A Era dos Impérios 1875-1914
Capítulo 3
Era assim considerado, aliás, com m aior clareza que outra zona de confronto que em breve se revelaria ainda m ais decisiva: a das grandes e crescentes indústrias m etalúrgicas. Nestas, a força tradicional da organização operária, os operários especializados de antecedentes artesanais, com obstinados sindicatos de ofício, encontravam a grande fábrica m oderna, que se propunha reduzi-los (ou à m aioria deles) a operadores sem iqualificados de m áquinas e ferram entas, cada vez m ais especializadas e sofisticadas. Aqui, nesta fronteira do avanço tecnológico que tão rapidam ente se m ovia, o conflito de interesses era claro. Enquanto durasse a paz, a situação em seu conj unto favorecia os adm inistradores; m as depois de 1914, j á não surpreendia que a lâm ina cortante da radicalização operária se achasse em toda parte das grandes fábricas de arm am entos. Subj acente à disposição revolucionária dos m etalúrgicos, durante e após a guerra m undial, discernim os as tensões preparatórias das décadas de 1890 e de 1900.
As classes operárias, portanto, não eram hom ogêneas nem fáceis de unir num só grupo social coerente — m esm o deixando de lado o proletariado agrícola, que os m ovim entos sindicais
buscavam organizar e m obilizar, em geral sem grande êxito[d]. E todavia eles estavam sendo unificados. Com o?
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Um m odo poderoso de unificar era o da ideologia, am parada pela organização. Os socialistas e anarquistas levaram seu novo evangelho às m assas, até então desprezadas por quase todas as instituições, exceto por seus exploradores e por aqueles que as aconselhavam a se m anter silenciosas e obedientes; e m esm o as escolas prim árias (onde as alcançavam ) contentavam -se, de m odo geral, a inculcar os deveres cívicos da religião, enquanto as próprias Igrej as organizadas (a não ser por algum as seitas plebéias) só m uito lentam ente entravam em território proletário ou estavam m al equipadas para lidar com populações tão diferentes daquelas das com unidades estruturadas das antigas paróquias rurais ou urbanas. Os operários eram gente desconhecida e esquecida, na proporção em que form avam um novo grupo social. O quanto eram desconhecidos, testem unham -no dezenas de escritos de pesquisadores socialistas e de observadores da classe m édia; o quanto eram esquecidos, pode ser avaliado por qualquer pessoa que haj a lido as cartas do pintor Van Gogh, que foi às m inas de carvão belgas com o evangelista. Os socialistas, com freqüência, eram os prim eiros a deles se aproxim ar. Onde as condições o perm itissem , eles im prim iam nos m ais variados grupos de operários — desde artesãos assalariados e vanguardas m ilitantes até com unidades inteiras de m ineiros e trabalhadores de obras — um a única identidade: a de "proletários". Em 1886, os aldeões dos vales belgas em torno de Liège, que tradicionalm ente m anufaturavam arm as de fogo, eram apolíticos. Passavam a vida sendo m al pagos, e a diversão, para os hom ens, residia apenas em criar pom bos, pescar e freqüentar brigas de galos. Assim que o "Partido dos Trabalhadores" apareceu em cena, converteram -se em m assa: daí em diante, 80 a 90% de Val de Vesdre passou a votar pelos socialistas, abrindo brechas até nas últim as fortificações do catolicism o local. O povo do Liegeois percebeu que participava da identificação e da fé dos tecelões de Ghent, cuj a própria língua (o flam engo) não podiam entender; e por aí com a identificação e a fé de todos aqueles que participavam do ideal de um a só classe operária universal. Essa m ensagem , a da unidade de todos os que trabalham e são pobres, foi levada até os m ais rem otos cantos dos países, por agitadores e propagandistas. E eles traziam igualm ente a organização, a ação coletiva estruturada sem a qual a classe operária não poderia existir com o classe; e, por m eio da organização, adquiriam aqueles quadros de porta-vozes que podiam articular os sentim entos e esperanças dos hom ens e m ulheres que não os saberiam enunciar. Eles possuíam ou encontravam as palavras para as verdades que todos sentiam . Sem essa coletividade organizada, seriam apenas pobre gente do trabalho. Pois o antigo corpus de sabedoria — os provérbios, ditados e canções — que form ulara a Weltanschauung dos trabalhadores pobres do m undo pré-industrial, j á não bastava. Eles constituíam um a nova realidade social, que exigia nova reflexão. Isto iniciou-se no m om ento em que com preenderam a m ensagem de seus novos porta-vozes: "Vocês são um a classe, devem dem onstrar que são um a classe". Por isso, em casos extrem os, era suficiente que os novos partidos sim plesm ente pronunciassem seu nom e: "o partido dos trabalhadores". Ninguém , exceto os m ilitantes do novo m ovim ento, trazia essa m ensagem de consciência de classe aos trabalhadores. Sua m ensagem unificava todos os que se dispusessem a reconhecer-lhe a grande verdade que cancelava as diferenças existentes entre eles.
