A Era dos Impérios 1875-1914

Eric J. Hobsbawm · Capítulo 2 de 51

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A Era dos Impérios 1875-1914

Introdução

 

Memória é vida. Seus portadores sempre são grupos de pessoas vivas, e por isso a memória está em permanente evolução. Ela está sujeita à dialética da lembrança e do esquecimento, inadvertida de suas deformações sucessivas e aberta a qualquer tipo de uso e manipulação. Às vezes fica latente por longos períodos, depois desperta subitamente. A história é a sempre incompleta e problemática reconstrução do que já não existe. A memória sempre pertence a nossa época e está intimamente ligada ao eterno presente: a história é uma representação do passado.

Pierre Nora, 1984

 

Não é provável que um mero relato do desenrolar dos acontecimentos, mesmo em escala mundial, resulte numa melhor compreensão das forças em jogo no mundo hoje, a não ser que, ao mesmo tempo, estejamos conscientes das mudanças estruturais subjacentes. O que precisamos, antes de mais nada, é de um novo quadro analítico e de novos termos de referência. É o que este livro procurará oferecer.

Geoffrey Barraclough, 1964

 

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No verão de 1913, um a j ovem se form ou na escola secundária em Viena, capital do Im pério Austro-Húngaro. Ainda era um a façanha bastante incom um entre as m oças da Europa central. Para com em orar o acontecim ento, seus pais decidiram presenteá-la com um a viagem ao exterior, e com o era im pensável que um a m oça de fam ília de dezoito anos fosse exposta ao perigo e à tentação sozinha, procuraram um parente que conviesse. Felizm ente, entre as várias fam ílias interligadas que haviam saído de várias cidades pequenas da Polônia e da Hungria nas gerações anteriores e avançado para o Ocidente rum o à prosperidade e à educação, havia um a que fora m ais bem -sucedida que a m édia. Tio Albert construíra um a rede de loj as no Levante — Constantinopla, Esm irna, Alepo, Alexandria. No início do século XX não faltavam negócios a serem feitos no Im pério Otom ano e no Oriente Médio, e a Áustria há m uito era a j anela com ercial da Europa central para o Oriente. O Egito era ao m esm o tem po um m useu vivo, próprio para o aprim oram ento cultural, e um a com unidade sofisticada da classe m édia cosm opolita européia, com quem era fácil se com unicar por m eio da língua francesa, que a m oça e suas irm ãs haviam aperfeiçoado num internato nas vizinhanças de Bruxelas. O país continha tam bém , é claro, os árabes. O tio Albert ficou feliz em acolher sua j ovem parenta, que viaj ou para o Egito num navio a vapor do Lloy d Triestino, saindo de Trieste, então o principal porto do Im pério Habsburgo e tam bém , coincidentem ente, o lugar onde residia Jam es Joy ce. A m oça viria a ser a m ãe do autor deste livro.

Alguns anos antes, um rapaz tam bém viaj ou para o Egito, m as de Londres. Os antecedentes de sua fam ília eram consideravelm ente m ais m odestos. Seu pai, que em igrara da Polônia russa para a Grã-Bretanha na década de 1870, m arceneiro profissional, ganhava seu precário sustento na zona leste de Londres e Manchester, criando, o m elhor possível, um a filha de seu prim eiro casam ento e oito filhos do segundo, a m aioria deles j á nascida na Inglaterra. Só um de seus filhos teve talento ou interesse pelos negócios. Apenas um dos m ais novos teve acesso a um a escolaridade m ais prolongada, tornando-se engenheiro de m inas na Am érica do Sul, que então fazia inform alm ente parte do Im pério Britânico. Todos, contudo, procuravam apaixonadam ente dom inar a língua e a cultura inglesas e se anglicizaram com entusiasm o. Um foi ser ator, outro levou avante os negócios da fam ília, um se tornou professor prim ário, outros dois entraram para o funcionalism o público em expansão, trabalhando nos Correios. Acontece que a Grã-Bretanha ocupara o Egito pouco antes (1882) e, assim , um irm ão acabou representando um a pequena parte do Im pério Britânico — os Correios e Telégrafos egípcios — no delta do Nilo. Ele sugeriu que o Egito conviria a m ais um de seus irm ãos, cuj as principais qualificações para ganhar seu sustento lhe teriam sido m uitíssim o úteis se ele não se visse realm ente obrigado a ganhá-lo: era inteligente, agradável, m usical e um bom esportista versátil, além de pugilista peso-leve de nível de cam peonato. Na verdade, ele era exatam ente o tipo de inglês que conseguiria e m anteria um cargo num escritório de navegação m uito m ais facilm ente "nas colônias" que em qualquer outro lugar.

