A Era dos Impérios 1875-1914

Eric J. Hobsbawm · Capítulo 6 de 51

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A Era dos Impérios 1875-1914

Capítulo 3

A educação de m assa — assegurada à época nos países desenvolvidos por um ensino prim ário cada vez m ais universalizado, prom ovido ou supervisionado pelos Estados — deve ser distinguida da educação e da cultura das geralm ente pequenas elites. Neste ponto, as diferenças entre os dois setores daquela faixa do planeta onde a alfabetização era conhecida eram m enores, em bora a educação superior de estratos com o os intelectuais europeus, eruditos m uçulm anos ou hindus e m andarins do leste asiático tivesse pouco em com um (a m enos que tam bém se adequassem ao padrão europeu). O analfabetism o de m assa, com o na Rússia, não excluía a existência de um a cultura esplêndida, em bora restrita a um a ínfim a m inoria. Entretanto, certas instituições caracterizavam a região "desenvolvida" ou a dom inação européia, sobretudo a

universidade essencialm ente secular, que não existia fora dessa zona[g], e, por m otivos diferentes, a ópera (ver o m apa em A Era do Capital). Am bas as instituições refletiam a penetração da civilização "ocidental" dom inante.

 

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Definir a diferença entre partes avançadas e atrasadas, desenvolvidas e não desenvolvidas do m undo é um exercício com plexo e frustrante, pois tais classificações são por natureza estáticas e sim ples, e a realidade que deveria se adequar a elas não era nenhum a das duas coisas. O que definia o século XIX era a m udança: m udanças em term os de e em função dos obj etivos das regiões dinâm icas do litoral do Atlântico norte, que eram , à época, o núcleo do capitalism o m undial. Com algum as exceções m arginais e cada vez m enos im portantes, todos os países, m esm o os até então m ais isolados, estavam , ao m enos perifericam ente, presos pelos tentáculos dessa transform ação m undial. Por outro lado, até os m ais "avançados" dos países "desenvolvidos" m udaram parcialm ente através da adaptação da herança de um passado antigo e "atrasado", e continham cam adas e parcelas da sociedade resistentes à transform ação. Os historiadores quebram a cabeça procurando a m elhor m aneira de form ular e apresentar essa m udança universal, porém diferente em cada lugar, a com plexidade de seus padrões e interações e suas principais tendências.

A m aioria dos observadores dos anos 1870 teria ficado m uitíssim o m ais im pressionada por sua linearidade. Em term os m ateriais, em term os de conhecim ento e de capacidade de transform ar a natureza, parecia tão patente que a m udança significava avanço, que a história — de todo m odo a história m oderna — parecia sinônim o de progresso. O progresso era m edido pela curva sem pre ascendente de tudo que pudesse ser m edido, ou que os hom ens escolhessem m edir. O aperfeiçoam ento contínuo, m esm o das coisas que obviam ente ainda precisavam ser aperfeiçoadas, era garantido pela experiência histórica. Parecia difícil acreditar que, há pouco m ais de três séculos, europeus inteligentes tivessem considerado a agricultura, as técnicas m ilitares e até a m edicina da Rom a antiga com o m odelo para suas próprias; que há escassos dois séculos pudesse ter havido um debate sério sobre se os m odernos algum dia poderiam superar as realizações dos antigos; que no final do século XVIII especialistas pudessem ter duvidado que a população da Grã-Bretanha estava aum entando.

