A Era dos Impérios 1875-1914
Capítulo 2
Ainda nos restam as perguntas relativas ao im pacto da expansão ocidental (e, a partir dos anos 1890, j aponesa) sobre o resto do m undo, e as relacionadas ao significado dos aspectos "im periais" do im perialism o para os países m etropolitanos.
A prim eira destas perguntas pode ser respondida m ais rapidam ente que a segunda. O im pacto econôm ico do im perialism o foi significativo, m as, é claro, o que ele teve de m ais significativo foi sua profunda desigualdade, pois as relações entre m etrópoles e países dependentes eram altam ente assim étricas. O im pacto das prim eiras sobre os segundos foi dram ático e decisivo, m esm o sem ocupação efetiva, ao passo que o im pacto dos segundos sobre as prim eiras pode ser insignificante e raram ente foi um a questão de vida ou m orte. Cuba prosperava ou declinava dependendo do preço do açúcar e da disposição dos EUA a im portá-lo, m as nem países "desenvolvidos" bastante pequenos — digam os, a Suécia — sofreriam graves inconvenientes se todo o açúcar do Caribe desaparecesse do m ercado, porque não dependiam exclusivam ente daquela área para esse artigo. Praticam ente todas as im portações e exportações de qualquer região da África subsaariana iam ou vinham de um pequeno núm ero de m etrópoles ocidentais, m as o com ércio m etropolitano com a África, a Ásia e a Oceania, em bora aum entando m odestam ente entre 1870 e 1914, perm aneceu bastante m arginal. Cerca de 80% do com ércio europeu durante todo o século XIX, im portação com o exportação, era feito com outros países desenvolvidos; o m esm o é verdade no que tange aos investim entos europeus no exterior. A parcela dos investim entos destinada a países ultram arinos era m aj oritariam ente direcionada a um pequeno núm ero de econom ias em desenvolvim ento rápido, sobretudo povoadas por descendentes de europeus — Canadá, Austrália, África do Sul, Argentina, etc. — bem com o, é claro, aos EUA. Neste sentido a era do im perialism o tem um aspecto m uito diferente quando enfocado do ponto de vista da Nicarágua ou da Malaia, ou da Alem anha ou da Franca.
Dentre os países m etropolitanos, foi obviam ente para a Grã-Bretanha que o im perialism o teve m aior im portância, um a vez que sua suprem acia econôm ica sem pre dependera de sua relação especial com os m ercados ultram arinos e as fontes de produtos prim ários. Na verdade, pode-se argüir que em m om ento algum , a partir da revolução industrial, as m anufaturas do Reino Unido haviam sido particularm ente com petitivas nos m ercados das econom ias em vias de industrialização, salvo, talvez, durante as décadas douradas de 1850-1870. Para a econom ia britânica, preservar o m ais possível seu acesso privilegiado ao m undo não-europeu era, portanto, um a questão de vida ou m orte. No final do século XIX, o sucesso obtido nesse terreno foi notável estendendo incidentalm ente a área controlada oficial ou efetivam ente pela m onarquia britânica a um quarto da superfície do globo (que os atlas britânicos orgulhosam ente colocariam de verm elho). Se incluirm os o assim cham ado "im pério inform al" de Estados independentes que na verdade eram econom ias satélites da Grã-Bretanha, talvez um terço do planeta fosse britânico em sentido econôm ico e, na verdade, cultural. Pois a Grã-Bretanha exportou até a form a específica de suas caixas coletoras de correspondência para Portugal e um a instituição do m ais puro estilo britânico, com o a loj a de departam entos Harrods, para Buenos Aires. Mas, por volta de 1914, outras potências j á estavam se infiltrando em boa parte desta zona de influência indireta, especialm ente na Am érica Latina.
Entretanto, boa parte dessa operação defensiva bem -sucedida era independente da "nova" expansão im perialista, à exceção do m ais rico e inesperado dos filões: os diam antes e o ouro da África do Sul. Isto gerou um a safra instantânea de m ilionários (m aj oritariam ente alem ães) — os Wernher, Beit, Eckstein e outros — a m aioria dos quais foi tam bém instantaneam ente incorporada à alta sociedade britânica, nunca tão receptiva ao dinheiro de prim eira geração, desde que este se espalhasse à sua volta em quantidades suficientem ente grandes. Isto levou tam bém ao m aior dos conflitos coloniais, a Guerra Sul-africana de 1899-1902, que elim inou a resistência de duas pequenas repúblicas locais povoadas por cam poneses brancos.
