A Era dos Impérios 1875-1914

Eric J. Hobsbawm · Capítulo 10 de 51

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A Era dos Impérios 1875-1914

Capítulo 3 | A era dos impérios

CAPÍTULO 3

 

A ERA DOS IMPÉRIOS

 

Apenas uma confusão política completa e um otimismo ingênuo podem impedir que se reconheça que os esforços inevitáveis em favor da expansão comercial de todas as nações civilizadas, sob controle da burguesia, após um período de transição de concorrência aparentemente pacífica, se aproximam nitidamente do ponto em que apenas o poder decidirá a parte que caberá a cada nação no controle econômico da Terra e, portanto, a esfera de ação de seus povos e, especialmente, do potencial de ganho de seus trabalhadores.

Max Weber, 1894

 

"Quando estiverdes entre os chineses"... diz [o Imperador da Alemanha], "lembrai que sois a vanguarda da Cristandade", diz ele, "e atravessai com vossas baionetas todo odioso infiel de marfim que virdes", diz ele. "Fazei-os compreender o que significa a nossa civilização ocidental... E se, por um acaso, tomardes uma pequena extensão de terra enquanto isso, não deixeis nunca que um francês ou um russo a tomem de vós".

Mr. Dooley 's Philosophy , 1900

 

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Era m uito provável que um a econom ia m undial cuj o ritm o era determ inado por seu núcleo capitalista desenvolvido ou em desenvolvim ento se transform asse num m undo onde os "avançados" dom inariam os "atrasados"; em sum a, num m undo de im pério. Mas, paradoxalm ente, o período entre 1875 e 1914 pode ser cham ado de Era dos Im périos não apenas por ter criado um novo tipo de im perialism o, m as tam bém por um m otivo m uito m ais antiquado. Foi provavelm ente o período da história m undial m oderna em que chegou ao m áxim o o núm ero de governantes que se autodenom inavam "im peradores", ou que eram considerados pelos diplom atas ocidentais com o m erecedores desse título.

Na Europa, os governantes da Alem anha, Áustria, Rússia, Turquia e (em sua qualidade de dirigentes da Índia) Grã-Bretanha reivindicavam esse título. Dois deles (Alem anha e Grã-Bretanha/Índia) eram inovações dos anos 1870. Eles m ais que com pensaram o desaparecim ento do "Segundo Im pério" de Napoleão III, da França. Fora da Europa, os dirigentes da China, Japão,

Pérsia e — talvez com m aior cortesia diplom ática internacional — Etiópia e Marrocos[a] eram norm alm ente autorizados a usar esse título, ao passo que, até 1889, sobreviveu um im perador am ericano, o do Brasil. Pode-se acrescentar à lista um ou dois im peradores ainda m ais obscuros. Em 1918, cinco deles haviam desaparecido. Hoj e (1987) o único sobrevivente titular desse seleto grupo de superm onarcas é o governante do Japão, cuj o perfil político é fraco e cuj a influência política é insignificante.

Num sentido m enos superficial, o período que nos ocupa é obviam ente a era de um novo tipo de im pério, o colonial. A suprem acia econôm ica e m ilitar dos países capitalistas há m uito não era seriam ente am eaçada, m as não houvera nenhum a tentativa sistem ática de traduzi-la em conquista form al, anexação e adm inistração entre o final do século XVIII e o últim o quartel do XIX. Isto se deu entre 1880 e 1914, e a m aior parte do m undo, à exceção da Europa e das Am éricas, foi form alm ente dividida em territórios sob governo direto ou sob dom inação política indireta de um ou outro Estado de um pequeno grupo: principalm ente Grã-Bretanha, França, Alem anha, Itália, Holanda, Bélgica, EUA e Japão. As vítim as desse processo foram , até certo ponto, os antigos im périos europeus pré-industriais sobreviventes da Espanha e de Portugal, o prim eiro m ais que o segundo, apesar de tentativas de estender o território sob seu controle no noroeste africano. Entretanto, a perm anência dos principais territórios portugueses na África (Angola e Moçam bique), que sobreviveriam às outras colônias im perialistas, deveu-se basicam ente à incapacidade de seus rivais m odernos chegarem a um acordo quanto à m aneira exata de dividi-los entre si. Nenhum a rivalidade desse tipo salvou os despoj os do Im pério Espanhol nas Am éricas (Cuba, Porto Rico) e no Pacífico (Filipinas) dos EUA em 1898. A m aioria dos grandes im périos tradicionais da Ásia perm aneceu nom inalm ente independente, em bora as potências ocidentais tenham delim itado ali "zonas de influência" ou m esm o de adm inistração direta que (com o no caso do acordo anglo-russo sobre a Pérsia em 1907) podiam cobrir a totalidade do território. Na verdade, seu desam paro político e m ilitar era dado com o certo. Sua independência dependia de sua utilidade com o Estados-tam pão (com o o Sião — hoj e Tailândia —, que separava as zonas britânica e francesa no Sudeste asiático, ou do Afeganistão, que separava a Grã-Bretanha e Rússia), da incapacidade de as potências im periais rivais concordarem num a fórm ula para a divisão, ou m eram ente de sua extensão. O único Estado não europeu que resistiu com êxito à conquista colonial form al, quando esta foi tentada, foi a Etiópia, que conseguiu resistir à Itália, o m ais fraco dos Estados im periais.