Mas toda gente dispunha-se a reconhecê-la — pois alargava-se a brecha que separava os que eram , ou se tornavam , trabalhadores e o resto das pessoas, inclusive as de outros setores dos socialm ente m odestos, da "gente pequena" — um a vez que o m undo da classe operária separava-se progressivam ente — e não m enos porque os conflitos entre os que pagavam salários e os que destes viviam constituía um a realidade existencial cada vez m ais dom inante. Este era o caso, evidentem ente, em lugares praticam ente criados pela e para a indústria, com o Bochum (4.200 habitantes em 1842, 120.000 em 1907, dos quais 78% eram operários e 3% eram "capitalistas") ou Middlesbrough (6.000 em 1841, 105.000 em 1911). Nesses centros, principalm ente de m ineração e indústria pesada, que cresceram com o cogum elos na segunda m etade do século, talvez m ais que as cidades das fábricas têxteis que anteriorm ente haviam sido os típicos centros industriais, os hom ens e as m ulheres poderiam passar a vida sem sequer chegar a ver, com algum a regularidade, um m em bro das classes não assalariadas que de algum m odo não lhes desse ordens (proprietários, gerentes, funcionários, professores, padres), a não ser no que diz respeito aos pequenos artesãos e loj istas, ou aos taverneiros, que atendiam às m odestas
necessidades dos pobres e que, conform e a clientela, adaptavam -se ao am biente proletário[e]. Em Bochum , a produção para consum o incluía, sem contar com os habituais padeiros, açougueiros e cervej eiros, algum as centenas de costureiras e 48 m odistas, m as apenas oito lavadeiras, seis fabricantes de chapéus e gorros, oito peleteiros e — o que é significativo — nenhum a pessoa que fabricasse o sím bolo característico do status da classe m édia e alta, as luvas.
Todavia, m esm o na grande cidade, com seus serviços m ultiform es e progressivam ente diversificados, com sua variedade social e sua especialização funcional, suplem entadas na época pelo planej am ento urbano e pelo desenvolvim ento da propriedade, havia um a separação de classes, salvo em territórios neutros, com o o parque, a estação ferroviária e as estruturas destinadas ao divertim ento. O velho "bairro popular" declinou, com a nova segregação social: em Lion, La Croix-Rousse, antiga cidadela dos turbulentos tecelões da seda, que de lá desciam para o centro da cidade, foi descrito em 1913 com o um bairro de "pequenos em pregados" — "o enxam e de operários abandonara o planalto e as ladeiras que a ele davam acesso". Os operários haviam se transferido da velha para a outra m argem do-Ródano, onde estavam as fábricas. Progressivam ente, a cinzenta uniform idade dos novos bairros operários, expelidos das áreas centrais da cidade, espalhava-se por toda parte: por Wedding e Neukölln, em Berlim , por Favoriten e Ottakring, em Viena, por Poplar e West Ham , em Londres — contrapartidas dos bairros e subúrbios das classes m édia e m édia baixa, que rapidam ente se desenvolviam . E se a m uito discutida crise do setor artesanal tradicional em purrou alguns grupos de m estres-artesãos para a direita radical, anticapitalista e antiproletária, com o aconteceu na Alem anha, poderia igualm ente, com o na França, intensificar-lhes o j acobinism o anticapitalista ou o radicalism o republicano. Quanto aos assalariados e aprendizes, dificilm ente poderiam deixar de se convencer de que agora nada m ais eram senão proletários. E não era natural para as pressionadas indústrias dom ésticas proto-industriais, freqüentem ente (com o era o caso dos tecelões em tear m anual) em sim biose com as prim eiras fases do sistem a de fábrica, que se identificassem com a situação proletária? Com unidades localizadas desse tipo, em várias regiões m ontanhosas da Alem anha, da Boêm ia e de outras partes, tornaram -se as fortalezas naturais do m ovim ento.