A m aior parte do sucesso ultram arino britânico deveu-se à exploração m ais sistem ática das possessões britânicas j á existentes ou da posição especial do país com o m aior im portador de áreas com o a Am érica do Sul, bem com o seu m aior investidor. À exceção da Índia, do Egito e da África do Sul, a m aior parte da atividade econôm ica britânica ocorria em países praticam ente independentes, com o os "dom ínios" brancos, ou em áreas com o os EUA e a Am érica Latina, onde a ação do Estado britânico não era, ou não podia ser, efetivam ente desenvolvida. Pois, apesar dos gritos de dor da Associação de Detentores de Debêntures Estrangeiras (criada durante a Grande Depressão) ao se defrontar com a conhecida prática latina de suspender o pagam ento da dívida ou pagá-la em m oeda desvalorizada, o governo não deu um respaldo efetivo a seus investidores na Am érica Latina, porque não podia. A Grande Depressão foi um teste de fogo nesse sentido, porque, com o depressões m undiais posteriores (inclusive a dos anos 1970 e 1980), levou a um a crise de endividam ento internacional de vulto, que pôs os bancos das m etrópoles em sério risco. O m áxim o que o governo britânico pôde fazer foi tom ar providências para salvar a grande casa de Baring da insolvência na "crise Baring" de 1890, quando esse banco se aventurou, com o fazem os bancos, com excessivo desem baraço na voragem das inadim plentes finanças argentinas. Se ele respaldou os investidores com a diplom acia da força, com o crescentem ente após 1905, foi para aj udá-los a enfrentar em presários de outros países apoiados por seus próprios
governos, e não contra os governos m ais fortes do m undo dependente.[h]
Na verdade, considerando os anos bons e os m aus, os capitalistas britânicos se saíram geralm ente bem em seu im pério inform al ou "livre". Quase a m etade do capital acionário a longo prazo britânico estava, em 1914, no Canadá, na Austrália e na Am érica Latina. Mais da m etade da poupança britânica foi investida no exterior após 1900.
A Grã-Bretanha se apossou, é claro, de sua parte nas regiões recentem ente colonizadas do m undo, e, dadas a força e a experiência britânicas, era um a parte m aior e provavelm ente m ais valiosa que a de qualquer outro. A França ocupava a m aior parte da África Ocidental, m as as quatro colônias britânicas na área controlavam as parcelas onde havia "as populações africanas m ais densas, as m aiores instalações produtivas e a preponderância do com ércio". Contudo, o obj etivo britânico não era a expansão, m as im pedir a introm issão de outros em territórios até então dom inados pelo com ércio e pelo capital britânicos, com o a m aior parte do m undo ultram arino.
Será que as outras nações tiraram benefícios proporcionais de sua expansão colonial? É im possível dizer, pois a colonização form al era apenas um aspecto da expansão e da concorrência econôm ica global e, no caso das duas principais potências industriais, Alem anha e EUA, não era um aspecto m aior. Adem ais, com o j á vim os, um a relação especial com o m undo não-industrial não era econom icam ente crucial para nenhum outro país além da Grã-Bretanha (com a possível exceção da Holanda). Isso é tudo o que podem os dizer com razoável certeza. Em prim eiro lugar, a ofensiva colonial parece ter sido inversam ente proporcional ao dinam ism o econôm ico dos países m etropolitanos, onde até certo ponto servia para com pensar sua inferioridade econôm ica e política em relação a seus rivais — e, no caso da França, sua inferioridade dem ográfica e m ilitar. Em segundo lugar, em todos os casos houve forte pressão de grupos econôm icos específicos — notadam ente os associados ao com ércio ultram arino e às indústrias que usavam m atéria-prim a ultram arina — em favor da expansão colonial, que eles naturalm ente j ustificavam com as perspectivas de vantagens nacionais. Em terceiro lugar, enquanto alguns desses grupos se saíam bastante bem dessa expansão — a Compagnie Française de l'Afrique Occidentale pagou dividendos de 26 por cento em 1913 —, a m aioria das novas
colônias efetivas atraiu pouco capital, e seus resultados econôm icos foram decepcionantes[i]. Em sum a, o novo colonialism o foi um subproduto de um a era de rivalidade econôm ico-política entre econom ias nacionais concorrentes, intensificada pelo protecionism o. Entretanto, na m edida em que o com ércio m etropolitano com as colônias quase invariavelm ente aum entou em term os de porcentagem de seu com ércio total, aquele protecionism o teve algum êxito.