Era na tecnologia e em sua conseqüência m ais óbvia, o crescim ento da produção m aterial e da com unicação, que o progresso era m ais evidente. A m aquinaria m oderna era predom inantem ente m ovida a vapor e feita de ferro e de aço. O carvão se tornara a fonte de energia industrial m ais im portante, fornecendo 95% do total da Europa (fora a Rússia). Os regatos de m ontanha da Europa e da Am érica do Norte, que inicialm ente determ inavam a localização de tantos cotonifícios — cuj o nom e evoca, em inglês, a im portância da energia

hidráulica[h] —, voltaram à atividade rural. Por outro lado, as novas fontes de energia, eletricidade e petróleo ainda não eram m uito significativas, em bora por volta dos anos 1880 a geração de eletricidade em grande escala e o m otor de com bustão interna estivessem com eçando a se tornar viáveis. Nem m esm o os EUA afirm aram ter m ais que cerca de 3 m ilhões de lâm padas elétricas em 1890, e no início dos anos 1880 a econom ia industrial européia m ais m oderna, a Alem anha, consum ia m enos de 400 m il toneladas de petróleo por ano.

Além de inegável e triunfante, a tecnologia m oderna era extrem am ente visível. Suas m áquinas de produção, em bora não fossem m uito potentes pelos padrões atuais — na Grã-Bretanha a m édia de 20 HP em 1880 —, costum avam ser grandes, ainda feitas principalm ente de ferro, com o se pode constatar nos m useus de tecnologia. Mas os m aiores e m ais potentes m otores do século XIX eram os m ais visíveis e audíveis de todos. Eram as 100 m il locom otivas (200-450 HP) que puxavam seus quase 2,75 m ilhões de carros e vagões, em longas com posições, sob bandeiras de fum aça. Elas faziam parte da inovação de m aior im pacto do século, sequer sonhada cem anos antes ao contrário das viagens aéreas —, quando Mozart escreveu suas óperas. Vastas redes de trilhos reluzentes, correndo por aterros, pontes e viadutos, passando por atalhos, atravessando túneis de m ais de quinze quilôm etros de extensão, por passos de m ontanha da altitude dos m ais altos picos alpinos, o conj unto das ferrovias constituía o esforço de construção pública m ais im portante j á em preendido pelo hom em . Elas em pregavam m ais hom ens que qualquer outro em preendim ento industrial. Os trens alcançavam o centro das grandes cidades — onde suas façanhas triunfais eram festej adas com estações ferroviárias igualm ente triunfais e gigantescas — e às m ais rem otas áreas da zona rural, onde não penetrava nenhum outro vestígio da civilização do século XIX. Por volta do início dos anos 1880 (1882), quase 2 bilhões de pessoas viaj avam por ano pelas ferrovias, a m aioria delas, naturalm ente, na Europa (72 por cento) e na Am érica do Norte (20 por cento). À época, nas regiões "desenvolvidas" do Ocidente, m uito poucos hom ens, talvez m esm o m uito poucas m ulheres, cuj a m obilidade era m ais restrita, deixaram de entrar em contato com a ferrovia em algum m om ento de suas vidas. É provável que o único outro subproduto da tecnologia m oderna m ais universalm ente conhecido fosse a rede de linhas telegráficas em sua infindável sucessão de postes de m adeira, com um a quilom etragem três ou quatro vezes superior à da totalidade das ferrovias do m undo inteiro.

Os 22 m il navios a vapor do m undo em 1882, em bora provavelm ente ainda m ais potentes com o m áquinas que as locom otivas, alem de serem m uito m enos num erosos e apenas visíveis pela pequena m inoria de seres que chegavam até perto dos portos, eram num certo sentido m uito m enos típicos. Pois ainda representavam (m as por m argem m ínim a) um a tonelagem m enor, m esm o na industrializada Grã-Bretanha, que os navios a vela. Quanto à navegação m undial com o um todo, ainda havia, em 1880, quase três toneladas dependentes do vento para cada tonelada m ovida a vapor. Nos anos 1880, isto estava com eçando a m udar im ediata e radicalm ente, a favor do vapor. A tradição ainda reinava nas águas, especialm ente no que tange a construção, carga e descarga de navios, apesar da passagem da m adeira ao ferro e da vela ao vapor.

