A Era dos Impérios 1875-1914

Eric J. Hobsbawm · Capítulo 47 de 51

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A Era dos Impérios 1875-1914

Capítulo 2

Contudo, a guerra m undial não pode ser explicada com o um a conspiração de fabricantes de arm as, m esm o fazendo os técnicos, com certeza, o m áxim o para convencer generais e alm irantes, m ais fam iliarizados com paradas m ilitares do que com a ciência, de que tudo estaria perdido se eles não encom endassem o últim o tipo de arm a ou navio de guerra. Não há dúvida de que a acum ulação de arm am ento, que atingiu proporções tem íveis nos últim os cinco anos anteriores a 1914, tornou a situação m ais explosiva. Não há dúvida de que havia chegado o m om ento, ao m enos no verão europeu de 1914, em que a m áquina inflexível que m obilizava as forças da m orte não poderia m ais ser estocada. Porém a Europa não foi à guerra devido à corrida arm am entista com o tal, m as devido à situação internacional que lançou as nações nessa com petição.

 

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A discussão sobre a gênese da Prim eira Guerra Mundial tem sido ininterrupta desde agosto de 1914. Provavelm ente correu m ais tinta, m ais árvores foram sacrificadas para fazer papel, m ais m áquinas de escrever trabalharam para responder a essa pergunta do que a qualquer outra na história — inclusive talvez o debate em torno da Revolução Francesa. À m edida que as gerações se sucediam , que a política nacional e internacional ia sendo transform ada, o debate foi ressurgindo. Mal a Europa m ergulhara na catástrofe, os beligerantes com eçaram a se perguntar por que a diplom acia internacional não conseguira evitá-la e a atribuir-se m utuam ente a responsabilidade. Aqueles que se opunham à guerra iniciaram im ediatam ente suas análises. A Revolução Russa de 1917, que publicou os docum entos secretos do czarism o, acusou o im perialism o com o um todo. Os aliados vitoriosos criaram a tese da culpa de guerra, exclusivam ente alem ã, pedra angular do tratado de paz de Versalhes de 1919 e geradora de um im enso fluxo de textos docum entários e de propaganda histórica a favor e, sobretudo, contra essa tese. Naturalm ente, a Segunda Guerra Mundial fez esse debate ser retom ado, e ele foi revigorado alguns anos depois, quando tornou a surgir um a historiografia de esquerda na República Federal Alem ã, que, ansiosa para rom per com as ortodoxias conservadoras e patrióticas nazi-alem ã, elaborou sua própria versão da responsabilidade da Alem anha. As discussões sobre os perigos para a paz m undial, que, por m otivos óbvios, nunca cessaram após Hiroshim a e Nagasaki, procuram inevitavelm ente possíveis paralelos entre as origens das guerras m undiais passadas e as perspectivas internacionais atuais. Enquanto os propagandistas preferiram a com paração com os anos anteriores à Segunda Guerra Mundial ("Munique"), os historiadores encontram cada vez m ais sim ilitudes entre os problem as dos anos 1980 e 1910. Assim , as origens da Prim eira Guerra Mundial eram , um a vez m ais, um a questão de im portância candente e im ediata. Nessas circunstâncias, qualquer historiador que tente explicar, com o deve fazer um historiador do nosso período, por que ocorreu a Prim eira Guerra Mundial, m ergulha em águas profundas e turbulentas.

Contudo, podem os ao m enos sim plificar essa tarefa elim inando perguntas a que o historiador não tem que responder. A m ais im portante delas é aquela da "culpa de guerra", que se refere a um j ulgam ento m oral e político m as tem a ver apenas perifericam ente com os historiadores. Se estam os interessados em saber por que um século de paz européia cedeu o lugar a um a época de guerras m undiais, perguntar de quem foi a culpa é tão fútil quanto perguntar se Guilherm e, o Conquistador, tinha um bom m otivo legal para invadir a Inglaterra o é para o estudo da razão pela qual os guerreiros da Escandinávia partiram para conquistar num erosas áreas da Europa nos séculos X e XI.

É claro que nas guerras as responsabilidades m uitas vezes podem ser identificadas. Poucos negariam que nos anos 1930 a atitude da Alem anha era essencialm ente agressiva e expansionista e que a de seus adversários era essencialm ente defensiva. Ninguém negaria que as guerras de expansão im perial em nossa época, com o a Guerra Hispano-Am ericana de 1898 e a Sul-Africana de 1899-1902, foram provocadas pelos EUA e pela Grã-Bretanha e não por suas vítim as. Sej a com o for, todo m undo sabe que os governos de todos os Estados do século XIX, por m ais preocupados que estivessem com suas relações públicas, consideravam a guerra um a contingência norm al da política internacional e eram honestos o bastante para adm itir que bem podiam tom ar a iniciativa m ilitar. Os Ministérios da Guerra ainda não se cham avam , eufem isticam ente, Ministérios da Defesa.

Contudo, é indubitável que nenhum governo de qualquer um a das grandes potências de antes de 1914 queria sej a um a guerra européia generalizada, sej a m esm o — ao contrário dos anos 1850 e 1860 — um conflito m ilitar restrito com outra grande nação européia. Isto é conclusivam ente dem onstrado pelo fato de que nos lugares onde as am bições políticas das grandes nações entravam em conflito direto, ou sej a, nas zonas ultram arinas de conquistas e partilhas coloniais, seus num erosos confrontos eram sem pre resolvidos por algum acordo pacífico. Até as m ais graves dessas crises, as de Marrocos em 1906 e 1911, foram contornadas. Às vésperas de 1914, os conflitos coloniais não pareciam m ais colocar problem as insolúveis às várias nações concorrentes — fato que tem sido usado, de m odo bastante ilegítim o, com o argum ento para afincar que as rivalidades im perialistas foram irrelevantes na deflagração da Prim eira Guerra Mundial.

É evidente que as nações estavam longe de ser pacíficas, quanto m enos pacifistas. Elas se

prepararam para um a guerra européia — às vezes erroneam ente[b] — m esm o fazendo seus m inistros da Relações Exteriores o m áxim o para evitar o que eles unanim em ente consideravam um a catástrofe. Nos anos 1900, nenhum governo tinha obj etivos que, com o os de Hitler em 1930, só pudessem ser atingidos por m eio da guerra ou da am eaça constante de guerra. Até a Alem anha — cuj o com andante do Estado-Maior defendeu em vão um ataque antecipado em 1904-1905 contra a França, enquanto sua aliada, a Rússia, estava im obilizada pela guerra e, m ais tarde, pela derrota e pela revolução — só usou a oportunidade oferecida pela fraqueza e isolam ento tem porários da França para fazer avançar suas reivindicações im perialistas sobre Marrocos, um problem a adm inistrável em torno do qual ninguém pretendia com eçar, nem com eçou, um a guerra im portante. Nenhum governo de potências im portantes, nem os m ais am biciosos, frívolos e irresponsáveis, queria um a guerra de grandes proporções. O velho im perador Francisco José, ao anunciar a deflagração dessa guerra a seus condenados súditos em 1914, estava sendo totalm ente sincero ao dizer "Eu não quis que isso acontecesse" ("Ich hab es nicht gewollt"), m esm o tendo sido seu governo que, de fato, a provocou.