Contudo, a Era dos Im périos não foi apenas um fenôm eno econôm ico e político, m as tam bém cultural: a conquista do globo pelas im agens, idéias e aspirações transform adas de sua m inoria "desenvolvida", tanto pela força e pelas instituições com o por m eio do exem plo e da transform ação social. Nos países dependentes isto dificilm ente afetou alguém fora das elites locais, em bora, é claro, se deva lem brar que em algum as regiões, com o a África subsaariana, foi o próprio im perialism o, ou o fenôm eno associado das m issões cristãs, que criou a possibilidade da existência de um a nova elite social baseada na educação de estilo ocidental. A divisão entre Estados africanos "francófonos" e "anglófonos" de hoj e espelha exatam ente a
distribuição dos im périos coloniais francês e britânico[j ]. Salvo na África e na Oceania, onde as m issões cristãs às vezes obtinham conversões em m assa à religião ocidental, a grande m assa das populações coloniais, se tivesse escolha, dificilm ente m udaria seus estilos de vida. E, para constrangim ento dos m issionários m ais rígidos, o que os povos indígenas adotaram não foi tanto a fé im portada do Ocidente, m as aqueles dentre seus elem entos que faziam sentido para eles em term os de seu próprio sistem a de crenças e suas instituições, ou necessidades. Exatam ente com o os esportes levados aos ilhéus do Pacífico por adm inistradores coloniais britânicos entusiastas (tantas vezes escolhidos entre os produtos m ais robustos da classe m édia), a religião colonial com m uita freqüência parecia tão inesperada ao observador ocidental com o o cricket de Sam oa. Era o caso m esm o dos fiéis que nom inalm ente seguiam as ortodoxias de sua denom inação. Mas eles tam bém foram capazes de desenvolver suas próprias versões da fé, notadam ente na África do Sul — a única região da África onde houve conversões realm ente m aciças —, onde um "m ovim ento etíope" abandonou as m issões j á em 1892, para estabelecer um a form a de cristandade m enos identificada aos brancos.
O que o im perialism o trouxe às elites efetivas ou potenciais do m undo dependente foi, portanto, essencialm ente a "ocidentalização". Esse processo j á estava, sem dúvida, em curso há m uito tem po. Por várias décadas fora claro, para todos os governos e elites confrontados à dependência ou à conquista, que eles tinham que se ocidentalizar, caso contrário desapareceriam (ver A Era do Capital, caps. 7, 8:2). E, de fato, as ideologias que inspiraram essas elites na era do im perialism o datavam dos anos entre a Revolução Francesa e m eados do século XIX, com o quando revestiram a form a do positivism o de Auguste Com te (1798-1857), doutrina m odernizadora que inspirou os governos do Brasil, do México e do início da Revolução Turca. A resistência da elite ao Ocidente era ocidentalizante, m esm o quando se opunha à ocidentalização indiscrim inada no terreno da religião, da m oral, da ideologia ou do pragm atism o político. A figura com a aura de santidade do Mahatm a Gandhi, vestindo tanga e usando um a roca (para desencoraj ar a industrialização), não apenas era apoiada e financiada pelos proprietários de
cotonifícios m ecanizados em Ahm edabad[k], com o ele m esm o era um advogado form ado no Ocidente e visivelm ente influenciado pelas ideologias dele derivadas. É totalm ente im possível com preendê-lo vendo nele apenas um hindu tradicionalista.
Na verdade, Gandhi ilustra bastante bem o im pacto específico da era do im perialism o. Nascido num a casta relativam ente m odesta de com erciantes e prestam istas, anteriorm ente não m uito associada à elite ocidentalizada que adm inistrava a Índia sob a direção de superiores britânicos, ele adquiriu, contudo, um a educação profissional e política na Inglaterra. Por volta do final dos anos 1880, esta era um a opção tão aceita para j ovens am biciosos de seu país, que o próprio Gandhi com eçou a redigir um guia da vida inglesa para futuros estudantes de posses m odestas com o ele. Escrito em excelente inglês, aconselhava-os sobre todos os pontos, da viagem para Londres no vapor da com panhia P& O e com o encontrar m oradia, a m aneira de satisfazer às exigências da dieta dos piedosos hindus e com o se acostum ar com o surpreendente hábito ocidental de se barbear, em vez de recorrer a um barbeiro. Gandhi claram ente não se via nem com o um assim ilador nem com o um opositor incondicional das coisas britânicas. Com o m uitos pioneiros da libertação colonial fizeram desde então, durante sua estadia tem porária na m etrópole ele escolheu freqüentar círculos ocidentais ideologicam ente com patíveis — neste caso, os de vegetarianos britânicos, que certam ente podiam ser considerados favoráveis tam bém a outras causas "progressistas".
