A Era dos Impérios 1875-1914
Capítulo 4
Países e governos com petiam pelos sím bolos da j unção e da lealdade em ocional com m ovim entos de m assas não-oficiais, que poderiam elaborar seus próprios contra-sím bolos, tais com o a socialista "Internacional" quando o anterior hino da Revolução "A Marselhesa", foi anexado pelo Estado. Em bora os partidos socialistas alem ães e austríacos sej am habitualm ente citados com o exem plos extrem os de com unidades separadas, de contra-sociedade e contracultura (cf. cap. 5), eles eram , de fato, apenas parcialm ente separatistas, pois perm aneceram ligados à cultura oficial pela fé na educação (ou m elhor, no sistem a de escolas públicas), na razão e na ciência, bem com o nos valores das artes (burguesas) — ou os "clássicos". Eram , afinal, herdeiros do Ilum inism o. Foram os m ovim entos religiosos e nacionalistas que rivalizaram com o Estado, fundando sistem as escolares rivais em bases lingüísticas e confessionais. Ainda assim , todos os m ovim entos de m assas propendiam , com o vim os no caso dos irlandeses, a form ar um com plexo de associações e contracom unidades em torno de centros de lealdade, rivalizando assim com o Estado.
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Conseguiram as sociedades políticas e as classes governantes da Europa ocidental lidar com essas m obilizações de m assas, potencial ou efetivam ente subversivas? Em conj unto, durante o período que term ina em 1914, elas o conseguiram ; exceto na Áustria, esse conglom erado de nacionalidades que, todas vendo em outros lugares suas perspectivas futuras e m antendo-se unidas apenas pela longevidade do im perador Francisco José (que reinou de 1848 a 1916), pela adm inistração de um a burocracia cética e raciocinalista e pelo fato de este ser um destino m enos indesej ável que outro qualquer, para bom núm ero de grupos nacionais. Em conj unto, deixaram -se integrar no sistem a. Para m uitos Estados do Ocidente burguês e capitalista — a situação em outras partes do m undo era, conform e verem os, m uito diversa (cf. cap. 12) — o período de 1875 a 1914 e, com certeza, o de 1900 a 1914, foi, apesar dos alarm es e correrias, um período de estabilidade política.
Movim entos com o o socialista, que rej eitavam o sistem a, foram apanhados em sua teia — ou, quando suficientem ente fracos, utilizados com o catalisadores para um consenso m aj oritário. Era esta a função da "reação", na república francesa e na do anti-socialism o, na Alem anha im perial: nada unia tão firm em ente com o um inim igo com um . Até o nacionalism o podia ser, às vezes, utilizado. O nacionalism o galês serviu para fortalecer o liberalism o; seu defensor, Lloy de George, tornou-se m inistro do governo e o principal conciliador e m oderador dem agógico do radicalism o dem ocrático e do m ovim ento operário. O nacionalism o irlandês, após o dram a de 1879-1891, parecia tranqüilizado pela reform a agrária e pela sua dependência política do liberalism o inglês. O pangerm anism o extrem ista reconciliara-se com a "pequena Alem anha" pelo m ilitarism o e pelo im perialism o do im perador Guilherm e. Mesm o os flam engos, na Bélgica, perm aneciam ainda no redil do partido católico, que não questionava a existência do Estado binacional unitário. Os irreconciliáveis da ultradireita e da ultraesquerda podiam ser isolados. Os grandes m ovim entos socialistas anunciavam a inevitável revolução, m as tinham outras coisas com que se ocupar no m om ento. Ao explodir a guerra de 1914, a m aioria deles reuniu-se aos seus governos e classes dom inantes, em patriótica solidariedade. A m aior exceção do Ocidente europeu apenas constitui prova da regra. O Partido Independente Trabalhista, que continuava a opor-se à guerra, só o fazia por com partilhar da longa tradição pacífica do não-conform ism o inglês e do liberalism o burguês — os quais, na realidade, fizeram da Inglaterra o único país de
cuj o gabinete os liberais se dem itiram por esses m otivos.[o]
Os partidos socialistas que aceitaram a guerra com freqüência o fizeram sem entusiasm o e principalm ente por tem erem o abandono de seus adeptos, que se apresentavam ao alistam ento com fervor espontâneo. Na Inglaterra, onde inexistia alistam ento com pulsório, iriam se apresentar dois m ilhões com o voluntários para o serviço m ilitar, entre agosto de 1914 e j unho de 1915 — m elancólica prova do êxito da política de integração dem ocrática. Apenas onde era incipiente o em penho em fazer com que o cidadão pobre se identificasse com a nação e o Estado, com o na Itália, ou onde dificilm ente seria bem -sucedido, com o entre os tchecos, é que as m assas em 1914 perm aneceram hostis ou indiferentes à guerra. O m ovim ento de m assas contrário à guerra só teve início, para valer, m uito m ais tarde.
