A Era dos Impérios 1875-1914
Capítulo 8 | A nova mulher
CAPÍTULO 8
A NOVA MULHER
Na opinião de Freud, a verdade é que a mulher nada ganha pelo estudo e que, no todo, a sorte delas não há de melhorar com isso. Acresce que as mulheres não podem alcançar a realização do homem, na sublimação da sexualidade.
Atas da Sociedade Psicanalítica de Viena, 1907
Minha mãe deixou a escola aos 14. Teve de empregar-se numa fazenda, imediatamente... Mais tarde foi para Hamburgo, como criada de servir. Mas ao irmão dela permitiram aprender alguma coisa, e ele veio a ser serralheiro. Ao perder o emprego, deixaram-no até entrar para outro aprendizado, como pintor.
Grete Appen, sobre a m ãe, nascida em 1888
A restauração do respeito próprio da mulher é a essência do movimento feminista. A mais substancial das vitórias políticas não pode ter valor mais alto que este: o de ensinar a mulher a não depreciar o próprio sexo.
Katherine Anthony , 1915
1
À prim eira vista, pode parecer absurdo estudar a história de m etade da raça hum ana de nossa época inscrevendo-a no contexto da história das classes m édias ocidentais, um grupo relativam ente pequeno m esm o no interior dos países de capitalism o "desenvolvido" ou em desenvolvim ento. Contudo isto é legítim o, na m edida em que os historiadores concentram sua atenção nas m udanças e transform ações da condição fem inina; a m ais im pressionante destas, "a em ancipação fem inina", foi, durante essa época, iniciada e m esm o quase inteiram ente restrita ao estrato m édio e — em form a diferente — aos estratos superiores da sociedade estatisticam ente m enos significativos. A "em ancipação fem inina" era ainda bastante m odesta a essa altura, m esm o tendo o período produzido um pequeno — m as sem precedentes — núm ero de m ulheres ativas em cam pos até então restritos exclusivam ente aos hom ens e onde de fato elas se distinguiam notavelm ente: eram figuras com o Rosa Luxem burgo, Madam e Curie, Beatrice Webb. Ainda assim , era suficientem ente am pla para produzir não apenas um punhado de pioneiras, m as — dentro dos m eios burgueses — um a espécie nova, a "nova m ulher", sobre a qual, de 1880 em diante, os observadores do sexo m asculino teorizaram e discutiram e que foi a protagonista dos escritores "progressistas", com o Nora, de Henrik Ibsen, e Rebecca West, heroína de Bernard Shaw, ou m elhor, anti-heroína.
Na condição da grande m aioria das m ulheres do m undo, das que viviam na Ásia, na África, na Am érica Latina e nas sociedades cam ponesas do sul e do leste europeu, ou m esm o na m aioria das sociedades agrícolas, não havia ainda nenhum a m udança. Havia ocorrido um a pequena m udança na condição da m aioria das m ulheres das classes trabalhadoras em toda parte, exceto, é claro, sob um aspecto crucial. De 1875 em diante as m ulheres do m undo "desenvolvido" visivelm ente com eçaram a ter m enos filhos.
Em sum a, essa parte do m undo agora experim entava, nitidam ente, a assim cham ada "transição dem ográfica" a partir de algum a variante do antigo padrão — em term os aproxim ados, altos índices de natalidade que contrabalançavam altos índices de m ortalidade — passando para o fam iliar padrão m oderno do baixo índice de natalidade com pensado pela baixa m ortalidade. Precisam ente com o e por que sobreveio esta transição, é um dos m aiores enigm as com que se defrontam os historiadores de dem ografia. Historicam ente falando, o acentuado declínio da fertilidade, nos países "desenvolvidos", é absolutam ente novo. A propósito, a ausência, em grande parte do m undo, de um declínio conj unto da fertilidade e da m ortalidade explica a espetacular explosão da população global, desde as duas guerras m undiais; pois, enquanto a m ortalidade tem caído extraordinariam ente, em parte devido à m elhora do padrão de vida, em parte pela revolução na m edicina, o índice de natalidade, na m aior parte do Terceiro Mundo, perm anece alto e apenas está com eçando a declinar após o intervalo de um a geração.