Gandhi aprendeu sua técnica característica de m obilizar m assas tradicionais para fins não-tradicionais por m eio da resistência passiva num am biente criado pelo "novo im perialism o". Era, com o se podia esperar, um a fusão de elem entos ocidentais e orientais, pois ele não fez segredo de sua dívida intelectual para com John Ruskin e Tolstoi. (Antes dos anos 1880, a fertilização de flores políticas indianas com pólen levado da Rússia teria sido inconcebível, m as por volta da prim eira década do novo século isto j á era com um entre os indianos, com o seria entre radicais chineses e j aponeses.) A África do Sul, país do boom dos diam antes e do ouro, atraiu um a vasta com unidade de im igrantes m odestos da Índia, e a discrim inação racial neste novo cenário criou um a das poucas situações em que os indianos não pertencentes à elite se dispuseram à m obilização política m oderna. Gandhi adquiriu experiência política e granj eou sua fam a com o defensor dos direitos indianos na África do Sul. Por ora ele dificilm ente poderia ter feito o m esm o na própria Índia, para onde finalm ente retornou — m as apenas após a deflagração da guerra de 14 — para se tornar a figura chave do m ovim ento nacional indiano.
Em sum a, a Era dos Im périos criou tanto as condições que form aram líderes antiim perialistas com o as condições que, com o verem os (cap. 12), com eçaram a propiciar ressonância a suas vozes. Mas, é claro, é um anacronism o e um equívoco apresentar a história dos povos e regiões subm etidas à dom inação e à influência das m etrópoles ocidentais basicam ente em term os de resistência ao Ocidente. É um anacronism o porque, com exceções que serão apontadas abaixo, o início m ais precoce da era dos m ovim entos antiim periais significativos se dá, para a m aioria das regiões, com a Prim eira Guerra Mundial e a Revolução Russa; um equívoco por ler o texto do nacionalism o m oderno — independência, autodeterm inação dos povos, form ação de Estados territoriais, etc. (ver cap. 6) — num registro histórico que ainda não o continha nem podia contê-lo. Na verdade, foram as elites ocidentalizadas as prim eiras a entrar em contato com essas idéias, através de suas visitas ao Ocidente e às suas instituições educacionais, pois esta era sua origem . Jovens estudantes indianos de volta da Grã-Bretanha podiam levar consigo as palavras de ordem de Mazzini e Garibaldi; m as, à época, poucos habitantes do Punj ab, sem falar de regiões com o o Sudão, teriam a m ínim a idéia do que poderiam significar.
Assim sendo, o m ais poderoso legado cultural do im perialism o foi um a educação em m oldes ocidentais para m inorias de vários tipos: para os pouco favorecidos que se alfabetizaram , descobrindo portanto, com ou sem a aj uda da conversão cristã, o cam inho m ais direto para a am bição, que usava o colarinho branco dos clérigos, professores, burocratas ou funcionários de escritório. Em algum as regiões tam bém se incluíam aqueles que haviam adquirido novos costum es, com o soldados e policiais dos novos governantes, envergando suas roupas, adotando suas idéias peculiares de tem po, de lugar e de organização dom éstica. Estes constituíam , é claro, as m inorias de instigadores e agitadores potenciais, m otivo pelo qual a era do colonialism o, breve m esm o quando m edida por um a única vida hum ana, surtiu efeitos tão duradouros. Pois é surpreendente que na m aior parte da África a totalidade da experiência do colonialism o, da ocupação inicial à form ação de Estados independentes, caiba no lapso de um a única vida — digam os, na de Sir Winston Churchill (1874-1965).
