A Era dos Impérios 1875-1914
Capítulo 2
O quarto fator foi o substancial aum ento do núm ero daqueles que pertenciam , pretendiam pertencer ou que aspiravam obsessivam ente a fazer parte da burguesia; era o aum ento, em sum a, da "classe m édia" com o um todo. Um a idéia definida de um estilo de vida essencialm ente dom éstico era um a das coisas que m antinham todos os seus m em bros j untos.
2
Ao m esm o tem po, a dem ocratização, a elevação da classe operária autoconsciente e a m obilização social criavam um novo problem a de identidade social para os que pertenciam ou desej avam pertencer a um a ou outra cam ada dessas "classes m édias". A definição de "burguesia" é notoriam ente difícil (cf. A Era do Capital, cap. 3:3 e 4), e não foi facilitada na m edida em que a dem ocracia e a ascensão dos m ovim entos operários induziram aqueles que pertenciam à burguesia (cuj o nom e tornava-se cada vez m ais um palavrão) a negar em público a sua própria existência com o classe, senão a existência de todas as classes. Na França sustentava-se que a Revolução havia abolido as classes; na Inglaterra, que as classes, não sendo castas fechadas, não existiam ; no cam po cada vez m ais ressoante da sociologia, que a estrutura social e a estratificação eram dem asiado com plexas para tais sim plificações. Na Am érica, o perigo parecia residir não tanto na possibilidade de as m assas se m obilizarem com o um a só classe, identificando seus exploradores com o outra classe, m as sim em que, afirm ando seu direito constitucional à igualdade, declarassem pertencer à classe m édia dim inuindo as vantagens (outras que não a dos irretorquíveis fatos da riqueza) de se pertencer a um a elite. A sociologia, que com o disciplina acadêm ica era um produto do período de 1870-1914, sofre ainda as conseqüências dos infindáveis e inconclusivos debates sobre classe e status social, devido à predileção de seus praticantes pela reclassificação da população do m odo que m elhor convenha às suas convicções ideológicas.
Além disso, com a m obilidade social e o declínio das hierarquias tradicionais estabelecendo quem pertence ou não a um "estrato m édio" ou "condição" social, os lim ites desta zona social interm ediária (e da sua área interna) tornaram -se im precisos. Em países habituados às classificações m ais antigas, com o a Alem anha, eram inferidas esm eradas distinções entre um Bürgertum da burguesia, por sua vez dividido em Besitzbürgertum, baseado na posse de propriedades, e em Bildungsbürgertum, baseado no acesso ao status burguês por m eio da educação superior, além de um Mittelstand ("condição m édia"), abaixo do precedente, o qual, por sua vez, olhava por cim a do om bro para o Kleinbürgertum, ou pequena burguesia. Outras línguas da Europa ocidental sim plesm ente m anipulavam as categorias im precisas e m utáveis de um a burguesia/classe m édia "grande" ou "superior", "pequena" ou "inferior", entre as quais havia um espaço ainda m ais im preciso. De que m odo determ inar, porém , quem poderia pretender fazer parte de qualquer um a destas categorias?