No Ocidente, o declínio das taxas de natalidade e o de m ortalidade eram m elhor coordenados. Am bos, evidentem ente afetavam a vida e os sentim entos das m ulheres — um a vez que o m ais notável desenvolvim ento relativo à m ortalidade era a queda acentuada da m ortalidade dos bebês de m enos de um ano, fato que se tornou inequívoco durante as últim as décadas que precederam 1914. Na Dinam arca, por exem plo, onde a m ortalidade infantil era, em m édia, de 140 em 1.000 crianças nascidas vivas, na década de 1870, a cifra estava em 96, durante os últim os cinco anos precedentes a 1914; nos Países Baixos, os núm eros equivalentes eram quase 200 e pouco m ais de 100. (A título de com paração: na Rússia a m ortalidade infantil perm aneceu em cerca de 250 por 1.000, no início da década de 1900, com parada com 260 em 1870.) Não obstante, é razoável supor que o fato de ter m enos filhos foi, na vida das m ulheres, um a m udança m ais notável do que a de ver sobreviverem m ais filhos seus.
Um índice de natalidade m ais baixo pode ser assegurado tanto se as m ulheres se casarem m ais tarde, com o se m ais m ulheres perm anecerem solteiras (m as presum indo-se que com isto não se eleve o índice de ilegitim idade), ou por m eio de algum a form a de controle da natalidade, o que, no século XIX, predom inantem ente significava abstenção de fazer sexo ou coitus interruptus. (Na Europa, pode-se pôr de lado o infanticídio em m assa.) com efeito, o padrão do casam ento na Europa ocidental, bastante peculiar e que havia prevalecido por m uitos séculos, utilizara todos esses m eios, especialm ente os dois prim eiros. Pois diversam ente do padrão usual de casam ento nos países não ocidentais, pelos quais as m eninas casavam -se cedo e quase nenhum a perm anecia solteira, as m ulheres do Ocidente pré-industrial inclinavam -se a casar tarde, m uitas vezes no final de seus vinte anos, e a proporção de solteiros e solteiras era alta. Por conseguinte, m esm o durante o período de rápido crescim ento populacional nos séculos XVIII e XIX, a taxa de natalidade européia, nos países "desenvolvidos" e em desenvolvim ento do Ocidente, era m ais baixa do que a do Terceiro Mundo no século XX; e a taxa de crescim ento, por m ais espantosa que sej a pelos padrões do passado, era m ais m odesta. Não obstante, e a despeito de um a tendência geral, em bora não universal, no sentido de um a proporção m aior de m ulheres se casarem e de o fazerem m ais j ovens, o índice de natalidade baixou: ou sej a, o controle deliberado da natalidade deve ter-se difundido. Os intensos debates sobre essa questão em ocionalm ente explosiva, m ais livrem ente discutida em alguns países que em outros, são m enos significativos que as silenciosas (fora dos dorm itórios apropriadas) e sólidas decisões de exércitos de casais, com o fim de lim itar a dim ensão de suas fam ílias.
Outrora, decisões tais com o estas haviam sem pre form ado parte da estratégia da m anutenção e extensão dos recursos fam iliares, o que significava — dado serem os europeus, em sua m aioria, gente do cam po — a salvaguarda da transm issão das terras de um a geração para a que lhe sucedia. Os dois m ais surpreendentes exem plos de controle da progênie, a França pós-revolucionária e a Irlanda pós-fom e, foram principalm ente devidos à decisão dos cam poneses ou dos fazendeiros de im pedir a dispersão do patrim ônio fam iliar, reduzindo o núm ero de herdeiros em condições de reivindicar parte dele; no caso francês, pela redução do núm ero de filhos; no caso dos irlandeses, que eram m uito m ais devotos, pela redução do núm ero de hom ens e m ulheres em condições de ter filhos capazes de fazer aquelas reivindicações, o que foi feito elevando-se a idade m édia para o casam ento até o m ais alto ponto europeu em todos os tem pos, m ultiplicando-se os hom ens e m ulheres solteiros — preferivelm ente sob a prestigiosa form a do celibato religioso — e, é claro, exportando-se em m assa os rebentos supérfluos para além -m ar, com o em igrantes. Daí os raros exem plos, num século de crescim ento populacional, de um país (França), cuj a população perm anecia pouco m ais que estável e de outro (Irlanda) cuj a população chegou a cair.