Esse rapaz viria a ser o pai do autor, que conheceu, assim , sua futura esposa ali onde a econom ia e a política da Era dos Im périos, sem falar de sua história social, os reuniu — presum ivelm ente no Esporte Clube dos arredores de Alexandria, perto de onde instalariam sua prim eira casa. É extrem am ente im provável que um encontro assim tivesse acontecido num lugar assim , ou que tivesse levado ao casam ento entre duas pessoas assim em qualquer outro período da história anterior ao abordado neste livro. Os leitores devem ser capazes de descobrir por quê.

Entretanto, há um m otivo m ais sério para com eçar o presente volum e com um fato autobiográfico. Para todos nós há um a zona de penum bra entre a história e a m em ória; entre o passado com o um registro geral aberto a um exam e m ais ou m enos isento e o passado com o parte lem brada ou experiência de nossas vidas. Para os seres hum anos individuais essa zona se estende do ponto onde as tradições ou m em órias fam iliares com eçam — digam os, da foto de fam ília m ais antiga que o fam iliar vivo m ais velho pode identificar ou explicar — ao fim da infância, quando se reconhece que os destinos público e privado são inseparáveis e se determ inam m utuam ente ("Eu o conheci um pouquinho antes do fim da guerra"; "Kennedy deve ter m orrido em 1963, porque foi quando eu ainda estava em Boston"). A extensão dessa zona pode variar, bem com o a obscuridade e a im precisão que a caracterizam . Mas sem pre há essa terra-de-ninguém no tem po. É a parte da história cuj a com preensão é m ais árdua para os historiadores, ou para quem quer que sej a. Para o autor, nascido quando a Prim eira Guerra Mundial chegava ao fim e cuj os pais tinham 33 e 19 anos respectivam ente em 1914, a Era do Im pério fica nessa zona de penum bra.

Mas isso não se aplica só aos indivíduos, m as tam bém às sociedades. O m undo em que vivem os é ainda, em grande m edida, um m undo feito por hom ens e m ulheres que cresceram no período de que trata este livro, ou im ediatam ente antes. À m edida que o século XX vai chegando ao fim , talvez isso estej a deixando de ocorrer — quem pode ter certeza? —, m as sem dúvida era o caso durante os dois prim eiros terços de nosso século.

Considere-se, por exem plo, a lista de nom es de personalidades políticas que devem ser contadas entre os que im pulsionaram e deram form a ao século XX. Em 1914, Vladim ir Ily itch Uly anov (Lenin) tinha 44 anos, Joseph Vissarionovich Dzhugashvili (Stalin), 35, Franklin Delano Roosevelt, 30, J. May nard Key nes, 32, Adolf Hitler, 25, Konrad Adenauer (construtor da República Federal da Alem anha no pós-1945), 38. Winston Churchill tinha 40, Mahatm a Gandhi 45, Jawaharlal Nehru 25, Mao Tse-tung 21, Ho Chi-m inh 22, a m esm a idade que Josip Broz (Tito) e Francisco Franco Baham onde (o general Franco da Espanha), dois anos m ais novos que Charles de Gaulle e nove m ais novos que Benito Mussolini. Considerem -se os significativos núm eros no

terreno da cultura. Um a am ostra extraída de um Dictionary of Modern Thought [a], publicado em 1977, nos diz o seguinte:

 

Pessoas nascidas

23%

em 1914 e após

 

Pessoas ativas em

 

1880-1914 ou 45%

 

adultas em 1914

 

Pessoas nascidas

17%

em 1900-1914

 

Pessoas ativas

15%

antes de 1880

 

É patente que os hom ens e m ulheres que elaboraram esse com pêndio ainda consideravam , depois de transcorridos três quartos do século XX, a Era dos Im périos com o de longe a m ais significativa na form ação do pensam ento m oderno então em curso. Quer concordem os com sua avaliação ou não, esta é historicam ente significativa.