Que atenção os observadores leigos sérios da segunda m etade dos anos 1870 teriam dado aos avanços revolucionários da tecnologia que j á estavam em gestação ou nascendo à época: os vários tipos de turbinas e m otores de com bustão interna, o telefone, o gram ofone e a lâm pada elétrica incandescente (todos sendo inventados), o autom óvel, que Daim ler e Benz tornaram operacional nos anos 1880, sem falar do cinem atógrafo, da aeronáutica e da radiotelegrafia, produzidos ou pesquisados nos anos 1890? Quase com certeza eles teriam esperado e previsto o desenvolvim ento im portante de qualquer coisa ligada à eletricidade, à fotografia e à síntese quím ica, com as quais estavam bastante fam iliarizados, e não se surpreenderiam se a tecnologia conseguisse resolver um problem a tão óbvio e tão urgente com o a invenção de um m otor m óvel para a m ecanização do transporte rodoviário. Não poderiam ter antecipado as ondas de rádio e a radioatividade. Certam ente teriam feito especulações — e quando foi que os seres hum anos não fizeram ? — sobre as perspectivas de vôo hum ano, e teriam ficado esperançosos, dado o otim ism o tecnológico da época. Não há dúvida de que as pessoas estavam ávidas de novas invenções, quanto m ais espetaculares m elhor. Thom as Alva Edison, que m ontou o que foi provavelm ente o prim eiro laboratório privado de desenvolvim ento industrial em 1876, em Menlo Park, Nova Jersey, tornou-se um herói am ericano com seu prim eiro fonógrafo, em 1877. Mas eles provavelm ente não teriam previsto as transform ações efetivas que essas inovações acarretaram na sociedade de consum o, pois, na verdade, à exceção dos EUA, elas perm aneceriam relativam ente m odestas até a Prim eira Guerra Mundial.

Assim , o progresso era m ais visível na capacidade de produção m aterial e de com unicação rápida e am pla no m undo "desenvolvido". É quase certo que os benefícios dessa m ultiplicação da riqueza não tenham se estendido, nos anos 1870, à esm agadora m aioria dos habitantes da Ásia, África e, à exceção de um a parte do Cone Sul, Am érica Latina. Não é clara qual foi a proporção das pessoas das penínsulas do sul da Europa e do Im pério Czarista afetadas por eles. Mesm o no m undo "desenvolvido", tais benefícios eram distribuídos de m aneira m uito desigual num a população com posta de 3,5% de ricos, 13-14% de classe m édia e 82-83% de classes trabalhadoras, segundo a classificação oficial francesa dos funerais da República, nos anos 1870 ( ve r A Era do Capital, capítulo 12). Entretanto, era difícil negar um a certa m elhoria nas condições das pessoas com uns. O aum ento da estatura hum ana, tornando hoj e cada geração m ais alta que a de seus pais, provavelm ente com eçara por volta de 1880 em diversos países — m as de m odo algum em todos e de m aneira m uito m odesta, quando com parado ao que teve lugar após 1880 ou m esm o m ais tarde. A nutrição é, de longe, a razão m ais decisiva para esse aum ento da estatura hum ana. A esperança de vida m édia ao nascer ainda era bastante m odesta

nos anos 1880: 43-45 anos nas principais regiões "desenvolvidas"[i], em bora m enos de 40 na Alem anha e 48-50 na Escandinávia. (Nos anos 1960, seria de cerca de 70 anos nestes países.) Contudo, a esperança de vida sem dúvida aum entara bastante no decorrer do século, em bora o declínio im portante da m ortalidade infantil, que afeta sobrem aneira essa cifra, estivesse apenas com eçando.