A dificuldade básica residia na constante elevação do núm ero dos pretendentes ao status burguês, num a sociedade em que, afinal, era a burguesia que form ava o estrato social superior. Mesm o onde a antiga nobreza proprietária de terras não havia sido elim inada (com o na Am érica) ou privada de seus privilégios de jure (com o na França republicana), seu perfil nos países capitalistas desenvolvidos era nitidam ente m ais baixo. Mesm o na Inglaterra, onde conservara sua presença política proem inente e as m aiores fortunas, durante as décadas de m eados do século, ela declinava. Em 1858-1879, dos m ilionários ingleses que m orreram , quatro quintos (117) ainda haviam sido proprietários de terras; em 1880-1889, apenas pouco m ais de um terço deles o haviam sido, e em 1900-1914, essa percentagem foi ainda m ais baixa. Os aristocratas perfaziam a m aioria em quase todos os gabinetes ingleses, antes de 1895. Após esta data, j am ais o tornaram a ser. Os títulos de nobreza estavam longe de ser desprezados, m esm o em países que oficialm ente não os reconheciam ; am ericanos ricos, que não os podiam adquirir para si, com pravam -nos na Europa, com a m aior presteza, por m eio de casam entos subsidiados para suas filhas. As m áquinas de costura Singer tornaram -se a princesa de Polignac. Não obstante, m esm o antigas m onarquias profundam ente enraizadas adm itiam que dinheiro era um critério de nobreza tão útil com o o do sangue azul. O im perador Guilherm e II "considerava dever seu, com o governante, atender aos desej os dos m ilionários, em relação às condecorações e patentes de nobreza; condicionava, porém , suas m ercês a doações de caridade, no interesse público. Talvez o influenciassem os m odelos ingleses". Bem o poderia crer o observador. Dos 159 pariatos criados na Inglaterra, entre 1901 e 1920 (om itindo os concedidos às forças arm adas), 66 foram concedidos a hom ens de negócios, m etade dos quais eram industriais; e a 34 profissionais liberais, dos quais a grande m aioria era de advogados; apenas vinte foram concedidos a proprietários de terras.
Se a linha entre a burguesia e aristocracia era im precisa, os lim ites entre a burguesia e seus inferiores estavam tam bém longe de ser claros. Isto não afetava dem asiadam ente a "antiga" classe m édia baixa ou pequena burguesia de artesãos independentes, pequenos loj istas e seus sem elhantes. A sua escala de operações os situava firm em ente em um nível m ais baixo e m esm o em oposição à burguesia. O program a dos radicais franceses constava de um a série de variações sobre o tem a "o pequeno é belo": "a palavra 'petit' é constantem ente repetida nos congressos do Partido Radical". Seus inim igos eram "les gros" — o grande capital, a grande indústria, a grande finança, os grandes negociantes. Essa m esm a atitude, com um a deform ação direitista, nacionalista e anti-sem ita, e não esquerdista e republicana, encontrava-se entre seus equivalentes alem ães, m ais pressionados pela irresistível e rápida industrialização desde a década de 1870. Visto do alto, não apenas sua pequenez m as, de igual m odo, suas ocupações os excluíam de um status m ais elevado, a não ser quando, excepcionalm ente, a dim ensão de sua fortuna obliterasse a m em ória de sua origem . Ainda assim , a im pressionante transform ação do sistem a distributivo, especialm ente da década de 1880 em diante, tornava necessárias algum as revisões. A palavra "m erceeiro" traz ainda um a conotação de desprezo entre as classes m édias altas, m as na Inglaterra desta época um hom em com o Sir John Lipton (que ganhou seu dinheiro com pacotes de chá), Lord Leverhulm e (que o ganhou com sabão), ou Lord Vestey (que o ganhou com carne congelada), adquiriam títulos e iates a vapor. Todavia, a dificuldade real surgiu com a enorm e expansão do setor terciário — o dos em pregos em escritórios públicos e privados —, isto é, o de um trabalho que era tanto claram ente subalterno com o rem unerado m ediante ordenados
(m esm o se cham ados de "recom pensa"[a]), m as que era, de igual m odo, não-m anual e baseado em qualificações educacionais, apesar de relativam ente m odestas; e, acim a de tudo, realizado por hom ens, ou m esm o por algum as m ulheres, a m aioria das quais recusava-se especificam ente a considerar-se parte da classe operária e aspirava, não raro com im ensos sacrifícios m ateriais, ao estilo de vida e à respeitabilidade da classe m édia. A linha entre esta nova "classe m édia baixa" de "em pregados" (Angestellte, employés) e os m ais altos estratos profissionais, ou m esm o dos executivos e gerentes assalariados dos grandes negócios, levantavam problem as novos.
