A Era dos Impérios 1875-1914
Capítulo 2
O nacionalism o de Estado, quer o real ou (com o no caso dos m onarcas) o inventado por conveniência, era um a estratégia de dois gum es. À m edida que m obilizava alguns habitantes, alienava outros — os que não pertenciam nem desej avam pertencer à nação identificada com o Estado. Em sum a, auxiliava a definir as nacionalidades excluídas da nacionalidade oficial, por m eio da separação de com unidades que, por qualquer m otivo, resistiam à linguagem e à ideologia pública, oficial.
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Por que, porém , resistiam alguns quando tantos não o faziam ? Afinal, eram oferecidas substanciais vantagens aos cam poneses — e m aiores ainda aos seus filhos — se se tornassem franceses; "ou de fato para qualquer um que adquirisse um a língua im portante para a cultura e para a ascensão profissional, além do seu próprio dialeto ou vernáculo". Em 1910, 70% dos im igrantes alem ães que iam para os EUA, lá chegando com em m édia (para depois de 1910) 41 dólares no bolso, tornavam -se cidadãos am ericanos de fala inglesa, em bora, obviam ente, não tencionassem deixar de falar e de sentir com o alem ães. (A bem da verdade, poucos Estados tentaram seriam ente im pedir a vida privada de um a linguagem e cultura de m inoria, contanto que não desafiasse publicam ente a suprem acia do Estado-nação oficial.) Tam bém poderia acontecer que a linguagem não-oficial não pudesse efetivam ente com petir com a oficial, exceto para fins de religião, poesia ou sentim ento com unal e fam iliar. Por m ais difícil que sej a acreditar nisto hoj e em dia, existiram galeses ardentem ente nacionalistas que aceitaram um lugar secundário para sua antiga língua celta no século do progresso, e outros que visualizaram para ela
um a futura eutanásia[d] natural. Houve, na verdade, quem preferisse m igrar, não de um para outro território, m as de um a classe para outra; viagem esta que poderia significar m udança de nação ou pelo m enos m udança de linguagem . A Europa central encheu-se de nacionalistas alem ães com nom es obviam ente eslavos e de m agiares cuj os nom es eram traduções literais do alem ão ou adaptações do eslovaco. A nação am ericana e a língua inglesa não foram as únicas que, na era do liberalism o e da m obilidade, em itiram convites para quase todos que quisessem se tornar sócios. E houve m uita gente que se deu por feliz em aceitar tais convites, ainda m ais que isto não im plicava realm ente negação de suas origens. Durante o século XIX, para a m aioria, "assim ilação" estava longe de ser nom e feio: era o que um grande núm ero de pessoas esperava conseguir, especialm ente os que desej avam entrar para as classes m édias.
Um a óbvia razão pela qual os m em bros de algum as nacionalidades recusavam -se a ser "assim ilados" era a de não lhes perm itirem tornar-se plenam ente m em bros da nação oficial. O caso extrem o é o das elites nativas nas colônias européias, educadas na língua e na cultura de seus donos para que pudessem adm inistrar os coloniais no interesse dos europeus, m as m anifestam ente não tratadas com o seus iguais. Neste caso, era fatal que irrom pesse um conflito, cedo ou tarde, m ais ainda por haver a educação ocidental, na verdade, fornecido um a linguagem específica na qual articulariam suas reivindicações. Por que, escrevia um intelectual indonésio em 1913 (em holandês), esperava-se que os indonésios com em orassem o centenário da libertação dos Países Baixos de Napoleão? Se ele fosse um holandês "não organizaria um a com em oração de independência num país em que havia sido roubada a independência do povo".
Os povos coloniais constituíam caso extrem o, um a vez que desde o início tornou-se claro, dado o racism o que perm eia a sociedade burguesa, que não havia assim ilação que transform asse hom ens de pele escura em "verdadeiros" ingleses, belgas ou holandeses, em bora possuísse tanto dinheiro e sangue nobre e tanto gosto pelos esportes quanto a nobreza européia — caso este aplicável a m uito raj á indiano educado na Inglaterra. Contudo, m esm o no interior do m undo dos brancos havia um a im pressionante contradição entre a oferta de assim ilação ilim itada para quem quer que revelasse boa vontade e capacidade para reunir-se à nação-Estado e a rej eição, na prática, de alguns grupos. Isso tornava-se especialm ente dram ático para aqueles que até então haviam suposto, com fundam entos altam ente plausíveis, que não havia lim ites para o que poderia ser alcançado pela assim ilação: os j udeus cultos e ocidentalizados de classe m édia. Eis por que o caso Drey fus na França, a vitim ação de um único oficial do estado-m aior francês, por ser j udeu, produziu um a reação de horror tão desproporcionada — e não apenas entre os j udeus m as entre todos os liberais — e conduziu diretam ente ao estabelecim ento do sionism o, um nacionalism o de Estado, territorial, para j udeus.
