A Era dos Impérios 1875-1914

Eric J. Hobsbawm · Capítulo 4 de 51

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A Era dos Impérios 1875-1914

Capítulo 1 | A revolução centenária

CAPÍTULO 1

 

A REVOLUÇÃO CENTENÁRIA

 

"Hogan é um profeta... Um profeta, Hinnissy, é um homem que antevê problemas... Hogan é hoje o homem mais feliz do mundo, mas algo vai acontecer amanhã."

Mr. Dooley Say s, 1910

 

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Os centenários foram inventados no fim do século XIX. Em algum m om ento entre o centésim o aniversário da Revolução Am ericana (1876) e o da Revolução Francesa (1889) — am bos com em orados com as exposições internacionais de praxe — os cidadãos instruídos do m undo ocidental tom aram consciência do fato de que aquele m undo, nascido entre a Declaração de Independência, a construção da prim eira ponte de ferro do m undo e a tom ada da Bastilha, estava com pletando cem anos. Qual seria o resultado de um a com paração entre o m undo dos anos 1880

e o dos anos 1780?[a]

Em prim eiro lugar, em 1880 ele era genuinam ente global. Quase todas as suas partes agora eram conhecidas e m apeadas de m odo m ais ou m enos adequado ou aproxim ado. Com m ínim as exceções, a exploração j á não consistia em "descoberta", m as num a form a de esforço atlético, m uitas vezes m esclado a im portantes elem entos de com petição pessoal ou nacional; tipicam ente a tentativa de dom inar os am bientes físicos m ais duros e inóspitos do Ártico e da Antártida. O norte-am ericano Peary chegaria em prim eiro lugar ao Pólo Norte em 1909, vencendo nesse desafio seus com petidores britânico e escandinavo; o norueguês Am undsen atingiu o Pólo Sul em 1911, um m ês antes do desafortunado britânico capitão Scott. (Tais façanhas não tinham nem pretendiam ter a m enor conseqüência prática.) A ferrovia e a navegação a vapor haviam reduzido as viagens intercontinentais ou transcontinentais a um a questão de sem anas, em vez de m eses — salvo na m aior parte do território da África, da Ásia continental e de partes do interior da Am érica do Sul —, e em breve as tornariam um a questão de dias: com a conclusão da Ferrovia Transiberiana, em 1904, seria possível viaj ar de Paris a Vladivostok em quinze ou dezesseis dias. Com o telégrafo elétrico, a transm issão de inform ação ao redor do m undo era agora um a questão de horas. Em decorrência, hom ens e m ulheres do m undo ocidental — m as não só eles viaj aram e se com unicaram através de grandes distâncias com facilidade e em núm ero sem precedentes. Vej am os apenas um exem plo do que seria considerado um a fantasia absurda na época de Benj am in Franklin. Em 1879, quase um m ilhão de turistas visitaram a Suíça. Mais de 200 m il deles eram norte-am ericanos: o equivalente a m ais de um em cada vinte

habitantes da totalidade dos EUA, considerando-se seu prim eiro censo (1790).[b]