Duas regiões m aiores do m undo foram , para fins práticos, inteiram ente divididas: África e Pacífico. Não restou qualquer Estado independente no Pacífico, então totalm ente distribuído entre britânicos, franceses, alem ães, holandeses, norte-am ericanos e — ainda em escala m odesta — j aponeses. Por volta de 1914, a África pertencia inteiram ente aos im périos britânico, francês, alem ão, belga, português e, m arginalm ente, espanhol, à exceção da Etiópia, da insignificante Libéria e daquela parte do Marrocos que ainda resistia à conquista com pleta. A Ásia, com o vim os, conservava um a extensa área nom inalm ente independente, em bora os m ais antigos dos im périos europeus tenham am pliado e com pletado seus vastos dom ínios — a Grã-Bretanha, anexando a Birm ânia ao seu im pério indiano e im plantando ou reforçando a zona de influência nas áreas do Tibete, da Pérsia e do golfo Pérsico; a Rússia, avançando sobre a Ásia Central e (com m enos êxito) sobre a Sibéria e a Manchúria do lado do Pacífico: os holandeses, im plem entando um controle m ais firm e nas regiões m ais distantes da Indonésia. Dois im périos praticam ente novos foram criados pela conquista francesa da Indochina, iniciada no governo de Napoleão III, e pela conquista j aponesa da Coréia e de Taiwan (1895), às custas da China, e, posteriorm ente, de form a m ais m odesta, às custas da Rússia (1905). Só um a das regiões principais do planeta não foi afetada substancialm ente por esse processo de divisão. As Am éricas eram , em 1914, o que haviam sido em 1875, ou, neste sentido, nos anos 1820: um a coleção única de repúblicas soberanas, com exceção do Canadá, das ilhas do Caribe e de partes do litoral caribenho. À exceção dos EUA, seu status político raram ente im pressionava alguém , além de seus vizinhos. Era perfeitam ente claro que, do ponto de vista econôm ico, elas eram dependentes do m undo desenvolvido. Contudo, nem os EUA, que crescentem ente afirm avam sua hegem onia política e m ilitar na área, tentaram seriam ente conquistá-las e adm inistrá-las. Suas únicas anexações diretas se restringiram a Porto Rico (perm itindo que Cuba m antivesse um a independência m eram ente nom inal) e a um a estreita faixa ao longo do novo Canal do Panam á, que fazia parte de outra república pequena e nom inalm ente independente — para este fim destacada da Colôm bia, bem m aior, por um a revolução local conveniente. Na Am érica Latina, a dom inação econôm ica, e a pressão política, quando necessária, eram im plem entadas sem conquista form al. As Am éricas constituíam , é claro, a única região im portante do globo onde não houve rivalidade séria entre grandes potências. À exceção da Grã-Bretanha, nenhum Estado europeu possuía m ais que restos dispersos dos im périos coloniais (principalm ente caribenho) do século XVIII, sem m aior significado econôm ico ou outro. Nem os britânicos nem qualquer das

outras nacionalidades viam boa razão para hostilizar os EUA, desafiando a Doutrina Monroe[b].

Essa repartição do m undo entre um pequeno núm ero de Estados, que dá título ao presente volum e, foi a expressão m ais espetacular da crescente divisão do planeta em fortes e fracos, em "avançados" e "atrasados" que j á observam os. Foi tam bém notavelm ente nova. Entre 1876 e 1915, cerca de um quarto da superfície continental do globo foi distribuído ou redistribuído, com o colônia, entre m eia dúzia de Estados. A Grã-Bretanha aum entou seus territórios em cerca de dez m ilhões de quilôm etros quadrados, a França em cerca de nove, a Alem anha conquistou m ais de dois m ilhões e m eio, a Bélgica e a Itália pouco m enos que essa extensão cada um a. Os EUA conquistaram cerca de 250 m il, principalm ente da Espanha, o Japão algo em torno da m esm a quantidade às custas da China, da Rússia e da Coréia. As antigas colônias africanas de Portugal se am pliaram em cerca de 750 m il quilôm etros quadrados; a Espanha, m esm o sendo um a perdedora líquida (para os EUA), ainda conseguiu tom ar alguns territórios pedregosos no Marrocos e no Saara ocidental. O crescim ento da Rússia im perial é m ais difícil de avaliar, pois todo ele se deu em territórios adj acentes e constituiu o prosseguim ento de alguns séculos de expansão territorial do Estado czarista; adem ais, com o verem os, a Rússia perdeu algum território para o Japão. Dentre os principais im périos coloniais, apenas o holandês não conseguiu, ou não quis, adquirir novos territórios, salvo por m eio da extensão de seu controle efetivo às ilhas indonésias, que há m uito "possuía" form alm ente. Dentre os m enores, a Suécia liquidou a única colônia que lhe restava, um a ilha das Índias Ocidentais, vendendo-a à França, e a Dinam arca estava prestes a fazer o m esm o — conservando apenas a Islândia e a Groenlândia com o territórios dependentes.

O m ais espetacular não é necessariam ente o m ais im portante. Quando os observadores do panoram a m undial do final dos anos 1890 com eçaram a analisar o que parecia obviam ente um a nova fase no padrão geral de desenvolvim ento nacional e internacional, notavelm ente diferente do m undo liberal de livre com ércio e livre concorrência de m eados do século, eles consideraram a criação de im périos coloniais apenas um de seus aspectos. Os observadores ortodoxos pensavam discernir, em term os gerais, um a nova era de expansão nacional na qual (com o sugerim os) os elem entos políticos e econôm icos j á não eram claram ente separáveis e o Estado desem penhava um papel cada vez m ais ativo e crucial tanto a nível interno com o externo. Os observadores heterodoxos analisaram o período m ais especificam ente com o um a nova fase de desenvolvim ento capitalista, decorrente de várias tendências nele discerníveis. A m ais influente dessas análises do que logo foi cham ado de "im perialism o", o pequeno livro de Lenin de 1916, na verdade só abordou "a divisão do m undo entre as grandes potências" no sexto de seus dez capítulos.

Entretanto, m esm o sendo o colonialism o apenas um dos aspectos de um a m udança m ais geral das questões m undiais, foi, com toda clareza, o de im pacto m ais im ediato. Ele constituiu o ponto de partida de análises m ais am plas, pois não há dúvida de que a palavra "im perialism o" passou a fazer parte do vocabulário político e j ornalístico nos anos 1890, no decorrer das discussões sobre a conquista colonial. Adem ais, foi então que adquiriu a dim ensão econôm ica que, com o conceito, nunca m ais perdeu. Eis por que são inúteis as referências às antigas form as de expansão política e m ilitar em que o term o é baseado. Os im peradores e im périos eram antigos, m as o im perialism o era novíssim o. A palavra (que não figura nas obras de Karl Marx, falecido em 1883) foi introduzida na política na Grã-Bretanha nos anos 1870, e ainda era considerada neologism o no fim da década. Sua explosão no uso geral data dos anos 1890. Por volta de 1900, quando os intelectuais com eçaram a escrever livros sobre o im perialism o, ele estava — para citar um dos prim eiros deles, o liberal britânico J. A. Hobson "na boca de todo m undo... e [era] usado para denotar o m ovim ento m ais poderoso na política atual do m undo ocidental". Em sum a, era um term o novo, criado para descrever um fenôm eno novo. Este fato é evidente o bastante para descartar um a das m uitas escolas participantes desse tenso e acirrado debate ideológico sobre o "im perialism o", a que argum entava que ele não era nada de novo, que talvez fosse m esm o um m ero rem anescente pré-capitalista. De qualquer m aneira, era sentido e discutido com o novo.