O m áxim o que se pode afirm ar é que, a partir de um certo ponto do lento escorregar para o abism o, a guerra pareceu tão inevitável que alguns governos decidiram que a m elhor coisa a fazer seria escolher o m om ento m ais propício, ou m enos desfavorável, para iniciar as hostilidades. Afirm a-se que a Alem anha procurou esse m om ento a partir de 1912, m as dificilm ente poderia ter sido antes. Sem dúvida, durante a crise final de 1914 — precipitada pelo irrelevante assassinato de um arquiduque austríaco por um estudante terrorista num a cidade de província dos confins dos Bálcãs — a Áustria sabia que corria o risco de um a guerra m undial ao provocar a Sérvia; e a Alem anha, ao decidir dar total apoio à sua aliada, transform ou o risco quase num a certeza. "A balança está pendendo contra nós", disse o m inistro da Guerra austríaco em 7 de j ulho. Não era m elhor guerrear antes que pendesse m ais? A Alem anha seguiu a m esm a linha de raciocínio. Apenas nessa linha restrita a pergunta sobre "culpa de guerra" tem algum sentido. Mas com o os acontecim entos m ostraram no verão de 1914, ao contrário de crises anteriores, a paz fora anulada por todas as nações — até pelos britânicos, que os alem ães tinham esperanças parciais de que ficassem neutros, aum entando assim suas chances de derrotar tanto a

França com o a Rússia[c]. Nenhum a das grandes nações teria dado o golpe de m isericórdia na paz, nem m esm o em 1914, se não estivesse convencida de que seus ferim entos j á eram m ortais.

Portanto, descobrir as origens da Prim eira Guerra Mundial não eqüivale a descobrir "o agressor". Ele repousa na natureza de um a situação internacional em processo de deterioração progressiva, que escapava cada vez m ais ao controle dos governos. Gradualm ente a Europa foi se dividindo em dois blocos opostos de grandes nações. Tais blocos, fora de um a guerra, eram novos em si m esm os e derivavam , essencialm ente, do surgim ento no cenário europeu de um Im pério Alem ão unificado, constituído entre 1864 e 1871 por m eio da diplom acia e da guerra, às custas dos outros (cf. A Era do Capital, cap. 4), e procurava se proteger contra seu principal perdedor, a França, através de alianças em tem pos de paz, que geraram contra-alianças. As alianças, em si, em bora im plicassem a possibilidade da guerra, não a tornavam nem certa nem m esm o provável. Assim , o chanceler alem ão Bism arck, que foi o cam peão do j ogo de xadrez diplom ático m ultilateral por quase trinta anos após 1871, dedicou-se com exclusividade e sucesso à m anutenção da paz entre as nações. Um sistem a de blocos de nações só se tornou um perigo para a paz quando as alianças opostas se consolidaram com o perm anentes, m as especialm ente quando as disputas entre eles se transform aram em confrontos inadm inistráveis. Isto aconteceria no novo século. A pergunta crucial é: por quê?

Contudo, não havia m aiores diferenças entre as tensões internacionais que levaram à Prim eira Guerra Mundial e as que são subj acentes ao perigo de um a terceira, que as pessoas, nos anos 1980, ainda esperam evitar. Nunca houve, desde 1945, a m ínim a dúvida quanto aos principais adversários num a terceira guerra m undial: os EUA e a URSS. Mas, em 1880, as coalizões de 1914 não eram previstas. Naturalm ente, alguns aliados e inim igos potenciais eram fáceis de discernir. A Alem anha e a França estariam em lados opostos, quanto m ais não fosse porque a Alem anha anexara grandes porções da França (Alsácia-Lorena) após sua vitória em 1871. Tam bém não era difícil prever a perm anência da aliança entre Alem anha e Áustria-Hungria, forj ada por Bism arck após 1866, pois o equilíbrio interno do novo Im pério Alem ão tornou essencial m anter vivo o m ultinacional Im pério Habsburgo. Sua desintegração em fragm entos nacionais não apenas levaria, com o Bism arck bem sabia, à ruína do sistem a de Estados da Europa central e oriental, com o destruiria tam bém a base de um a "pequena Alem anha" dom inada pela Prússia. De fato, am bas as coisas aconteceram após a Prim eira Guerra Mundial. O traço diplom ático m ais perm anente do período 1871-1914 foi a "Tríplice Aliança" de 1882, que na verdade era um a aliança austro-alem ã, j á que o terceiro participante, a Itália, logo se afastaria para finalm ente se unir ao cam po antialem ão em 1915.

Um a vez m ais era óbvio que a Áustria, envolvida nos turbulentos assuntos dos Bálcãs devido a seus problem as m ultinacionais, e, m ais profundam ente que nunca, depois de ter conquistado a

Bósnia-Herzegovina em 1878, se achava em oposição à Rússia naquela região[d]. Em bora Bism arck tenha feito o m áxim o para m anter relações estreitas com a Rússia, era previsível que cedo ou tarde a Alem anha seria forçada a escolher entre Viena e São Petersburgo e que só podia optar por Viena. Adem ais, um a vez que a Alem anha tinha desistido da opção russa, com o aconteceu no final da década de 1880, era lógico que a Rússia e a França se unissem — com o de fato o fizeram em 1891. Friedrich Engels cogitara dessa aliança ainda nos anos 1880, naturalm ente dirigida contra a Alem anha. Assim sendo, no início da década de 1890, dois grupos de nações se enfrentavam na Europa inteira.

Em bora as relações internacionais tenham ficado m ais tensas, não era inevitável um a guerra européia generalizada, quanto m ais não sej a porque os problem as que separavam a França da Alem anha (ou sej a a Alsácia-Lorena) não tinham interesse para a Áustria, e os que representavam um risco de conflito entre a Áustria e a Rússia (o nível de influência da Rússia nos Bálcãs) eram insignificantes para a Alem anha. Os Bálcãs, observou Bism arck, não valiam os ossos de um único granadeiro pom eraniano. A França não tinha reais brigas com a Áustria, nem a Rússia com a Alem anha. Por isso, os problem as que separavam a França da Alem anha, em bora perm anentes, dificilm ente seriam considerados m erecedores de um a guerra pela m aioria dos franceses, e os que separavam a Áustria da Rússia, em bora — com o 1914 m ostrou — potencialm ente m ais graves, só se colocavam interm itentem ente. Três problem as transform aram o sistem a de aliança num a bom ba-relógio: a situação do fluxo internacional, desestabilizado por novos problem as e am bições m útuas entre as nações, a lógica do planej am ento m ilitar conj unto que congelou os blocos que se confrontavam , ornando-os perm anentes, e a integração de um a quinta grande nação, a Grã-Bretanha, a um dos blocos, (ninguém se preocupou m uito com as tergiversações da Itália, que só era um a "grande nação" por cortesia internacional). Entre 1903 e 1907, para surpresa geral — incluindo a sua própria — a Grã-Bretanha se uniu ao lado antialem ão. A origem da Prim eira Guerra Mundial pode ser m elhor entendida acom panhando-se o surgim ento desse antagonism o anglo-germ ânico.

