A Era dos Impérios 1875-1914
Capítulo 2
Em sum a, para os que o apoiavam , o partido ou m ovim ento representava-os e por eles agia. Eis por que era fácil para a organização tom ar o lugar de seus m em bros e seguidores, e para os líderes, dom inar a organização. Os m ovim entos de m assas estruturados não eram portanto, de nenhum m odo, repúblicas de iguais. Mas a com binação da organização com o apoio de m assas oferecia-lhes um a enorm e capacidade, quase insuspeitada: eles eram Estados em potencial. Na verdade, as m ais im portantes revoluções do nosso século substituíram antigos regim es, velhos Estados e velhas classes dom inantes, por partidos com binados com m ovim entos institucionalizados com o sistem as de poder estatal. Este potencial é ainda m ais im pressionante porque as organizações ideológicas m ais antigas, aparentem ente, careciam dele. No Ocidente, por exem plo, a religião parecia ter perdido a capacidade de se transform ar em teocracia, e
decerto nem o pretendia fazer[g]. O que as Igrej as vitoriosas estabeleciam , pelo m enos no m undo cristão, eram regim es clericais, operados por instituições seculares.
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A dem ocratização, em bora em avanço, apenas iniciara a transform ação política. Contudo, suas im plicações, algum as vezes j á explícitas, suscitavam os m ais graves problem as para aqueles que governavam e para as classes no interesse das quais o faziam . Havia o problem a de m anter a unidade e a própria existência dos Estados, que j á era urgente na política m ultinacional confrontada por m ovim entos nacionais. No Im pério Austríaco, esse era j á o problem a central do Estado, e m esm o na Inglaterra a em ergência do nacionalism o de m assas irlandês abalara a estrutura política estabelecida. Havia os problem as de com o m anter a continuidade de políticas sensatas, tais com o as consideravam as elites do país — acim a de tudo, na econom ia. Não interferiria a dem ocracia, inevitavelm ente, nas operações do capitalism o e — segundo pensavam os hom ens de negócios para pior? Não am eaçaria o livre com ércio, na Inglaterra, ao qual todos os partidos apegavam -se religiosam ente? Não am eaçaria a solidez das finanças e do padrão-ouro, pedra de toque de toda política econôm ica respeitável? Esta últim a am eaça aparentava urgência nos EUA, dado que a m obilização do populism o, na década de 1890, havia dirigido seus m ais veem entes raios retóricos contra — para citarm os seu grande orador William Jennings Bry an — a crucificação da hum anidade num a cruz de ouro. De m odo m ais geral, m as acim a de tudo, situava-se o problem a de garantir a legitim idade, talvez a própria sobrevivência da sociedade tal com o então constituída, ao enfrentar a am eaça dos m ovim entos de m assas pela revolução social. E tais am eaças afiguravam -se ainda m ais perigosas dada a inegável ineficácia dos parlam entos eleitos pela dem agogia e fragm entados por conflitos partidários irreconciliáveis, além da indubitável corrupção de um sistem a político que não se apoiava m ais em hom ens de fortuna independente e sim , cada vez m ais, naqueles cuj a carreira e fortuna baseavam -se no êxito que obtivessem na nova política.
Am bos estes fenôm enos não podiam ser desprezados. Em nações dem ocráticas com poderes divididos, com o os EUA, o governo (isto é, o ram o executivo, representado pela presidência) era, em certo grau, independente do parlam ento eleito, em bora suscetível de ser paralisado por seu contrapeso. (Mas a eleição dem ocrática dos presidentes introduzia outro perigo.) No m odelo europeu de governo representativo, em que os governos, exceto quando protegidos por m onarquias do velho estilo, eram teoricam ente dependentes das assem bléias eleitas, os problem as afiguravam -se insuperáveis. Efetivam ente, eles com freqüência iam e vinham com o grupos de turistas num hotel, sem pre que um a breve m aioria parlam entar se esfacelava e outra a sucedia. A França, m ãe das dem ocracias européias, talvez detivesse o recorde: tivera cinqüenta e dois gabinetes em m enos de trinta e nove anos, entre 1875 e a deflagração da guerra, dos quais apenas onze duraram doze m eses ou m ais. Reconhecidam ente, os m esm os nom es tendiam a reaparecer na m aioria deles. Não causa adm iração, portanto, que a continuidade efetiva do governo e da política estivesse nas m ãos dos funcionários perm anentes, não-eleitos e invisíveis, da burocracia. No que se refere à corrupção, talvez não fosse m aior que no início do século XIX, quando os governos, inclusive o inglês, haviam partilhado os corretam ente assim cham ados "cargos lucrativos da Coroa" e as lucrativas sinecuras entre seus parentes e dependentes. Mesm o onde a corrupção não era tanta, ela era m ais visível; por exem plo, quando os políticos que se haviam elevado pelos próprios esforços cobravam , de um m odo ou de outro, o valor de seu apoio ou oposição aos hom ens de negócios ou outros interessados. Tal corrupção era ainda m ais visível se confrontada com o incorruptibilidade dos j uízes e adm inistradores públicos perm anentes m ais graduados — suposta pelo m enos na Europa ocidental e central —, am bos protegidos em larga m edida, nos países constitucionais, contra o
duplo risco da eleição e do clientelism o — com a im portante exceção dos EUA.[h]
Ocorriam escândalos de corrupção política não apenas em países em que não se abafava o som do dinheiro a trocar de m ãos, com o na França (o escândalo Wilson em 1885, o escândalo Panam á em 1892-1893), m as igualm ente onde o som era abafado, com o na Inglaterra (o escândalo Marconi, no qual envolveram -se dois hom ens que se haviam feito pelos próprios esforços, com o Lloy d George e Rufus Isaacs, posteriorm ente ocupante do m ais alto posto
j udicial inglês e vice-rei da Índia)[i]. A instabilidade e a corrupção parlam entar poderiam , é claro, estar ligadas, onde os governos constituíam suas m aiorias, essencialm ente naquilo que efetivam ente era com pra de votos por favores políticos — os quais, inevitavelm ente, tinham dim ensão financeira. Conform e observado, Giovanni Giolitti, na Itália, era m estre nessa estratégia.