E quanto ao efeito oposto do m undo dependente sobre o dom inante? O exotism o fora um subproduto da expansão européia desde o século XVI, em bora observadores filosóficos da era do Ilum inism o tenham , na m aioria das vezes, tratado os países estranhos distantes da Europa e do povoam ento europeu com o um a espécie de barôm etro m oral da civilização européia. Onde eram nitidam ente civilizados, podiam ilustrar as deficiências institucionais do Ocidente, com o nas Cartas Persas, de Montesquieu; caso contrário, a tendência era tratá-los com o os nobres selvagens, cuj o com portam ento natural e adm irável ilustrava a depravação da sociedade civilizada. A novidade no século XIX era que os não-europeus e suas sociedades eram crescente e geralm ente tratados com o inferiores, indesej áveis, fracos e atrasados, ou m esm o infantis. Eles eram obj etos perfeitos de conquista, ou ao m enos de conversão aos valores da única verdadeira civilização, aquela representada por com erciantes, m issionários e grupos de hom ens equipados com arm as de fogo e aguardente. E, em um certo sentido, os valores das sociedades tradicionais não-ocidentais tornaram -se cada vez m ais irrelevantes para sua sobrevivência, num a era em que apenas contavam a força e a tecnologia m ilitar. A sofisticação da Pequim im perial por acaso evitou que os bárbaros ocidentais queim assem e saqueassem o Palácio de Verão m ais de um a vez? A elegância da cultura de elite em Mughal, a capital em declínio, retratada com tanta beleza por Saty aj it Ray em Os Enxadristas, im pediu o avanço dos britânicos? Para o europeu m édio, essas pessoas se tornaram obj eto de desprezo. Os únicos não-europeus que m ereciam sua estim a eram os guerreiros, de preferência os que podiam ser recrutados para seus próprios exércitos coloniais (sikhs, gurkas, m ontanheses bérberes, afegãos, beduínos). O Im pério Otom ano conquistou o respeito, concedido a contragosto, porque m esm o em seu declínio tinha um a infantaria capaz de resistir aos exércitos europeus. O Japão com eçou a ser tratado com o um igual quando com eçou a ganhar guerras.
Contudo, a densidade m esm a da rede global de com unicações, a própria facilidade do acesso a países estrangeiros intensificaram , direta ou indiretam ente, o confronto e a entrem escla dos m undos ocidental e exótico. Eram poucos os que conheciam e refletiam sobre am bos, em bora esse núm ero tenha sido aum entado no período im perialista por escritores que escolheram ser os interm ediários entre eles: escritores ou intelectuais por vocação e por profissão m arinheiros (com o Pierre Loti e, o m aior deles, Joseph Conrad), soldados e adm inistradores (com o o orientalista Louis Massignon) ou j ornalistas coloniais (com o Rudy ard Kipling). Mas o exótico se tornou crescentem ente parte da educação cotidiana, com o na literatura j uvenil de enorm e sucesso de Karl May (1842-1912), cuj o herói alem ão im aginário percorreu o faroeste e o Oriente islâm ico, com incursões à África negra e à Am érica Latina; nos rom ances de aventuras, cuj os vilões agora incluíam orientais inescrustáveis e todo-poderosos com o o Dr. Fu Manchu de Sax Rohm er; em revistas escolares baratas para garotos britânicos, que agora incluíam um hindu rico falando um barroco inglês-babu, estereótipo previsível. O exótico podia até tornar-se um a parte ocasional porém previsível da experiência cotidiana, com o no show do Oeste Bravio de Buffalo Bill, com seus igualm ente exóticos cowboys e índios, que conquistaram a Europa a partir de 1887, ou nos "povoados coloniais" cada vez m ais elaborados ou m ostras das grandes exposições internacionais. Qualquer que fosse sua intenção, esses lam pej os de m undos estranhos não tinham caráter docum entário. Eles eram ideológicos, em geral reforçando o sentim ento de superioridade do "civilizado" em relação ao "prim itivo". Eram im perialistas apenas porque, com o m ostram os rom ances de Joseph Conrad, a vinculação central entre os m undos do exótico e do cotidiano era a penetração, form al ou inform al, do Ocidente no Terceiro Mundo. Quando a linguagem coloquial absorveu palavras oriundas da experiência colonial efetiva — sobretudo sob a form a de vários tipos de gíria, notadam ente a dos exércitos coloniais — elas refletiam m uitas vezes um a visão negativa dos súditos. Os operários italianos cham avam os fura-greves de crumiri (nom e de um a tribo do Norte da África) e os políticos italianos cham avam as legiões de dóceis eleitores sulistas, levados às urnas pelos chefes locais, de ascari (tropas coloniais nativas). Caciques, os chefes índios do im pério espanhol da Am érica, tornara-se sinônim o de qualquer chefe político; caids (chefe indígena da África do Norte) foi o term o aplicado a líderes de gangues crim inosas na França.