As discussões em torno desse tem a sensível são tão apaixonadas, densas e confusas que a prim eira tarefa do historiador é desem aranhá-las para que o fenôm eno em si possa ser visto. Pois a m aioria das discussões não tinha com o tem a o que aconteceu no m undo de 1875-1914, e sim o m arxism o, tem a capaz de suscitar sentim entos fortes: acontece que a análise (altam ente crítica) do im perialism o na versão de Lenin se tornaria central no m arxism o revolucionário dos m ovim entos com unistas após 1917 e dos m ovim entos revolucionários do Terceiro Mundo. O que deu particular aspereza ao debate foi que um dos lados em disputa parece ter tido um a ligeira vantagem em butida — pois aqueles defensores e opositores do im perialism o se enfrentavam desde 1890 —, ou sej a, a própria palavra adquiriu gradualm ente, e agora é im provável que perca, um a conotação pej orativa. Ao contrário da "dem ocracia" que, devido a suas conotações favoráveis, m esm o seus inim igos gostam de reivindicar, o "im perialism o" norm alm ente é algo reprovado e, portanto, feito por outros. Em 1914, inúm eros políticos se orgulhavam de se denom inarem im perialistas, m as no transcorrer de nosso século eles praticam ente desapareceram de vista.

O cerne da análise leninista (que se baseava abertam ente em vários autores da época, tanto m arxianos com o não m arxianos) era que as raízes econôm icas do novo im perialism o residiam num a nova etapa específica de capitalism o que, entre outras coisas, levava à "divisão territorial do m undo entre as grandes potências capitalistas", configurando um conj unto de colônias form ais e inform ais e de esferas de influência. As rivalidades entre as potências capitalistas que levaram a essa divisão tam bém geraram a Prim eira Guerra Mundial. Não precisam os discutir aqui os m ecanism os específicos através dos quais o "capitalism o m onopolista" levou ao colonialism o — as opiniões divergem a esse respeito, m esm o entre os m arxistas — ou a am pliação m ais recente dessa análise num a "teoria da dependência" de alcance m ais geral, no fim do século XX. De um a form a ou de outra, todas partem do princípio de que a expansão econôm ica ultram arina e a exploração do m undo ultram arino foram cruciais para os países capitalistas.

Não seria particularm ente interessante fazer um a crítica dessas teorias, o que seria irrelevante no presente contexto. O ponto a observar é apenas que os analistas não-m arxistas do im perialism o tenderam a argüir o oposto dos que os m arxistas diziam , obscurecendo assim o tem a. Tenderam a negar qualquer conexão específica entre o im perialism o do fim do século XIX e do século XX com o capitalism o em geral, ou com sua etapa particular que, com o vim os, parecia em ergir no final do século XIX. Negaram que o im perialism o tivesse raízes econôm icas im portantes, que beneficiasse econom icam ente os países im periais e, m enos ainda, que a exploração das zonas atrasadas fosse, de algum a form a, essencial ao capitalism o, e que seus efeitos nas econom ias coloniais fossem negativos. Argum entaram que o im perialism o não levou a rivalidades incontornáveis entre as potências im periais e que sua relação com a origem da Prim eira Guerra Mundial não foi significativa. Rej eitando as explicações econôm icas, eles se concentraram em argum entos de ordem psicológica, ideológica, cultural e política, em bora norm alm ente evitassem com todo cuidado o terreno perigoso da política interna, pois os m arxistas tam bém tendiam a ressaltar as vantagens que as classes dirigentes m etropolitanas auferiam com as políticas e propaganda im perialistas, pois estas, entre outras coisas, se contrapunham ao crescente interesse das classes trabalhadoras pelos m ovim entos operários de m assa. Alguns desses contra-ataques se m ostraram poderosos e eficazes, em bora m uitas dessas linhas de argum entação fossem m utuam ente incom patíveis. Na verdade, boa parte da literatura teórica pioneira do antiim perialism o não é defensável. Mas a desvantagem da literatura contrária a ela é a não-explicação efetiva da conj ugação de fatores econôm icos e políticos, nacionais e internacionais, cuj o im pacto seus contem porâneos acharam tão im portante, por volta de 1900, que procuraram dar-lhes um a explicação abrangente. Ela não explica por que seus contem porâneos acharam que o "im perialism o" era a um só tem po um a novidade e um acontecim ento historicam ente central. Em sum a, boa parte dessa literatura se lim ita a negar fatos que eram bastante óbvios à época e ainda são.

Deixando o leninism o e o antileninism o de lado, a prim eira coisa que o historiador tem de restabelecer é o fato óbvio, que ninguém teria negado nos anos 1890, de que a divisão do globo tinha um a dim ensão econôm ica. Dem onstrá-lo não é explicar tudo sobre o período do im perialism o. O desenvolvim ento econôm ico não é um a espécie de ventríloquo com o resto da história com o seu boneco. Neste sentido, m esm o o hom em de negócios m ais lim itado à procura do lucro em , digam os, m inas sul-africanas de ouro e diam antes j am ais pode ser tratado exclusivam ente com o um a m áquina de ganhar dinheiro. Ele não ficava im une aos apelos políticos, em ocionais, ideológicos, patrióticos ou m esm o raciais associados de m odo tão patente à expansão im perial. Entretanto, em bora sej a possível determ inar um a conexão econôm ica entre as tendências do desenvolvim ento econôm ico no centro capitalista do m undo na época e sua expansão na periferia, torna-se m uito m enos plausível im putar todo o peso da explicação do im perialism o a m otivos que não tenham um a conexão intrínseca com a penetração e a conquista do m undo não-ocidental. E m esm o os que parecem ter, com o os cálculos estratégicos das potências rivais, devem ser analisados tendo em m ente a dim ensão econôm ica. Nem a política atual no Oriente Médio, que está longe de ser explicável apenas em term os econôm icos, pode ser discutida realisticam ente sem — levar em conta o petróleo.

Então, o fato m aior do século XIX é a criação de um a econom ia global única, que atinge progressivam ente as m ais rem otas paragens do m undo, um a rede cada vez m ais densa de transações econôm icas, com unicações e m ovim entos de bens, dinheiro e pessoas ligando os países desenvolvidos entre si e ao m undo não desenvolvido (ver A Era do Capital, cap. 3). Sem isso não haveria um m otivo especial para que os Estados europeus tivessem um interesse algo m ais que fugaz nas questões, digam os, da bacia do rio Congo, ou tivessem se em penhado em disputas diplom áticas em torno de algum atol do Pacífico. Essa globalização da econom ia não era, nova, em bora tivesse se acelerado consideravelm ente nas décadas centrais do século. Ela continuou a crescer — m enos notavelm ente em term os relativos, porém m ais m aciçam ente em term os de volum e e cifras — entre 1875 e 1914. As exportações européias, de fato, tinham m ais que quadruplicado entre 1848 e 1875, ao passo que entre esta últim a data e 1915 apenas duplicaram . Mas a navegação m ercante m undial, entre 1840 e 1870, passou só de 10 a 16 m ilhões de toneladas, para dobrar nos quarenta anos seguintes, enquanto a rede ferroviária m undial passava de pouco m ais de 200 m il quilôm etros (1870), a m ais de 1 m ilhão às vésperas da Prim eira Guerra Mundial.