A Tríplice Entente foi surpreendente tanto para os inim igos com o para os aliados britânicos. No passado, a Grã-Bretanha não tinha tradição nem qualquer m otivo perm anente de atrito com a Prússia — e o m esm o parecia ser verdade em relação à super-Prússia conhecida agora com o Im pério Alem ão. Por outro lado, a Grã-Bretanha fora antagonista quase autom ática da França em quase todas as guerras européias desde 1688. Mesm o isso não sendo m ais verdade, quanto m ais não fosse porque a França deixara de ser capaz de dom inar o continente, o atrito entre os dois países era visivelm ente crescente, ao m enos porque am bos com petiam pelo m esm o território e influência com o nação im perialista. Assim , as relações eram pouco am istosas no que tange ao Egito, cuj o controle era cobiçado por am bas, m as foi tom ado pelos britânicos (j unto com o Canal de Suez, financiado pela França). Durante a crise de Fashoda, de 1898, pareceu que haveria derram am ento de sangue, pois as tropas coloniais rivais britânicas e francesas se enfrentaram no interior do Sudão. Na divisão da África, os ganhos de um eram , no m ais das vezes, às custas do outro. No que tange à Rússia, os im périos britânico e czarista haviam sido antagonistas perm anentes na zona dos Bálcãs e do Mediterrâneo da assim cham ada "Questão Oriental" e nas áreas, m al definidas porém am argam ente disputadas, da Ásia central e ocidental que ficavam entre a Índia e as terras do czar: Afeganistão, Irã e as regiões com saída para o Golfo Pérsico. A perspectiva de ver russos em Constantinopla — e portanto no Mediterrâneo — e de um a expansão russa em direção à Índia era um pesadelo constante para os chanceleres britânicos. Os dois países haviam inclusive se enfrentado na única das guerras européias do século XVIII de que a Grã-Bretanha participou (a Guerra da Crim éia) e nos anos 1870 um a guerra russo-britânica era m uito provável.

Dado o m odelo consagrado de diplom acia britânica, um a guerra contra a Alem anha era um a possibilidade tão rem ota que devia ser ignorada. Um a aliança permanente com qualquer nação continental parecia incom patível com a m anutenção do equilíbrio de poder, que era o principal obj etivo da política externa britânica. Um a aliança com a França seria considerada im provável, um a com a Rússia quase im pensável. Contudo, o im plausível se tornou realidade: a Grã-Bretanha se vinculou de form a perm anente à França e à Rússia contra a Alem anha, resolvendo todas as diferenças com a Rússia, a ponto de concordar com a ocupação, por esta, de Constantinopla — oferta que desapareceu do horizonte com a Revolução Russa de 1917. Com o e por que se produziu essa surpreendente transform ação?

Aconteceu porque am bos os j ogadores, bem com o as regras do j ogo tradicional da diplom acia internacional, m udaram . Em prim eiro lugar, o tabuleiro em que era j ogado ficou m uito m aior. A rivalidade entre as potências, confinada antes em grande m edida à Europa e áreas adj acentes (com exceção dos britânicos), era agora global e im perial — fora a m aior parte das Am éricas, destinada com exclusividade à expansão im perial dos EUA pela Doutrina Monroe de Washington. Agora era igualm ente provável que as disputas internacionais que tinham que ser resolvidas, para não degenerarem em guerras, ocorressem na África ocidental e no Congo nos anos 1880, na China no final da década de 1890, no Magreb (1906, 1911) e no corpo em decom posição do Im pério Otom ano, m uito m ais provavelm ente que em torno de qualquer problem a na Europa não-balcânica. Adem ais, agora havia m ais dois j ogadores: os EUA — que, em bora ainda evitando envolvim ento com problem as europeus, desenvolviam um expansionism o ativo no Pacífico — e o Japão. Na verdade, a aliança britânica com o Japão (1902) foi o prim eiro passo rum o à Tríplice Aliança, pois a existência daquela nova potência, que em breve m ostraria que podia inclusive derrotar o Im pério czarista na guerra, reduziu a am eaça que a Rússia representava para a Grã-Bretanha, fortalecendo assim a posição britânica. Tornou, portanto, possível o esvaziam ento de antigas disputas russo-britânicas.

A globalização do j ogo de poder internacional transform ou autom aticam ente a situação do país, que fora até então a única das grandes potências com obj etivos políticos realm ente m undiais. Não é exagero dizer que durante a m aior parte do século XIX a função da Europa nos cálculos diplom áticos britânicos era ficar quieta para que a Grã-Bretanha pudesse dar continuidade a suas atividades, principalm ente econôm icas, no resto do planeta. Esta era a essência da com binação característica de um equilíbrio europeu de poder com a Pax Britannica, garantido pela única m arinha de dim ensões m undiais que controlava todos os oceanos e orlas m arítim as do globo. Em m eados do século XIX, todas as outras m arinhas do m undo, j untas, m al ultrapassavam o tam anho da m arinha britânica sozinha. No final do século j á não era assim .

Em segundo lugar, com o surgim ento de um a econom ia industrial capitalista m undial, o j ogo internacional se desenrolava em torno de apostas bastante diferentes. Isso não significa que — adaptando a fam osa frase de Clausewitz — a guerra agora fosse apenas a continuação da concorrência econôm ica por outros m eios. Esta opinião tentou os determ inistas históricos à época, quanto m ais não fosse porque observavam m uitos exem plos de expansão econôm ica por m eio de m etralhadoras e canhoneiras. Entretanto, era um a sim plificação grosseira. Mesm o tendo o desenvolvim ento capitalista e o im perialism o responsabilidade na derrapagem descontrolada do m undo em direção a um conflito m undial, é im possível argum entar que m uitos dos capitalistas fossem provocadores conscientes da guerra. Qualquer estudo im parcial das publicações do setor de negócios, da correspondência particular e com ercial dos hom ens de negócios, de suas declarações públicas enquanto porta-vozes dos bancos, do com ércio e da indústria m ostra, de m odo bastante conclusivo, que a m aioria dos hom ens de negócios achava a paz internacional vantaj osa para eles. De fato, a guerra em si era aceitável som ente na m edida em que não interferisse nos "negócios com o de costum e", e a principal obj eção do j ovem econom ista Key nes (que ainda não era um reform ador radical de sua área) era que a guerra não apenas m atava seus am igos, m as tam bém inviabilizava um a política econôm ica baseada nos "negócios com o de costum e". Havia, naturalm ente, expansionistas econôm icos belicosos, m as o j ornalista liberal Norm an Angell exprim ia quase com certeza o consenso do m undo dos negócios: a crença de que a guerra beneficiava o capital era A Grande Ilusão, título de seu livro de 1912.

De fato, por que os capitalistas — m esm o os industriais, com a possível exceção dos fabricantes de arm as — desej ariam perturbar a paz internacional, quadro essencial de sua prosperidade e expansão, se o tecido da liberdade internacional para negociar e o das transações financeiras dependiam dela? Evidentem ente, os que foram bem -sucedidos na concorrência internacional não tinham m otivos de queixa. Assim com o a liberdade de penetrar no m ercado m undial não apresenta desvantagem para o Japão hoj e, a indústria alem ã podia estar bem contente com ela antes de 1914. Os perdedores pediriam , naturalm ente, proteção econôm ica a seus governos, o que é, contudo, m uito diferente de pedir guerra. Adem ais, o m aior dos perdedores potenciais, a Grã-Bretanha, resistiu até contra esses pedidos, e seus interesses econôm icos perm aneceram , em sua esm agadora m aioria, vinculados à paz, apesar do constante tem or da concorrência alem ã, ruidosam ente expressa nos anos 1890, e da penetração j á efetiva do capital alem ão e am ericano no m ercado interno britânico. No que tange às relações anglo-am ericanas, podem os inclusive ir m ais longe. Se apenas a concorrência econôm ica bastasse para um a guerra, a rivalidade anglo-am ericana deveria logicam ente ter preparado o terreno para um conflito m ilitar — com o alguns m arxistas do entre-guerra ainda pensavam que fosse ocorrer. Contudo, foi precisam ente entre os anos 1900 que o Estado-Maior im perial britânico abandonou até os m ais rem otos planos de em ergência para um a guerra anglo-am ericana. Daí em diante, essa possibilidade ficou totalm ente excluída.