Deixando de lado estas novas classes m édias baixas, tornava-se claro que aum entava rapidam ente o núm ero de novos candidatos à classe m édia, ou de aspirantes ao status da classe m édia, o que propunha problem as práticos de dem arcação e definição, dificultados ainda pela incerteza dos critérios teóricos relativos a essas definições. Aquilo que constituía "a burguesia" sem pre foi m ais difícil de determ inar do que aquilo que, em teoria, definia a nobreza (por exem plo, nascim ento, títulos hereditários, propriedade de terras) ou a classe operária (por exem plo, o salário e o trabalho m anual). Todavia (cf. A Era do Capital, cap. 13), os critérios de m eados do século XIX eram bastante explícitos. Exceto no caso de servidores públicos graduados e rem unerados, esperava-se que os m em bros dessa classe possuíssem capital ou renda proveniente de investim entos e/ou que agissem com o em presários independentes, que auferiam lucros e em pregavam operários, ou que fossem m em bros de um a profissão "liberal", o que era um a form a de iniciativa privada. É significativo que "lucros" e "honorários" fossem incluídos sob o m esm o título, para fins de arrecadação de im posto de renda, na Inglaterra. No entanto, diante das m udanças acim a referidas, estes critérios tornaram -se m uito m enos úteis para distinguir os m em bros da burguesia "real" — econom icam ente, m as acim a de tudo socialm ente — na considerável m assa das "classes m édias", para não m encionar o grupo, ainda m aior, form ado por aqueles que aspiravam a tal status. Nem todos possuíam capital; m as não o possuíam , de igual m odo (pelo m enos inicialm ente), m uitos hom ens de status burguês inconteste, que o haviam substituído pela educação superior com o recurso inicial (Bildungsbürgertum): seu núm ero aum entava substancialm ente. O núm ero de m édicos, na França, que era m ais ou m enos estável entre 1866 e 1886, aum entara para 20.000 por volta de 1911; na Inglaterra, o núm ero de m édicos elevou-se de 15.000 para 22.000; o de arquitetos, de 7.000 para 11.000, entre 1881 e 1901; nestes dois países o crescim ento foi m ais rápido que o crescim ento da população adulta. Nem todos eram em presários ou em pregadores (exceto dos próprios criados). Mas quem poderia negar status burguês aos gerentes graduados rem unerados, que perfaziam um a parte, sem pre m ais essencial, da grande em presa em um tem po no qual, conform e acentuava um perito alem ão, "o caráter íntim o e puram ente privado do antigo pequeno negócio sim plesm ente não se aplicava m ais aos grandes em preendim entos"?
A grande m aioria de todas essas classes m édias, pelo m enos na m edida em que m uitas delas eram produto da era posterior à revolução dual (cf. A Era das Revoluções, Introdução), tinham um a coisa em com um : a m obilidade social, passada e presente. Sociologicam ente, conform e notou um observador francês na Inglaterra, as "classes m édias" consistiam "essencialm ente em fam ílias no processo de elevar-se socialm ente", e a burguesia, em pessoas que "haviam chegado" — sej a no ponto m ais alto ou em algum platô convencionalm ente definido. Tais instantâneos, contudo, dificilm ente apresentariam um a im agem adequada de um processo em m ovim ento, que só poderia ser surpreendido pelo equivalente sociológico daquela recente invenção, o film e, ou fotografia em m ovim ento. Os "novos estratos sociais", cuj o advento Gam betta considerava o conteúdo essencial do regim e da Terceira República francesa — e pensava, sem dúvida, em hom ens sem elhantes a ele próprio, que abriam seu cam inho para ganhar influência e renda sem negócios nem propriedades, m as por m eio da política dem ocrática —, não cessavam de se m over, m esm o quando, reconhecidam ente, haviam "chegado". Inversam ente, essa "chegada" não m udaria o caráter da burguesia? A qualidade de m em bro desta classe poderia ser negada aos pertencentes à segunda ou à terceira geração, que levavam vida ociosa, apoiados na fortuna da fam ília e que, às vezes, reagiam contra os valores e as atividades que constituíam , ainda, a essência de sua classe?