A Era dos Impérios 1875-1914

Eric J. Hobsbawm · Capítulo 26 de 51

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A Era dos Impérios 1875-1914

Capítulo 3

Estes problem as, na época de que tratam os, não concernem ao econom ista. Um a econom ia baseada na iniciativa privada voltada para o lucro, tal com o a que, inquestionavelm ente, dom inou os países desenvolvidos do Ocidente, não exige analistas para especular sobre quais são exatam ente os indivíduos que constituem a "burguesia". Do ponto de vista do econom ista o príncipe Henckel von Donnersm arck, o segundo hom em m ais rico da Alem anha im perial (após Krupp), era funcionalm ente um capitalista, visto que nove décim os de sua renda provinham de propriedade de m inas de carvão, de ações de bancos e indústrias, sociedade em em preendim entos im obiliários, para não m encionar os 12 a 15 m ilhões de m arcos de rendim entos em j uros. Por outro lado, para o sociólogo e o historiador, o status do príncipe com o aristocrata hereditário está longe de ser irrelevante. O problem a em definir a burguesia como um grupo de homens e mulheres, e a linha divisória que a separa das "classes m édias baixas", portanto, não encontra suporte direto na análise do desenvolvim ento do capitalism o, nesta fase (exceto para os que crêem que o sistem a depende das m otivações pessoais dos indivíduos, com o

em presários particulares[b]) em bora, naturalm ente, reflita m udanças estruturais na econom ia capitalista e possa esclarecer suas form as de organização.

 

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Estabelecer critérios identificáveis era, portanto, urgente para os então m em bros, reais ou virtuais, da burguesia ou da classe m édia e particularm ente para aqueles cuj o dinheiro, por si só, não seria suficiente para a com pra de um status seguro de respeito e privilégio para si e para sua descendência. Três m odos de estabelecer esse pertencim ento adquiriram grande im portância no período — pelo m enos em países em que j á surgia algum a incerteza em relação a "quem era

quem ". [c] Todos exigiam que se preenchessem duas condições: deviam distinguir claram ente os m em bros da classe m édia dos das classes operárias, dos cam poneses e de outros ocupados em trabalhos m anuais, e deviam apresentar um a hierarquia de exclusividade, sem afastar a possibilidade de o candidato galgar os degraus da escadaria social. Um estilo de vida e um a cultura de classe m édia era um destes critérios; um a atividade ociosa e especialm ente a nova invenção, o esporte, era outro; m as o principal indicador do pertencim ento de classe crescentem ente veio a ser, e ficou sendo, a educação form al.

Sua função m ais im portante não era utilitária, a despeito dos retornos financeiros potenciais um a inteligência treinada e ao conhecim ento especializado em um a era baseada, crescentem ente, na tecnologia científica, não obstante tal educação abrir um pouco m ais am plam ente as carreiras à m eritocracia do talento, especialm ente na própria indústria educacional, que se expandia. O que contava era a dem onstração de que os adolescentes tinham condições de adiar a tarefa de ganhar a vida. O conteúdo da educação era secundário e, na realidade, o valor vocacional do grego e do latim , que tanto absorviam o tem po dos m eninos da "escola pública" na Inglaterra, ou o da filosofia, das letras, da história e da geografia, que preenchiam 77% das horas nos lycées franceses (1890), era desprezível. Mesm o na Prússia, cuj a m entalidade era tão prática, os clássicos Gymnasien, em 1885, continham quase três vezes o núm ero de alunos que os Realgymnasien e as Ober-Realschulen, m ais "m odernos" e de m entalidade m ais técnica. Além disso, o custo de oferecer a um a criança tal educação era, por si, um distintivo social. Um funcionário prussiano, que o calculou com m eticulosidade germ ânica, gastou 31% de sua renda com a educação de seus três filhos, durante um período de trinta e um anos.

A educação form al, preferivelm ente coroada por algum diplom a, havia sido, até esse m om ento, irrelevante para a elevação à burguesia, exceto no caso das profissões cultas dentro e fora dos serviços públicos, em cuj o treinam ento consistia a principal função das universidades, ao qual acrescentavam um am biente convidativo para a bebida, a devassidão e as atividades esportivas dos j ovens cavalheiros, para os quais os exam es reais eram absolutam ente sem im portância. Poucos hom ens de negócios do século XIX eram form ados em algum a coisa. A polytechnique francesa da época não constituía atração especial para a elite burguesa. Um banqueiro alem ão, ao aconselhar um industrial incipiente em 1884, rej eitou a teoria e a instrução universitária, considerando-as m eram ente "um m eio de gozar as horas de repouso, com o um charuto depois do alm oço". Aconselhou a entrada im ediata para negócios práticos, a busca de um respaldo financeiro, a observação do que se passava nos EUA e o ganho da experiência, deixando a instrução superior aos "técnicos cientificam ente treinados" que teriam utilidade para os em presários. Do ponto de vista dos negócios isto era sim ples senso com um , apesar de não satisfazer os quadros técnicos. Os engenheiros alem ães exigiam , não sem am argura, "posição social condizente com a significância do engenheiro, na vida".