A m etade do século precedente a 1914 foi a era clássica da xenofobia e, portanto, de reação nacionalista a ela, porquanto — m esm o deixando de lado o colonialism o global — foi um a era de m obilidade m aciça e de m igração e, especialm ente durante as décadas da Depressão, de tensão social, declarada ou oculta. Tom em os um só exem plo: em 1914, aproxim adam ente, cerca de 3,6 m ilhões (ou quase 15% da população) haviam abandonado perm anentem ente o território da Polônia do entreguerras, sem contar outro m eio m ilhão por ano de m igrantes sazonais. A conseqüente xenofobia não veio apenas de baixo. Suas m anifestações m ais inesperadas, que refletiam a crise do liberalism o burguês, provinham das classes m édias estabelecidas, que não tinham sequer a probabilidade de se encontrar com a espécie de gente que se instalara em Lower East Side, em Nova Iorque, ou em aloj am entos de trabalhadores rurais, na Saxônia. Max Weber, glória da im parcialidade da erudição alem ã burguesa, desenvolveu tal anim osidade contra os poloneses (que, corretam ente, acusava de haverem sido im portados em m assa por latifundiários alem ães, com o m ão-de-obra barata), que até entrou para a ultranacionalista Liga Pan-Germ ânica, na década de 1890. A verdadeira sistem atização do preconceito de raça contra "eslavos, m editerrâneos e sem itas" nos EUA situa-se entre a população branca nativa, especialm ente entre protestantes de fala inglesa de classes m édia e alta, os quais, nessa época, chegaram m esm o a inventar seu próprio m ito heróico e nativista, o caubói anglo-saxão branco (felizm ente, não sindicalizado) dos am plos espaços — m uito diferentes dos perigosos
form igueiros das j á inchadas grandes cidades.[e]
De fato, para essa burguesia, a afluência dos estrangeiros pobres realçava e sim bolizava os problem as suscitados pelo proletariado urbano em expansão, visto este com binar as características dos "bárbaros" internos e externos, que am eaçavam tragar a civilização, tal com o a conheciam os hom ens respeitáveis. Além disso, eles acentuavam — e em parte nenhum a m ais que nos EUA — a aparente incapacidade da sociedade para lidar com problem as de m udança brusca, bem com o a im perdoável falha das novas m assas em não aceitar a posição superior das antigas elites. Foi em Boston, centro da tradicional burguesia branca, anglo-saxã e protestante, ao m esm o tem po instruída e rica, que foi fundada a Liga de Restrição à Im igração, em 1893. Politicam ente, a xenofobia das classes m édias foi quase certam ente m ais eficaz que a das classes trabalhadoras, que refletia atritos culturais entre vizinhos e o m edo da com petição de um a m ão-de-obra barata. A não ser sob um aspecto: foi a pressão local da classe trabalhadora que na realidade excluiu os estrangeiros dos m ercados de trabalho, dado que, para os em pregadores, o incentivo de im portar m ão-de-obra barata era quase irresistível. Onde a exclusão m antinha inteiram ente afastado o estrangeiro — com o a prescrição de im igrantes não-brancos, na Califórnia e na Austrália, que triunfou nas décadas de 1880 e 1890 —, o fato não produziu atritos nacionais ou com unais; m as onde discrim inava um grupo j á presente, com o o dos africanos, na África do Sul branca, ou os católicos, na Irlanda do Norte, isto naturalm ente ocorria. Contudo, a xenofobia das classes trabalhadoras raram ente foi eficaz antes de 1914. Exam inando bem os fatos, a m aior m igração de povo da história produziu surpreendentem ente poucas agitações contra estrangeiros entre os trabalhadores, m esm o nos EUA e, praticam ente nenhum a, com o na Argentina e no Brasil.