Ao m esm o tem po, o m undo era m uito m ais densam ente povoado. As cifras dem ográficas são tão especulativas, sobretudo no que tange ao final do século XVIII, que a precisão num érica é inútil e perigosa; m as não deve ser m uito equivocado supor que os aproxim adam ente 1,5 bilhões de seres hum anos vivos nos anos 1880 representavam o dobro da população m undial dos anos 1780. Os m ais num erosos eram , de longe, os asiáticos, com o sem pre o foram , m as enquanto em 1800 eles constituíam quase dois terços da hum anidade (segundo estim ativas recentes), em 1900 talvez fossem 55 por cento. O segundo m aior grupo era o dos europeus (incluindo a Rússia asiática, esparsam ente povoada). A população européia era, em 1900 (430 m ilhões) quase com certeza m ais do dobro dos, digam os, 200 m ilhões de 1800. Adem ais, sua em igração em m assa para outros continentes foi responsável pela m udança m ais drástica que sofreu a população m undial: o aum ento dos habitantes das Am éricas de cerca de 30 a quase 160 m ilhões entre 1800 e 1900; e, especialm ente, a Am érica do Norte, que aum entou de cerca de 7 a m ais de 80 m ilhões de habitantes. O devastado continente africano, sobre cuj os dados dem ográficos, com o se sabe, há pouca inform ação, cresceu m ais lentam ente que qualquer outro, talvez no m áxim o um terço nesse século. No final do século XVIII havia, talvez, três vezes m ais africanos do que am ericanos (do norte e latinos), ao passo que no fim do século XIX é provável que houvesse substancialm ente m ais am ericanos do que africanos. A reduzida população das ilhas do Pacífico, incluindo a Austrália, em bora reforçada por um a m igração européia de hipotéticos 2 a talvez 6 m ilhões de pessoas, tinha pouco peso dem ográfico.

Contudo, enquanto num sentido o m undo estava se tornando dem ograficam ente m aior e geograficam ente m enor e m ais global — um planeta ligado cada vez m ais estreitam ente pelos laços dos deslocam entos de bens e pessoas, de capital e com unicações, de produtos m ateriais e idéias —, em outro sentido este m undo cam inhava para a divisão. Nos anos 1780, com o em todos os outros períodos da história de que se tem registro, houve regiões ricas e pobres, econom ias e sociedades avançadas e atrasadas, unidades com organização política e força m ilitar m ais fortes e m ais fracas. E é inegável que um abism o profundo separava a grande faixa do m undo que fora, tradicionalm ente, o reduto das sociedades de classe e de Estados e cidades m ais ou m enos estáveis, adm inistrados por m inorias cultas e felizm ente para o historiador — gerando docum entação escrita, das regiões ao norte e ao sul, sobre as quais se concentrou a atenção dos etnógrafos e antropólogos do final do século XIX e com eço do século XX. Não obstante, dentro dessa am pla faixa onde vivia a m aior parte da hum anidade — que se estendia do lapão a leste ao litoral norte e central do Atlântico e, através da conquista européia, ao território am ericano —, as disparidades, em bora j á acentuadas, ainda não pareciam insuperáveis.

Em term os de produção e riqueza, para não falar de cultura, as diferenças entre as principais regiões pré-industriais eram , pelos padrões m odernos, espantosam ente m ínim as: de digam os, 1 a 1,8. De fato, um a estim ativa recente calcula que, entre 1750 e 1800, o produto nacional bruto per capita nos países hoj e conhecidos com o "desenvolvidos" era basicam ente o m esm o que na região agora conhecida com o "Terceiro Mundo", em bora isso provavelm ente se deva ao enorm e tam anho e peso relativo do Im pério Chinês (com cerca de um terço da população m undial), cuj o padrão m édio de vida à época devia ser superior ao europeu. No século XVIII, os europeus podem ter achado o Celeste Im pério um lugar realm ente m uito estranho, m as nenhum observador inteligente o teria considerado, em qualquer sentido, um a econom ia ou civilização inferiores à européia, e m enos ainda um país "atrasado". Mas, no século XIX a defasagem entre os países ocidentais, base da revolução econôm ica que estava transform ando o m undo, e os dem ais se am pliou, prim eiro devagar, depois cada vez m ais rápido. Ao redor de 1880 (segundo o m esm o cálculo), a renda per capita do m undo "desenvolvido" era cerca do dobro da do Terceiro Mundo; em 1915 seria m ais do que o triplo, e continuava aum entando. Em torno de 1950 (para destacar o contraste), a diferença era de 1 a 5; em 1970, de 1 a 7. Adem ais, a defasagem entre o Terceiro Mundo e as áreas realm ente desenvolvidas do m undo "desenvolvido", ou sej a, os países industrializados, com eçou m ais cedo e se am pliou ainda m ais acentuadam ente. O PNB per capita j á era m ais do dobro que o do Terceiro Mundo em