No entanto, o desenvolvim ento do capitalism o em purrou o m undo inevitavelm ente em direção a um a rivalidade entre os Estados, à expansão im perialista, ao conflito e à guerra. Após 1870, com o os historiadores m ostraram ,

 

"a passagem do m onopólio à concorrência talvez tenha sido o fator isolado m ais im portante

na preparação da m entalidade propícia ao em preendim ento industrial e com ercial europeu.

Crescim ento econôm ico tam bém era luta econôm ica — luta que servia para separar os

fortes dos fracos, para desencoraj ar alguns e endurecer outros, para favorecer as nações

novas e fam intas às custas das antigas. O otim ism o em relação a um futuro de progresso

indefinido cedeu o lugar à incerteza e a um sentim ento de agonia, no sentido clássico do

term o. Tudo isso, por sua vez, reforçando e sendo reforçado pelo acirram ento das

rivalidades políticas, as duas form as de concorrência que surgiam ".

 

A econom ia m undial deixara totalm ente de ser, com o fora em m eados do século XIX, um sistem a solar girando em torno de um a estrela única, a Grã-Bretanha. Em bora as transações financeiras e com erciais do planeta ainda, na verdade cada vez m ais, passassem por Londres, a Grã-Bretanha j á não era, evidentem ente, a "oficina do m undo", nem seu principal m ercado im portador. Ao contrário, seu declínio relativo era patente. Um certo núm ero de econom ias industriais nacionais agora se enfrentavam m utuam ente. Sob tais circunstâncias a concorrência econôm ica passou a estar intim am ente entrelaçada com as ações políticas, ou m esm o m ilitares, do Estado. O ressurgim ento do protecionism o durante a Grande Depressão foi a prim eira conseqüência dessa fusão. Do ponto de vista do capital, o apoio político passaria a ser essencial para m anter a concorrência estrangeira a distância, e talvez tam bém essencial em regiões do m undo onde as em presas de econom ias industriais nacionais com petiam um as com as outras. Do ponto de vista dos Estados a econom ia passou a ser desde então tanto a base m esm a do poder internacional com o seu critério. Agora era im possível conceber um a "grande nação" que não fosse ao m esm o tem po um a "grande econom ia" — transform ação ilustrada pelo ascenso dos EUA e pelo enfraquecim ento relativo do Im pério Czarista.

Inversam ente, as transform ações que ocorreram no poder econôm ico, que m udaram autom aticam ente o equilíbrio entre força política e m ilitar, não acarretariam um a redistribuição de papéis no cenário internacional? Esta era um a opinião francam ente popular na Alem anha, cuj o assom broso crescim ento industrial lhe conferiu um peso internacional incom paravelm ente m aior que o que tivera a Prússia. Não foi por acaso que entre os alem ães nacionalistas de 1890, o velho cântico patriótico "O sentinela do Reno", dirigido exclusivam ente contra os franceses, perdeu rapidam ente terreno frente às am bições globais do "Deutschland Über Alles", que se tornou, de fato, o hino nacional alem ão, em bora ainda não oficialm ente.

O que tornou essa identificação entre poder econôm ico e político-m ilitar tão perigosa foram não apenas as rivalidades nacionais pelos m ercados m undiais e recursos m ateriais e pelo controle de regiões, com o no Oriente Próxim o e Médio, onde os interesses econôm icos e estratégicos tantas vezes se sobrepunham . Bem antes de 1914, a petro-diplom acia j á era um fator crucial no Oriente Médio, sendo vitoriosas a Grã-Bretanha e a França, as em presas de petróleo ocidentais (m as ainda não am ericanas) e um interm ediário arm ênio, Calouste Gulbenkian, que garantiu 5% para si próprio. Inversam ente, a penetração econôm ica e estratégica alem ã no Im pério Otom ano j á preocupava os britânicos e aj udou a situar a Turquia do lado da Alem anha durante a guerra. Mas a novidade da situação residia em que, dada a fusão entre econom ia e política, nem a divisão pacífica das áreas disputadas em "zonas de influência" podia m anter a rivalidade internacional sob controle. A única coisa que poderia controlá-la — com o sabia Bism arck, que a adm inistrou com incom parável habilidade entre 1871 e 1889 —, era a lim itação deliberada de obj etivos. Se os Estados pudessem definir seus obj etivos diplom áticos com precisão — um a determ inada m udança nas fronteiras, um casam ento dinástico, um a "com pensação" definível pelos avanços de outros Estados — tanto o cálculo com o o acordo seriam possíveis. Mas nenhum a das duas excluía — com o o próprio Bism arck com provara entre 1862 e 1871 — o conflito m ilitar controlado.

Mas o traço característico da acum ulação capitalista era j ustam ente não ter lim ite. As "fronteiras naturais" da Standard Oil, do Deutsche Bank, da De Beers Diam ond Corporation estavam situadas nos confins do universo, ou antes, nos lim ites de sua capacidade de expansão. Foi este aspecto dos novos padrões da política m undial que desestabilizou as estruturas da política m undial tradicional. Enquanto o equilíbrio e a estabilidade perm aneciam a condição fundam ental das nações européias em suas relações recíprocas, em outros lugares nem as m ais pacíficas hesitavam em recorrer à guerra contra os fracos. Tinham sem dúvida, com o vim os, o cuidado de m anter seus conflitos coloniais sob controle. Estes nunca pareceram constituir casus belli para um a guerra de grandes proporções, m as com certeza precipitaram a form ação de blocos internacionais e finalm ente beligerantes: o que se tornou o bloco anglo-franco-russo com eçou com o "entendim ento cordial" anglo-francês (Entente Cordiale) de 1904, essencialm ente um a negociação im perialista através da qual os franceses desistiram de reivindicar o Egito, e, em troca, a Grã-Bretanha apoiaria suas reivindicações relativas ao Marrocos — um a vítim a na qual a Alem anha tam bém estava de olho. Entretanto, todas as nações, sem exceção, estavam com ânim o expansionista e conquistador. Até a Grã-Bretanha — cuj a postura era fundam entalm ente defensiva, dado que seu problem a era com o proteger seu dom ínio global, até então incontestado, contra os novos intrusos — atacou as repúblicas sul-africanas; ela tam bém não hesitou em pensar em dividir as colônias de outro Estado europeu, Portugal, com a Alem anha. No oceano do planeta, todos os Estados eram tubarões e todos os estadistas sabiam disso.