Os contem porâneos pertencentes às cam adas superiores da sociedade davam -se conta, vivam ente, dos perigos de um a política dem ocratizada e, de m odo geral, da progressiva centralidade das m assas. Isso não constituía sim plesm ente preocupação dos que se ocupavam de negócios públicos, com o o redator do Le Temps e da Revue des Deux Mondes — fortalezas da opinião respeitável francesa —, que em 1897 publicou um livro caracteristicam ente intitulado A Organização do Sufrágio Universal: A Crise do Estado Moderno, ou m esm o preocupação do pro-cônsul dos conservadores pensantes, o m inistro Alfred Milner (1845-1925), que em 1902 referia-se (privadam ente) ao Parlam ento britânico com o "aquela m alta de Westm inster". Muito do difundido pessim ism o da cultura burguesa da década de 1880 e das seguintes refletia, sem dúvida, o sentim ento dos líderes abandonados por seus antigos seguidores, das elites que viam desintegrar-se suas defesas contra as m assas, das m inorias educadas e cultas (ou, m ais exatam ente, dos filhos dos ricos) invadidos por "aqueles que acabavam de em ancipar-se do analfabetism o ou da sem ibarbárie", ou colocados de lado pela m aré m ontante de um a civilização engrenada às m assas.
A nova situação política desenvolveu-se passo a passo, e irregularm ente, dependendo dá história interna dos diversos Estados. Isso dificulta e quase inutiliza um a avaliação com parativa da política de 1870-1890. Foi a súbita em ergência internacional dos m ovim entos operários de m assa e dos m ovim entos socialistas, durante e após 1880 (cf. cap. seguinte), que parece ter colocado num erosos governos e classes dom inantes em dificuldades essencialm ente sem elhantes, conquanto retrospectivam ente sej a possível perceber que não foram estes os únicos m ovim entos de m assas a dar dores de cabeça aos governantes. De m odo geral, na m aioria dos países europeus de constituição lim itada e restrições ao direito de voto, a predom inância política da burguesia liberal na m etade do século (cf. A Era do Capital, cap. 6:1, cap. 13:3) caiu por terra no decorrer da década de 1870, se não por outras razões, com o um resultado secundário da Grande Depressão: na Bélgica em 1870, na Alem anha e na Áustria, em 1879, na Itália na década de 1870, na Inglaterra em 1874. Exceto durante episódicos retornos ao poder, ela j am ais voltou a dom inar. Nenhum padrão político de igual clareza em ergiu na Europa durante o novo período, em bora nos EUA o Partido Republicano, que conduzira o Norte à vitória na Guerra Civil, conquistasse quase ininterruptam ente a presidência até 1913. Na m edida em que os problem as insolúveis e os desafios básicos da revolução e da secessão puderam ser m antidos fora da política parlam entar, os estadistas poderiam iludir as m aiorias parlam entares com coalizões m utáveis entre aqueles que não pretendiam am eaçar o Estado e a ordem social. Na m aioria dos casos era possível m anter esses desafios afastados, em bora na Inglaterra o súbito surgim ento de um sólido bloco m ilitante de nacionalistas irlandeses na década de 1880, dispostos a provocar perturbações na Câm ara dos Com uns e a reter o equilíbrio do poder, tenha im ediatam ente transform ado a política parlam entar e os dois partidos que, até então, haviam dançado decorosam ente seu pas de deux. Ou pelo m enos, em 1886, precipitou o afluxo de nobres m ilionários whig e de hom ens de negócios liberais ao partido tory, o qual, com o partido conservador e unionista (isto é, oposto à autonom ia irlandesa), crescentem ente desenvolveu-se no partido unido da grande propriedade fundiária e da grande indústria.