Essa m alha de transportes cada vez m ais fina incorporou até os países atrasados e anteriorm ente m arginais à econom ia m undial, e criou nos velhos centros de riqueza e desenvolvim ento um interesse novo por essas áreas rem otas. De fato, agora que eram acessíveis, m uitas dessas regiões pareciam à prim eira vista m eras extensões potenciais do m undo desenvolvido, que j á estavam sendo povoadas e desenvolvidas por hom ens e m ulheres de origem européia, elim inando ou repelindo os habitantes nativos, gerando cidades e sem dúvida, com o tem po, civilização industrial: EUA a oeste do Mississippi, Canadá, Austrália, Nova Zelândia, África do Sul, Argélia, o Cone Sul da Am érica do Sul. A previsão, com o verem os, estava errada. Entretanto, em bora m uitas vezes rem otas, essas áreas eram , na m entalidade da época, diferentes daquelas outras regiões que, por m otivos clim áticos, não atraíam o povoam ento branco, m as aonde — citando um destacado adm inistrador im perial da época — "o europeu podia ir, em núm ero reduzido, com seu capital, sua energia e seu conhecim ento para desenvolver um com ércio extrem am ente lucrativo e obter produtos necessários ao uso de sua civilização avançada".

Pois a sua civilização agora precisava do exótico. O desenvolvim ento tecnológico agora dependia de m atérias-prim as que, devido ao clim a ou ao acaso geológico, seriam encontradas exclusiva ou profusam ente em lugares rem otos. O m otor de com bustão interna, criação típica do período que nos ocupa, dependia do petróleo e da borracha. O petróleo ainda vinha predom inantem ente dos EUA e da Europa (da Rússia e, m uito atrás, da Rom ênia) m as os cam pos petrolíferos do Oriente Médio j á eram obj eto de intenso confronto e conchavo diplom ático. A borracha era um produto exclusivam ente tropical, extraída com um a exploração atroz de nativos nas florestas equatoriais do Congo e da Am azônia, alvo de protestos

antiim perialistas precoces e j ustificados. Com o tem po, foi extensam ente cultivada na Malaia[c]. O estanho provinha da Ásia e da Am érica do Sul. Os m etais não-ferrosos, que anteriorm ente eram irrelevantes, tornaram -se essenciais para as ligas de aço exigidas pela tecnologia da alta velocidade. Alguns deles eram abundantes no m undo desenvolvido, notadam ente nos EUA, m as outros não. As novas indústrias elétrica e de m otores precisavam m uito de um dos m etais m ais antigos, o cobre. Suas principais reservas, e, por conseguinte, seus m aiores produtores, estavam no que o final do século XX cham aria de Terceiro Mundo: Chile, Peru, Zaire, Zâm bia. E, é claro, havia um a dem anda constante e nunca satisfeita de m etais preciosos que, neste período, transform aram a África do Sul, de longe, no m aior produtor de ouro do m undo, sem contar sua riqueza em diam antes. As m inas eram os principais pioneiros da abertura do m undo ao im perialism o, m uito eficazes nesse papel, porque os lucros eram suficientem ente excepcionais para j ustificar tam bém a construção de ram ais de ferrovias.

Independente das exigências de um a nova tecnologia, o crescim ento do consum o de m assa nos países m etropolitanos gerou um m ercado em rápida expansão para os produtos alim entícios. Em volum e absoluto, ele era dom inado pelos produtos alim entícios básicos da zona tem perada, cereais e carne, agora reduzidos de m odo barato e em grandes quantidades em várias zonas de povoam ento europeu — Am érica do Sul e do Norte, Rússia e Australásia. Mas ele tam bém transform ou o m ercado dos produtos há m uito — e caracteristicam ente conhecidos (ao m enos em alem ão) com o "bens coloniais" e vendidos nos arm azéns do m undo desenvolvido: açúcar, chá, café, cacau e seus derivados. Com o transporte rápido e a conservação, as frutas tropicais e subtropicais passaram a estar disponíveis: eles viabilizaram a banana republic.

Os britânicos, que haviam consum ido 700 gram as de chá per capita nos anos 1840 e 1,5 kg nos anos 1860, estavam consum indo 2,6 kg nos anos 1890, m as isso representava um a m édia anual de im portação de 102 m il toneladas, contra m enos de 45 m il toneladas nos anos 1860 e cerca de 18 nos anos 1840. Enquanto os britânicos abandonavam as poucas xícaras de café que bebiam , para encher seus bules com chá da Índia e do Ceilão (Sri Lanka), os am ericanos e alem ães im portavam café em quantidades cada vez m ais espetaculares, notadam ente da Am érica Latina. No início dos anos 1900, as fam ílias de Nova Iorque consum iam m eio quilo de café por sem ana. Os fabricantes Quaker de bebidas e chocolate da Inglaterra, felizes por distribuir bebidas não-alcoólicas, obtinham sua m atéria-prim a na África Ocidental e na Am érica do Sul. Os astutos hom ens de negócios de Boston, que fundaram a United Fruit Com pany em 1885, criaram im périos privados no Caribe para fornecer à Am érica a antes insignificante banana. Os fabricantes de sabão, explorando o prim eiro m ercado a dem onstrar cabalm ente a potencialidade da nova indústria publicitária, se voltaram para os óleos vegetais da África. As plantations, as grandes propriedades rurais e as fazendas eram o segundo pilar das econom ias im periais. Os com erciantes e financistas m etropolitanos eram o terceiro.

Esses fatos não m udaram a form a nem o caráter dos países industrializados ou em processo de industrialização, em bora tenham criado novos ram os de grandes negócios, cuj os destinos ligavam -se intim am ente aos de determ inadas partes do planeta, com o as com panhias de petróleo. Mas transform aram o resto do m undo, na m edida em que o tornaram um com plexo de territórios coloniais e sem icoloniais que crescentem ente evoluíam em produtores especializados de um ou dois produtos prim ários de exportação para o m ercado m undial, de cuj os caprichos eram totalm ente dependentes. A Malaia cada vez m ais significava borracha e estanho; o Brasil, café; o Chile, nitratos; o Uruguai, carne; Cuba, açúcar e charutos. Na verdade, à exceção dos EUA, m esm o as colônias de povoam ento branco fracassaram em sua industrialização (nesta etapa), porque tam bém ficaram presas na gaiola da especialização internacional. Elas podiam tornar-se extraordinariam ente prósperas, m esm o para padrões europeus, sobretudo quando seus habitantes eram im igrantes europeus livres e, em geral, m ilitantes com força política em assem bléias eleitas, cuj o radicalism o dem ocrático podia ser trem endo, em bora norm alm ente

não incluísse os nativos[d]. Um europeu que desej asse em igrar, na Era dos Im périos, provavelm ente teria feito m elhor em ir para Austrália, Nova Zelândia, Argentina ou Uruguai do que para qualquer outro lugar, inclusive os EUA. Todos esses países desenvolveram partidos trabalhistas e radical-dem ocratas, ou m esm o governos, e am biciosos sistem as públicos de bem -estar e previdência social (Nova Zelândia, Uruguai) m uito antes dos Estados europeus. Mas o fizeram com o com plem entos da econom ia industrial européia (isto é, essencialm ente britânica) e, portanto, para eles — ou, em todo caso, para os interesses vinculados à exportação de produtos prim ários — não era negócio se industrializar. Não que as m etrópoles fossem receber de braços abertos sua industrialização. Qualquer que fosse a retórica oficial, a função das colônias e das dependências inform ais era com plem entar as econom ias m etropolitanas e não fazer-lhes concorrência.