1830; em 1913, cerca de sete vezes m aior.[c]

A tecnologia era um a das principais causas dessa defasagem , acentuando-a não só econôm ica com o politicam ente. Um século após a Revolução Francesa, tornava-se cada vez m ais evidente que os países m ais pobres e atrasados podiam ser facilm ente vencidos e (salvo se fossem m uito grandes) conquistados, devido à inferioridade técnica de seus arm am entos. Tratava-se de um fato relativam ente novo. A invasão do Egito por Napoleão, em 1798, opôs os exércitos francês e m am eluco com equipam ento com parável. As conquistas coloniais das forças européias haviam sido realizadas não por causa de arm as m ilagrosas, m as devido a um a m aior agressividade, crueldade e, acim a de tudo, organização disciplinada. Contudo, a revolução industrial, que se fez presente nos conflitos arm ados em m eados do século (cf. A Era do Capital, cap. 4), fez a balança pender m ais ainda a favor do m undo "avançado" graças aos explosivos potentes, às m etralhadoras e ao transporte a vapor (ver cap. 13). Eis por que o m eio século transcorrido entre 1880 e 1930 seria a idade de ouro, ou m elhor, de ferro, da diplom acia de canhoneira.

Portanto, ao abordar 1880, estam os m enos diante de um m undo único do que de dois setores que, com binados, form am um sistem a global: o desenvolvido e o defasado, o dom inante e o dependente, o rico e o pobre. Mesm o esta descrição é enganosa. Enquanto o (m enor) Prim eiro Mundo, apesar de suas consideráveis disparidades internas, era unido pela história e por ser o portador conj unto do desenvolvim ento capitalista, o Segundo Mundo (m uito m aior) não era unido senão por suas relações com o prim eiro, quer dizer, por sua dependência potencial ou real. O que tinha o Im pério Chinês em com um com o Senegal, o Brasil, as Novas Hébridas, o Marrocos e a Nicarágua, além do fato de pertencerem todos à espécie hum ana? O Segundo Mundo não era unido por sua história, cultura, estrutura social nem instituições, nem sequer pelo que hoj e consideram os a característica m ais m arcante do m undo dependente: a pobreza em m assa. Pois a riqueza e a pobreza, com o categorias sociais, se aplicam apenas a sociedades estratificadas de um certo m odo e a econom ias estruturadas de um a certa m aneira, e algum as partes do m undo dependente não tinham nem um a nem outra. Todas as sociedades hum anas conhecidas na história encerram algum as desigualdades sociais (além da desigualdade entre os sexos), m as em bora os m araj ás da Índia, em visita ao Ocidente, pudessem ser tratados com o se fossem m ilionários no sentido ocidental, não era possível assim ilar desta form a os hom ens im portantes ou chefes da Nova Guiné, nem m esm o hipoteticam ente. E m esm o as pessoas com uns de qualquer lugar do m undo norm alm ente transform ando-se em operários, e portanto em m em bros da categoria dos "pobres", ao serem transladadas para longe de seus países, era descabido descrevê-las dessa m aneira em seu am biente de origem . De qualquer m odo, havia partes privilegiadas do m undo — sobretudo nos trópicos — em que ninguém sentia falta de m oradia, alim ento ou lazer. De fato, ainda havia sociedades pequenas em que os conceitos de trabalho e lazer não tinham sentido, nem existiam palavras para dizê-los.