As novas form as de controlar a dim ensão da fam ília não eram , quase certam ente, devidas aos m esm os m otivos. Nas cidades, sem dúvida, eram estim uladas pelo desej o de um padrão de vida m ais alto, particularm ente entre as classes m édias baixas que se m ultiplicavam e cuj os m em bros não se podiam perm itir ao m esm o tem po a despesa decorrente de um a grande ninhada de criancinhas e o acesso a um a oferta m aior de bens de consum o e serviços, agora disponíveis; pois no século XIX ninguém , exceto os velhos indigentes, era m ais pobre que um casal com escassos rendim entos e a casa cheia de crianças. Tam bém eram devidas às m udanças que, a esta altura, tornavam as crianças um fardo cada vez m aior para os pais, um a vez que freqüentavam a escola ou recebiam treinam ento durante um prolongado período, perm anecendo, portanto, econom icam ente dependentes. As proibições relativas ao trabalho de m enores e a urbanização do trabalho reduziram ou elim inaram o m odesto valor econôm ico representado pelas crianças para os pais, por exem plo, em fazendas onde podiam se tornar úteis.
Ao m esm o tem po, o controle da natalidade indicava significativas m udanças culturais, sej a em relação às crianças quanto ao que hom ens e m ulheres esperavam da vida. Se os filhos deviam ser m ais bem -sucedidos que seus pais — e, para a m aioria das pessoas, na era pré-industrial, isto não fora possível nem desej ável — era preciso que tivessem m elhores oportunidades na vida; e fam ílias m enores tornavam possível dedicar m ais tem po, m ais cuidados e m ais recursos a cada um dos filhos. Assim com o, sob um aspecto, um m undo de m udança e de progresso abriria oportunidades de m elhora social e profissional de um a geração para a seguinte, poderia, igualm ente, ensinar aos hom ens e às m ulheres que sua vida não estava lim itada a ser um a réplica da de seus pais. Os m oralistas reprovavam os franceses, com suas fam ílias de apenas um filho ou dois; não pode haver dúvida, porém , de que na privacidade da conversa sobre
travesseiros, isso sugeria novas possibilidades aos casais.[a]
O aum ento do controle da natalidade indica, portanto, certa penetração de novas estruturas, valores e expectativas na esfera das m ulheres trabalhadoras ocidentais. Não obstante, a m aioria delas foi afetada apenas m arginalm ente por esse fato. Na verdade, elas estavam afastadas da "econom ia" convencionalm ente definida com o consistindo naqueles que declaravam ter em prego ou "ocupação" (diferente da do trabalho dom éstico fam iliar). Na década de 1890, cerca de dois terços dos hom ens foram classificados com o "ocupados", nos países "desenvolvidos" da Europa e dos EUA, ao passo que cerca de três quartos das m ulheres — nos EUA, 87% delas —
não estavam nessa categoria.[b] Mais exatam ente, 95% de todos os hom ens casados entre as idades de 18 e 60 anos estavam "ocupados", nesse sentido na década de 1890 (por exem plo, na Alem anha), enquanto apenas 12% das m ulheres casadas o estavam ; em bora m etade das solteiras e cerca de 40% das viúvas fossem "ocupadas".