A instrução escolar oferecia, acim a de tudo, um bilhete de entrada para as faixas m édias e superiores reconhecidas da sociedade e um m eio de socializar aqueles que eram adm itidos, de m odo a distingui-los das ordens inferiores. A própria idade m ínim a em que se deixava a escola, para esse tipo de ingresso — cerca de 16 anos — garantia aos rapazes, em alguns países onde havia alistam ento m ilitar, a classificação com o oficial em potencial. Crescentem ente, a educação secundária até a idade de 18 ou 19 anos tornava-se habitual nas classes m édias; e era norm alm ente seguida de educação universitária ou de treinam ento profissional superior. Os núm eros referentes a isso perm aneceram baixos, em bora aum entassem um pouco no caso da educação secundária e, de m odo m ais im pressionante, no caso da educação superior. Entre 1875 e 1912, o núm ero dos estudantes alem ães m ais que triplicou, o dos estudantes franceses (1875-1910) m ais que quadruplicou. Todavia, ainda em 1910, m enos de 3% das faixas etárias situadas entre os 12 e os 19 anos freqüentavam escolas secundárias (77.500 ao todo) e apenas 2% perm aneceram nelas até os exam es finais, nos quais apenas m etade passou. A Alem anha, com um a população de 65 m ilhões, entrou para a Prim eira Guerra Mundial com um a tropa de cerca de 120.000 oficiais da reserva, ou cerca de 1% dos hom ens entre 20 e 45 anos.

Por m ais m odestos que fossem , esses núm eros eram m uito superiores à dim ensão habitual das classes dom inantes m ais antigas — por exem plo, às 7.000 pessoas que em 1870 detinham 80% de toda a terra de propriedade privada, na Inglaterra, para não m encionar as cerca de 700 fam ília que constituíam o pariato inglês. Eram certam ente dem asiado grandes para a form ação daquelas redes inform ais e pessoais, por m eio das quais a burguesia do início do século XIX conseguiria estruturar-se; e isto, em parte, por estar a econom ia altam ente localizada e em parte porque os grupos m inoritários, religiosos e étnicos, que desenvolveram afinidade especial pelo capitalism o (protestantes franceses, quacres, unitários, gregos, j udeus, arm ênios), originaram redes de m útua lealdade, de parentesco, e de transações com erciais que se estenderam por

países, continentes e oceanos inteiros[d]. No próprio topo da econom ia nacional e internacional essas redes ainda operavam , um a vez que o núm ero de pessoas envolvidas era dim inuto e alguns tipos de negócios, especialm ente bancos e finanças, concentravam -se cada vez m ais num punhado de centros financeiros (geralm ente nas próprias capitais das nações-Estado m ais im portantes). Por volta de 1900, a com unidade dos bancos ingleses, que controlava de fato os negócios financeiros do m undo, consistia em algum as dezenas de fam ílias que m oravam num a pequena área de Londres, que se conheciam entre si, freqüentavam os m esm os clubes e círculos sociais e ligavam -se através de casam entos. A associação do aço do Reno-Westfália, que se com punha da m aioria da indústria do aço alem ã, consistia em 28 em presas. O m aior de todos os trustes, a United States Steel, foi form ado por um punhado de hom ens em conversas inform ais; e finalm ente concretizado durante j antares e j ogos de golfe.