Se a existência dos dois setores do m undo era inegável, as fronteiras entre elas eram , no entanto, indefinidas, sobretudo porque o conj unto de Estados através dos quais e pelos quais foi feita a conquista econôm ica — e, no período que nos ocupa, a conquista política — do planeta, estava unido tanto pela história com o pelo desenvolvim ento econôm ico. Esse conj unto de Estados era a "Europa", constituída não só pelas regiões que form avam , claram ente, o cerne do desenvolvim ento capitalista m undial — sobretudo a Europa central e do noroeste e algum as colônias ultram arinas. A "Europa" englobava as regiões m eridionais, que haviam tido um papel im portante no início do desenvolvim ento capitalista, m as que, desde o século XVI, haviam estagnado; e os conquistadores do prim eiro grande im pério ultram arino europeu, ou sej a, as penínsulas itálica e ibérica. Ela incluía tam bém um a vasta zona fronteiriça a leste, onde, por m ais

de m il anos, a cristandade — quer dizer, os herdeiros e descendentes do Im pério Rom ano[d] — havia com batido as invasões periódicas de conquistadores m ilitares provenientes da Ásia central. Os invasores da últim a leva, que criaram o grande Im pério Otom ano, foram gradualm ente expulsos das enorm es áreas da Europa por eles controladas entre os séculos XVI e XVIII; era óbvio que seus dias na Europa estavam contados, em bora em 1880 ainda controlassem um a faixa considerável, que atravessava a península balcânica (partes das atuais Grécia, Iugoslávia e Bulgária, além de toda a Albânia), bem com o algum as ilhas. Grande parte dos territórios reconquistados ou liberados só podiam ser considerados com o "europeus" por cortesia: na verdade, a península balcânica ainda era com um ente cham ada de "Oriente Próxim o": por isso, o sudoeste da Ásia veio a ser conhecido com o "Oriente Médio". Por outro lado, os dois Estados que m ais fizeram por repelir os turcos eram ou se tornaram potências européias, apesar do atraso notório da totalidade ou de parcelas de seus povos e territórios: o Im pério Habsburgo e, acim a de tudo, o im pério dos czares da Rússia.

Assim , grandes extensões da "Europa" estavam , na m elhor das hipóteses, na periferia do centro do desenvolvim ento econôm ico capitalista e da sociedade burguesa. Em alguns deles, a m aioria dos habitantes vivia visivelm ente num século diferente do de seus contem porâneos e governantes — com o no litoral adriático da Dalm ácia ou na Bukovina, onde, em 1880, 88% da população eram analfabetos, contra 11% na Baixa Austrália, que fazia parte do m esm o im pério. Muitos austríacos cultos partilhavam da opinião de Metternich de que "a Ásia com eça onde a estrada para o Oriente sai de Viena", assim com o a m aioria dos italianos do norte encaravam a m aioria dos italianos do sul com o um a espécie de bárbaros africanos; m as em am bas as m onarquias as áreas atrasadas eram apenas um a parte do Estado. Na Rússia, a questão "européia ou asiática?" calava m uito m ais fundo, j á que praticam ente toda a região que vai do leste da Bielorrússia e da Ucrânia até o Pacífico era igualm ente distante da sociedade burguesa, a não ser por um a exígua cam ada culta. De fato, o tem a foi obj eto de acalorado debate público.

Contudo, a história, a política, a cultura, e não m enos os séculos de expansão por terra e por m ar sobre o Segundo Mundo ligaram até as parcelas atrasadas do Prim eiro Mundo às avançadas, à exclusão de poucos enclaves isolados dos Bálcãs m ontanhosos e outros sem elhantes. A Rússia era de fato atrasada, em bora seus dirigentes tivessem voltado sistem aticam ente os olhos para o oeste e conseguido controlar os territórios fronteiriços ocidentais, com o a Finlândia, os países bálticos e partes da Polônia, que eram claram ente m ais avançados. Contudo, econom icam ente, a Rússia pertencia sem som bra de dúvida "ao Ocidente", na m edida em que seu governo estava obviam ente em penhado num a política m aciça de industrialização segundo o m odelo ocidental. Politicam ente, o Im pério czarista era antes colonizador que colônia e, culturalm ente, a pequena m inoria culta da Rússia era um dos m otivos de orgulho da civilização ocidental do século XIX.