Mas o que tornou o m undo um lugar ainda m ais perigoso foi a equação tácita de crescim ento econôm ico ilim itado e poder político, que veio a ser aceita inconscientem ente. Assim , o im perador alem ão pediu, nos anos 1890, "um lugar ao sol" para seu Estado. Bism arck poderia ter reivindicado o m esm o — e, de fato, conquistara um lugar m uitíssim o m ais poderoso no m undo para a nova Alem anha do que a Prússia j am ais desfrutara. Contudo, Bism arck podia definir as dim ensões de suas am bições, evitando cuidadosam ente entrar no terreno das zonas sem controle, ao passo que para Guilherm e II a frase se tornou um m ero slogan sem conteúdo concreto. Form ulava sim plesm ente um princípio de proporcionalidade: quanto m ais poderosa for a econom ia de um país, m aior será sua população, m aior o lugar internacional de sua nação-Estado. Assim , não havia lim ites teóricos ao lugar que ele podia sentir que lhe cabia. Com o dizia a frase nacionalista: "Heute Deutschland, morgen die ganze Welt" (Hoj e a Alem anha, am anhã o m undo inteiro). Tal dinam ism o ilim itado pode ser expresso na retórica política, cultural ou nacionalista-racista: m as o real denom inador com um dos três níveis era a necessidade im periosa de expandir um a econom ia capitalista m aciça, observando suas curvas estatísticas dispararem para cim a. Sem isso sua significação seria tão reduzida com o, digam os, a dos intelectuais poloneses do século XIX, que acreditavam num a m issão m essiânica de seu (então não existente) país no m undo.

Em term os práticos, o perigo não era a Alem anha se propor concretam ente a tom ar o lugar britânico de potência m undial, em bora a retórica da agitação nacionalista alem ã tenha prontam ente batido na tecla antibritânica. O perigo residia antes em que um poder global exigia um a m arinha global, e a Alem anha em preendeu (1897), portanto, a construção de um a grande esquadra de guerra, que tinha a vantagem incidental de representar não os velhos estados alem ães, m as exclusivam ente a nova Alem anha unificada, com um oficialato que representava não os junkers prussianos ou qualquer outra tradição guerreira aristocrática, m as a nova classe m édia, ou sej a, a nova nação. O próprio alm irante Tirpitz, paladino da expansão naval, negou ter planej ado um a m arinha capaz de derrotar a britânica, afirm ando que só queria um a força naval am eaçadora o bastante para forçar a Grã-Bretanha a apoiar as suas reivindicações globais e, especialm ente, coloniais. Além disso, seria possível esperar-se que um país do porte da Alem anha não tivesse um a m arinha à altura de sua im portância?

Do ponto de vista britânico, a construção de um a esquadra de guerra alem ã — m ais que um m ero aum ento da tensão para sua m arinha j á excessivam ente com prom etida a nível m undial e j á superada pela som a das esquadras das nações rivais, antigas e m odernas — significava o aum ento das dificuldades em m anter, sequer, seu obj etivo m ais m odesto: o de ser m ais forte que as duas outras m aiores m arinhas, com binadas (o "padrão duas potências"). Ao contrário de todas as outras, as bases da esquadra alem ã estavam inteiram ente no Mar do Norte, de frente para a Inglaterra.

Seu obj etivo não podia ser outro senão o conflito com a m arinha britânica. Do ponto de vista britânico, a Alem anha era essencialm ente um poder continental e, com o im portantes estudiosos da geopolítica com o Sir Halford Mackinder destacaram (1904), as grandes nações desse tipo j á têm vantagens substanciais em relação a um a ilha de tam anho m édio. Os interesses m arítim os alem ães legítim os eram visivelm ente m arginais, ao passo que o Im pério Britânico dependia profundam ente de suas rotas m arítim as, e de fato deixara os continentes (exceto a Índia) aos exércitos de Estados cuj o elem ento era a terra. Mesm o se a esquadra de guerra alem ã não fizesse absolutam ente nada, inevitavelm ente im obilizaria navios britânicos, dificultando, ou até im possibilitando, o controle naval britânico sobre águas consideradas vitais — com o o Mediterrâneo, o Oceano Indico e a orla do Atlântico. O que para a Alem anha era um sím bolo de status internacional e de am bições m undiais indefinidas, para o Im pério Britânico era um a questão de vida ou m orte. As águas am ericanas podiam — e foram em 1901 — ser deixadas a cargo de um país am igo, os EUA; as águas do Extrem o Oriente foram deixadas a cargo dos EUA e do Japão, porque à época am bos eram nações com interesses puram ente regionais, que de qualquer m aneira não pareciam incom patíveis com os britânicos. A m arinha alem ã, m esm o com o m arinha regional, o que não m ais pretendia ser, era um a am eaça tanto para as ilhas britânicas com o para a posição m undial do Im pério Britânico. A Grã-Bretanha defendeu ao m áxim o a preservação do status quo e a Alem anha sua m odificação — inevitavelm ente, m esm o se não intencionalm ente, às custas da Grã-Bretanha. Nessas circunstâncias e dada a rivalidade econôm ica entre as indústrias dos dois países, não adm ira que a Grã-Bretanha considerasse a Alem anha o m ais provável e perigoso de seus adversários potenciais. Era lógico que se aproxim asse da França e — um a vez o perigo russo m inim izado pelo Japão — da Rússia, ainda m ais porque a derrota russa destruíra, pela prim eira vez na m em ória das pessoas ainda vivas, o equilíbrio entre as nações do continente europeu que os chanceleres britânicos tinham dado por certo durante tanto tem po. Este fato revelou que a Alem anha era a força m ilitar dom inante na Europa, de longe, a m ais tem ível. Esses foram os antecedentes da surpreendente Tríplice Entente anglo-franco-russa.

A divisão da Europa nos dois blocos hostis levou quase um quarto de século, da form ação da Tríplice Aliança (1882) à configuração da Tríplice Entente (1907). Não precisam os acom panhar o período, ou os acontecim entos subseqüentes, através do labirinto de todos os seus detalhes. Estes apenas dem onstram que o atrito internacional no período do im perialism o era global e endêm ico, que ninguém — ainda m enos os britânicos — sabia m uito bem em que direção as contracorrentes dos interesses, tem ores e am bições, suas e de outras nações, os estavam levando, e, em bora o sentim ento de que estariam levando a Europa rum o a um a guerra im portante fosse generalizado, nenhum dos governos sabia m uito bem o que fazer a esse respeito. Falharam inúm eras tentativas de rom per o sistem a de blocos, ou ao m enos de m itigá-lo por m eio de aproxim ação entre os blocos: entre Grã-Bretanha e Alem anha, Alem anha e Rússia, Alem anha e França, Rússia e Áustria. Os blocos, fortalecidos por planos inflexíveis de estratégia e m obilização, tornaram -se m ais rígidos; o continente foi incontrolavelm ente arrastado para a batalha por m eio de um a série de crises internacionais que, após 1905, cada vez m ais eram solucionadas por "m alabarism o político" — isto é, pela am eaça da guerra.