Não obstante, os grupos de em igrantes em países estrangeiros provavelm ente descobririam sentim entos nacionais, encontrassem ou não a xenofobia local. Poloneses e eslovacos adquiriam consciência de si com o tais, não apenas porque, havendo deixado suas aldeias natais, não podiam m ais contar consigo com o pessoas que não requerem definição, e não só por lhes ser im posta, nos Estados para onde se haviam transferido, algum a nova definição, com o as que classificavam pessoas que até então se haviam considerado sicilianos ou napolitanos, ou m esm o nativos de Lucca ou Salerno, com o "italianos", o que ocorreu na chegada aos EUA. Necessitavam da própria com unidade, para auxílio m útuo. De quem poderiam os im igrantes esperar auxílio, em sua nova vida, estranha e desconhecida, senão de parentes e am igos, de gente da antiga terra? (Mesm o m igrantes regionais, dentro de seu próprio país conservam -se j untos.) Quem o entenderia — ou a ela, o que é m ais a propósito, pois a esfera fem inina dom éstica torna a m ulher m ais m onoglota que o hom em ? Quem poderia dar-lhes a feição de um a com unidade e não de um a pilha de estrangeiros, exceto, em prim eiro lugar, algum grupo com o a sua igrej a — que, em bora em teoria fosse universal, era nacional, na prática —, um a vez que seus sacerdotes provinham do m esm o povo que suas congregações? Os padres eslovacos falariam eslovaco com eles, fosse qual fosse a língua em que celebravam m issa. Assim é que a "nacionalidade" se tornava um a verdadeira rede de relações pessoais e não um a com unidade im aginária, sim plesm ente porque, longe da terra, todo esloveno tinha, potencialm ente, um a conexão pessoal com outro esloveno quando se encontravam .
Além disso, se tais populações devessem de algum m odo ser organizadas, tendo em vista as novas sociedades em que se encontravam , isto teria de ser feito de m odo a perm itir com unicação. Os m ovim entos operários e socialistas, com o vim os, eram internacionalistas e chegavam a sonhar, com o antes os liberais (cf. A Era do Capital, cap. 3:1, 4), com um futuro em que todos falariam um a única linguagem m undial — sonho que sobrevive ainda em pequenos grupos de esperantistas. Mais cedo ou m ais tarde, com o esperava Kautsky ainda em 1908, todo o conj unto da hum anidade instruída seria fundido num a só língua e nacionalidade. Todavia, enquanto esperavam , enfrentavam o problem a da torre de Babel: os sindicatos nas fábricas da Hungria tinham de em itir cham ados para greve em quatro línguas diferentes. Não tardaram a descobrir que grupos de nacionalidades m escladas não trabalham bem , a não ser que seus m em bros sej am j á bilíngües. Movim entos internacionais de trabalhadores precisavam ser com binações de unidades nacionais ou lingüísticas. Nos EUA, o partido que efetivam ente tornou-se partido de m assa dos trabalhadores, o Dem ocrata, desenvolveu-se, necessariam ente, com o coalizão "étnica".
Quanto m aior a m igração dos povos, tanto m ais rápido o desenvolvim ento das cidades e da indústria, que lançava as m assas desenraizadas um as contra as outras, e tanto m aior a base para a consciência nacional entre os desenraizados. Portanto, no caso de m ovim entos nacionais novos, o exílio era com freqüência o principal local de incubação. Quando o futuro presidente Masary k assinou o acordo que viria a criar um Estado unindo tchecos e eslovacos (Tchecoslováquia), ele o fez em Pittsburg, pois a base de m assas do nacionalism o organizado eslovaco encontrava-se na Pensilvânia e não na Eslováquia. Com respeito ao atrasado povo m ontanhês dos Cárpatos, conhecido na Áustria com o rutenos, que tam bém viriam a se unir à Tchecoslováquia, de 1918 a 1945, seu nacionalism o não tinha qualquer expressão organizada, exceto entre os em igrantes, nos EUA.
O auxílio m útuo e a proteção aos em igrantes podem ter contribuído para o crescim ento do nacionalism o em suas nações, m as não são suficientes para explicá-lo. Todavia, na m edida em que repousava sobre um a am bígua nostalgia de duas faces pelos velhos costum es deixados na velha pátria pelos em igrantes, ele possuía algo em com um com a força que, sem dúvida, im pelia o nacionalism o na terra natal, especialm ente nas nações m enores. Era o neotradicionalism o, um a reação defensiva e conservadora contra a desintegração da velha ordem social pela epidem ia de m odernidade que avançava, pelo capitalism o, pelas cidades e pela indústria, sem esquecer o socialism o proletário, que era seu resultante lógico.