Talvez os cam poneses da Bukovina[e], no ponto m ais rem oto do nordeste do Im pério Habsburgo, ainda vivessem na Idade Média, m as sua capital, Czernowitz, abrigava um a universidade européia ilustre e sua classe m édia j udaica, em ancipada e assim ilada, era tudo, m enos m edieval. No outro extrem o da Europa, Portugal era pequeno, débil e atrasado segundo qualquer padrão da época, praticam ente um a sem icolônia britânica; e apenas o olhar da fé poderia discernir ali indícios significativos de desenvolvim ento econôm ico. Mesm o assim , Portugal era não apenas m em bro do clube dos Estados soberanos com o um grande im pério colonial, em virtude de sua história; conservava seu im pério africano não só porque as nações européias rivais não conseguiam decidir com o reparti-lo, m as porque, sendo "europeu", seus dom ínios não eram considerados — pelo m enos não totalm ente — m era m atéria-prim a da conquista colonial.

Nos anos 1880 a Europa, além de ser o centro original do desenvolvim ento capitalista que dom inava e transform ava o m undo, era, de longe, a peça m ais im portante da econom ia m undial e da sociedade burguesa. Nunca houve na história um século m ais europeu, nem tornará a haver. Dem ograficam ente, o m undo contava com um a proporção m ais elevada de europeus no fim do século que no início — talvez um em cada quatro, contra um em cada cinco. Apesar dos m ilhões de pessoas que o velho continente m andou para vários m undos novos, ele cresceu m ais depressa. Em bora a posição futura da Am érica com o superpotência econôm ica m undial j á estivesse assegurada pelo ritm o e pelo ím peto de sua industrialização, o produto industrial europeu ainda era duas vezes m aior do que o am ericano, e os principais avanços tecnológicos ainda provinham basicam ente do leste do Atlântico. Os autom óveis, o cinem a e o rádio foram inicialm ente desenvolvidos com seriedade na Europa. (A participação do Japão na m oderna econom ia m undial dem orou a deslanchar, m as foi bem m ais rápida na política m undial.)

Quanto à cultura erudita, o m undo das colônias brancas ultram arinas ainda continuava totalm ente dependente do velho continente, de form a ainda m ais óbvia entre as ínfim as elites cultas das sociedades não brancas, na m edida em que estas consideravam "o Ocidente" com o m odelo. Econom icam ente, a Rússia não sustentava, de form a algum a, a com paração com o crescim ento arroj ado e a riqueza dos EUA. Culturalm ente, a Rússia de Dostoievsky (1821-1881), Tolstoi (1828-1910), Tchekov (1860-1904), Tchaikovsky (1840-1893), Borodin (1834-1887) e Rim sky -Korsakov (1844-1908) era um a grande potência, e os EUA de Mark Twain (1835-1910) e Walt Whitm an (1819-1892) não, m esm o incluindo aí Henry Jam es (1843-1916), que há m uito em igrara para a atm osfera m ais propícia da Grã-Bretanha. A cultura e a vida intelectual européias ainda estavam m aj oritariam ente nas m ãos de um a m inoria próspera e culta, adm iravelm ente adaptadas para funcionar nesse m eio e para ele. A contribuição do liberalism o e, m ais além , da esquerda ideológica foi exigir que todos passassem a ter livre acesso às realizações dessa cultura de elite. O m useu e a biblioteca públicos foram suas conquistas características. A cultura am ericana, m ais dem ocrática e igualitária, só assum iu um a posição própria na era da cultura de m assa do século XX. Por enquanto, até em áreas tão estreitam ente articuladas ao progresso técnico com o as ciências, a j ulgar pela distribuição geográfica dos prêm ios Nobel ao longo de seus quinze prim eiros anos de existência, os EUA ainda ficavam atrás não só dos alem ães e dos britânicos, m as até da pequena Holanda.