As sociedades pré-industriais não são inteiram ente repetitivas, m esm o no cam po. As condições da vida m udam e m esm o o padrão da existência fem inina não perm anece igual, através das gerações, conquanto dificilm ente se possa esperar transform ações extraordinárias no decorrer de um período de cinqüenta anos, exceto as resultantes de catástrofes clim áticas ou políticas, ou do im pacto do m undo industrial. No caso da m aioria das m ulheres das zonas rurais exteriores às zonas "desenvolvidas" do m undo, esse im pacto era ainda pouco im portante. O que caracterizava sua vida era a im possibilidade de separar as funções fam iliares e o trabalho. Estas eram levadas a efeito num único am biente, no qual a m aior parte dos hom ens e m ulheres realizavam suas tarefas sexualm ente diferenciadas — tanto naquilo que hoj e consideram os "casa" com o na "produção". Os agricultores precisavam das esposas para o trabalho da fazenda, bem com o para cozinhar e criar os filhos; e os m estres-artesãos e pequenos loj istas necessitavam delas para conduzir seu com ércio. Se existiam ocupações que reuniam hom ens sem m ulheres, durante longos períodos — digam os as dos soldados e m arinheiros —, não existiam ocupações puram ente fem ininas (exceto talvez a prostituição e os divertim entos públicos, a ela assim ilados) que não fossem , norm alm ente, levadas a efeito, a m aior parte do tem po, dentro de um a casa; pois m esm o m ulheres e hom ens solteiros que se em pregavam com o criados e trabalhadores agrícolas "m oravam na casa". Na m edida em que o grosso das m ulheres do m undo continuavam a viver desse m odo, agrilhoadas pelo duplo trabalho e pela sua inferioridade em relação ao hom em , pouco há que dizer sobre elas que não se dissesse igualm ente nos tem pos de Confúcio, de Maom é ou do Velho Testam ento. Elas não estavam fora da história, m as estavam fora da história da sociedade do século XIX.
Havia, realm ente, um núm ero grande e crescente de m ulheres trabalhadoras cuj os padrões de vida haviam sido ou estavam sendo transform ados — não necessariam ente para m elhor — pela revolução econôm ica. O prim eiro aspecto desta revolução que os transform ou foi o que hoj e cham am os "proto-industrialização", um im pressionante aum ento das indústrias dom ésticas e a dom icílio para venda em m ercados m ais am plos. Na proporção em que isto continuava a ser feito num am biente que com binava a produção dom éstica e a de fora de casa, a posição das m ulheres não se m odificou, em bora alguns tipos de m anufatura dom éstica fossem especificam ente fem ininos (por exem plo, as rendas e a palha trançada), oferecendo às m ulheres da zona rural a vantagem , com parativam ente rara, de um m eio de ganhar um pouco de dinheiro vivo, independentem ente do hom em . Contudo, o que as indústrias dom ésticas conseguiram , de m odo geral, foi um a certa erosão das diferenças convencionais entre o trabalho fem inino e o m asculino e, acim a de tudo, um a transform ação da estrutura e da estratégia fam iliar. Era possível m ontar casa tão logo duas pessoas atingissem a idade de trabalhar; os filhos, valiosa adição à força de trabalho da fam ília, podiam ser engendrados em considerar o que aconteceria ao pedaço de terra do qual dependia seu futuro de cam poneses. O m ecanism o tradicional e com plexo destinado a m anter, em relação à própria geração, um equilíbrio entre as pessoas e os m eios de produção dos quais elas dependiam , por m eio do controle da idade do casam ento e da escolha dos parceiros, da dim ensão da fam ília e da herança — esse m ecanism o entrou em colapso. As conseqüências desse fato no crescim ento dem ográfico têm sido m uito discutidas, m as o relevante, neste caso, são as conseqüências m ais im ediatas, relativas às histórias de vida e aos padrões de vida das m ulheres.