O elem ento tradicionalista é bastante óbvio, no apoio oferecido pela Igrej a Católica a m ovim entos tais com o os do nacionalism o basco e flam engo, ou m esm o a m uitos nacionalism os de pequenos povos que eram , quase por definição, rej eitados pelo nacionalism o liberal, com o incapazes de form ar nações-Estado viáveis. Os ideólogos de direita, que ora se m ultiplicavam , inclinavam -se igualm ente a desenvolver o gosto pelo regionalism o cultural tradicionalm ente enraizado, tal com o a félibrige provençal. De fato, os ancestrais ideológicos da m aioria dos m ovim entos separatistas e regionalistas do fim do século XX, na Europa ocidental (o bretão, o galês, o occitano, etc.), encontram -se na direita intelectual pré-1914. Inversam ente, entre esses pequenos povos, nem a burguesia nem o novo proletariado costum avam achar a seu gosto os m ininacionalism os. Em Gales a ascensão dos trabalhistas solapou o nacionalism o dos j ovens galeses, que am eaçara anexar o Partido Liberal. Quanto à nova burguesia industrial, era de esperar que preferisse o m ercado de um a grande nação ou o do m undo ao constrangim ento provincial de um pequeno país ou região. Nem na Polônia russa nem no país basco, duas regiões desproporcionadam ente industrializadas, de Estados m aiores, os capitalistas nativos dem onstraram entusiasm o pela causa nacional; e a burguesia de Ghent, abertam ente voltada para a França, era um a provocação perm anente aos nacionalistas flam engos. Ainda que tal falta de interesse não fosse com pletam ente universal, era suficientem ente forte para desorientar Rosa Luxem burgo, a ponto de ela supor não haver base burguesa para o nacionalism o polonês.
Mas, o que era ainda m ais decepcionante para os tradicionalistas nacionalistas, o cam pesinato, a m ais tradicionalista das classes, dem onstrou apenas um débil interesse pelo nacionalism o. Os cam poneses de língua basca dem onstraram pouco entusiasm o pelo Partido Nacional Basco, fundado em 1894 para defender tudo que era antigo contra a incursão dos espanhóis e dos operários ateus. Com o a m aioria dos dem ais m ovim entos deste tipo, este era antes de tudo um a entidade urbana de classe m édia e de classe m édia baixa.
Efetivam ente, o avanço do nacionalism o em nossa época foi, em grande parte, fenôm eno levado a cabo por esses estratos m édios da sociedade. Portanto, os socialistas contem porâneos estavam certos quando o cham aram pequeno-burguês. E sua conexão com tais estratos auxilia a explicar as três singulares características que j á observam os: a m udança baseada em questões da língua; um a reivindicação por Estados independentes (e não de form as m enores de autonom ia); e o deslocam ento para a direita e a ultradireita, em política.
Para as classes m édias baixas, ascendendo a partir de um am biente popular, a carreira e a língua vernácula estavam inseparavelm ente ligadas. Desde o m om ento em que a sociedade se decidiu pela alfabetização em m assa, a língua falada tinha de ser, em certo sentido, oficial — era o veículo da burocracia e da instrução — caso contrário afundaria no m undo crepuscular da com unicação puram ente oral, ocasionalm ente dignificada com o status de peça a ser exibida num m useu de folclore. A educação de massas, ou antes, a prim ária, era o desenvolvim ento
crucial, visto ser possível apenas em língua que o grosso da população pudesse entender.[f] Ser educado em língua totalm ente estranha, sej a esta língua viva ou m orta, só é possível para um a seleta e às vezes exígua m inoria que dispõe de tem po considerável e pode arcar com as despesas e o esforço necessários para dela adquirir o dom ínio suficiente. A burocracia, por sua vez, é elem ento crucial, tanto por decidir o status oficial de um a língua com o porque, na m aioria dos países, é ela que oferece o m aior conj unto de em pregos que requerem alfabetização. Daí surgiram as pequenas lutas infindáveis que desintegraram a política do Im pério Habsburgo, a partir da década de 1890; eram lutas sobre a língua em que deveriam ser escritas as placas nas ruas, em áreas onde havia m escla de nacionalidades, e sobre assuntos tais com o a nacionalidade de um assistente de m estre-carteiro ou chefe de estação.