Se um a parcela do Prim eiro Mundo podia se enquadrar com a m esm a propriedade à zona de dependência e atraso, praticam ente todo o Segundo Mundo indubitavelm ente a integrava, à exceção do Japão, que passava por um processo de "ocidentalização" sistem ática desde 1868 (ver A Era do Capital, cap. 8), e de territórios ultram arinos povoados por grande núm ero de descendentes de europeus — em 1880 ainda basicam ente provenientes da Europa central e do noroeste —, salvo, é claro, as populações nativas que eles não haviam conseguido elim inar. Foi essa dependência — ou m ais exatam ente a incapacidade de ou ficar afastado da rota do com ércio e da tecnologia do Ocidente e encontrar um substituto para eles, ou resistir por interm édio de hom ens arm ados e organizados — que reuniu na m esm a categoria, a de vítim as da história do século XIX em relação àqueles que a im plem entavam , sociedades que fora isto não tinham nada em com um . Com o expressou o cruel hum or ocidental, com um ligeiro excesso de sim plificação m ilitar:

 

Aconteça o que acontecer, nós tem os

o fuzil Maxim , e eles não.

 

Com paradas a essa diferença, as diferenças entre sociedades pré-históricas, com o as das ilhas da Melanésia, e as sofisticadas e urbanizadas sociedades da China, da Índia e do m undo islâm ico pareciam insignificantes. Que im portava que suas artes fossem adm iráveis, que os m onum entos de suas culturas ancestrais fossem m aravilhosos e que suas filosofias (sobretudo religiosas) im pressionassem tanto com o o cristianism o, e na verdade provavelm ente m ais que ele, alguns acadêm icos e poetas ocidentais? Basicam ente, essas sociedades estavam todas igualm ente à m ercê dos navios que vinham do exterior com carregam entos de bens, hom ens arm ados e idéias diante das quais ficavam im potentes e que transform aram seus universos com o convinha aos invasores, independente dos sentim entos dos invadidos.

Isso não significa que a divisão entre os dois m undos fosse um a m era divisão entre países industrializados e agrícolas, entre civilizações urbanas e rurais. No Segundo Mundo havia cidades m ais antigas e/ou tão grandes com o no Prim eiro: Pequim , Constantinopla. O m ercado capitalista m undial do século XIX gerou, dentro dele, centros urbanos desproporcionalm ente grandes através dos quais era canalizado o fluxo de suas relações econôm icas: Melbourne, Buenos Aires e Calcutá tinham cerca de m eio m ilhão de habitantes cada um a nos anos 1880, o que ultrapassava a população de Am sterdã, Milão, Birm ingham ou Munique, ao passo que os três quartos de m ilhão de Bom baim só eram superados por m eia dúzia de cidades da Europa. Em bora as cidades fossem m ais num erosas e tivessem um papel m ais significativo nas econom ias do Prim eiro Mundo, com poucas exceções especiais, o m undo "desenvolvido" perm aneceu surpreendentem ente agrícola. Apenas em seis países europeus a agricultura em pregava m enos que a m aioria — geralm ente um a am pla m aioria — da população m asculina, m as esses seis eram , caracteristicam ente, o núcleo do desenvolvim ento capitalista m ais antigo: Bélgica, Grã-Bretanha, França, Alem anha, Holanda e Suíça. Entretanto, era só na Grã-Bretanha que a agricultura ocupava um a ínfim a m inoria de cerca de um sexto; nos outros países, em pregava entre 30 e 45 por cento. Havia, de fato, um a diferença notável entre a com ercializada e eficiente atividade agrícola das regiões "desenvolvidas" e a agricultura das regiões atrasadas. Os cam poneses da Dinam arca e da Bulgária tinham pouco em com um , ao redor de 1880, a não ser o interesse por estábulos e terras. Contudo, a lavoura, com o o antigo artesanato, era um estilo de vida cuj as raízes m ergulhavam num passado longínquo, com o sabiam os etnólogos e folcloristas do final do século XIX, que procuravam antigas tradições e "rem anescentes populares" basicam ente no cam po. Mesm o a agricultura m ais revolucionária ainda as conservava.