A grande burguesia genuína, antiga ou recente, não tinha, portanto, grandes dificuldades para se organizar com o elite, j á que podia utilizar m étodos m uito sem elhantes aos da aristocracia, ou m esm o — com o na Inglaterra —, os próprios m ecanism os desta. Na realidade, sem pre que possível, seu obj etivo era, cada vez m ais, o de coroar o êxito com ercial pela entrada na classe nobre, pelo m enos por m eio dos seus filhos e filhas, se não por m eio de um estilo de vida aristocrático. É um erro considerar isso um a sim ples abdicação dos valores burgueses perante antigos valores aristocráticos. Para com eçar, a socialização por m eio de escolas de elite (ou outras) fora não m enos im portante para a aristocracia tradicional do que para a burguesia. Na m edida em que essa socialização adquiriu im portância, com o nas "escolas públicas" inglesas, assim ilou os valores aristocráticos em um sistem a m oral destinado a um a sociedade burguesa e para seus serviços públicos. Além disso, o teste dos valores aristocráticos tornava-se agora, e cada vez m ais, um estilo de vida dissoluto e dispendioso que exigia acim a de tudo dinheiro, viesse de onde viesse. O dinheiro, portanto, tornou-se seu critério. O aristocrata proprietário de terras, genuinam ente tradicional, na m edida em que não conseguia m anter tal estilo de vida e as atividades a este associadas, isolava-se num m undo provinciano em desaparecim ento, ainda leal e altivo m as socialm ente m arginal, com o os personagens de Theodor Fontane, em Der Stechlin (1895), um a poderosa elegia aos velhos valores junker do antigo Brandem burgo. A grande burguesia utilizava os m ecanism os da aristocracia com o o faria com qualquer escolha de elite, para os seus próprios fins.

O verdadeiro teste das escolas e universidades, com o agências socializadoras, era para aqueles que galgavam a escada social e não para os que j á haviam atingido o topo. Transform ou o filho de um j ardineiro não-conform ista de Salisbury num lente de Cam bridge e o filho deste, via Eton e King's College, no econom ista John May nard Key nes, tão obviam ente m em bro de um a elite polida e segura de si que ainda nos espantam os ao pensar no am biente da infância de sua m ãe, entre tabernáculos batistas provincianos — e todavia ele foi, até o fim , um altivo m em bro de sua classe, à qual, m ais tarde, cham ou de "burguesia educada".

Não adm ira que a espécie de escolaridade que oferecia o status burguês, provável ou certo, expandiu-se para atender ao aum ento do núm ero dos que haviam adquirido fortuna, porém não status (com o vovô Key nes); para aqueles cuj o status burguês dependia, tradicionalm ente, da educação, com o era o caso dos filhos dos pastores protestantes pobres, bem com o o dos filhos dos profissionais m ais liberalm ente rem unerados e para um a m ultidão de pais m enos "respeitáveis", am biciosos em relação a seus filhos. Desenvolveu-se, pois, a educação secundária, principal portal de entrada. O núm ero dos alunos m ultiplicou-se por algo situado entre dois (Bélgica, França, Noruega, Países Baixos) e cinco (Itália). O núm ero dos estudantes, nas universidades que lhes ofereciam a garantia de se tornarem m em bros das classes m édias, quase triplicou na m aioria dos países europeus, entre finais da década de 1870 e o ano de 1913. (Durante as décadas precedentes perm anecera relativam ente estável.) De fato, por volta da década de 1880, os observadores alem ães preocuparam -se com a adm issão às universidades de m ais estudantes do que os setores econôm icos da classe m édia podiam acom odar.

O problem a da "genuína classe m édia alta" — ou, digam os, dos sessenta e oito "grandes industriais" que, de 1895 a 1907, se j untaram aos cinco j á instalados na m ais elevada classe de contribuintes, em Bochum (Alem anha) — era o fato de um a tão generalizada expansão educacional j á não oferecer em blem as de status suficientem ente exclusivos. Ao m esm o tem po, no entanto, a grande burguesia não podia separar-se form alm ente de seus inferiores, pois suas estruturas precisavam m anter-se abertas a novos m em bros — um a vez que esta era a natureza de seu ser — e porque precisavam m obilizar, ou pelo m enos conciliar, as classes m édias e as inferiores, a fim de enfrentar as classes operárias, sem pre m ais m obilizadas. Daí a insistência dos observadores não-socialistas de que a "classe m édia" não só crescia m as adquiria enorm e dim ensão. O tem ível Gustav von Schm oller, m aioral dos econom istas alem ães, achava que a classe m édia perfazia um quarto da população, m as nisto incluía não só os novos "funcionários, gerentes e técnicos, recebendo bons porém m oderados salários", m as tam bém os capatazes e operários qualificados. Som bart, de igual m odo, avaliava a classe m édia em 12,5 m ilhões, contra 35 m ilhões de operários. Esses eram essencialm ente cálculos de eleitores potencialm ente anti-socialistas. Um a avaliação generosa dificilm ente ultrapassaria os 300 m il, considerados com o perfazendo o "público investidor" de fins da era vitoriana e da era eduardiana, na Inglaterra. Em qualquer caso, os próprios m em bros das classes m édias estavam longe de abrir os braços às ordens inferiores, ainda quando estes usassem colarinho e gravata. Um observador inglês, m ais caracteristicam ente, tratava sum ariam ente as classes m édias inferiores com o pertencentes, com os operários, ao "m undo das escolas elem entares".