Um a vez bem -sucedida a integração política, os regim es defrontavam -se apenas com o desafio im ediato da ação direta. Tais form as de inquietação alastraram -se principalm ente durante os últim os anos que precederam a guerra. Constituíam m ais um desafio à ordem pública do que ao sistem a social, dada a ausência de situações revolucionárias ou m esm o pré-revolucionárias nos países centrais da sociedade burguesa. Os tum ultos dos vinhateiros, no sul da França, o m otim do 17º Regim ento, enviado contra eles (1917), violentas greves quase gerais, em Belfast (1907), Liverpool (1911) e Dublin (1913), um a greve geral na Suécia (1908) e até a "sem ana trágica" em Barcelona (1909) foram por si insuficientes para abalar os alicerces políticos dos regim es. Mas foram realm ente graves, não m enos com o sintom as da vulnerabilidade das econom ias com plexas. Em 1912, o prim eiro-m inistro britânico Asquith, a despeito da proverbial im passibilidade do gentleman inglês, chorou ao anunciar a retirada do governo diante de um a greve geral de m ineiros de carvão.
Tais fenôm enos não devem ser subestim ados. Em bora os contem porâneos não soubessem o que viria depois, sentiam freqüentem ente, nesses últim os tem pos que precederam a guerra, a sensação de que a terra trem ia com o sob os choques sísm icos que precedem os terrem otos. Esses foram anos em que, sobre os hotéis Ritz e as casas de cam po, pairavam no ar prenúncios de violência. Sublinhavam a instabilidade e a fragilidade da ordem política da belle époque.
Não os superestim em os tam pouco. No que diz respeito aos países do âm ago da sociedade burguesa, o que destruiu a estabilidade da belle époque, inclusive a sua paz, foi a situação da Rússia, do Im pério Habsburgo e dos Bálcãs, e não a da Europa ocidental ou m esm o a da Alem anha. O que tornava perigosa a situação na Grã-Bretanha às vésperas da guerra não era a rebelião dos operários, m as a divisão no interior dos estratos governantes: um a crise constitucional, quando os lordes ultraconservadores resistiram aos Com uns, ou um a recusa coletiva dos oficiais a obedecer as ordens do governo liberal, com prom etido com a Home rule para a Irlanda. Não há dúvidas de que tais crises deviam -se, em parte, à m obilização dos trabalhadores, pois o que despertara a cega e vã resistência dos lordes havia sido a inteligente dem agogia de Lloy d George, destinada a m anter "o povo" dentro da estrutura do sistem a dos governantes. Todavia, a últim a e m ais grave destas crises foi provocada pelo com prom isso político dos liberais com a autonom ia irlandesa (católica) e o dos conservadores com a recusa arm ada dos ultraprotestantes do Ulster de aceitá-la. A dem ocracia parlam entar, o j ogo estilizado da política, era — com o sabem os ainda hoj e, na década de 1980 — im potente para controlar tal situação.
Mesm o assim , durante os anos decorridos desde 1880 até 1914, as classes dom inantes descobriram que a dem ocracia parlam entar, a despeito de seus tem ores, revelara-se perfeitam ente com patível com a estabilidade político-econôm ica dos regim es capitalistas. Essa descoberta, com o o próprio sistem a, era nova, pelo m enos na Europa. Para os social-revolucionários veio a ser um a decepção. Marx e Engels haviam sem pre considerado a república dem ocrática, ainda que claram ente burguesa, com o a antecâm ara do socialism o, desde que perm itia e até estim ulava a m obilização política do proletariado com o classe e a das m assas oprim idas, sob a liderança do proletariado. Haveria, pois, de favorecer — gostasse ou não — a vitória do proletariado e seu confronto com os exploradores. Contudo, no final desse período, fazia-se ouvir um a nota m uito diferente entre seus discípulos. "Um a república dem ocrática", argum entava Lenin em 1917, "é a m elhor carapaça possível para o capitalism o; portanto, o capitalism o, um a vez obtido o controle dessa excelente carapaça... estabelecerá seu poder tão segura e firm em ente que nenhum a m udança, quer de pessoas, quer de instituições, ou partidos, na república dem ocrático-burguesa, o poderá abalar". Com o sem pre, Lenin não se preocupava tanto com a análise política em geral e sim com a busca de argum entos eficazes para um a situação política específica, neste caso contrária ao governo provisório da Rússia revolucionária e em favor do poder soviético. Sej a com o for, não nos preocupa a validade de sua afirm ação, aliás altam ente discutível e não m enos por deixar de distinguir entre as circunstâncias econôm icas e sociais que salvaguardavam os Estados das sublevações sociais e as instituições que os auxiliavam a conseguir isso. Preocupa-nos a sua plausibilidade. Antes de 1880, tal afirm ação pareceria igualm ente im plausível tanto para os que apoiavam com o para os que se opunham ao capitalism o, na m edida em que estivessem com prom etidos com a atividade política. Mesm o na ultra-esquerda política, um j ulgam ento assim negativo da "república dem ocrática" seria quase inconcebível. Subj acente ao j ulgam ento de Lenin de 1917, havia a experiência de um a geração de dem ocratização no Ocidente e, em especial, a dos últim os quinze anos anteriores à guerra.