Por volta do final do século XIX, as proto-indústrias, em pregassem elas hom ens ou m ulheres, ou am bos, estavam sendo vitim adas por indústrias m aiores, de grande escala e, na verdade, o m esm o sucedia à produção artesanal, nos países industrializados. Falando de m odo global, a "indústria dom éstica" era ainda substancial, e por esse m otivo seus problem as preocupavam cada vez m ais os pesquisadores sociais e os governos. A indústria dom éstica incluía talvez 7% de todos os em pregos industriais, na Alem anha, talvez 19% na Suíça, elevando-se, na Áustria, a 34%, na década de 1890. Essas indústrias, conhecidas com o de "exploração m áxim a", chegaram a expandir-se sob certas circunstâncias, com o auxílio da nova m ecanização em pequena escala (especialm ente a m áquina de costura) e de um a força de trabalho notoriam ente m al paga e explorada. Contudo, perdiam crescentem ente o caráter de "m anufatura fam iliar" na m edida em que sua força de trabalho tornava-se cada vez m ais fem inina e, a propósito, a freqüência obrigatória à escola as privava do trabalho dos m enores, que com um ente era parte integrante delas. À proporção que eram excluídas as ocupações tradicionalm ente proto-industriais — tecelagem em tear m anual, tricotagem , etc. —, a m aioria das indústrias dom ésticas deixou de ser um em preendim ento de fam ília e tornou-se apenas um tipo de trabalho m al pago que as m ulheres podiam fazer em casa, nas águas-furtadas ou nos quintais.
As indústrias dom ésticas pelo m enos perm itiam que elas com binassem trabalho pago com a supervisão da casa e dos filhos. Eis por que tantas m ulheres casadas que precisavam ganhar dinheiro, m as perm aneciam acorrentadas à cozinha e às crianças, acabaram por fazer esses trabalhos. Pois o segundo efeito da industrialização em relação à posição fem inina, e o m ais im portante, foi tam bém m uito m ais drástico: separou a casa do local de trabalho. E, ao fazer isto, excluiu-as em larga m edida da econom ia publicam ente reconhecida — aquela em que eram pagos salários às pessoas — e agravou sua tradicional inferioridade em relação aos hom ens por m eio da nova dependência econôm ica. Os cam poneses, por exem plo, dificilm ente existiriam com o tais sem as esposas. O trabalho agrícola exigia a m ulher, bem com o o hom em . Era absurdo considerar os rendim entos da casa com o ganhos por um dos sexos e não por am bos, m esm o se um deles fosse tido com o dom inante. Mas, na nova econom ia, a renda fam iliar era, tipicam ente e crescentem ente, ganha por pessoas especificáveis, que saíam para trabalhar e retornavam de um a fábrica ou escritório a intervalos regulares e trazendo dinheiro, que era distribuído aos dem ais m em bros da fam ília, os quais, de m odo igualm ente claro, não o ganhavam diretam ente, em bora sua contribuição para a casa fosse essencial de outras m aneiras. Aqueles que traziam o dinheiro não eram necessariam ente apenas os hom ens, ainda que o principal "ganha-pão" fosse tipicam ente um hom em ; m as quem achava difícil levar dinheiro para a casa era tipicam ente a m ulher casada.
Essa separação da casa e do local de trabalho trazia consigo, logicam ente, um padrão de divisão sexual-econôm ica. Para a m ulher, isso significava que seu papel de gerência dom éstica tornava-se sua função prim ordial, especialm ente em casos em que os ganhos fam iliares eram irregulares ou escassos. Isto talvez explique as constantes queixas de fontes da classe m édia, relativas às inadequações das m ulheres das classes trabalhadoras a esse respeito: tais queixas, aparentem ente, não eram com uns na época pré-industrial. É claro que isto produziu um a nova espécie de com plem entaridade entre m arido e m ulher, exceto entre os ricos. Não obstante, ela j á não trazia dinheiro para casa.