A partir de 1905, a desestabilização da situação internacional, com o conseqüência da nova vaga de revoluções na periferia das sociedades plenam ente "burguesas", acrescentou m aterial inflam ável novo a um m undo que j á estava prestes a pegar fogo. Houve a revolução russa de 1905, que deixou o Im pério Czarista tem porariam ente incapacitado, encoraj ando a Alem anha a insistir em suas reivindicações no Marrocos, intim idando a França. Berlim foi forçada a recuar na conferência de Algeciras (j aneiro de 1906) devido ao apoio britânico à França, em parte porque um a guerra de grandes proporções por causa de um problem a puram ente colonial era pouco atraente politicam ente, em parte porque a m arinha alem ã ainda se sentia excessivam ente fraca para enfrentar um a guerra contra a m arinha britânica. Dois anos depois, a Revolução Turca destruiu os acordos, cuidadosam ente construídos, que visavam ao equilíbrio internacional no sem pre explosivo Oriente Próxim o. A Áustria aproveitou a oportunidade para anexar form alm ente a Bósnia-Herzegovina (que anteriorm ente apenas adm inistrava), precipitando assim um a crise com a Rússia, resolvida apenas com a am eaça de um apoio m ilitar alem ão à Áustria. A terceira grande crise internacional, em torno do Marrocos em 1911, tinha reconhecidam ente pouco a ver com a revolução e tudo a ver com o im perialism o — e com as duvidosas operações de hom ens de negócios piratas que perceberam suas m últiplas possibilidades. A Alem anha enviou um a canhoneira disposta a se apoderar do porto de Agadir, ao sul do Marrocos, no intuito de obter algum a "com pensação" dos franceses por seu "protetorado" im inente sobre o Marrocos, m as foi forçada a recuar pelo que pareceu ser um a am eaça britânica, a de ir à guerra do lado dos franceses. É irrelevante se isso foi m esm o proposital ou não.

A crise de Agadir dem onstrou que quase todo confronto entre duas potências im portantes agora as levava à beira da guerra. Quando prosseguiu o desm oronam ento do Im pério Turco — com a Itália atacando e ocupando a Líbia em 1911 e a Sérvia, a Bulgária e a Grécia em preendendo a expulsão dos turcos da península balcânica em 1912 — todas as nações estavam im obilizadas, tanto pela relutância em antagonizar um aliado potencial com o a Itália, até então não com prom etida com nenhum dos dois lados, com o pelo m edo de serem arrastadas a problem as incontroláveis pelos Estados balcânicos. Em 1914 ficou provado que tinham razão. Congeladas na im obilidade, viram a Turquia ser quase em purrada para fora da Europa e um a segunda guerra entre os Estados pigm eus balcânicos vitoriosos redesenhar o m apa dos Bálcãs em 1913. O m áxim o que as potências européias conseguiram foi criar um Estado independente na Albânia (1913) — sob o príncipe alem ão de costum e, em bora os albaneses que se preocupavam com o assunto preferissem um aristocrata inglês independente que m ais tarde inspirou as novelas de aventuras de John Buchan. A crise balcânica seguinte foi precipitada em 28 de j unho de 1914, quando o herdeiro do trono austríaco, o arquiduque Francisco Fernando, visitou a capital da Bósnia, Saraj evo.

O que tornou a situação ainda m ais explosiva foi que, j ustam ente nesse período, a política interna das principais potências em purrou sua política externa para a zona de perigo. Com o vim os, após 1905 os m ecanism os políticos que serviam para adm inistrar estavelm ente os regim es com eçaram visivelm ente a ruir. Tornou-se cada vez m ais difícil controlar, e ainda m ais absorver e integrar, as m obilizações e contram obilizações dos súditos em via de se transform arem em cidadãos dem ocráticos. A própria política dem ocrática encerrava um elem ento de alto risco, até num Estado com o a Grã-Bretanha, que m antinha a verdadeira política externa cuidadosam ente oculta, não apenas no Parlam ento com o tam bém de parte do gabinete liberal. O que fez a crise de Agadir avançar de um a ocasião de conchavo político potencial a um a confrontação de som a zero foi um discurso público de Lloy d George que parecia não deixar à Alem anha outra opção além da guerra ou do recuo. A política não dem ocrática era pior ainda. Seria possível não afirm ar "que as principais causas da trágica deflagração européia de j ulho de 1914 foram a incapacidade de as forças dem ocráticas da Europa central e oriental controlarem os elem entos m ilitaristas de suas sociedades e a rendição dos autocratas, não a seus súditos dem ocráticos leais, m as a seus conselheiros m ilitares irresponsáveis"? E, pior que tudo, os países que estavam enfrentando problem as internos insolúveis não se sentiriam tentados a apostar na solução propiciada por um triunfo externo, especialm ente quando seus conselheiros m ilitares lhes diziam que, desde que a guerra era certa, o m elhor m om ento para agir era agora?

Não era, certam ente, o caso na Grã-Bretanha e na França, apesar de seus problem as. Foi provavelm ente o caso na Itália, em bora, felizm ente, o aventureirism o italiano sozinho não pudesse deflagrar a guerra m undial. Foi o caso na Alem anha? Os historiadores continuam discutindo sobre o efeito da política interna alem ã na sua política externa. Parece claro que (com o em todas as outras nações) a agitação de direita nas bases incentivou e aj udou a corrida arm am entista com petitiva, especialm ente no m ar. Afirm ou-se que a inquietação dos trabalhadores e o avanço eleitoral da social-dem ocracia fizeram com que as elites dirigentes se interessassem em desarm ar o problem a interno por m eio do êxito externo. Sem dúvida, havia m uitos conservadores que, com o o duque de Ratibor, pensavam que era necessária um a guerra para restaurar a antiga ordem , com o em 1864-1871. Provavelm ente essa idéia não fez nada m ais do que tornar os civis m enos céticos em relação aos argum entos de seus generais belicosos. Foi o caso na Rússia? Sim , na m edida em que o czarism o, restaurado após 1905 com m odestas concessões à liberalização política, viu provavelm ente no apelo ao nacionalism o da Grande Rússia e à glória da força m ilitar sua estratégia m ais prom issora, com vistas a renascer e se fortalecer. E de fato, se não fosse pela lealdade firm e e entusiástica das forças arm adas, a proxim idade de um a revolução teria sido m aior em 1913-1914 que em qualquer outro m om ento entre 1905 e 1917. Contudo, em 1914 a Rússia com toda certeza não queria a guerra. Mas, graças a alguns anos de preparação m ilitar, tem ida pelos generais alem ães, a Rússia podia contem plar um a guerra em 1914, o que, evidentem ente, não teria sido possível alguns anos antes.

Entretanto, havia um a nação que não podia senão apostar sua existência no j ogo m ilitar, porque sem ele parecia condenada: a Áustria-Hungria, dilacerada desde m eados da década de 1890 por problem as nacionais cada vez m ais inadm inistráveis, dos quais os dos eslavos do sul pareciam ser os m ais recalcitrantes e perigosos, por três m otivos. Prim eiro, porque não só causavam transtornos — com o as outras nacionalidades politicam ente organizadas no im pério m ultinacional, que disputavam vantagens um as às outras — com o tam bém com plicavam as coisas ao pertencer tanto ao governo de Viena — lingüisticam ente flexível — com o ao de Budapeste — im placavelm ente m agiar. A agitação dos eslavos do sul na Hungria, além de transbordar para a Áustria, agravou as sem pre difíceis relações entre as duas m etades do im pério. Segundo, porque o problem a dos eslavos da Áustria não podia ser desenraizado da política balcânica e, na verdade, am bos estavam ainda m ais entrelaçados desde a ocupação da Bósnia, em 1878. Adem ais, j á existia um Estado independente eslavo do sul, a Sérvia (sem contar Montenegro, um hom érico pequeno Estado m ontanhoso de pastores de cabras hostis, pistoleiros e príncipes-bispos apreciadores das inim izades feudais e sangrentas e da com posição de épicos heróicos), o que podia ser um a tentação para os eslavos do sul dissidentes no im pério. Terceiro, porque a derrocada do Im pério Otom ano praticam ente condenou o Im pério Habsburgo, salvo se este pudesse dem onstrar, sem som bra de dúvida, que ainda era um a grande nação nos Bálcãs, onde ninguém podia se m eter.