Apenas o poder político, porém , poderia transform ar o status das línguas e dialetos m enores (os quais, com o todos sabem , são apenas línguas sem exército nem força policial). Daí as pressões e contrapressões subj acentes aos elaborados recenseam entos lingüísticos dessa época (dos quais os m ais notáveis são, por exem plo, os da Bélgica e os da Áustria, de 1910), dos quais dependiam as reivindicações políticas deste e daquele idiom a. Daí, pelo m enos em parte, a m obilização política dos nacionalistas pela língua, precisam ente no m om ento em que, na Bélgica, o núm ero dos flam engos bilíngües crescera de m odo notável ou, com o ocorreu no país basco, o uso da língua basca praticam ente desaparecia nas cidades de rápido crescim ento. Porque unicam ente a pressão política poderia conseguir um lugar para as que, na prática, eram línguas "não com petitivas", com o m eios de educação ou com unicação pública escrita. Foi isso, e só isso, que tornou a Bélgica oficialm ente bilíngüe (1870) e o flam engo um a m atéria obrigatória nas escolas secundárias de Flandres (m as só em 1883). Tendo, porém , a língua não-oficial recebido reconhecim ento oficial, autom aticam ente criou um eleitorado político, de pessoas nela alfabetizadas. Os 4,8 m ilhões de alunos das escolas prim árias e secundárias da Áustria dos Habsburgo, em 1912, obviam ente incluíam um a quantidade m uito m aior de nacionalistas reais e potenciais do que os 2,2 m ilhões de 1874, para não m encionar os 100 m il professores suplem entares que passaram a instruí-los em várias línguas rivais.
Todavia, nas sociedades m ultilíngües, as pessoas educadas no idiom a local e capazes de utilizar sua educação para o progresso profissional ainda assim sentiam -se, provavelm ente, inferiores e desprivilegiadas. Conquanto, na prática, levassem vantagem na com petição por em pregos m enos im portantes, por ser m ais provável que fossem bilíngües que os esnobes da língua de elite, talvez sentissem , j ustificadam ente que, ao procurar cargos superiores, estariam em desvantagem . Daí a pressão para que o ensino do vernáculo fosse prolongado, da educação prim ária à secundária e finalm ente até o topo de um sistem a educacional pleno, a universidade do vernáculo. Por esse m otivo, em Gales e em Flandres, a exigência de tal universidade foi intensa e exclusivam ente política. Em Gales, efetivam ente, a universidade nacional (1893) tornou-se, durante algum tem po, a prim eira e a única instituição nacional do povo de um pequeno país que não tinha existência, adm inistrativa ou outra, distinta da existência da Inglaterra. Aqueles cuj a língua m aterna era o vernáculo não-oficial continuariam , quase certam ente, a ser excluídos dos m ais altos círculos da cultura e dos negócios públicos e privados, a não ser com o pessoas que em pregavam o idiom a superior e oficial, no qual esses negócios seriam conduzidos. Em sum a, o fato de a nova classe m édia baixa, e m esm o a classe m édia, haverem sido educadas em esloveno ou flam engo sublinhava que os m ais altos prêm ios e o m elhor status caberiam ainda àqueles que falavam francês ou alem ão, ainda que não se dessem ao trabalho de aprender a língua m enos im portante.
Ainda m aior pressão política seria necessária para vencer essa desvantagem estrutural. De fato, o que era preciso era poder político. Para falar clara e rudem ente, as pessoas teriam de ser obrigadas a utilizar o vernáculo para propósitos para os quais norm alm ente achariam preferível utilizar outra língua. A Hungria insistia em escolas m agiares, em bora todo húngaro educado, então com o agora, soubesse perfeitam ente que o conhecim ento de pelo m enos um a língua internacionalm ente falada era essencial para todos, exceto para as m ais subalternas funções da sociedade húngara. A com pulsão, ou a pressão governam ental equivalente a ela, foi o preço pago para fazer do m agiar um a língua literária que pudesse servir a todo propósito m oderno em seu próprio território, em bora ninguém pudesse entender um a palavra fora dele. Unicam ente o poder político e, em últim a análise, o poder do Estado, poderia esperar alcançar tal resultado. Os nacionalistas, especialm ente aqueles cuj o m eio de vida e perspectivas profissionais ligavam -se à sua língua, eram pouco propensos a perguntar se não haveria outros m odos para fazer com que as linguagens se desenvolvessem e florescessem .