O principal "ganha-pão" devia ter com o obj etivo um rendim ento suficiente para m anter todos os seus dependentes. O ganho dele (pois tratava-se tipicam ente de um hom em ) deveria ser, portanto, idealm ente fixado a um nível que não exigisse nenhum a outra contribuição para produzir rendim ento fam iliar suficiente para m anter todos. Inversam ente, os ganhos dos dem ais m em bros da fam ília eram , na m elhor das hipóteses, concebidos com o com plem entares, e isso reforçava a tradicional crença de que o trabalho da m ulher (e o dos m enores, é claro) era inferior e m al pago. Afinal, a m ulher devia receber m enos, desde que não era dela que provinha a renda fam iliar. Um a vez que os hom ens, m ais bem pagos, teriam seus salários reduzidos pela com petição das m ulheres, m al pagas, a sua estratégia lógica era a de excluir, se possível, tal com petição, com pelindo ainda m ais as m ulheres à dependência econôm ica e aos em pregos perenem ente m al pagos. Ao m esm o tem po, do ponto de vista da m ulher, a dependência tornou-se ótim a estratégia econôm ica. De longe, sua m elhor chance de conseguir bons rendim entos era a de ligar-se a um hom em capaz de os ganhar, um a vez que as próprias chances de conseguir tal subsistência costum avam ser m ínim as. Salvo nas m ais altas esferas da prostituição, que não eram m ais fáceis de atingir do que, no futuro, o estrelato em Holly wood, sua m ais prom issora carreira era o casam ento. Mas o casam ento tornava-lhe extrem am ente difícil sair de casa a fim de ganhar dinheiro, m esm o que ela o quisesse, em parte porque os trabalhos dom ésticos e os cuidados aos filhos e ao m arido a m antinham am arrada à casa e, em parte, a própria suposição de que um bom m arido devia ser, por definição, um bom arrim o de fam ília, intensificando a convencional resistência dos hom ens e das m ulheres à idéia de que a esposa trabalhasse. O fato de ela não precisar trabalhar era a prova visível, perante a sociedade, de que a fam ília não estava pauperizada. Tudo conspirava para tornar dependente a m ulher casada. As m ulheres, quase sem pre, trabalhavam antes de casar. Com freqüência eram obrigadas a trabalhar quando enviuvavam ou seus m aridos as abandonavam . Mas não costum avam trabalhar quando casadas. Na década de 1890, apenas 12,8% das m ulheres alem ãs casadas tinham ocupação reconhecida e, na Inglaterra (1911), apenas 10% delas.
Desde que m uitos hom ens adultos claram ente não conseguiam providenciar sozinhos um a subsistência adequada à fam ília, o trabalho pago das m ulheres e crianças era, de fato, e com m uita freqüência, essencial para o orçam ento fam iliar. Além disso, dado serem as m ulheres e crianças m ão-de-obra notoriam ente barata e fácil de intim idar, especialm ente desde que a m aioria dessa força de trabalho consistia em m eninas, a econom ia do capitalism o incentivava-lhes o em prego onde quer que fosse possível — isto é, onde não penetrasse a resistência m asculina, ou a das leis e convenções ou m esm o a da natureza de certas atividades físicas prej udiciais. O trabalho fem inino, portanto, existia e em boa quantidade, m esm o segundo os estreitos critérios do recenseam ento, que quase certam ente subestim avam substancialm ente a quantidade de m ulheres casadas "ocupadas", visto que grande parte do trabalho pago feito por elas não seria declarado com o tal ou não seria diferenciado das tarefas dom esticas com as quais não raro coincidia: receber pensionistas em casa, trabalhar m eio período com o faxineira, lavadeira, etc. Na Inglaterra, 34% das m ulheres m aiores de 10 anos eram "ocupadas", na década de 1880 e na de 1890 — com paradas com 83% dos hom ens; na indústria, a proporção de m ulheres alcançava 18% na Alem anha e 31% na França. O trabalho da m ulher na indústria estava, no início de nossa época, ainda predom inantem ente concentrado nos poucos ram os tipicam ente "fem ininos" notadam ente têxteis e de confecção, m as tam bém e cada vez m ais na indústria de alim entos. Contudo, a m aioria das m ulheres que ganhavam a vida individualm ente o fazia no setor de serviços. O núm ero e a proporção de em pregadas dom ésticas, curiosam ente, variava consideravelm ente. Era, provavelm ente, m aior na Inglaterra que em qualquer outro lugar — talvez duas vezes m aior que na França e na Alem anha — m as desde o final do século com eçou a baixar de m odo notável. No caso extrem o da Inglaterra, onde o núm ero delas dobrou entre 1851 e 1891 (de 1,1 para 2 m ilhões), perm aneceu estável durante o resto do período.