Até o fim de seus dias, Gavrilo Princip, o assassino do arquiduque Francisco Fernando, não conseguiu acreditar que sua m inúscula iniciativa tivesse ateado fogo ao m undo. A crise final de 1914 foi tão com pletam ente inesperada, tão traum ática e, vista retrospectivam ente, tão persistente porque foi essencialm ente um incidente na política austríaca que exigia, na opinião de Viena, que se "desse um a lição na Sérvia". A atm osfera internacional parecia calm a. Nenhum m inistério das relações exteriores esperava problem as em j unho de 1914, e personalidades públicas há décadas eram assassinadas com um a certa freqüência. Em princípio, ninguém nem se preocupou com o fato de um a grande nação intervir pesadam ente num vizinho pequeno e problem ático. Desde então cerca de cinco m il livros foram escritos para explicar o aparentem ente inexplicável: com o, dentro de pouco m ais de cinco sem anas após Saraj evo, a

Europa se encontrava em guerra[e]. A resposta im ediata parece agora tão clara com sim ples: a Alem anha decidiu dar apoio total à Áustria, ou sej a, não acalm ar a situação. O resto seguiu-se inexoravelm ente. Pois, em 1914, qualquer confronto entre os blocos em que se esperasse que um dos dois lados recuasse os levava à beira da guerra. Além de um certo ponto, as m obilizações inflexíveis das forças m ilitares, sem as quais tal confronto não m ereceria credibilidade, não podiam retroceder. A "desm obilização" não poderia m ais desm obilizar, m as apenas destruir. Em 1914, qualquer incidente, por m ais aleatório que fosse — até a ação de um terrorista estudantil ineficaz num canto perdido do continente — podia levar a esse confronto, se algum a nação isolada, presa ao sistem a de bloco e contra-bloco, escolhesse levá-lo a sério. Assim , a guerra chegou e, em circunstâncias com paráveis, chegaria outra vez.

Em sum a, as crises internas e internacionais nos últim os anos anteriores a 1914 fundiram -se. A Rússia um a vez m ais am eaçada pela revolução social, a Áustria desafiada pela desintegração de um im pério m últiplo não m ais controlável, e até a Alem anha polarizada e talvez am eaçada pelo im obilism o devido a suas divisões políticas — todos eles pendiam para o lado de seus m ilitares e suas soluções. Até a França, unida por um a relutância a pagar im postos e, portanto, a conseguir as verbas necessárias para um rearm am ento m aciço (era m ais fácil prolongar outra vez o serviço m ilitar para três anos), elegerem 1913 um presidente que conclam ou a vingança contra a Alem anha e em itiu ruídos belicosos, fazendo eco aos generais que agora, com otim ism o assassino, abandonavam um a estratégia defensiva por um assalto ofensivo do outro lado do Reno. Os britânicos preferiam os navios de guerra aos soldados: a m arinha sem pre fora popular, um a glória nacional passível de ser aceita pelos liberais com o protetora do com ércio. As cicatrizes navais tinham charm e político, ao contrário da reform a do exército. Poucos, m esm o entre seus políticos, perceberam que os planos para um a guerra conj unta com a França im plicavam um exército m aciço e finalm ente a convocação, e de fato não tinham em vista nada além de um a guerra basicam ente naval e com ercial. Contudo, em bora o governo britânico tenha se m antido pacífico até o últim o m om ento — ou antes, se recusou a tom ar posição tem endo um a divisão do governo liberal — ele não podia pensar em ficar fora da guerra. Felizm ente, a invasão alem ã da Bélgica, há m uito preparada pelo plano Schlieffen, propiciou a Londres um a cobertura m oral para necessidades diplom áticas e m ilitares.

Mas com o reagiriam as m assas da Europa a um a guerra que não podia senão ser um a guerra de m assas, j á que todos os beligerantes, salvo os britânicos, se prepararam para lutar com exércitos de recrutas de enorm es dim ensões? Em agosto de 1914, antes m esm o da deflagração das hostilidades, 19 m ilhões — e potencialm ente 50 m ilhões — de hom ens arm ados estavam frente a frente, de um lado e de outro das fronteiras. Qual seria a atitude dessas m assas quando convocadas e qual seria o im pacto da guerra entre os civis, especialm ente se, com o alguns m ilitares argutam ente suspeitavam — em bora quase não levando o dado em conta em seus planos —, a guerra não term inasse rapidam ente? Os britânicos eram particularm ente sensíveis a esse problem a, pois dispunham apenas de voluntários para reforçar seu exército regular m odesto de 20 divisões (com parado com 74 da França, 94 da Alem anha e 108 da Rússia), porque as classes trabalhadoras eram sustentadas sobretudo com alim entos despachados de navio do ultram ar, o que era extrem am ente vulnerável a um bloqueio, e porque nos anos im ediatam ente anteriores à guerra o governo enfrentara agitação e tensão sociais inéditas na m em ória das pessoas vivas à época e um a situação explosiva na Irlanda. "A atm osfera de guerra", pensou o m inistro liberal John Morley, "não pode ser propícia à ordem num sistem a dem ocrático que está

à beira do espírito de [18]48"[f]. Mas a atm osfera interna das outras nações tam bém era de natureza a inquietar seus governos. É um erro pensar que em 1914 os governos se precipitaram à guerra para desativar suas crises sociais internas. No m áxim o, calcularam que o patriotism o m inim izaria as resistências m ais graves e a não-cooperação.

Nisso eles estavam certos. A oposição liberal, hum anitária e religiosa à guerra sem pre fora insignificante na prática, em bora nenhum governo (com a exceção eventual da Grã-Bretanha) estivesse disposto a reconhecer um a recusa a prestar serviço m ilitar por obj eção de consciência. Os m ovim entos trabalhista e socialista organizados, em seu conj unto, se opunham ardentem ente ao m ilitarism o e à guerra, e o Partido Trabalhista e a Internacional Socialista inclusive se engaj aram , em 1907, num a greve geral internacional contra a guerra, m as políticos teim osos não levaram o fato m uito a sério, em bora um extrem ista de direita tenha assassinado o grande líder e orador socialista francês Jean Jaurès poucos dias antes da guerra, quando ele tentava desesperadam ente salvar a paz. Os principais partidos socialistas foram contra essa greve, poucos acreditavam que fosse viável e, de qualquer m aneira, com o Jaurès reconheceu, "um a vez deflagrada a guerra, não podem os fazer m ais nada". Com o vim os, o m inistro do Interior da França nem se incom odou em prender os perigosos m ilitantes antiguerra, dos quais a polícia preparara cuidadosam ente um a lista nesse intuito. A dissidência nacionalista não dem onstrou im ediatam ente ser um fator grave. Em sum a, a convocação do governo ao alistam ento não enfrentou um a real resistência.