Os territórios dependentes que não pertenciam ao que foi denom inado "capitalism o de povoam ento" (branco) não se saíram tão bem . Seu interesse econôm ico residia na com binação de recursos a um a força de trabalho que, com posta de "nativos", custava pouco e podia ser m antida barata. Entretanto, as oligarquias de proprietários de terras e de com erciantes agentes de potências estrangeiras — locais, im portados da Europa ou am bos — e, onde existiam , de seus governantes, beneficiavam -se com a duração absoluta do período de expansão das m atérias prim as de exportação de suas regiões, interrom pido apenas por crises breves, em bora às vezes dram áticas (com o na Argentina em 1890), geradas pelo ciclo com ercial, pela excessiva especulação, pela paz e a guerra. Entretanto, em bora a Prim eira Guerra Mundial tenha desorganizado alguns de seus m ercados, os produtores dependentes estavam m uito distantes dela. Do ponto de vista destes, a era dos im périos, que com eçou no final do século XIX, durou até a Grande Depressão de 1929-1933. Ainda assim , no transcurso deste período eles se tornariam crescentem ente vulneráveis, pois suas fortunas eram , cada vez m ais, função do preço do café (que em 1914 j á era responsável por 58% do valor das exportações brasileiras e 53% das colom bianas), da borracha, do estanho, do cacau, da carne ou da lã. Porém , até a queda vertical dos preços das m ercadorias prim árias durante a depressão de 1929, essa vulnerabilidade, quando considerada a longo prazo, não parecia ser m uito significativa com parada à aparentem ente ilim itada expansão das exportações e dos créditos. Ao contrário, com o vim os, antes de 1914 os term os de troca pareciam evoluir a favor dos fornecedores de produtos prim ários.

Entretanto, a im portância econôm ica crescente dessas áreas para a econom ia m undial não explica por que, entre outras coisas, os principais Estados industriais deveriam ter se precipitado em dividir o planeta em colônias e esferas de influência. A análise antiim perialista do im perialism o sugeriu vários m otivos por que os acontecim entos deveriam ter se desenrolado assim . O m ais conhecido deles — a pressão do capital por investim entos m ais rentáveis do que os realizados em seu próprio país, investim entos garantidos contra a rivalidade do capital estrangeiro — é o m enos convincente. Com o a exportação britânica de capital se expandiu im ensam ente no últim o terço do século e, de fato, a renda desses investim entos se tornou essencial para o balanço de pagam entos britânico, era perfeitam ente natural relacionar o "novo im perialism o" às exportações de capital, com o fez J. A. Hobson. Mas não há com o negar que, na verdade, m uito pouco desse fluxo m aciço tom ou o rum o dos novos im périos coloniais: a m aior parte do investim ento ultram arino britânico se dirigiu às colônias de povoam ento branco — que estavam se desenvolvendo rápido e eram em geral antigas que em breve teriam reconhecido o status de "dom ínios" praticam ente independentes (Canadá, Austrália, Nova Zelândia, África do Sul), e aos que podem ser cham ados de dom ínios "honorários", com o a Argentina e o Uruguai, sem falar nos EUA. Adem ais, o grosso desses investim entos (76% em 1913) revestiu a form a de em préstim os públicos a ferrovias e em presas de serviços públicos, que certam ente rem uneravam m elhor que o investim ento na dívida interna do governo britânico — com m édias respectivam ente de 5% e 3% — m as eram , por certo, igualm ente m enos lucrativos que os benefícios do capital industrial na Grã-Bretanha, exceto, sem dúvida, para os banqueiros que os adm inistravam . Esperava-se que fossem investim entos m ais seguros do que altam ente rem uneradores. Nenhum desses fatores significa que as colônias não foram adquiridas porque algum grupo de investidores não esperasse enriquecer da noite para o dia, ou em defesa de investim entos j á realizados. Independente da ideologia, o m otivo para a Guerra dos Boers foi o ouro.

Um m otivo geral m ais convincente para a expansão colonial foi a procura de m ercados. O fato de esta m uitas vezes fracassar é irrelevante, Era am plam ente dissem inada a crença de que a "superprodução" da Grande Depressão poderia ser resolvida por m eio de um vasto esforço de exportação. Os hom ens de negócios, sem pre propensos a preencher os espaços em branco no m apa do com ércio m undial com altos núm eros de clientes potenciais, naturalm ente procurariam estas áreas inexploradas: a China, um a das que povoava a im aginação dos hom ens de venda — e se cada um daqueles 300 m ilhões com prasse apenas um a caixa de percevej os de estanho? — e a África, o continente desconhecido, a outra. As Câm aras de Com ércio das cidades britânicas, no início dos anos 1880, em plena depressão, ficaram indignadas só de pensar que as negociações diplom áticas podiam im pedir o acesso de seus com erciantes à bacia do Congo, que se acreditava oferecer indizíveis perspectivas de vendas, ainda m ais quando esta colônia estava sendo explorada por aquele hom em de negócios coroado, o rei dos belgas, Leopoldo II, com o um proj eto lucrativo. (Seu m étodo favorito de exploração, por m eio do trabalho forçado, não visava incentivar elevadas com pras per capita, quando não dim inuindo efetivam ente o núm ero de fregueses com a tortura e o m assacre.)