Em sum a, a m aior esperança dos pobres, m esm o nas partes "desenvolvidas" da Europa, era ainda, provavelm ente, ganhar o suficiente para m anter corpo e alm a j untos, ter um teto sobre a cabeça e roupas suficientes, sobretudo nas idades m ais vulneráveis de seu ciclo vital, quando os filhos ainda não estavam em idade de trabalhar e quando hom ens e m ulheres envelheciam . Nas partes "desenvolvidas" da Europa, m orrer de fom e j á não era um a contingência possível. Mesm o na Espanha, a últim a fom e de grandes proporções ocorreu nos anos 1860. Entretanto, na Rússia a fom e continuava representando um risco de vida significativo: haveria um a im portante carestia em 1890-1891. No que m ais tarde seria cham ado de Terceiro Mundo ela perm aneceu endêm ica. Era indubitável a em ergência de um setor substancial de cam poneses prósperos, com o tam bém , em alguns países, a de um setor de trabalhadores m anuais "respeitáveis" que, devido à sua qualificação ou ao seu núm ero reduzido, tinham a possibilidade de poupar dinheiro e com prar m ais do que o essencial para a sobrevivência. Mas a verdade é que o único m ercado cuj a renda era de natureza a tentar os em presários e hom ens de negócios era o dos rendim entos m édios. A inovação m ais notável na distribuição foi a loj a de departam entos, introduzida pioneiram ente na França, na Am érica e na Grã-Bretanha, e que com eçava a penetrar na Alem anha. O Bon Marché ou o Whiteley's Universal Emporium ou o Wanamakers não visavam um público de classe trabalhadora. Os EUA, com seu enorm e potencial de consum idores, j á tinham em vista um m ercado de m assas de bens padronizados de nível m édio, m as até ali o m ercado de m assa

dos pobres (o m ercado five-and-dime [j ], ainda ficava entregue às pequenas empresas que achavam que valia a pena ser fornecedor dos pobres. A m oderna produção em m assa e a econom ia do consum o de m assa ainda não haviam chegado. Chegariam m uito em breve.

Mas o progresso tam bém parecia evidente no que as pessoas ainda preferiam cham ar de "estatísticas m orais". A alfabetização estava em franca expansão. Não seria indicativo de crescim ento de civilização o fato de o núm ero de cartas enviadas na Grã-Bretanha no início das guerras contra Napoleão, talvez duas por ano por habitante, ter passado a cerca de 42 na prim eira m etade dos anos 1880? Que 186 m ilhões de exem plares de j ornais e revistas fossem publicados por m ês nos EUA de 1880, contra 330 m il em 1788? Que em 1880 as pessoas que se dedicavam à ciência, associando-se às sociedades cultas, talvez fossem 44 m il, provavelm ente quinze vezes m ais que cinqüenta anos antes? Não há dúvida de que a m oralidade, conform e m edida pelos dados m uito duvidosos das estatísticas crim inais e pelas estim ativas fantasiosas dos que desej avam (com o tantos vitorianos) condenar o sexo fora do m atrim ônio, m anifestava um a tendência m enos certa ou satisfatória. Mas o progresso das instituições, que se encam inhavam ao constitucionalism o liberal e à dem ocracia, visível em todas as partes nos países "avançados", não poderia ser considerado com o um sinal de progresso m oral, com plem entar aos extraordinários êxitos científicos e m ateriais da época? Quantos teriam discordado de Mandell Creighton, bispo anglicano e historiador, que afirm ou que "som os obrigados a reconhecer, com o a hipótese científica a partir da qual a história tem sido escrita, um progresso nas questões hum anas"?