Mas os governos se enganaram no que tange a um ponto crucial: foram pegos totalm ente de surpresa, assim com o os que se opunham à guerra, pela extraordinária vaga de entusiasm o patriótico com que seus povos pareciam m ergulhar num conflito no qual ao m enos 20 m ilhões de pessoas seriam m ortas ou feridas, sem contar os incalculáveis m ilhões de nascim entos que deixaram de acontecer e o excesso de m ortes civis devido à fom e e à doença. As autoridades francesas previam 5 a 13 por cento de deserção: na verdade apenas 1,5 por cento se esquivou ao recrutam ento em 1914. Na Grã-Bretanha, onde havia a m ais forte oposição política à guerra e onde ela estava profundam ente enraizada na tradição, tanto na liberal quanto na trabalhista e socialista, o núm ero de voluntários nas prim eiras oito sem anas foi de 750 m il, m ais um m ilhão nos oito m eses seguintes. Os alem ães, com o previsto, nem sonharam em desobedecer às ordens. "Com o alguém vai poder dizer que não am am os nossa pátria quando após a guerra tantos m ilhares de nossos bons com panheiros de partido dizem 'fom os condecorados por heroísm o'?". Assim escreveu um m ilitante social-dem ocrata alem ão, tendo recebido a Cruz de Ferro em 1914. Na Áustria não foi só o povo dom inante que foi abalado por um a breve onda de patriotism o. Com o reconheceu o líder socialista austríaco Victor Adler, "m esm o entre as nacionalidades, lutar na guerra era um a espécie de libertação, um a esperança de que algo diferente viria". Até na Rússia, onde haviam sido previstos um m ilhão de desertores, todos, salvo poucos m ilhares dos 15 m ilhões, obedeceram à convocação. As m assas seguiram as bandeiras de seus respectivos Estados e abandonaram os líderes que se opuseram à guerra. Na verdade, deles restavam poucos, ao m enos em público. Em 1914, os povos da Europa foram alegrem ente m assacrar e ser m assacrados, por pouco tem po, no entanto. Após a Prim eira Guerra Mundial isso nunca m ais aconteceu.

O m om ento os surpreenderá, m as não m ais pelo fato da guerra, ao qual a Europa se habituaria, com o alguém que vê um a tem pestade se aproxim ando. De certo m odo sua chegada foi am plam ente sentida com o um a libertação e um alívio, sobretudo pelos j ovens da classe m édia — hom ens, m uito m ais que m ulheres — em bora m enos pelos operários e m enos ainda pelos cam poneses. Com o um a tem pestade, ela rom peu o abafam ento da espera e lim pou o ar. Significou o fim da superficialidade e da frivolidade da sociedade burguesa, do tedioso gradualism o da m elhoria do século XIX, da tranqüilidade e da ordem pacífica que era a utopia liberal para o século XX e que Nietzsche denunciara profeticam ente, j unto com a "pálida hipocrisia adm inistrada por m andarins". Após um a longa espera no auditório, significou a abertura da cortina para o início de um dram a histórico grandioso e em polgante do qual o público descobriu ser o elenco. Significou decisão.

O fato de a guerra ter sido o m om ento da transposição de um a fronteira histórica — um a daquelas raras datas que m arcam a periodização da civilização hum ana — teria sido reconhecido com o algo m ais que um a conveniência pedagógica? Provavelm ente sim , apesar da esperança m uito dissem inada num a guerra curta, num retorno previsível à vida norm al e à "norm alidade" retrospectivam ente identificada a 1913, presente em tantas das opiniões registradas de 1914. Até as ilusões dos j ovens patriotas e m ilitaristas que m ergulharam na guerra com o num elem ento novo, "com o nadadores na pureza saltando", im plicaram m udanças profundas. O sentim ento da guerra com o fim de um a época era talvez m ais forte no m undo da política, em bora poucos tivessem um a consciência tão clara com o Nietzsche dos anos 1880 da "era de guerras, levantes [Umstürze], explosões m onstruosas [ungeheure]" que com eçara, ainda m enos num erosos foram os de esquerda que, interpretando a seu próprio m odo a guerra, nela viam esperança, com o Lenin. Para os socialistas a guerra era um a catástrofe dupla e im ediata, pois, com o m ovim ento dedicado ao internacionalism o e à paz, foi subitam ente reduzido à im potência, e a vaga de união nacional e patriotism o sob a direção das classes dirigentes tom ou conta, em bora m om entaneam ente, dos partidos e até do proletariado com consciência de classe dos países beligerantes. Entre os estadistas dos antigos regim es houve ao m enos um que reconheceu que tudo m udara. "As lâm padas estão se apagando na Europa inteira", disse Edward Grey ao ver as luzes da sede do governo inglês apagadas na noite em que a Grã-Bretanha e a Alem anha entraram em guerra. "Não as verem os brilhar outra vez em nossa existência."

Tem os vivido, desde agosto de 1914, no m undo de guerras, levantes e explosões m onstruosas que Nietzsche profeticam ente anunciou. É isto que envolve a era anterior a 1914 com a névoa da nostalgia, um a tênue idade de ouro, de ordem e de paz, de perspectivas não problem áticas. Tais proj eções passadas de bons velhos tem pos im aginários pertencem à história das últim as décadas do século XX, e não das prim eiras. Os historiadores dos dias anteriores ao apagar das luzes não pensavam nelas. Sua preocupação central, que perpassa este livro, deve ser a de entender e m ostrar com o a era da paz, da civilização burguesa confiante e cada vez m ais próspera, e dos im périos ocidentais, carregava inelutavelm ente dentro de si o em brião da era da guerra, da revolução e da crise que m arcou seu fim .

[a] Em francês no original. (N. da T.)

[b] O alm irante Raeder afirm ou inclusive que em 1914 o com ando naval alem ão não tinha

planos para um a guerra contra a Grã-Bretanha.

[c] A estratégia alem ã (o "Plano Schlieffen", de 1905) previa um rápido e decisivo ataque contra

a França, seguido por um rápido e decisivo ataque contra a Rússia. O prim eiro significava a

invasão da Bélgica, propiciando assim à Grã-Bretanha um a desculpa para entrar na guerra, com

a qual há m uito tem po estava efetivam ente com prom etida.

[d] Os povos eslavos do sul estavam em parte na m etade austríaca do Im pério Habsburgo

(eslovenos, croatas, dálm atas), em parte na m etade húngara (croatas, alguns sérvios), em parte

sob adm inistração im perial com um (Bósnia-Herzegovina) e o resto em pequenos reinos

independentes (Sérvia, Bulgária e o m iniprincipado de Montenegro) ou sob controle turco

(Macedônia).

[e] Com exceção da Espanha, Escandinávia, Holanda e Suíça, todos os Estados europeus

finalm ente se envolveram , com o tam bém o Japão e os EUA.

[f] Paradoxalm ente, o m edo dos possíveis efeitos da fom e na classe operária britânica sugeriu

aos estrategistas navais a possibilidade de desestabilizar a Alem anha através de um bloqueio que

levaria a fom e a seu povo. Isto foi, de fato, tentado com sucesso considerável durante a guerra.