Reciprocam ente, a im plantação da indústria não se restringia inteiram ente ao Prim eiro Mundo. À parte a construção de um a infraestrutura (isto é, portos e ferrovias), as atividades extrativas (m ineração) — presentes em m uitas econom ias dependentes e coloniais — e a produção fam iliar, presente em m uitas áreas rurais atrasadas, algum as indústrias do tipo ocidental do século XIX tendiam a se desenvolver m odestam ente em países dependentes com o a Índia, m esm o nesta etapa inicial, por vezes enfrentando forte oposição de interesses m etropolitanos, sobretudo nos setores têxtil e alim entício. Mas até a m etalurgia penetrou no Segundo Mundo. A grande em presa indiana de ferro e aço, Tata, iniciou suas operações nos anos 1880. Enquanto isso, a produção reduzida dos pequenos artesãos que trabalhavam em suas casas ou em oficinas "por peça" continuava sendo tão característica do m undo "desenvolvido" com o da m aior parte do m undo dependente. Este tipo de produção estava prestes a entrar num período de crise, apreensivam ente acom panhado pelos acadêm icos alem ães, ao se defrontar com a concorrência das fábricas e da distribuição m oderna. Porém , em seu conj unto, ainda sobreviveu com força considerável.

Contudo, é aproxim adam ente correto fazer da indústria um critério de m odernidade. Nos anos 1880, nenhum país fora do m undo "desenvolvido" (e do Japão, que se som ou a ele) podia ser descrito com o industrializado ou em vias de industrialização. Mas pode-se dizer que m esm o os países "desenvolvidos" que ainda eram essencialm ente agrícolas, ou, em todo caso, não associados im ediatam ente a fábricas e forj as, j á estavam em sintonia com a sociedade industrial e a alta tecnologia. Fora a Dinam arca, os países escandinavos, por exem plo, eram , até pouco tem po atrás, notoriam ente pobres e atrasados. Contudo, em poucas décadas eles teriam m ais telefones por habitante que qualquer outra região da Europa, incluindo a Grã-Bretanha e a Alem anha; ganharam um núm ero de prêm ios Nobel de ciência consideravelm ente m ais elevado que os EUA, e estavam prestes a se tornar redutos de m ovim entos políticos socialistas organizados especificam ente em função dos interesses do proletariado industrial.

E, o que é ainda m ais óbvio, podem os descrever o m undo "avançado" com o um m undo em rápido processo de urbanização e, em casos extrem os, um m undo onde o núm ero de m oradores das cidades era sem precedentes. Em 1800 havia apenas dezessete cidades na Europa cuj a população era de 100 m il habitantes ou m ais, no total m enos de 5 m ilhões. Em torno de 1890 havia 103 com um a população total m ais de seis vezes superior. Desde 1789, o que o século XIX havia gerado não era tanto o gigantesco form igueiro urbano com seus m ilhões de habitantes apressados — em bora entre 1800 e 1880 três outras cidades de m ais de um m ilhão de habitantes tenham se som ado a Londres (Paris, Berlim e Viena). Antes, esse século havia gerado um a rede de cidades grandes e m édias bem espalhadas, especialm ente grandes zonas ou conurbações bastante densas em função desse desenvolvim ento urbano e industrial, que iam gradativam ente tom ando conta do cam po à sua volta. Alguns de seus exem plos m ais dram áticos eram com parativam ente novos, produtos do desenvolvim ento da indústria pesada de m eados do século, com o Ty neside e Cly deside na Grã-Bretanha, ou apenas se desenvolvendo em escala m aciça com o o Ruhr na Alem anha ou o cinturão carvão-aço da Pensilvânia. Essas regiões, tornam os a insistir, não continham necessariam ente qualquer cidade m aior, salvo se ali houvesse capitais, centros adm inistrativos governam entais ou outras atividades terciárias ou portos internacionais im portantes, que tam bém tendiam a gerar populações excepcionalm ente grandes. É bem curioso que, à exceção de Londres, Lisboa e Copenhague, em 1880 nenhum Estado europeu possuía um a cidade que fosse am bas as coisas.