Poucos, nos países "desenvolvidos"; em bora, com o alguns poderiam observar, esse consenso fosse relativam ente recente até nessas regiões do m undo. No resto do m undo, a m aioria das pessoas nem teria entendido a proposta do bispo, m esm o que tivessem pensado sobre ela. A novidade, especialm ente quando trazida de fora por gente da cidade é estrangeiros, era algo que perturbava velhos hábitos arraigados, m ais do que algo portador de progresso; de fato, predom inavam os indícios de que ela trazia perturbação, ao passo que os indícios de m elhoria eram fracos e pouco convincentes. Nem o m undo progredia, nem esperava-se que progredisse: posição tam bém defendida vigorosam ente no m undo "desenvolvido" por aquele firm e opositor de tudo que o século XIX representou, a Igrej a Católica Rom ana (ver A Era do Capital, cap. 6:1). No m áxim o, se a época era difícil por razões outras que os caprichos da natureza ou da divindade, com o a fom e, a seca e as epidem ias, devia-se esperar a restauração da norm alidade da vida hum ana através de um retorno à fé verdadeira, que de algum m odo fora abandonada (por exem plo, os ensinam entos do Sagrado Corão) ou através de um retorno a um passado, real ou suposto, de j ustiça e ordem . Sej a com o for, a velha sabedoria e os velhos hábitos eram m elhores, ao passo que o progresso im plicava que os j ovens podiam ensinar aos velhos.

Assim sendo, o "progresso" fora dos países avançados não era nem um fato óbvio nem um a suposição plausível, m as sobretudo um perigo e um desafio estrangeiros. Os que se beneficiavam com ele e o acolhiam favoravelm ente eram as reduzidas m inorias de governantes e citadinos que se identificavam com os valores adventícios e irreligiosos. Os que os franceses no Norte da África cham avam , significativam ente, de évolués "evoluídos" — eram , a esta altura, j ustam ente os que haviam rom pido com seu passado e com seu povo; que foram às vezes coagidos a rom per (abandonando a lei islâm ica, por exem plo, com o no Norte da África), se quisessem desfrutar dos benefícios da cidadania francesa. Havia, ainda, poucos lugares, m esm o nas regiões atrasadas da Europa adj acentes às zonas avançadas ou circundadas por elas, onde os hom ens do cam po ou os heterogêneos pobres urbanos estavam dispostos a aceitar a liderança de m odernizadores abertam ente antitradicionalistas, com o descobririam m uitos dos novos partidos socialistas.

O m undo estava, portanto, dividido num a parte m enor, onde o "progresso" nascera, e outra, m uito m aior, onde chegara com o conquistador estrangeiro, aj udado por m inoria de colaboradores locais. Na prim eira, até a m assa das pessoas com uns agora acreditava que o progresso era possível e desej ável e m esm o que, sob certos aspectos, estava ocorrendo. Na França, nenhum político sensato em cam panha e nenhum partido significativo se definiam com o "conservadores"; nos Estados Unidos, o "progresso" era um a ideologia nacional; até na Alem anha im perial — o terceiro grande país a adotar o sufrágio universal m asculino nos anos 1870 — os partidos que se diziam "conservadores" receberam m enos de um quarto dos votos nas eleições gerais daquela década.

Mas se o progresso era tão poderoso, tão universal e tão desej ável, com o explicar essa relutância em acolhê-lo ou m esm o em participar dele? Seria sim plesm ente o peso m orto do passado que gradual, desigual porém inevitavelm ente seria tirado dos om bros daquelas parcelas da hum anidade que ainda se dobravam sob seu peso? Em breve não seria erguida um a ópera, aquela catedral característica da cultura burguesa, em Manaus, m il e seiscentos quilôm etros acim a da foz do Am azonas, no m eio da floresta equatorial prim itiva, com os lucros do boom da borracha, cuj as vítim as indígenas sequer teriam , lam entavelm ente, oportunidade de apreciar Il Trovatore? Grupos de paladinos dos novos hábitos j á não estavam à frente dos destinos de seus países, com o os cham ados científicos no México, ou se preparando para isso, com o o tam bém significativam ente cham ado Com itê para a União e o Progresso (m ais conhecido com o Jovens Turcos) no Im pério Otom ano? O próprio Japão não rom pera séculos de isolam ento para adotar hábitos e idéias ocidentais — e se tornar um a grande potência m oderna, com o seria dem onstrado em breve pela prova conclusiva do triunfo e da conquista m ilitares?

