as m ulheres à busca de sua liberdade; não foi por acaso que elas perfizeram um quarto dos sócios da (pequena e de classe m édia) Sociedade Fabiana, fundada em 1883. E, com o vim os, a ascensão de um a econom ia de serviços e de outras ocupações terciárias proporcionou às m ulheres um a variedade m aior de em pregos fem ininos, enquanto a ascensão da econom ia de consum o fazia delas o alvo principal do m ercado capitalista.

Não necessitam os, portanto, gastar m uito tem po a descobrir as razões da em ergência da "nova m ulher", apesar de que é bom lem brar que tais razões podem não ter sido assim tão sim ples com o parecem à prim eira vista. Não existe, por exem plo, evidência suficiente de que, em nosso período, a posição da m ulher tenha m udado m uito em virtude de sua significação econôm ica cada vez m ais central, com o controladora da cesta de com pras, fato reconhecido pela indústria da propaganda, com seu realism o habitualm ente pouco ético, que então entrava em sua prim eira era gloriosa. Devia esta fixar-se nas m ulheres, num a econom ia que descobrira o consum o de m assa m esm o entre os bastante pobres, pois havia dinheiro a ganhar por interm édio de quem decidia a respeito da m aior parte das com pras de um a casa. Era preciso tratá-la com m aior respeito, pelo m enos da parcela desse m ecanism o da sociedade capitalista. A transform ação do sistem a distributivo — cadeias de loj as e grandes m agazines sobrepunham -se às vendas de esquina e às feiras; os catálogos por reem bolso postal, aos m ascates — institucionalizou esse respeito, por m eio da deferência, da baj ulação, dos m ostruários e da publicidade.

Todavia, as dam as burguesas sem pre haviam sido tratadas com o freguesas de valor, ao passo que grande parte das despesas dos relativa ou absolutam ente pobres ainda eram feitas para cobrir necessidades ou eram fixadas pelo costum e. O cam po do que era agora considerado necessidade dom éstica am pliou-se, m as os luxos pessoais fem ininos, com o artigos de toalete e as m odas de tem porada, ainda se restringiram principalm ente às classes m édias. O poder de com pra das m ulheres, no m ercado, não contribuía ainda para m udar o seu status, e era este o caso especialm ente das classes m édias, onde isto não era novidade. Pode-se m esm o argum entar que as técnicas, tidas por anunciantes e j ornalistas com o as m ais eficazes tendiam , antes, a perpetuar os estereótipos tradicionais do com portam ento fem inino. Por outro lado, o m ercado fem inino originou um núm ero substancial de novos em pregos para profissionais do sexo fem inino, m uitas das quais, por m otivos óbvios, interessavam -se ativam ente pelo fem inism o.

Quaisquer que fossem as com plexidades do processo, não há dúvida quanto à notável m udança da posição e das aspirações das m ulheres, principalm ente nas classes m édias, durante as décadas precedentes a 1914. O m ais óbvio sintom a desta m udança foi a notável expansão da educação secundária para m eninas. Na França, o núm ero dos liceus para rapazes perm aneceu aproxim adam ente estável entre 330 e 340, durante toda essa época; m as o núm ero de estabelecim entos do m esm o tipo para as m eninas elevou-se de zero em 1880 a 138 em 1913, e o núm ero de m eninas que os freqüentavam (cerca de 33 m il) alcançou um terço do núm ero dos m eninos. Na Inglaterra, onde não havia sistem a secundário nacional antes de 1902, o núm ero das escolas de rapazes subiu de 292, em 1904-1905, a 397, em 1913-1914; m as o núm ero de escolas

para m eninas elevou-se de 99 para um a com parável cifra de 349.[d] Em cerca de 1907-1908, em Yorkshire, o núm ero de m eninas nas escolas secundárias era aproxim adam ente igual ao dos rapazes, m as o que talvez sej a m ais interessante é que em cerca de 1913-1914, o núm ero de m eninas que perm aneciam nas escolas secundárias do país após a idade de 16 anos era muito maior que o dos rapazes.