Assim , não são apenas os poucos indivíduos ainda vivos com um a vinculação direta aos anos anteriores a 1914 que enfrentam o problem a de com o olhar a paisagem de sua zona nebulosa particular, m as tam bém , de m odo m ais im pessoal, todos os que vivem no m undo da década de 1980, na m edida em que sua form a foi m oldada pela era que nos levou à Prim eira Guerra Mundial. Não quero dizer que o passado m ais rem oto não tenha significado para nós, m as que suas relações conosco são diferentes. Ao lidarm os com períodos rem otos, sabem os que os encaram os essencialm ente com o estranhos e distantes, m ais com o os antropólogos ocidentais em preendendo um a pesquisa sobre os povos m ontanheses de Papua. Se esses períodos estiverem m uito distantes — geográfica, cronológica ou em ocionalm ente —, podem sobreviver exclusivam ente através das relíquias inanim adas dos m ortos: palavras e sím bolos, escritos, im pressos ou gravados, obj etos m ateriais, im agens. Adem ais, sendo historiadores, sabem os que o que escrevem os só pode ser j ulgado e corrigido por outros estranhos com o nós, para quem , tam bém , "o passado é outro país". Partim os, por certo, dos pressupostos de nossa própria época, lugar e situação, inclusive da tendência a reler o passado nos nossos term os, a ver o que ele nos preparou para discernir e apenas o que nossa perspectiva nos perm ite reconhecer. Não obstante, vam os lançar m ão das ferram entas e m ateriais habituais de nosso ofício, trabalhando em arquivos e outras fontes prim árias, lendo um a enorm e quantidade de literatura secundária, abrindo nosso cam inho através dos debates e desavenças acum uladas de gerações de nossos predecessores, dos m odos e fases m utáveis de interpretação e interesse, sem pre curiosos, sem pre (esperem os) fazendo perguntas. Mas o único obstáculo com que nos deparam os são outros contem porâneos nossos discutindo, com o estranhos, sobre um passado que não é m ais parte de m em ória. Afinal, até o que pensam os lem brar sobre a França de 1789 ou a Inglaterra de George III é o que aprendem os de segunda ou quinta m ão através de pedagogos, oficiais ou inform ais.

Ali onde os historiadores tentam se defrontar com um período para o qual existem testem unhas oculares vivas, dois conceitos de história bem diferentes se chocam ou, no m elhor dos casos, com pletam -se m utuam ente: a acadêm ica e a existencial, o arquivo e a m em ória pessoal. Pois todo m undo é historiador de sua própria vida passada consciente, na m edida em que elabora um a versão pessoal dela: um historiador nada confiável, sob a m aioria dos pontos de vista, com o bem sabem todos os que se aventuraram pela "história oral", m as um historiador cuj a contribuição é essencial. Os acadêm icos que entrevistam velhos soldados ou políticos j á terão adquirido inform ação m ais vasta e m ais confiável sobre os acontecim entos, em publicações e docum entos, do que a guardada na m em ória de sua fonte, m as m esm o assim pode interpretá-la m al. Adem ais, ao contrário do historiador, digam os, das cruzadas, o historiador da Segunda Guerra Mundial pode ser corrigido por aqueles que, lem brando dela, m eneiam a cabeça e lhe dizem : "Mas não foi nada disso". Não obstante, as duas versões da história em confronto são, em sentidos diferentes, construções coerentes do passado, conscientem ente defendidas com o tais e, ao m enos, potencialm ente passíveis de serem definidas.

Mas a história da zona de penum bra é diferente. Ela constitui, em si, um a im agem incoerente e incom pletam ente percebida do passado, por vezes m ais obscura, outras vezes aparentem ente nítida, sem pre transm itida por um a m escla de aprendizado e m em ória de segunda m ão m oldada pela tradição pública e particular. Pois ela ainda faz parte de nós, m as não está m ais inteiram ente dentro de nosso alcance pessoal. Ela é com o aqueles m apas antigos m ulticoloridos, cheios de contornos im prováveis e espaços brancos, em oldurados por m onstros e sím bolos. Os m onstros e sím bolos são am pliados pelos m eios m odernos de com unicação de m assa porque o próprio fato de a zona de penum bra ser im portante para nós a coloca num a posição central tam bém em suas preocupações. Graças a eles essas im agens fragm entárias e sim bólicas perduraram , ao m enos no m undo ocidental: o Titanic, que conserva todo seu poder de ocupar as m anchetes três quartos de século depois de seu naufrágio, é um exem plo notável. Quando essas im agens que aparecem em nossas m entes se referem , por um a razão ou outra, ao período que term inou na Prim eira Guerra Mundial, é m uito m ais difícil interpretá-las de m odo ponderado do que o seria com outras im agens e relatos que costum avam pôr os não historiadores em contato com o passado rem oto: Drake j ogando bocha enquanto a Arm ada se aproxim ava da Grã-Bretanha, o colar de diam antes ou o "Que com am brioches" de Maria Antonieta, Washington atravessando o Delaware. Nenhum a delas afetará um só instante o historiador sério. Elas são exteriores a nós. Mas, poderem os ter certeza de que, m esm o com o profissionais, olham os as im agens m itificadas da Era dos Im périos com um olhar igualm ente frio: o Titanic, o terrem oto de São Francisco, Drey fus? É evidente que não, haj a vista o centenário da Estátua da Liberdade.