Houve, contudo, um lado m ais positivo nesse exotism o. Os adm inistradores e soldados com abertura intelectual — os hom ens de negócios se interessavam m enos pôr tais assuntos refletiram profundam ente sobre as diferenças entre suas próprias sociedades e aquelas que governavam . Produziram obras de im pressionante erudição sobre elas, especialm ente no im pério indiano, bem com o reflexões teóricas que transform aram as ciências sociais ocidentais. Boa parte desse trabalho foi o subproduto da dom inação colonial ou visava a aj udá-la, e a m aioria repousava, inquestionavelm ente, no sentim ento firm e e confiante da superioridade do conhecim ento ocidental sobre qualquer outro, exceto talvez no terreno da religião, onde, por exem plo, a superioridade do m etodism o em relação ao budism o não era óbvia aos olhos de observadores im parciais. O im perialism o ocasionou um aum ento notável no interesse ocidental em form as de espiritualidade derivadas do Oriente, ou que diziam ser, e às vezes conversões a elas. Contudo, apesar da crítica pós-colonial, esse conj unto de obras de erudição ocidental não pode ser sim plesm ente descartado com o um a desqualificação arrogante de culturas não-européias. No m ínim o as m elhores dentre elas as encararam com seriedade, com o algo a ser respeitado, com quem era preciso aprender. No cam po da arte, e especialm ente das artes visuais, as vanguardas ocidentais trataram as culturas não-ocidentais em total pé de igualdade. Na verdade, inspiraram -se preponderantem ente nelas nesse período. Isso é verdade não só em relação a artes que se pensava representarem civilizações sofisticadas, por m ais exóticas que fossem (com o a j aponesa, cuj a influência nos pintores franceses foi m arcante), m as em relação às encaradas com o "prim itivas", notadam ente as da África e da Oceania. Seu "prim itivism o" era, sem dúvida, sua principal atração, m as é inegável que as gerações de vanguarda do início do século XX ensinaram os europeus a ver essas obras com o arte — m uitas vezes grande arte — em sua verdadeira grandeza, independentem ente de sua origem .
Um aspecto final do im perialism o deve ser brevem ente m encionado: seu im pacto nas classes dirigente e m édia dos próprios países m etropolitanos. Num certo sentido, o im perialism o destacou o triunfo dessas classes e das sociedades criadas à sua im agem com o nada m ais poderia ter feito. Um pequeno núm ero de países, sobretudo do noroeste da Europa, dom inou o planeta. Alguns im perialistas, para indignação dos latinos, sem falar dos eslavos, gostavam até de ressaltar os m éritos específicos com o conquistadores dos europeus de origem teutônica e especialm ente anglo-saxônica, a quem , independente de suas rivalidades, era atribuída um a afinidade m útua, que ainda ecoa no respeito ressentido de Hitler em relação à Grã-Bretanha. Um pequeno núm ero de hom ens das classes alta e m édia desses países — altos funcionários, adm inistradores, hom ens de negócio, engenheiros — exerciam efetivam ente aquela dom inação. Por volta de 1890, pouco m ais de seis m il funcionários britânicos governavam quase 300 m ilhões de indianos, com a aj uda de pouco m ais de 70 m il efetivos europeus, cuj os soldados rasos eram , com o as m uito m ais num erosas tropas indígenas, m ercenários que recebiam ordens e que eram provenientes, em núm ero desproporcional, daquela antiga reserva de guerreiros coloniais nativos: os irlandeses. Este é um caso extrem o, m as que nem por isto deixa de ser típico. Poderia haver prova m ais extraordinária de superioridade absoluta?
Assim , o núm ero de pessoas diretam ente envolvidas com o im pério era relativam ente pequeno — m as seu significado sim bólico era enorm e. Quando se pensou que o escritor Rudy ard Kipling, o bardo do im pério indiano, estava m orrendo de pneum onia em 1899, não apenas os britânicos e os am ericanos ficaram pesarosos — Kipling acabara de dedicar um poem a sobre "O fardo do hom em branco" aos EUA, sobre sua responsabilidade nas Filipinas — m as o im perador da Alem anha enviou um telegram a.