Em tudo e por tudo, pode-se considerar a industrialização do século XIX — utilizando a palavra em seu sentido m ais am plo — com o um processo tendente a expelir as m ulheres, particularm ente as casadas, da econom ia oficialm ente definida com o tal, a saber, aquela na qual apenas as pessoas que recebiam individualm ente ganhos em dinheiro, contavam com o "ocupadas": a espécie de econom ia que incluía o ganho das prostitutas na "renda nacional", pelo m enos em teoria, m as não o fazia no caso de atividades equivalentes, m as não pagas, conj ugais ou extraconj ugais, das dem ais m ulheres; ou que registrava criadas pagas com o "ocupadas", m as trabalho dom éstico não pago com o "desocupação". Produziu-se um a certa m asculinização daquilo que a econom ia reconhecia com o "trabalho", assim com o no m undo burguês, onde o preconceito contra as m ulheres que trabalhavam era m uito m aior e m ais facilm ente aplicável (c f. A Era do Capital, cap. 13:2), produziu-se a m asculinização dos negócios. Na época pré-industrial, as m ulheres que cuidavam pessoalm ente de suas propriedades ou em presas eram reconhecidas, em bora incom uns. No século XIX, foram , cada vez m ais, consideradas aberrações da natureza, a não ser nos níveis sociais m ais baixos, onde a pobreza e o rebaixam ento geral das "ordens inferiores" im possibilitava considerar assim tão "desnaturadas" as m ulheres que perfaziam o grande núm ero das loj istas, das feirantes, das estalaj adeiras e das donas de pensão, das pequenas com erciantes e das prestam istas.
Se a econom ia estava assim m asculinizada, tam bém o estava a política. À m edida que a dem ocratização avançava e o direito de voto — local e nacionalm ente — era concedido, após 1870, as m ulheres eram sistem aticam ente excluídas. A política tornou-se, assim , essencialm ente um assunto de hom em , a ser discutido em tavernas e cafés onde os hom ens se j untavam ou nas reuniões às quais com pareciam , enquanto as m ulheres perm aneciam confinadas à parte privada e pessoal da vida, para a qual a natureza as havia exclusivam ente predisposto (ou assim se argum entava). Tam bém isto era, relativam ente, um a inovação. Na política popular da sociedade pré-industrial, que variava desde as pressões de opinião de um a aldeia, a tum ultos em prol da antiga "econom ia m oral" e às revoluções e barricadas, as m ulheres, pelo m enos as pobres, não só tom aram parte, com o, reconhecidam ente, desem penharam um papel. Na Revolução Francesa, foram as m ulheres de Paris que m archaram sobre Versalhes, a fim de expressar ao rei a exigência do povo de que fossem controlados os preços dos alim entos. Na era dos partidos e das eleições gerais, em purraram -nas para o segundo plano. Se exerciam algum a influência, era apenas por m eio de seus hom ens.
Pela natureza das coisas estes processos afetavam , m ais que quaisquer outras, as m ulheres das novas classes, as m ais típicas do século XIX: as classes m édia e operária. As cam ponesas, as filhas e esposas dos pequenos artesãos, loj istas e equivalentes, continuaram a viver com o haviam vivido, exceto na m edida em que elas ou os hom ens da fam ília eram absorvidos pela nova econom ia. Pela natureza das coisas, as diferenças entre as m ulheres, na nova situação de dependência econôm ica e na antiga situação de inferioridade, não eram , na prática, m uito grandes. Em am bas, os hom ens eram o sexo dom inante, e as m ulheres, seres hum anos de segunda classe: posto que careciam totalm ente de direitos de cidadania, não se podia sequer cham á-las cidadãs de segunda classe. Em am bas, a m aioria delas trabalhava, recebesse pagam ento ou não.