Não seria, contudo, a estabilidade desse casam ento entre a dem ocracia política e o capitalism o florescente a ilusão de um a era transitória? Em retrospecto, o que nos im pressiona, com respeito aos anos que vão desde 1880 até 1914 é, a um tem po, A política de dem ocracia a fragilidade e o alcance restrito de tal com binação. Esta estava e perm anece confinada a um a m inoria de prósperas e puj antes econom ias, no Ocidente, geralm ente em Estados com um a longa história de governo constitucional. O otim ism o dem ocrático e a crença na inevitabilidade histórica poderiam dar a im pressão de que o progresso universal não poderia ser sustado. Mas não seria esse, afinal, o m odelo universal do futuro. Em 1919, toda a Europa, a ocidente da Rússia e da Turquia, foi sistem aticam ente reorganizada em Estados segundo o m odelo dem ocrático. No entanto, quantas dem ocracias restariam na Europa em 1939? Ao surgir o fascism o, bem com o outras form as de ditadura, o caso oposto ao de Lenin foi largam ente debatido, não m enos por seus seguidores. O capitalism o, inevitavelm ente, deveria abandonar a dem ocracia burguesa. Isto era igualm ente errôneo: a dem ocracia burguesa renasceu das próprias cinzas em 1945, perm anecendo, desde então, o sistem a favorito das sociedades capitalistas, quando suficientem ente fortes, econom icam ente prósperas e socialm ente não polarizadas ou divididas para perm itir-se a adoção de um sistem a tão vantaj oso. Esse sistem a, porém , opera com eficácia apenas em m uito poucos dos 150 Estados que form am as Nações Unidas no final do século XX. O progresso da política dem ocrática, entre 1880 e 1914, não prefigurava sua perm anência nem seu triunfo universal.
[a] O poder am aldiçoado que repousa no privilégio / e anda com m ulheres, cham panhe e bridge,
/ Rom peu-se; e a Dem ocracia reassum iu o reino / que anda com bridge, m ulheres e cham panhe.
(N. da T.)
[b] O capitão Drey fus, do estado-m aior francês, foi erroneam ente condenado por espionagem a
favor da Alem anha, em 1894. Após cam panha destinada a provar sua inocência, que polarizou e
convulsionou toda a França, ele foi perdoado em 1899 e finalm ente reabilitado em 1906. O
"caso" teve um im pacto traum ático na Europa toda.
[c] Na Itália, na França, na Alem anha Ocidental e na Áustria, esses partidos em ergiram e
perm aneceram , com exceção da França, com o grandes partidos do governo.
[d] Não-conform ism o: grupos protestantes dissidentes, exteriores à Igrej a Anglicana, na
Inglaterra e no País de Gales.
[e] Em alem ão no original: Liga dos Agricultores. (N. da T.)
[f] O prim eiro-m inistro liberal, Lord Rosebery, pagou do seu bolso a estátua de Oliver Crom well,
erigida diante do Parlam ento em 1899.
[g] O últim o exem plo de tal transform ação é, provavelm ente, o estabelecim ento da com unidade
m órm on em Utah, em 1848.
[h] Mesm o nesse país, um a Com issão de Servidores Públicos foi estabelecida, em 1883, com o
fim de elaborar as bases de um Serviço Público Federal independente do clientelism o político.
Mas o clientelism o perm aneceu, na m aioria do país, m ais im portante do que convencionalm ente
se supõe.
[i] As transações realizadas dentro de um a elite dom inante e coesa, que talvez houvessem surpreendido os observadores dem ocráticos e os m oralistas políticos, não eram raras. Ao m orrer,
em 1895, Lord Randolph Churchill, pai de Winston, que havia sido chanceler do Tesouro, devia
cerca de 60.000 libras a Rothschild, o qual, segundo seria de prever, tinha seus interesses nas
finanças nacionais. A dim ensão da dívida pode ser indicada em term os atuais pelo fato de essa
única som a elevar-se a 0,4% do total do produto dos im postos de renda na Inglaterra, naquele
ano.
[j ] Rei Um berto da Itália, im peratriz Elizabeth da Áustria, presidente Sadi Carnot da França,
presidente McKinley dos EUA, prim eiro-m inistro Cánovas da Espanha.
[k] A Pom erânia é um a área ao longo do Báltico, a noroeste de Berlim , hoj e parte da Polônia.
[l] Em alem ão no original: sociedade contra a com unidade. (N. da T.)
[m ] Frase de Robert Lowe em 1867.
[n] Entre 1890 e 1910 houve m aior quantidade de arranj os m usicais baseados no hino inglês do
que j am ais houve antes ou depois.
[o] John Morley , o biógrafo de Gladstone e John Burns, anteriorm ente líder operário.