Contudo, a im possibilidade ou a recusa da m aioria dos habitantes do m undo de viver à altura do exem plo dado pelas burguesias ocidentais era m ais notória que os êxitos das tentativas de im itá-lo. Talvez não se pudesse esperar senão que os habitantes conquistadores do Prim eiro Mundo, ainda capazes de m enosprezar os j aponeses, concluíssem que am plas categorias da hum anidade eram biologicam ente incapazes de realizar aquilo que um a m inoria de seres hum anos de pele teoricam ente branca — ou, m ais restritam ente, pessoas de cepa européia — havia sido a única a se m ostrar capaz. A hum anidade foi dividida segundo a "raça", idéia que penetrou na ideologia do período quase tão profundam ente com o a de "progresso"; aqueles cuj o lugar nas grandes celebrações internacionais do progresso, as Exposições Mundiais (ver A Era do Capital, cap. 2), era nos stands do triunfo tecnológico e aqueles cuj o lugar era nos "pavilhões coloniais" ou nos "povoados nativos" que agora os com pletavam . Até nos próprios países "desenvolvidos", a hum anidade estava cada vez m ais dividida na cepa enérgica e talentosa da classe m édia e nas m assas indolentes, condenadas à inferioridade por suas deficiências genéticas. Apelava-se à biologia para explicar a desigualdade, em particular aqueles que se sentiam destinados à superioridade.

Ainda assim , o apelo à biologia tam bém tornava m ais dram ático o desespero daqueles cuj os planos para a m odernização de seus países foram de encontro à incom preensão e à resistência silenciosas de seus povos. Nas repúblicas da Am érica Latina, ideólogos e políticos, inspirados nas revoluções que haviam transform ado a Europa e os EUA, pensaram que o progresso de seus países dependia da "arianização" — ou sej a, do "branqueam ento" progressivo do povo através de casam ento inter-racial (Brasil) ou de um verdadeiro repovoam ento por europeus brancos im portados (Argentina). Suas classes dirigentes eram , por certo, brancas — ou ao m enos assim se consideravam — e os sobrenom es não ibéricos dos descendentes de europeus eram e ainda são desproporcionalm ente freqüentes nos integrantes de suas elites políticas. Mas até no Japão, por m enos provável que pareça hoj e, a "ocidentalização" parecia suficientem ente problem ática nesse período, a ponto de sugerir que ela só poderia ser realizada com êxito por m eio de um a inj eção do que hoj e cham aríam os de genes ocidentais (ver A Era do Capital, caps. 8 e 14).

Essas incursões no charlatanism o pseudocientífico (cf. cap. 10) acentuaram ainda m ais o contraste entre o progresso com o aspiração universal, de fato real, e o caráter parcial de seu avanço concreto. Apenas alguns países pareciam estar se transform ando, a ritm os diferentes, em econom ias industrial-capitalistas, estados liberal-constitucionalistas e sociedades burguesas segundo o m odelo ocidental. Mesm o dentro de países ou com unidades, a defasagem entre os "avançados" (que em geral eram tam bém os ricos) e os "atrasados" (que em geral eram tam bém os pobres) era enorm e e acentuada, com o a classe m édia j udaica próspera, civilizada e assim ilada dos países ocidentais e da Europa central descobririam m uito em breve, quando confrontados com os 2,5 m ilhões de pessoas da m esm a religião que em igraram para o oeste, saindo de seus guetos da Europa oriental. Esses bárbaros realm ente podiam ser o mesmo povo "que nós"?