Nem todos os países dem onstraram zelo com parável pela educação form al das m eninas (da classe m édia e m édia baixa). Esta avançou m uito m ais lentam ente na Suécia do que em outros países escandinavos, quase nada nos Países Baixos, m uito pouco na Bélgica e na Suíça, ao passo que na Itália, com 7.500 alunas, era desprezível. Inversam ente, em 1910, cerca de um quarto de m ilhão de m eninas receberam educação secundária na Alem anha (m uito m ais que na Áustria) e — o que é surpreendente — na Rússia alcançou igual núm ero em 1900. A educação secundária para m eninas progrediu m enos na Escócia que na Inglaterra e no País de Gales. A educação universitária para m ulheres dem onstrou grande irregularidade, salvo sua absolutam ente notável expansão, na Rússia czarista, onde cresceu de m enos de 2.000 em 1905 a 9.300 em 1911 — e, naturalm ente, nos EUA, onde os núm eros totais (56.000 em 1910), que praticam ente haviam dobrado desde 1890, não se com paravam aos de outros sistem as universitários. Em 1914, os núm eros da Alem anha, França e Itália situavam -se entre 4.500 e 5.000 e, na Áustria, 2.700. Note-se que as m ulheres eram adm itidas aos estudos universitários na Rússia, nos EUA e na Suíça, desde a década de 1860, m as na Áustria apenas em 1897 e na Alem anha só em 1900-1908 (Berlim ). Exceto em m edicina, apenas 103 m ulheres se haviam form ado nas universidades alem ães por volta de 1908, ano em que foi nom eada a prim eira m ulher professora universitária nesse país (na Academ ia Com ercial de Mannheim ). As diferenças nacionais no processo da educação fem inina não atraíram grande interesse entre os historiadores até o presente.

Mesm o que todas essas m eninas (com exceção de um punhado delas, que penetrava nas instituições m asculinas da universidade) não tenham recebido educação igual, ou tão boa quanto a dos rapazes da m esm a idade, o sim ples fato de a educação secundária form al para m ulheres da classe m édia se haver tornado fam iliar e, em certos países, quase norm al, em dados círculos, era coisa absolutam ente sem precedentes.

O segundo e m enos quantificável sintom a de um a significativa m udança na posição das (j ovens) m ulheres é a m aior liberdade de m ovim entos adquirida por elas, dentro da sociedade, tanto em seu próprio direito com o pessoas quanto nas suas relações com os hom ens. Isto era de particular im portância para as j ovens de fam ílias "respeitáveis", subm etidas às m ais rigorosas restrições convencionais. A prática de dançar social e ocasionalm ente nos lugares públicos destinados para esse fim (ou m elhor, nem em casa nem form alm ente, em bailes da sociedade, organizados em ocasiões especiais) reflete este afrouxam ento das convenções. Por volta de 1914, a j uventude m ais liberada das grandes cidades e balneários ocidentais j á se fam iliarizara com danças rítm icas sexualm ente provocantes, de duvidosa m as exótica origem (o tango argentino, os passos sincopados dos negros am ericanos), praticados em night-clubs, ou de m aneira m ais chocante nos hotéis, à hora do chá ou durante o j antar, entre um e outro prato.