No interior dos sistem as em que a entrada era aberta, portanto, tinham de ser estabelecidos círculos de exclusividade inform al, m as definitiva. Isto era m ais fácil num país com o a Inglaterra, que não tinha educação prim ária pública até 1870 (e a freqüência à escola não viria a ser com pulsória senão daí a vinte anos), nem educação secundária pública até 1902 nem qualquer tipo de educação universitária significativa fora das duas antigas universidades, Oxford

e Cam bridge[e]. Num erosas escolas, inadequada m as surpreendentem ente cham adas "públicas", foram fundadas para a classe m édia de 1840 em diante. Seguiam o m odelo das nove antigas fundações, reconhecidas com o tais em 1870 e j á servindo de viveiro para a nobreza e os grandes proprietários, especialm ente Eton. Em princípios da década de 1900 haviam -se expandido e form avam um a lista de cerca de 64 até 160 escolas — dependendo do seu grau de exclusividade e esnobism o —, relativam ente dispendiosas, que pretendiam tal status e treinavam deliberadam ente seus alunos para serem m em bros da classe dom inante. Um grupo de escolas secundárias particulares, principalm ente no norte e no leste dos EUA, preparava, tam bém , os filhos das boas fam ílias, ou, de qualquer m odo, das fam ílias ricas, para o polim ento final das universidades particulares de elite.

Dentro destas, com o dentro do grande corpo dos estudantes universitários alem ães, grupos ainda m ais exclusivos eram recrutados por associações privadas — tais com o o Korps dos

estudantes ou pelas m ais prestigiadas fraternidades de letras gregas[f] —, cuj o lugar, nas antigas universidades inglesas, foi tom ado pelos "colégios residenciais". As burguesias de fins do século XIX eram , portanto, um a estranha com binação de sociedades fechadas m as educacionalm ente abertas: abertas, por ser a entrada franqueada em virtude do dinheiro, ou m esm o (por m eio de bolsas de estudos e outras providências destinadas a estudantes pobres) do m érito, m as fechadas, na m edida em que era claram ente dado a entender que alguns círculos eram consideravelm ente m ais iguais que outros. A exclusividade era puram ente social. Os estudantes do Korps alem ão, m uito dados à cervej a e cheios de cicatrizes, duelavam a fim de provar que eram (ao contrário das ordens inferiores) satisfaktionsfähig, ou m elhor, que eram cavalheiros e não plebeus. Às sutis gradações de status, nas escolas particulares inglesas, eram estabelecidas por aquelas que se dispunham a entrar em com petições esportivas, contra outras — ou m elhor, que tinham irm ãs com possibilidades de ser parceiras convenientes para um casam ento. O grupo das universidades am ericanas de elite, pelo m enos no Leste, era efetivam ente definido pela exclusividade social do esporte: na Ivy League, elas j ogavam um as contra as outras.

Para aqueles que ascendiam à grande burguesia, esses m ecanism os de socialização garantiam inquestionavelm ente a qualidade de m em bro para seus filhos. A educação acadêm ica para as filhas era opcional, e fora dos círculos liberais e progressistas não era garantida. Apresentava, porém , vantagens práticas definidas. A instituição dos "antigos cam aradas" (Alte Herren alumni) que se desenvolvem rapidam ente desde a década de 1870, dem onstrava que os produtos de um estabelecim ento educacional form avam um a rede que poderia ser nacional ou m esm o internacional, m as que ao m esm o tem po ligava as gerações m ais novas às m ais velhas. Em sum a, oferecia coesão social a um grupo heterogêneo de recrutas. Tam bém aqui o esporte proporcionava boa parte do elem ento form al de ligação. Por m eios tais, um a escola, um colégio, u m Korps ou um a fraternidade — revisitados e com freqüência financiados por seus antigos alunos — form ava um a espécie de m áfia potencial ("am igos de am igos") para auxílio m útuo, que não era m enor nos negócios; e, por sua vez, a rede dessas "extensões fam iliares" de pessoas presum ivelm ente de status social e econôm ico equivalente oferecia um entrelaçam ento de contatos potenciais além do alcance dos parentes ou dos negócios regionais ou locais. Nas palavras do guia às fraternidades colegiais am ericanas, ao observar o enorm e crescim ento das associações de antigos alunos Beta Theta Phi possuía capítulos listando ex-alunos em 16 cidades em 1889, m as 110 em 1912 —, elas form avam "círculos de hom ens cultos que de outro m odo não se conheceriam ".