Contudo, o triunfo im perial gerou tam bém a um tem po problem as e incertezas. Colocou problem as na m edida em que a contradição entre o governo das classes dirigentes m etropolitanas em seus im périos e seus próprios povos foi se tornando insolúvel. Nas m etrópoles, com o verem os, a política dem ocrática eleitoral prevalecia ou, com o parecia inevitável, estava destinada a prevalecer crescentem ente. Nos im périos coloniais, governava a autocracia, baseada na com binação da coerção física à subm issão passiva a um a superioridade grande a ponto de parecer incontestável e portanto legítim a. Os m ilitares e os "pró-cônsules" autodisciplinados, hom ens isolados com poderes absolutos sobre territórios do tam anho de reinos, governavam continentes, ao passo que na m etrópole as m assas ignorantes e inferiores estavam revoltadas. Não havia aqui um a lição — um a lição no sentido da Vontade de Poder , de Nietzsche — a ser aprendida?
O im perialism o tam bém gerou incertezas. Em prim eiro lugar, confrontou um a pequena m inoria de brancos — pois m esm o a m aioria desta raça pertencia à categoria dos destinados à inferioridade, com o a nova disciplina da eugenia alertava incessantem ente (ver cap. 10) — às m assas de negros, pardos, talvez sobretudo am arelos, aquele "perigo am arelo" contra o qual o im perador Guilherm e II conclam ou à união e à defesa do Ocidente. Será que im périos m undiais tão facilm ente conquistados, com um a base tão estreita, governados com um a facilidade tão absurda graças à devoção de uns poucos e a passividade de m uitos, será que eles podiam durar? Kipling, o m aior — talvez o único — poeta do im perialism o, saudou o grande m om ento de orgulho im perial dem agógico, o Jubileu de Diam ante da Rainha Vitória, em 1897, com um lem brete profético da im perm anência dos im périos:
Far-called, our navies melt away;
On dune and headland sinks the fire:
Lo, all our pomp of yesterday
Is one with Nineveh and Tyre!
Judge of the Nations, spare us yet,
[l]
Lest we forget, lest we forget.
A pom pa planej ou a construção de um a nova capital im perial enorm e para a Índia em Nova Delhi. Clem enceau teria sido o único observador cético a prever que esta seria a m ais recente de um a longa série de ruínas de capitais im periais? E será que a vulnerabilidade da dom inação global era m uito m aior que a vulnerabilidade da dom inação interna em relação às m assas brancas?
A incerteza era um a faca de dois gum es. Pois se o im pério (e o governo das classes dirigentes) era vulnerável a seus governados, em bora talvez não ainda, não de m odo im ediato, não seria m ais im ediatam ente vulnerável à erosão interna da vontade de governar, da disposição de travar a luta darwiniana pela sobrevivência do m ais apto? Será que a própria riqueza e o próprio luxo que o poder e o espírito em preendedor haviam gerado não tinham enfraquecido as fibras daqueles m úsculos cuj os esforços constantes eram necessários para m antê-los? Será que o im pério não leva ao parasitism o no centro e ao triunfo final dos bárbaros?
Em nenhum lugar o destino parecia estar m ais presente nessas perguntas que no m aior e m ais vulnerável de todos os im périos, naquele que ultrapassava em tam anho e glória todos os im périos do passado e que, contudo, sob outros aspectos estava à beira do declínio. Mas m esm o os alem ães, trabalhadores e vigorosos, percebiam que o im perialism o ia de par com aquele "estado que vive de rendas", que não podia senão levar ao declínio. Deixem os J. A. Hobson dar a voz a esses tem ores: se a China fosse repartida,
"a m aior parte da Europa ocidental poderia então adquirir a aparência e o caráter j á
exibidos por parcelas de território do sul da Inglaterra, na Riviera e nas localidades
residenciais ou infestadas de turistas da Itália e da Suíça: pequenos grupos de aristocratas
ricos extraindo dividendos e pensões do Extrem o Oriente, com um grupo algo m aior de
servidores profissionais de alto gabarito e com erciantes de luxo, e um conj unto grande de
criados pessoais e trabalhadores do setor de transporte e dos estágios finais da produção dos
bens m ais perecíveis; todas as principais atividades im portantes teriam desaparecido, pois os
alim entos e produtos m anufaturados básicos afluiriam com o um tributo da África e da
Ásia".