Todos os operários estavam , por boas razões, prontos a ser convencidos da inj ustiça da ordem social, m as o ponto crucial de sua experiência era seu relacionam ento com os em pregadores. O novo m ovim ento operário socialista era inseparável dos descontentes do local de trabalho, quer se expressassem ou não por m eio de greves e (m ais raram ente) de sindicatos organizados. Repetidam ente, o surgim ento de um partido socialista local é inseparável de um grupo particular de operários localm ente centrais, cuj a m obilização ele libera ou reflete. Em Roanne (França) os tecelões form avam o âm ago do Parti Ouvrier; quando a tecelagem organizou-se nessa região, em 1889-1891, os cantões rurais subitam ente m udaram de política, passando da "reação" para o "socialism o", e o conflito industrial passou para a organização política e a atividade eleitoral. Todavia, conform e dem onstra o exem plo do m ovim ento operário inglês nas décadas de m eados do século, não havia conexão necessária entre a prontidão para a greve, para a organização e a identificação da classe dos em pregadores (os "capitalistas") com o o m ais im portante adversário político. Na verdade, um a frente com um unira, tradicionalm ente, aqueles que trabalhavam e produziam , os operários, artesãos, loj istas e burgueses contra os ociosos e contra o "privilégio" — os que acreditavam no progresso (um a coalizão que tam bém atravessou os lim ites da classe) contra a "reação". No entanto, essa aliança, em grande parte responsável pela anterior força histórica e política do liberalism o (cf. A Era do Capital, cap. 6), desm oronou, não apenas por haver a dem ocracia eleitoral revelado os interesses divergentes dos seus vários com ponentes, m as porque a classe dos em pregadores, progressivam ente tipificada pelas suas dim ensões e concentração — com o vim os, a palavra chave "grande", com o em "grandes negócios", grande industrie, grand patronat, ou Grossindustrie —, aparece com m aior freqüência e integra-se m ais visivelm ente na zona indiferenciada da riqueza, do poder estatal e do privilégio. Junta-se a "plutocracia", que os dem agogos eduardianos, na Inglaterra, gostavam de desancar — um a "plutocracia" que, enquanto a era da depressão cedia lugar ao em briagador surto da expansão econôm ica, pavoneava-se cada vez m ais e o fazia visivelm ente por m eio da nova m ídia de m assas. O principal perito trabalhista do governo inglês afirm ava que os j ornais e o autom óvel, m onopólio dos ricos na Europa, caracterizavam o iniludível contraste entre ricos e pobres.
À m edida que a luta política contra o "privilégio" se incorporava à até então independente luta que se desenvolvia no local do em prego, ou em volta dele, o m undo do operário m anual separava-se cada vez m ais daqueles que se situavam acim a dele, por m eio do crescim ento im pressionantem ente rápido em alguns países, do setor terciário da econom ia, que gerou um estrato de hom ens e m ulheres que trabalhavam sem suj ar as m ãos. Diferentem ente da antiga pequena burguesia de pequenos artesãos loj istas, que poderia ser considerada zona de transição ou terra-de-ninguém entre o operariado e a burguesia, essas novas classes m édias e as classes m édias baixas separavam as duas outras; apesar da absoluta m odéstia de sua situação econôm ica, com freqüência pouco m elhor que a de operários bem pagos, estas classes davam realce precisam ente ao que a separava dos trabalhadores m anuais e ao que possuía ou j ulgava possuir em com um com os que lhe eram socialm ente superiores (cf. cap. 7). Form avam um a cam ada, isolando o operariado abaixo dela.
Se os desenvolvim entos econôm icos e sociais assim favoreciam a form ação de um a consciência de classe de todos os operários m anuais, um terceiro fator virtualm ente forçou-os à unificação: a econom ia nacional e o Estado-nação, que progressivam ente se interligavam . O Estado-nação não apenas form ava o quadro de referência da vida do cidadão, estabelecendo-lhe parâm etros e determ inando as condições concretas e os lim ites geográficos da luta operária, m as igualm ente tornava as suas intervenções políticas, legais e adm inistrativas cada vez m ais centrais à existência da classe trabalhadora. A econom ia operava progressivam ente com o sistem a integrado, ou sej a, com o um sistem a em que o sindicato não m ais funcionava com o um agregado de unidades locais frouxam ente ligadas e preocupadas principalm ente com as condições locais; seria com pelido a adotar um a perspectiva nacional, pelo m enos em relação à própria indústria. Na Inglaterra, o novo fenôm eno que eram os conflitos trabalhistas organizados nacionalmente surgiu pela prim eira vez na década de 1890, enquanto o espectro da greve nacional dos transportes e dos m ineiros de carvão concretizava-se na década de 1900. De m odo correspondente, as indústrias com eçaram a negociar acordos coletivos de âm bito nacional, praticam ente desconhecidos antes de 1889. Em 1910, porém , haviam -se tornado prática com um .