Tanto as m ulheres da classe operária com o as da classe m édia viram sua posição com eçar a m udar, substancialm ente nessas décadas, por m otivos econôm icos. Em prim eiro lugar, as transform ações estruturais e a tecnologia agora alteravam e aum entavam consideravelm ente a perspectiva fem inina de em prego assalariado. A m udança m ais notável, à parte o declínio do em prego dom éstico, foi o aum ento das ocupações que hoj e são prim ordialm ente fem ininas: em pregos em loj as e escritórios. As vendedoras das loj as, na Alem anha, passaram de 32.000 em 1882 (abaixo de um quinto do total) a 174.000 em 1907 (ou cerca de 40% do total). Na Inglaterra, o governo central e local em pregava 7.000 m ulheres em 1881, m as 76.000 em 1911; o núm ero das "funcionárias no com ércio e nas em presas" elevara-se de 6.000 a 146.000 — um tributo à m áquina de escrever. O desenvolvim ento da educação prim ária expandiu o m agistério, um a profissão (subalterna) que, em bom núm ero de países — nos EUA e crescentem ente na Inglaterra —, tornou-se notavelm ente fem inizada. Mesm o na França, em 1891, pela prim eira vez m ais m ulheres que hom ens foram recrutadas para esse exército m al pago e dedicado, o dos "hussardos negros da República", um a vez que m ulheres podiam ensinar m eninos, m as era im pensável subm eter os hom ens às tentações de ensinar um núm ero cada vez m aior de m eninas de escola. Algum as dessas novas aberturas beneficiaram as filhas dos operários, ou m esm o as dos cam poneses, um núm ero m aior beneficiou as filhas das classes m édias e da antiga e nova classe m édia baixa, atraídas particularm ente para cargos que conferiam certa respeitabilidade social ou podiam ser consideradas (às custas da redução de seus níveis salariais) com o
trabalhando para "cobrir pequenas despesas"[c].
Tornou-se óbvia a m udança na posição e nas expectativas sociais das m ulheres durante as últim as décadas do século XIX, em bora os aspectos m ais visíveis da em ancipação fem inina ainda estivessem , em larga m edida, confinados às m ulheres das classes m édias. Entre esses aspectos, não precisam os dar dem asiada atenção ao m ais espetacular de todos: a cam panha ativa e, em países com o a Inglaterra, dram ática das "sufragistas" ou "suffragettes", em prol do direito fem inino ao voto. Com o m ovim ento fem inino independente, não possuía m aior significação, exceto em alguns países (notadam ente EUA e Inglaterra) e, m esm o nestes, não com eçou a atingir seus obj etivos senão após a Prim eira Guerra Mundial. Em países com o a Inglaterra, onde o sufragism o tornou-se um fenôm eno significativo, deu a m edida da força política do fem inism o organizado, m as ao fazer isso revelou igualm ente sua principal lim itação, um apelo restrito principalm ente à classe m édia. Com o outros aspectos da em ancipação das m ulheres, o voto fem inino era vigorosam ente apoiado, em princípio, pelos novos partidos operários e socialistas, que, de fato, ofereciam de longe o am biente m ais favorável para as m ulheres em ancipadas tom arem parte na vida pública, pelo m enos na Europa. No entanto, enquanto essa nova esquerda socialista (diversam ente de partes da antiga esquerda, acentuadam ente m asculina, radical-dem ocrática e anticlerical) coincidia, em parte, com o fem inism o sufragista e era, não raro, atraída por ele, não podia deixar de observar que a m aioria das m ulheres da classe operária lutava contra incapacidades m uito m ais urgentes que a privação do voto político, as quais provavelm ente não seriam rem ovidas autom aticam ente pelo direito de voto; e que não ocupavam o prim eiro plano nas m entes da m aioria das sufragistas da classe m édia.