Mas o ponto crucial da situação econôm ica global foi que um certo núm ero de econom ias desenvolvidas sentiu sim ultaneam ente a necessidade de novos m ercados. Quando sua força era suficiente, seu ideal eram "portas abertas" nos m ercados do m undo subdesenvolvido; caso contrário, elas tinham a esperança de conseguir para si territórios que, em virtude da sua dom inação, garantissem à econom ia nacional um a posição m onopolista ou ao m enos um a vantagem substancial. A conseqüência lógica foi a repartição das partes não ocupadas do Terceiro Mundo. Num certo sentido, tratava-se da extensão do protecionism o, que ganhou terreno em quase todas as partes após 1879 (ver capítulo anterior). "Se vocês não fossem protecionistas tão teim osos", disse o prim eiro-m inistro britânico ao em baixador francês em 1897, "não nos achariam tão ávidos por anexar territórios". Neste sentido, o "novo im perialism o" foi o subproduto natural de um a econom ia internacional baseada na rivalidade entre várias econom ias industriais concorrentes, intensificada pela pressão econôm ica dos anos 1880. Daí não decorre que se esperasse a transform ação de qualquer colônia em particular, por si só, no Eldorado, em bora isto tenha efetivam ente acontecido no caso da África do Sul, que se tornou o m aior produtor m undial de ouro. As colônias podiam propiciar apenas bases adequadas ou tram polins para a penetração na econom ia da região. Isto foi declarado com toda clareza por um funcionário do Departam ento de Estado dos EUA por volta da virada do século, quando os EUA seguiram o estilo internacional, fazendo um a breve investida para a construção de um im pério colonial próprio.

A essa altura torna-se difícil separar os m otivos econôm icos para a aquisição de territórios coloniais da ação política necessária para este fim , pois o protecionism o de qualquer tipo é a econom ia operando com a aj uda da política. O m otivo estratégico para a colonização era evidentem ente m ais forte na Grã-Bretanha, que tinha colônias de há m uito estabelecidas em locais cruciais para o controle do acesso a várias regiões terrestres e m arítim as consideradas com o vitais para os interesses m undiais com erciais e m arítim os britânicos ou que, com o surgim ento do navio a vapor, podiam funcionar com o postos de abastecim ento de carvão. (Gibraltar e Malta são antigos exem plos das prim eiras, Berm udas e Aden vieram a ser exem plos úteis das segundas.) Sem esquecer o significado sim bólico ou real que tem para os ladrões obter um a parcela apropriada do produto da pilhagem . Um a vez que as potências rivais com eçaram a recortar o m apa da África ou da Oceania, cada um a delas tentou, naturalm ente, evitar que um a porção excessiva (ou um a parcela particularm ente atraente) fosse para outras m ãos. Um a vez que o status de grande potência se associou, assim , à sua bandeira trem ulando em algum a praia bordada de palm eiras (ou, m ais provavelm ente, em áreas cobertas de arbustos secos), a aquisição de colônias se tornou um sím bolo de status em si, independente de seu valor. Por volta de 1900, até os EUA, cuj o tipo de im perialism o nunca antes, nem depois fora especialm ente associado à posse de colônias form ais, sentiram -se obrigados a adotar o m odelo. A Alem anha ficou profundam ente ofendida por um a nação tão poderosa e dinâm ica com o ela possuir um a parte tão notavelm ente m enor de território colonial que os britânicos e franceses, em bora tam bém a im portância econôm ica de suas colônias fosse pouca, e a estratégica ainda m enor. A Itália insistiu era tom ar extensões decididam ente desinteressantes de desertos e m ontanhas africanas, no intuito de dar respaldo à sua posição de grande potência; e, sem dúvida, seu fracasso na conquista da Etiópia em 1896 prej udicou essa posição.

Pois se as grandes potências eram Estados que adquiriam colônias, as pequenas nações não tinham , por assim dizer, "nenhum direito" a elas. A Espanha perdeu a m aior parte do que lhe restava de im pério colonial em decorrência da Guerra Hispano-Am ericana de 1898. Com o vim os, foram seriam ente discutidos planos de repartir o rem anescente do im pério africano de Portugal entre os novos colonialistas. Apenas os holandeses m antiveram , em silêncio, suas ricas e antigas colônias (principalm ente no sudeste asiático), e ao Rei dos belgas, com o tam bém vim os, foi perm itido dem arcar seu dom ínio privado na África, com a condição de m anter seu acesso aberto a todos, porque nenhum a grande potência estava disposta a dar a outra um a parte significativa da grande bacia do rio Congo. Devem os, é claro, acrescentar que em vastas extensões da Ásia e das Am éricas um a repartição m aciça por potências européias estava fora de questão por m otivos políticos. Nas Am éricas, a situação das colônias européias sobreviventes estava congelada pela Doutrina Monroe: só os EUA tinham liberdade de ação. Na m aior parte da Ásia, a luta era por esferas de influência em Estados nom inalm ente independentes, notadam ente China, Pérsia e Im pério Otom ano. Havia a exceção dos russos e dos j aponeses — os prim eiros estendendo com êxito sua área na Ásia Central, m as fracassando na conquista de parcelas apreciáveis no norte da China, os últim os incorporando a Coréia e Form osa (Taiwan) com o resultado de um a guerra com a China em 1894-1895. As principais regiões onde havia com petição pela detenção de terras ficavam , assim , na prática, na África e na Oceania.

Assim sendo, explicações essencialm ente estratégicas do im perialism o atraíram alguns historiadores, que tentaram colocar os m otivos da expansão britânica na África em term os da necessidade de defender as rotas para a Índia, bem com o suas vias de acesso m arítim as e terrestres, contra am eaças potenciais. De fato, é im portante recordar que, globalm ente falando, a Índia era o cerne da estratégia britânica e que esta exigia o controle não apenas das rotas m arítim as curtas (Egito, Oriente Médio. Mar Verm elho, Golfo Pérsico e Arábia do Sul) e longas (Cabo da Boa Esperança e Cingapura) para o subcontinente, m as de todo o Oceano Índico, inclusive de setores cruciais do litoral e do interior da África. Os governos britânicos tinham aguda consciência disto. Tam bém é verdade que a desintegração do poder local em algum as áreas cruciais para este fim , com o o Egito (incluindo o Sudão), levou os britânicos a im plem entarem um a presença política direta m uito m aior que sua intenção inicial e, inclusive, governo efetivo. Contudo, esses argum entos não invalidam um a análise econôm ica do im perialism o. Em prim eiro lugar, eles subestim am o incentivo diretam ente econôm ico para a aquisição de alguns territórios africanos, dos quais o sul da África é o m ais óbvio. A disputa pela África Ocidental e pelo Congo, em todo caso, foi basicam ente econôm ica. Em segundo lugar, eles passam por alto o fato de a Índia ser a "gem a m ais esplêndida da coroa im perial" e o cerne do pensam ento estratégico britânico global, j ustam ente em virtude de sua im portância m uito real para a econom ia britânica. Esta im portância nunca foi m aior que então, quando até 60% das exportações britânicas de algodão iam para a Índia e o Extrem o Oriente, principalm ente para a Índia — só para ela foram 40-45% — e o balanço de pagam entos internacional da Grã-Bretanha dependia do superávit propiciado pela Índia. Em terceiro lugar, a própria desintegração dos governos nacionais locais, que às vezes acarretou a im plantação de um governo europeu em áreas que os europeus anteriorm ente não tinham se preocupado em adm inistrar, derivou do fato de as estruturas locais terem sido solapadas pela penetração econôm ica. E, por fim , é vã a tentativa de provar que nada no desenvolvim ento interno do capitalism o ocidental nos anos 1880 explica a redivisão territorial do m undo, pois o capitalism o m undial nesse período foi claram ente diferente do que fora nos anos 1860. Agora, ele consistia num a pluralidade de "econom ias nacionais" rivais, "protegendo-se" um as das outras. Em sum a, a política e a econom ia não podem ser separadas na sociedade capitalista, assim com o a religião e a sociedade não podem ser isoladas nas regiões islâm icas. A tentativa de form ular um a explicação puram ente não econôm ica para o "novo im perialism o" é tão irrealista com o a de explicar em term os puram ente não econôm icos o surgim ento dos partidos operários.