Isso im plicava liberdade de m ovim entos, não apenas no sentido social, m as no literal. Pois ainda que a m oda fem inina não expressasse dram aticam ente a em ancipação até um a época posterior à Prim eira Guerra Mundial, o desaparecim ento das arm aduras de tecidos e barbatanas que encerravam o corpo fem inino em público j á era antecipado pelas roupas soltas e flutuantes, popularizadas no final do período, pelas vogas do esteticism o intelectual da década de 1880, do art-nouveau e da alta-costura pré-1914. E neste ponto a fuga das m ulheres da classe m édia, do am biente crepuscular, das lâm padas de abaj ur, que era o interior burguês, para o ar livre, tornara-se significativa, porque tam bém im plicava, pelo m enos em certas ocasiões, um a fuga às restrições inibidoras dos m ovim entos, im postas pelas roupas e corpetes (e tam bém a substituição disso tudo pelo novo e flexível sutiã depois de 1910). Não foi por acaso que Ibsen sim bolizou a liberação de sua heroína por um a lufada de ar fresco a entrar na casa norueguesa. O esporte não só possibilitou aos j ovens (hom ens e m ulheres) encontrarem -se com o parceiros fora dos lim ites da casa e da parentela; as m ulheres, em bora em pequeno núm ero, eram sócias dos novos clubes de turism o e de alpinism o, e aquela grande m áquina de liberdade, a bicicleta, em ancipou m ais a m ulher que o hom em , j á que ela tinha m ais necessidade de liberdade de m ovim entos. A bicicleta proporcionava ainda m ais liberdade do que aquela de que gozavam as cavaleiras da aristocracia, obrigadas ainda, por decoro fem inino e com considerável risco, a m ontar de lado, em silhões. Quanta liberdade adicional adquiriram as m ulheres da classe m édia, através da prática crescente, e em inentem ente fem inina, de passar as férias em estações de veraneio — os esportes de inverno, a não ser pela patinação, praticada por am bos os sexos, estavam na infância — onde apenas ocasionalm ente os m aridos se reuniam a elas, perm anecendo em seus escritórios da

cidade?[e]

De qualquer m odo, agora os banhos m istos — a despeito dos esforços em sentido contrário — inevitavelm ente revelavam m ais os corpos do que a respeitabilidade vitoriana teria considerado tolerável.

Em que m edida esse aum ento da liberdade de m ovim entos significou m aior liberdade sexual para as m ulheres da classe m édia, é difícil precisar. Sexo sem casam ento era ainda, decerto, restrito a um a m inoria de j ovens conscientem ente em ancipadas desta classe, que, quase com certeza, buscavam outras expressões de liberação, políticas ou outras. Segundo recordava um a m ulher russa, sobre o período posterior a 1905, "tornou-se m uito difícil para um a j ovem 'progressista' recusar as propostas sem dar largas explicações. Os rapazes provincianos não eram m uito exigentes, sim ples beij os eram suficientes, m as os universitários da capital... não era fácil repelir. 'Você é antiquada, Fräulein?' E quem queria ser antiquada?". De que dim ensão seriam essas com unidades de j ovens em ancipadas, não se sabe, em bora quase com certeza tenham sido

m aiores na Rússia czarista e de desprezível tam anho nos países m editerrâneos[f], m as provavelm ente bastante significativas no norte e no ocidente da Europa (inclusive na Inglaterra) e nas cidades do Im pério Habsburgo. O adultério, m uito provavelm ente a m ais difundida form a de sexo extraconj ugal para as m ulheres da classe m édia, pode ou não ter aum entado com o aum ento de autoconfiança fem inina. Existe grande diferença entre o adultério, com o um a form a utópica de sonho de libertação de um a vida restrita, tal com o na versão padronizada do tipo Mm e. Bovary dos rom ances do século XIX, e a liberdade relativa entre m aridos e m ulheres, da classe m édia francesa, de terem am antes desde que m antidas as convenções, conform e apresentam as peças de teatro dos boulevards, no século XIX. (A propósito, o rom ance e as peças foram escritos por hom ens.) Todavia, o adultério do século XIX, bem com o a m aioria do sexo então praticado, resiste à quantificação. Tudo o que se pode dizer com algum a certeza é que essa form a de com portam ento era m ais com um em círculos aristocráticos e círculos da m oda, sendo que nas grandes cidades (com o auxílio de instituições discretas e im pessoais, com o os hotéis) as

aparências podiam ser m antidas com m aior facilidade.[g]