Nesta m edida, o nacionalism o lingüístico possuía um a propensão estrutural para a secessão. E, inversam ente, a reivindicação de um Estado territorial independente parecia sem pre m ais inseparável da língua de tal m odo que vem os o com prom isso oficial para com o gaélico entrando no nacionalism o irlandês (aproxim adam ente 1890), em bora — ou talvez, na realidade, porque — a m aioria dos irlandeses estivesse satisfeita por falar apenas inglês; e o sionism o inventasse o hebraico com o língua cotidiana porque nenhum a outra língua dos j udeus os com prom eteria com a construção de um Estado territorial. Há espaço para interessantes reflexões sobre o variado destino de tais esforços, essencialm ente políticos, de engenharia lingüística, pois alguns deles m alograriam (com o a reconversão dos irlandeses para o gaélico) ou quase m alograriam (com o a construção de um norueguês m ais norueguês — nynorsk), enquanto outros teriam êxito. Todavia, antes de 1914, geralm ente careciam do necessário poder estatal. Em 1916, o núm ero de pessoas que realm ente falava hebraico diariam ente não era m aior que 16 m il.
O nacionalism o, porém , ligava-se ao estrato m édio de outro m odo, que lhes conferia, a um e outro, um a inclinação para a direita, em política. A xenofobia tinha um a atração im ediata para os com erciantes, para os artesãos independentes e para alguns lavradores am eaçados pelo progresso da econom ia industrial, especialm ente durante os difíceis anos da Depressão. O estrangeiro veio sim bolizar a desintegração dos antigos costum es e o sistem a capitalista que os desintegrava. Portanto, o virulento anti-sem itism o político que observam os alastrar-se pelo m undo ocidental desde a década de 1880 pouco tinha a ver com o núm ero real dos j udeus, contra os quais era dirigido: foi tão eficaz na França, onde havia 60 m il entre 40 m ilhões, na Alem anha, onde havia m eio m ilhão entre 65 m ilhões, com o em Viena, onde eles form avam 15% da população. (Não constituiu fator político em Budapeste, onde com punham um quarto da população.) O anti-sem itism o visava particularm ente banqueiros, em presários e outros, que eram identificados com as devastações do capitalism o entre a "gente pequena". A im agem caricatural típica do capitalista na belle époque não era sim plesm ente a de um gordo de cartola, fum ando charuto, m as tam bém com nariz j udaico — porque os cam pos da em presa em que os j udeus se tornaram notáveis com petiam com os pequenos loj istas, dando ou recusando crédito aos fazendeiros e pequenos artesãos.
Por isso, o líder socialista alem ão Bebel achava que o anti-sem itism o era "o socialism o dos idiotas". No entanto, o que nos im pressiona, com respeito à ascensão do anti-sem itism o político, em finais do século, não é tanto a equação "j udeu-capitalista", que, em am plas regiões da Europa central e oriental não deixava de ser plausível, m as sua associação com o nacionalism o de direita. Isto não era devido apenas à ascensão dos m ovim entos socialistas, que com batiam sistem aticam ente a xenofobia latente ou declarada de seus partidários, tanto assim que a profunda aversão aos estrangeiros e j udeus, nesses setores, tendia a ser m ais envergonhada do que no passado. Aquela associação, contudo, assinalava, nos m aiores Estados, um evidente deslocam ento da ideologia nacionalista para a direita, especialm ente na década de 1890, quando vem os, por exem plo, as antigas organizações de m assas do nacionalism o alem ão, as Turner (associações de ginástica), desviarem -se do liberalism o herdado da revolução de 1848, para um a postura m ilitarista, agressiva e anti-sem ita. Foi o m om ento em que as bandeiras do patriotism o se tornaram de tal m odo propriedade da direita política, que a esquerda achava difícil em punhá-las, m esm o nos casos em que o patriotism o identificava-se firm em ente com a revolução e a causa do povo, com o a tricolor francesa. Parecia-lhes que brandir a bandeira nacional era arriscar-se a um a contam inação com a ultradireita. Som ente nos tem pos de Hitler é que a esquerda francesa recobrou o pleno uso do patriotism o j acobino.