A belle époque da burguesia iria portanto desarm á-la. Os encantadores e inofensivos Elóis, do rom ance de H. G. Wells, que passavam a vida se divertindo ao sol, ficariam à m ercê dos escuros Morlocks de quem dependiam e contra os quais estavam desam parados. "A Europa", escreveu o econom ista alem ão Schulze-Gaevernitz, "transferirá o ônus da labuta física — prim eiro o da agricultura e da m ineração, depois as fainas m ais árduas da indústria — às raças de cor, contentando-se em viver de rendim entos, e talvez, neste sentido, preparará o terreno para a em ancipação econôm ica, e m ais tarde política, das raças de cor."
Esses eram os m aus sonhos que tiravam o sono da belle époque. Neles, os pesadelos dos im périos se uniam ao m edo da dem ocracia.
[a] O sultão do Marrocos prefere o título de "rei". Nenhum dos outros m inissultões sobreviventes
do m undo islâm ico era ou podia ser encarado com o "rei dos reis".
[b] Esta doutrina, expressa pela prim eira vez em 1823 e subseqüentem ente repetida e elaborada
pelos governos dos EUA, m anifestava hostilidade a qualquer outra colonização ou intervenção
política de potências européias no hem isfério ocidental. Mais tarde, isto passou a significar que os
EUA eram a única potência com o direito de interferir em qualquer ponto do hem isfério. À
m edida que os EUA foram se tornando m ais poderosos, a Doutrina Monroe foi sendo encarada
com m ais seriedade pelos Estados europeus.
[c] Malaia: nom e da Malaísia antes de sua independência. (N. da T.)
[d] Na verdade, a dem ocracia branca os excluía dos benefícios conquistados para os de pele branca, e inclusive se recusava a considerá-los com o plenam ente hum anos.
[e] Em casos isolados o im pério pode ser útil. Os m ineiros da Cornualha trocaram em m assa as
m inas de estanho decadentes de sua península pelos cam pos auríferos da África do Sul, onde
ganhavam m uito dinheiro e m orriam ainda m ais cedo que de costum e de enferm idades
pulm onares. Os proprietários de m inas de Cornualha, com m enos risco para suas vidas,
com praram novas m inas de estanho na Malaia.
[f] Oficial da alfândega francesa. (N. da T.)
[g] Entre 1876 e 1902 houve 119 traduções da Bíblia, contra 74 nos trinta anos precedentes e 40
no período 1816-1845. O núm ero de m issões protestantes novas na África entre 1886 e 1895 foi
de 23, cerca de três vezes a cifra de qualquer década anterior.
[h] Houve um pequeno núm ero de casos de "econom ia de canhoneira" com o na Venezuela,
Guatem ala, Haiti, Honduras e México — m as não m odificaram seriam ente esse quadro. É claro,
os governos e capitalistas britânicos, confrontados com a escolha entre partidos ou Estados locais
que favorecessem os interesses econôm icos britânicos ou os hostilizassem , não deixariam de
apoiar o lado-m ais proveitoso para os lucros britânicos: o Chile contra o Peru na "Guerra do
Pacífico" (1879-1882), os inim igos do presidente Balm aceda no Chile em 1891. Em questão, os
nitratos.
[i] A França nem conseguiu integrar totalm ente suas novas colônias a um sistem a protecionista
em bora 55% do com ércio do im pério francês em 1913 tenham sido realizados com a m etrópole.
Incapaz de rom per os vínculos econôm icos j á estabelecidos dessas áreas com outras regiões e
m etrópoles, a França tinha que com prar grande parte dos produtos coloniais de que necessitava
— borracha, peles e couro, m adeira tropical — via Ham burgo, Antuérpia e Liverpool.
[j ] Que, após 1918, dividiram entre si as antigas colônias alem ãs.
[k] "Ah", teria exclam ado um desses patrocinadores, "se Bapuj i soubesse o quanto custa m antê-lo
pobre!".
[l] "Atraídas para longe, nossas m arinhas desaparecem ; / Entre dunas e prom ontórios naufraga o
ardor; / Vej am , toda nossa pom pa de ontem / Une-se a Nínive e Tiro! / Juiz das Nações, poupai-
nos contudo, / Para que não esqueçam os, para que não esqueçam os." (N. da T.)