E será que a m assa de bárbaros do interior e do exterior era grande a ponto de confinar o progresso a um a m inoria, que garantia a civilização apenas porque conseguia m anter os bárbaros sob controle? Não fora dito pelo próprio John Stuart Mill que "o despotism o é um m odo de governo legítim o para se lidar com os bárbaros, desde que a finalidade sej a seu avanço"? Mas havia outro dilem a, e m ais profundo, no progresso. Aonde, na verdade, levava? Supondo que a conquista total da econom ia m undial e a m archa para a frente de um a ciência e um a tecnologia triunfantes, da qual a prim eira dependia cada vez m ais, fossem de fato inegáveis, universais, irreversíveis e, portanto, inevitáveis. Supondo que por volta dos anos 1870 as tentativas de contê-las ou m esm o de retardá-las iam ficando cada vez m ais irrealistas e enfraquecidas, e que até m esm o as forças dedicadas à conservação das sociedades tradicionais às vezes j á tentavam atingir seu obj etivo usando as arm as da sociedade m oderna, assim com o os pregadores da verdade literal da Bíblia hoj e usam os com putadores e a m ídia eletrônica. Supondo m esm o que o progresso político, sob a form a de governos representativos, e progresso m oral, sob a form a de alfabetização e leitura am plam ente dissem inadas, continuariam ou até se acelerariam . Será que o progresso levaria a um avanço da civilização coincidente com as aspirações do século do progresso, com o articuladas pelo j ovem John Stuart Mill: um m undo, ou m esm o um país, "m ais aperfeiçoado; m ais notável nas m elhores características do Hom em e da Sociedade; m ais à frente no cam inho da perfeição; m ais feliz, m ais nobre, m ais sábio"?

Por volta dos anos 1870, o progresso do m undo burguês chegara a um ponto em que vozes m ais céticas ou m esm o m ais pessim istas, com eçaram a ser ouvidas. E elas eram reforçadas pela situação em que o m undo se encontrava nos anos 1870, e que poucos haviam previsto. Os alicerces econôm icos da civilização que avançava foram abalados por trem ores. Após um a geração de expansão sem precedentes, a econom ia m undial estava em crise.

 

[a] A Era das Revoluções, cap. 1, estuda esse m undo m ais antigo.

[b] Para um côm puto m ais com pleto desse processo de globalização, ver A Era do Capital, caps.

3 e 11.

[c] A cifra que exprim e o PNB per capita é um a construção puram ente estatística: produto

nacional bruto dividido pelo núm ero de habitantes. Em bora sej a útil para efeitos de com parações

gerais do crescim ento econôm ico de diferentes países e/ou períodos, não nos diz nada sobre a

renda ou padrão de vida reais de qualquer de seus habitantes, ou sobre a distribuição da renda na

região, a não ser que, teoricam ente, em um país com renda per capita alta haveria m ais a

distribuir que em outro onde essa cifra fosse m ais reduzida.

[d] Entre o século V d.C. e 1453, a sobrevivência do Im pério Rom ano conheceu fortuna variável,

com sua capital em Bizâncio (Istam bul) e o cristianism o ortodoxo com o religião oficial. O czar

russo, com o seu nom e indica (czar = César; Tzarigrado — "cidade do im perador" ainda é o nom e

eslavo de Istam bul), considerava-se o sucessor desse im pério, e Moscou com o "a terceira

Rom a".

[e] Essa região passou a fazer parte da Rom ênia em 1918, e desde 1947 integra a República

Soviética da Ucrânia.

[f] O fato de os analfabetos não terem direito de voto, sem falar da tendência aos golpes

m ilitares, faz com que sej a im possível descrever as repúblicas latino-am ericanas com o

"dem ocráticas" sob qualquer aspecto.

[g] A universidade ainda não era necessariam ente a instituição m oderna para o avanço do

conhecim ento, segundo o m odelo alem ão do século XIX que estava se dissem inando no Ocidente

à época.

[h] Cotonifício: cotton mill; a palavra mill, incluída no nom e, significa m oinho, daí a associação.

(N. da T.)

[i] Bélgica, Grã-Bretanha, França, Massachusetts, Holanda, Suíça.

[j ] Five-and-dime: cinco e dez centavos de dólar. (N. da T.)