O patriotism o, portanto, deslocou-se para a direita política, não só por se haver desbaratado seu antigo com panheiro, o liberalism o burguês, m as por j á não se m anter a situação internacional que anteriorm ente havia tornado com patíveis liberalism o e nacionalism o. Até a década de 1870 — talvez até o Congresso de Berlim , em 1878 — se poderia afirm ar que o ganho de um a nação-Estado não significava necessariam ente um a perda para outra. Na verdade, o m apa da Europa havia sido transform ado pela criação de duas im portantes nações-Estado (Alem anha e Itália) e pela form ação de diversas outras de m enor porte, nos Bálcãs, sem que tudo isso desse em guerra ou num a intolerável desintegração do sistem a internacional dos Estados. Até a Grande Depressão, algo de sem elhante ao livre com ércio m undial, em bora beneficiando m ais a Inglaterra que a outros, havia sido do interesse de todos. Da década de 1870 em diante, porém , tais reivindicações não pareciam m ais verdadeiras, e dado o conflito m undial ser considerado, m ais um a vez, possibilidade real, senão im inente, ganhou terreno a espécie de nacionalism o para o qual as dem ais nações eram francam ente am eaças ou vítim as.
Esse nacionalism o, a um tem po, engendrou e foi encoraj ado pelos m ovim entos da direita política que em ergiram da crise do liberalism o. Realm ente, os hom ens que prim eiro adotaram o novo nom e de "nacionalistas" foram , não raro, aqueles que se sentiram im pelidos à ação política pela experiência da derrota de seus Estados na guerra, tais com o Maurice Barrès (1862-1923) e Paul Deroulède (1846-1914), após a vitória alem ã sobre a França em 1870-1871, e Enrico Corradini (1865-1931) após a derrota, ainda m ais hum ilhante, da Itália pela Etiópia em 1896. E os m ovim entos por eles fundados, que levaram a palavra "nacionalism o" aos dicionários, eram deliberadam ente concebidos "em reação contra a dem ocracia então no governo", isto é, contra a política parlam entar. Os m ovim entos franceses desse tipo perm aneceram m arginais, com o a Action Française (por volta de 1898), que se perdeu num m onarquism o politicam ente irrelevante e na prosa vituperativa. Os m ovim entos italianos acabaram por fundir-se com o fascism o após a Prim eira Guerra Mundial. Eram característicos de um a nova raça de m ovim ento político, baseada no chauvinism o, na xenofobia e, cada vez m ais, na idealização da expansão nacional, na conquista e no próprio ato da guerra.
Esse nacionalism o prestava-se de m odo excepcional à expressão dos ressentim entos coletivos de um povo que não sabia explicar seu descontentam ento com precisão. Era culpa do estrangeiro. O caso Drey fus deu ao anti-sem itism o francês um a penetração especial, não apenas pelo fato de o acusado ser j udeu (que estava fazendo um estrangeiro no estado-m aior francês?) m as pelo seu suposto crim e ser a espionagem a favor da Alem anha. Inversam ente, o sangue dos "bons" alem ães gelava, ao pensarem que seu país estava sendo sistem aticam ente "cercado" pela aliança de seus inim igos, conform e seus líderes lhes recordavam com freqüência. Enquanto isso, os ingleses aprontavam -se para com em orar o estouro da guerra m undial (com outros povos beligerantes) por m eio de um a explosão de histeria antialienígena que tornou aconselhável a m udança do nom e de fam ília alem ão da dinastia real para Windsor, anglo-saxão. Não há dúvida de que todo cidadão natural do país — excetuando um a m inoria de socialistas internacionalistas, uns poucos intelectuais, alguns hom ens de negócios cosm opolitas e o clube internacional de aristocratas e casas reinantes — sentiu a atração do chauvinism o até certo ponto. Sem dúvida quase todos, inclusive bom núm ero de socialistas e intelectuais, estavam tão profundam ente im buídos do racism o fundam ental da civilização do século XIX (cf. A Era do Capital, cap. 14:2), que eram , de m odo igual, em bora indireto, vulneráveis às tentações advindas da crença de serem , sua classe ou seu povo, estrutural e naturalm ente superiores aos dem ais, O im perialism o só podia reforçar tais tentações entre os m em bros dos Estados im periais. Contudo, pouca dúvida resta de que os que m ais pressurosam ente reagiram às com etas nacionalistas encontravam -se situados em algum lugar entre as classes superiores estabelecidas da sociedade e os cam poneses e proletários do estrato inferior.