Contudo, se o historiador quantitativo está perplexo, o qualitativo não pode deixar de im pressionar-se com o progressivo reconhecim ento da sensualidade fem inina, nas estridentes declarações dos hom ens a respeito das m ulheres deste período. Muitas delas são tentativas de reafirm ar, em term os literários ou científicos, a superioridade m asculina nas realizações ativas e intelectuais e a função passiva e, por assim dizer, suplem entar, das m ulheres, na relação entre os sexos. Se isto parece ou não expressar o tem or à ascendência fem inina — com o é talvez o caso do dram aturgo sueco Strindberg ou do livro do desequilibrado j ovem austríaco Otto Weininger Sex and Character (1903), que passou por 25 edições em 22 anos — é assunto secundário. O preceito, infinitam ente citado do filósofo Nietzsche aos hom ens, para que não esquecessem o chicote ao buscar a m ulher (Assim falou Zaratustra, 1883) não era, realm ente, m ais sexista que o louvor às m ulheres, feito por Karl Kraus, contem porâneo e adm irador de Weininger. Insistir, com o fazia Kraus, que "aquilo que não é dado à m ulher é precisam ente o que assegura que o hom em faça uso de seus talentos", ou com o o psiquiatra Möbius (1907), que "o hom em cultural, alienado da natureza" necessita da m ulher natural com o sua contrapartida, poderia sugerir (com o para Möbius), ou não sugerir (com o para Kraus), que todos os estabelecim entos de educação superior, para m ulheres, deviam ser destruídos. A atitude básica era sem elhante. Havia, contudo, um a inequívoca e nova insistência em que as m ulheres, com o tais, tinham poderosos interesses eróticos; para Kraus, "a sensualidade (grifo m eu) das m ulheres é a fonte na qual a intelectualidade (Geistigkeit) do hom em se renova". A Viena fin de siècle, esse notável laboratório da psicologia m oderna, oferece o reconhecim ento m ais sofisticado e m enos constrangido da sexualidade fem inina. Os retratos de Klim t, das senhoras vieneses, para não m encionar os das m ulheres em geral, são im agens de pessoas com poderosas preocupações eróticas próprias, não sim ples im agens de sonhos sexuais m asculinos. Seria m uito im provável que não refletissem algo da realidade sexual da classe m édia e superior do Im pério Habsburgo.

O terceiro sintom a de m udança era a atenção pública, acentuadam ente m aior, concedida às m ulheres, com o um grupo que possuía interesses é aspirações especiais com o pessoas. Sem dúvida o faro com ercial foi o prim eiro a sentir o cheiro do m ercado especial form ado pelas m ulheres — por exem plo, o das páginas fem ininas dos novos diários de m assas, dirigidos, à classe m édia baixa, ou das revistas fem ininas, para j ovens e m ulheres recentem ente alfabetizadas — m as até o m ercado apreciava o valor publicitário de tratar as m ulheres não apenas com o consum idoras, m as com o realizadoras. A grande exposição internacional anglo-francesa de 1908 captou a tônica dos tem pos, não apenas por com binar o esforço de vendas dos expositores com a celebração do im pério e com o prim eiro estádio olím pico especialm ente construído, m as igualm ente com o Palácio do Trabalho Fem inino, situado num ponto central e incluindo um a exposição da história de m ulheres ilustres, m ortas antes de 1900, "de origem real, nobre ou sim ples" (desenhos da j ovem Vitória, o m anuscrito de Jane Eyre, a carruagem usada na Crim éia por Florence Nightingale, etc.) e exposições de trabalhos de agulha, de artes e ofícios,

ilustrações de livros, fotografias e coisas sem elhantes[h]. Não devem os, igualm ente, deixar de considerar a em ergência das m ulheres com o realizadoras individuais nos esforços com petitivos, de que o esporte, outra vez, oferece um exem plo notável. A criação das sim ples fem ininas em Wim bledon, depois de seis anos das sim ples m asculinas, e tam bém , num m esm o intervalo, nos cam peonatos franceses e norte-am ericanos, era um a inovação m ais revolucionária, na década de 1880, do que é reconhecido hoj e. Que m ulheres respeitáveis, e até casadas, aparecessem em público, independentem ente das suas fam ílias e de seus hom ens, teria sido virtualm ente inconcebível duas décadas antes.