A tendência crescente dos sindicatos, especialm ente dos sindicatos socialistas, de organizar os trabalhadores em estruturas abrangentes, cada qual cobrindo um a única indústria nacional ("sindicalism o industrial"), refletia esse sentido da econom ia com o um todo integrado. O "sindicalism o industrial", com o aspiração, reconhecia que "a indústria" deixara de ser classificação teórica para estatísticos e econom istas para se tornar um conceito operacional ou estratégico, de âm bito nacional, o quadro de referência econôm ico da luta dos sindicatos, por m uito localizados que fossem . Os m ineiros de carvão ingleses, conquanto violentam ente apegados aos seus cam pos de m ineração ou m esm o às suas m inas e em bora conscientes da especificidade de seus problem as e costum es, perceberam que, inevitavelm ente, tinham que se unir — Gales do Sul com a Nortúm bria, Fife com Staffordshire em organização nacional, entre 1888 e 1908.
No tocante ao Estado, a dem ocratização eleitoral im pôs um a unidade de classe que os governantes alm ej avam evitar. A própria luta pela extensão dos direitos do cidadão inevitavelm ente adquiria um m atiz de classe para os operários, visto que a questão central da controvérsia (pelo m enos para os hom ens) era o direito ao voto dos cidadãos sem propriedade. A qualificação segundo a propriedade, por m odesta que fosse, excluiria, antes de tudo, grande parte dos operários. Inversam ente, onde os direitos de voto não haviam ainda sido alcançados, pelo m enos em teoria, os novos m ovim entos socialistas fatalm ente convertiam -se nos m aiores defensores do sufrágio universal, deflagrando ou am eaçando deflagrar gigantescas m anifestações e greves gerais por essa causa — na Bélgica em 1893 e m ais duas vezes depois desta, na Suécia em 1902, na Finlândia em 1905 — o que, a um tem po, reforçava e dem onstrava o poder de m obilização das m assas recém -convertidas. Até as reform as eleitorais deliberadam ente antidem ocráticas poderiam reforçar a consciência de classe nacional, com o aconteceu na Rússia, após 1905, onde os eleitores trabalhadores foram reunidos (e sub-representados) num com partim ento separado, ou cúria eleitoral. Todavia, as atividades eleitorais, nas quais caracteristicam ente os partidos socialistas m ergulharam , para escândalo dos anarquistas que as consideravam separando o m ovim ento da revolução, só poderiam conferir à classe operária um a dim ensão nacional única, por m uito dividida que estivesse sob outros aspectos.
Mais ainda: o próprio Estado unificava a classe, visto que, progressivam ente, qualquer grupo social teria de perseguir seus obj etivos políticos por m eio de pressões exercidas j unto ao governo nacional, a favor ou contra a legislação e a adm inistração de leis nacionais. Nenhum a classe tinha um a necessidade m ais consistente e contínua de ação estatal positiva em assuntos econôm icos e sociais, para com pensar as inadequações de sua desam parada ação coletiva; e quanto m ais num eroso o proletariado nacional, tanto m ais sensíveis (m as com relutância) eram os políticos às exigências de um conj unto de eleitores tão perigoso e de tal dim ensão. Na Inglaterra, os antigos sindicatos de m eados da era vitoriana e o novo m ovim ento operário dividiram -se, na década de 1880, essencialm ente devido à questão da exigência de que fosse instituído um dia de oito horas por lei, e não por m eio de negociações coletivas. Isto é, exigiam um a lei universalm ente aplicável a todos os trabalhadores, um a lei por definição, nacional e m esm o, segundo a opinião da II Internacional, plenam ente conscientes do significado da exigência, um a lei internacional. Essa agitação originou a provavelm ente m ais visceral e com ovente instituição do internacionalism o da classe operária: as m anifestações anuais de Prim eiro de Maio, inauguradas em 1890. (Em 1917, os operários russos, finalm ente livres para com em orar, até puseram de lado seu próprio calendário a fim de se m anifestarem precisam ente
no m esm o dia em que o resto do m undo o fazia.)[f] Todavia, a força da unificação da classe operária, dentro de cada nação, substituía de m odo inevitável as esperanças e asserções teóricas do internacionalism o operário, salvo para um a nobre m inoria de m ilitantes e ativistas. Conform e dem onstrou o com portam ento das classes operárias em agosto de 1914, o quadro de referência efetivo da sua consciência de classe era, exceto durante os breves m om entos da revolução, o Estado e a nação politicam ente definidos.