Na verdade, o surgim ento dos m ovim entos operários ou, de m aneira m ais geral, da política dem ocrática (ver próxim o capítulo) teve um a relação nítida com o surgim ento do "novo im perialism o". A partir do m om ento em que o grande im perialista Cecil Rhodes observou em 1895 que, para evitar a guerra civil, era preciso se tornar im perialista, a m aioria dos observadores se conscientizou do assim cham ado "im perialism o social", isto é, da tentativa de usar a expansão im perial para dim inuir o descontentam ento interno por m eio de avanço econôm ico ou reform a social, ou de outras m aneiras. Não há dúvida de que todos os políticos eram perfeitam ente conscientes dos benefícios potenciais do im perialism o. Em alguns casos — notadam ente na Alem anha — o surgim ento do im perialism o foi basicam ente explicado em term os da "prim azia da política interna". A versão de Cecil Rhodes do im perialism o social, que pensou basicam ente nos benefícios econôm icos que o im pério, direta ou indiretam ente, podia proporcionar às m assas descontentes, foi talvez a m enos relevante. Não há provas válidas de que a conquista colonial com o tal tenha tido m uita relação com o nível de em prego ou com os

rendim entos reais da m aioria dos operários dos países m etropolitanos[e], e a idéia de que a em igração para as colônias propiciaria um a válvula de escape aos países superpovoados foi pouco m ais que um a fantasia dem agógica. (Na verdade, nunca foi tão fácil encontrar um lugar para onde em igrar que entre 1880 e 1914, e apenas um a ínfim a m inoria de em igrantes se dirigiu às colônias — ou precisou fazê-lo.)

Muito m ais relevante era a conhecida prática de oferecer aos eleitores a glória, m uito m ais que reform as onerosas: e o que há de m ais glorioso que conquistas de territórios exóticos e raças de pele escura, sobretudo quando norm alm ente era barato dom iná-los? De form a m ais geral, o im perialism o encoraj ou as m assas, e sobretudo as potencialm ente descontentes, a se identificarem ao Estado e à nação im periais, outorgando assim , inconscientem ente, ao sistem a político e social representado por esse Estado j ustificação e legitim idade. Num a era de política de m assa (ver próxim o capítulo), m esm o os sistem as antigos precisavam de nova legitim idade. Um a vez m ais, seus contem porâneos tinham total clareza a este respeito. A cerim ônia britânica de coroação de 1902, cuidadosam ente rem odelada, foi elogiada por visar a expressar "o reconhecim ento, por um a dem ocracia livre, de um a coroa hereditária como símbolo do domínio mundial de sua espécie" (grifo m eu). Em sum a, o im pério era um excelente aglutinante ideológico.

Não é totalm ente claro até que ponto essa variante específica de patriotism o exacerbado foi eficaz, especialm ente em países onde o liberalism o e a esquerda, m ais radical, contavam com fortes tradições antiim perial, antim ilitar, anticolonial ou, de m aneira m ais geral, antiaristocrática. Sabe-se que, em vários países, o im perialism o era extrem am ente popular entre os novos estratos m édios e de colarinhos brancos, cuj a identidade social residia, em grande m edida, na reivindicação de serem os instrum entos preferenciais do patriotism o (ver cap. 8). São m uito m enos num erosos os indícios de qualquer entusiasm o espontâneo dos operários pelas conquistas coloniais, ainda m enos pelas guerras, ou, na verdade, de qualquer grande interesse nas colônias, novas ou antigas (à exceção das de povoam ento branco). O êxito das tentativas de institucionalizar o orgulho pelo im perialism o, com o com a fixação de um "Dia do Im pério" na Grã-Bretanha (1902), dependia am plam ente da m obilização de um público cativo de escolares. (O apelo ao patriotism o, em sentido m ais geral, será abordado abaixo.)

Entretanto, é im possível negar que a idéia da superioridade em relação a um m undo de peles escuras situado em lugares rem otos e sua dom inação era autenticam ente popular, beneficiando, assim , a política do im perialism o. Em suas grandes exposições internacionais (ver A Era do Capital, cap. 2), a civilização burguesa sem pre se orgulhara do triunfo triplo da ciência, da tecnologia e das m anufaturas. Na era dos im périos, ela tam bém se orgulhará de suas colônias. No final do século m ultiplicaram -se os "pavilhões coloniais", até então praticam ente desconhecidos: dezoito deles com plem entaram a Torre Eiffel em 1889, catorze atraíram os turistas a Paris em 1900. Tratava-se, sem dúvida, de publicidade proposital, m as com o toda propaganda — com ercial ou política — realm ente bem -sucedida, só teve êxito por ter tocado um ponto sensível do público. As exposições coloniais eram um sucesso. Os j ubileus, funerais e coroações reais britânicos eram ainda m ais im pressionantes porque, com o os antigos triunfos rom anos, exibiam m araj ás subm issos com vestim entas preciosas — livrem ente leais e não cativos. As paradas m ilitares tornavam -se ainda m ais coloridas por incluir sikhs enturbantados, raj puts bigodudos, gurkas sorridentes e im placáveis, cavalarianos argelinos e altos senegaleses negros: o m undo do que era considerado com o barbárie a serviço da civilização. Mesm o na Viena dos Habsburgo, desinteressada de colônias ultram arinas, um povoado ashanti fascinou os

visitantes. O douanier [f] Rousseau não era o único a sonhar com os trópicos.