Em outras partes a situação, conquanto m ais dram ática, era, na realidade, m ais controlável. Na restaurada m onarquia da Espanha (1874) a fragm entação dos derrotados opositores do sistem a — republicanos à esquerda, carlistas à direita — perm itiu a Cánovas (1828-1897) perm anecer no poder durante a m aior parte do período de 1874-1897, m anipulando os políticos e um apolítico voto rural. Na Alem anha, a fraqueza de elem entos irreconciliáveis perm itiu a Bism arck controlar as coisas bastante bem na década de 1880, e no Im pério Austríaco a m oderação dos partidos eslavos respeitáveis beneficiou, de igual m odo o elegante e aristocrático boulevardier conde Taaffe (1833-1895, no cargo, 1879-1893). A direita francesa, que se recusou a aceitar a república, era um a m inoria eleitoral perm anente, e o exército não desafiava a autoridade civil: assim sobreviveu a república às m uitas e pitorescas crises que a sacudiram (em 1877, em 1885-1887, em 1892-1893 e durante o caso Drey fus em 1884-1900). Na Itália, o boicote do Vaticano a um Estado secular e anticlerical facilitou a Depretis (1813-1887) conduzir sua política do "transform ism o" ou, m ais exatam ente, transform ar os adversários em seguidores do governo.
Na verdade, o único e verdadeiro desafio ao sistem a era extraparlam entar — e a insurreição que vinha de baixo não precisava, no m om ento, ser levada a sério nos países constitucionais, ao passo que os exércitos, m esm o na Espanha, território clássico dos pronunciamentos, guardavam silêncio. E onde, com o nos Bálcãs e na Am érica Latina, a insurreição e as forças arm adas na política perm aneciam partes fam iliares do cenário, eram antes parte do sistem a do que am eaças potenciais a este.
Entretanto, era im provável que tal situação perdurasse. Ao confrontar-se com o surgim ento de forças aparentem ente irreconciliáveis na política, o prim eiro instinto dos governos era com freqüência a coerção. Bism arck, m estre em m anipular um a política de sufrágio restrito, sentia-se perplexo, na década de 1870, ao enfrentar o que ele considerava um a m assa organizada de católicos leais a um Vaticano reacionário "além das m ontanhas" (daí o term o "ultram ontano"); e declarou um a guerra anticlerical contra eles (a assim cham ada Kulturkampf ou luta cultural da década de 1870). Confrontado com a ascensão dos social-dem ocratas, ele declarou o partido fora da lei em 1879. Desde que o retorno ao puro absolutism o parecia im possível e de fato im pensável — um a vez que era perm itido aos social-dem ocratas banidos apresentar candidatos às eleições — ele m alogrou em am bos os casos. Mais cedo ou m ais tarde — no caso dos socialistas, após sua queda em 1889 — os governos precisaram conviver com os novos m ovim entos de m assas. O im perador austríaco, cuj a capital fora em polgada pela dem agogia dos social-cristãos, recusou-se três vezes a aceitar-lhes o líder, Lueger, com o prefeito de Viena, antes de resignar-se ao inevitável, em 1897. Em 1886, o governo belga reprim iu m ilitarm ente a onda de greves e tum ultos dos operários — dos m ais m iseráveis entre os europeus ocidentais — e prendeu os líderes socialistas, estivessem ou não envolvidos nos distúrbios. Todavia, sete anos depois concedeu um a espécie de sufrágio universal depois de um a bem -sucedida greve geral. Os governos italianos m andaram atirar em cam poneses sicilianos em 1093 e contra operários m ilaneses em 1898. Após os cinqüenta cadáveres de Milão, porém , o governo m udou de rum o. De m odo geral, os anos 1890, década do surgim ento do socialism o com o m ovim ento de m assas, são o m arco de um m om ento decisivo. Iniciava-se um a era de novas estratégias políticas.
As gerações de leitores que cresceram posteriorm ente à Prim eira Guerra Mundial talvez considerem estranho que nenhum governo haj a seriam ente contem plado o abandono do sistem a parlam entar e constitucional, neste tem po. Após 1916, de fato, o constitucionalism o liberal e a dem ocracia representativa efetivam ente bateram em retirada em toda a linha de frente, em bora em parte restaurados após 1945. No período de que tratam os não foi esse o caso. Mesm o na Rússia czarista, a derrota da revolução de 1905 não conduziu a um a abolição total das eleições e do parlam ento (Dum a). Ao contrário de 1849 (cf. A Era do Capital, cap. 1), não houve um sim ples retorno à reação, m esm o que no final de seu período de poder Bism arck haj a considerado a idéia de suspender ou abolir a constituição. A sociedade burguesa talvez tenha se sentido apreensiva quanto ao rum o a seguir, m as ainda era suficientem ente autoconfiante, principalm ente porque o avanço econôm ico m undial de m odo nenhum estim ulava o pessim ism o. Mesm o a opinião politicam ente m oderada (a não ser que existissem interesses financeiros e diplom áticos contrários) esperava um a revolução na Rússia — a qual, im aginava-se, transform aria a nódoa da civilização européia num correto Estado liberal-burguês — e de fato a revolução de 1905, ao inverso da de 1917, foi entusiasticam ente apoiada pela classe m édia e pelos intelectuais. Outras insurreições foram insignificantes. Os governos perm aneceram notavelm ente calm os durante a epidem ia anarquista de assassínios, na década de 1890, durante a