Assim sendo, a sensação de superioridade que uniu os brancos ocidentais — ricos, classe m édia e pobres — não se deveu apenas ao fato de todos eles desfrutarem de privilégios de governante, sobretudo quando efetivam ente estavam nas colônias. Em Dacar ou Mom baça, o m ais m odesto funcionário era um am o e era aceito com o gentleman por pessoas que nem teriam notado sua existência em Paris ou Londres; o operário branco era um com andante de negros. Mas m esm o onde a ideologia insistia num a igualdade, m esm o potencial, esta se transform ava gradualm ente em dom inação. A França acreditava na transform ação de seus súditos em franceses, teoricam ente descendentes de "nos ancêtres les gaulois (nossos ancestrais, os gauleses) — com o os livros didáticos insistiam , tanto em Tim buctu com o na Martinica e em Bordeaux — ao contrário dos britânicos, convencidos do caráter não-inglês essencial e perm anente dos bengalis e iorubás. Contudo, a existência m esm a desses estratos de évolués nativos ressaltava a falta de "evolução" da grande m aioria. As Igrej as em preenderam a conversão dos pagãos a várias versões da verdadeira fé cristã, exceto onde ativam ente desencoraj adas pelos governos coloniais (com o na Índia) ou onde a tarefa era claram ente im possível (com o nas regiões islâm icas).

Essa foi a época clássica de em penho m issionário m aciço[g]. O trabalho m issionário não foi, de form a algum a, um interm ediário da política im perialista. Muitas vezes se opôs às autoridades coloniais; quase sem pre colocou os interesses de seus convertidos em prim eiro lugar. Contudo, o sucesso do Senhor se dava em função do avanço im perialista. Ainda pode ser debatido se o com ércio seguiu a bandeira, m as não há dúvida de que a conquista colonial abriu o cam inho à ação m issionária efetiva — com o em Uganda, na Rodésia (Zâm bia e Zim bábue) e Niassalândia (Malaui). E se a cristandade insistia na igualdade de alm as, ressaltava a desigualdade de corpos — m esm o de corpos clericais. Era algo feito pelos brancos para os nativos, e pago pelos brancos. E em bora os fiéis nativos se m ultiplicassem , ao m enos a m etade do clero continuou branca. Quanto a um bispo de cor, seria necessário um m icroscópio potente para detectá-lo em algum lugar entre 1880 e 1914. A Igrej a Católica só sagrou seus prim eiros bispos asiáticos nos anos 1920, oitenta anos após ter observado o quanto isso seria desej ável.

Quanto ao m ovim ento m ais apaixonadam ente devotado à igualdade entre todos os hom ens, ele falava com duas vozes. A esquerda secular era antiim perialista em seus princípios e freqüentem ente em sua prática. A liberdade para a Índia, com o a liberdade para o Egito e a Irlanda, eram o obj etivo do m ovim ento trabalhista britânico. A esquerda nunca vacilou em sua condenação das guerras e conquistas coloniais, correndo m uitas vezes o risco considerável de um a im popularidade tem porária — com o na oposição britânica à Guerra dos Boers. Os radicais revelaram os horrores do Congo, das plantações m etropolitanas de cacau nas ilhas africanas, do Egito. A cam panha que levou à grande vitória eleitoral do Partido Liberal britânico em 1906 foi travada, em grande m edida, por m eio de denúncias públicas do "escravism o chinês" nas m inas sul-africanas. Contudo, com raríssim as exceções (com o a Indonésia holandesa), os socialistas ocidentais pouco fizeram efetivam ente para organizar a resistência dos povos coloniais contra seus governantes até a era da Internacional Com unista. Dentro do m ovim ento socialista e operário, aqueles que aceitavam abertam ente o im perialism o com o algo desej ável, ou ao m enos com o um a etapa essencial na história dos povos que ainda não estavam "preparados para um governo autônom o", eram um a m inoria da direita revisionista e fabiana, em bora m uitos líderes sindicais provavelm ente considerassem as discussões sobre as colônias com o irrelevantes, ou encarassem os povos de cor basicam ente com o força de trabalho barata que am eaçava os resolutos operários brancos. Certam ente, a pressão em favor da proibição da im igração de cor, que gerou as políticas da "Califórnia Branca" e "Austrália Branca" entre 1880 e 1914, originou-se basicam ente na classe operária, e os sindicatos de Lancashire se uniram aos patrões do setor de algodão da região para insistir em que a Índia devia perm anecer não industrializada. Internacionalm ente, o socialism o anterior a 1914 continuou sendo um m ovim ento predom inantem ente de europeus e de em igrantes brancos e seus descendentes (ver cap. 5). O colonialism o perm aneceu um interesse m arginal para eles. Na verdade, sua análise e definição da nova etapa "im perialista" do capitalism o, que eles detectaram a partir do final dos anos 1890, considerava acertadam ente a anexação e a exploração coloniais apenas com o um sintom a e um a característica dessa nova etapa: indesej ável, com o todas as suas características, m as não central em si. Foram poucos os socialistas que, com o Lenin, j á estavam com os olhos postos no "m aterial inflam ável" na periferia do capitalism o m undial.

Na m edida em que a análise socialista (isto é, sobretudo m arxista) integrava o colonialism o a um conceito m uito m ais am plo de um a "nova etapa" do capitalism o, ela era indubitavelm ente correta em princípio, em bora não necessariam ente nos detalhes de seu m odelo teórico. Essa análise às vezes tam bém era propensa dem ais — com o, aliás, as análises capitalistas da época — a exagerar o significado econôm ico da expansão colonial para os países m etropolitanos. O im perialism o do final do século XIX foi indubitavelm ente "novo". Foi produto de um a era de concorrência entre econom ias industrial-capitalistas rivais, fato novo e intensificado pela pressão em favor da obtenção e da preservação de m ercados num período de incerteza econôm ica (ver cap. 2); em sum a, foi um a era em que "tarifas alfandegárias e expansão tornam -se a reivindicação com um às classes dirigentes". Foi parte de um processo de abandono de um capitalism o de políticas públicas e privadas de laissez-faire, o que tam bém era novo, e im plicou o surgim ento de grandes sociedades anônim as e oligopólios, bem com o a crescente intervenção do Estado nos assuntos econôm icos. O im perialism o pertencia a um período em que a parte periférica da econom ia m undial tornou-se crescentem ente significativa. Foi um fenôm eno que pareceu tão "natural" em 1900 com o teria parecido im plausível em 1860. Mas se não fosse por essa vinculação entre o capitalism o pós-1873 e a expansão ao m undo não-industrializado, há dúvidas até sobre se o "im perialism o social" teria tido o m esm o papel que desem penhou na política interna dos Estados que estavam se adaptando à política eleitoral de m assa. Todas as tentativas de isolar a explicação do im perialism o do desenvolvim ento específico do capitalism o no fim do século XIX devem ser encaradas com o exercícios ideológicos, em bora freqüentem ente eruditos e às vezes argutos.