A Era dos Impérios 1875-1914

Eric J. Hobsbawm · Capítulo 14 de 51

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A Era dos Impérios 1875-1914

Capítulo 3

qual foram vitim ados dois m onarcas, dois presidentes e um prim eiro-m inistro[j ], e após 1900 ninguém m ais se preocupava seriam ente com o anarquism o, a não ser na Espanha e em alguns países da Am érica Latina. Deflagrada a guerra de 1914, o m inistro do Interior francês nem se deu ao trabalho de m andar prender os revolucionários (principalm ente anarquistas e anarco-sindicalistas) e subversivos antim ilitaristas tidos com o perigosos para o Estado, em bora a polícia houvesse, desde longa data, com pilado um a lista precisam ente com essa finalidade.

Se, contudo, a sociedade burguesa com o um todo não se sentia ainda im ediata e gravem ente am eaçada (contrariam ente ao que sucedeu nas décadas subseqüentes a 1917), tam pouco seus valores do século XIX e suas expectativas históricas haviam sido irrem ediavelm ente solapados. Esperava-se que o com portam ento civilizado, o im pério da lei e as instituições liberais levassem avante seu progresso secular. Restava ainda m uita barbárie, especialm ente (segundo os "respeitáveis") entre as ordens inferiores e, é claro, entre povos "não civilizados", m as felizm ente j á colonizados. Havia ainda Estados, m esm o na Europa, com o o Im pério Otom ano e o Czarista, onde bruxuleavam ou nem m esm o se acendiam as velas da razão. Todavia, os próprios escândalos que convulsionavam a opinião nacional e internacional indicavam quanto eram elevadas as expectativas de civilidade, no m undo burguês, em tem pos de paz: Drey fus (recusa de investigar um só erro j udiciário); Ferrer, em 1909 (execução de um educador espanhol erroneam ente acusado de liderar um a onda de tum ultos em Barcelona); Zabern, em 1913 (vinte m anifestantes presos durante um a noite, pelo exército alem ão, num a cidade alsaciana). Nós, situados em finais do século XX, podem os apenas considerar com m elancólica incredulidade um período em que m assacres, tais com o os que diariam ente ocorrem no m undo atual, eram tidos com o m onopólio de turcos e tribos selvagens.

 

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As classes dom inantes, portanto, optaram por novas estratégias, m esm o enquanto se em penhavam em lim itar o im pacto da opinião e do eleitorado de m assas em nom e de seus interesses e nos do Estado, bem com o no da form ação e da continuidade da alta política. Seu alvo principal era o m ovim ento operário e socialista, que repentinam ente em ergira a nível internacional com o fenôm eno de m assas por volta de 1890 (cf. cap. 5). Revelou-se, afinal, que seria m ais fácil entrar num acordo com este do que com os m ovim entos nacionalistas que surgiram na época ou, se j á estavam em cena, entravam em nova fase de m ilitância, autonom ism o ou separatism o (cf. cap. 6). Com referência aos católicos, exceto quando identificados com algum nacionalism o autonom ista, eram relativam ente fáceis de ser integrados, visto serem socialm ente conservadores — o que vale m esm o para o caso dos raros partidos social-cristãos, com o o de Lueger. Aliás, eles costum avam contentar-se com a salvaguarda de interesses especificam ente eclesiásticos.

Trazer os m ovim entos operários para o j ogo institucionalizado da política era coisa difícil — na m edida em que os em pregadores, defrontados com greves e sindicatos, dem onstravam um a lentidão m uito m aior que a dos políticos para desistir da política do pulso forte e adotar a da luva de pelica — e isso acontecia até na pacífica Escandinávia. O crescente poder dos grandes negócios m ostrava-se particularm ente recalcitrante. Na m aioria dos países, notadam ente nos EUA e na Alem anha, os em pregadores, com o classe, j am ais se reconciliaram com os sindicatos antes de 1914; e m esm o na Inglaterra, onde os sindicatos haviam sido aceitos em princípio e, não raro, na prática, desde longa data, houve um a contra-ofensiva de em pregadores, na década de 1890. E isso não obstante os adm inistradores governam entais perseguirem um a política de conciliação e de os líderes do Partido Liberal fazerem o possível para infundir confiança e atrair o voto operário. Era tam bém difícil politicam ente, pois os novos partidos operários recusavam qualquer acordo com o Estado e o sistem a burguês, em âm bito nacional — raram ente eram assim tão intransigentes no cam po dos governos locais —, com o eram propensos a ser os adeptos da Internacional de 1889, dom inada pelos m arxistas. (A política operária não-revolucionária e não-m arxista era isenta de tais problem as.) Em cerca de 1900, porém , ficou claro o aparecim ento de um a ala m oderada ou reform ista em todos os m ovim entos socialistas de m assas; de fato, m esm o entre os m arxistas, ela encontrou seu ideólogo em Eduard Bernstein, que afirm ara que "o m ovim ento é tudo, o alvo é nada" e cuj a insensível reivindicação para um a revisão da teoria m arxista causou escândalo, afronta e apaixonados debates no m undo socialista, após 1897. Enquanto isso, a política do eleitoralism o de m assas — da qual eram defensores entusiastas até os m ais m arxistas entre os partidos, pois ela oferecia visibilidade m áxim a ao crescim ento de seus efetivos — integrava sem ruído esses partidos no sistem a.

Os socialistas, certam ente, não podiam ainda fazer parte dos governos. Não se poderia esperar que tolerassem políticos e governos "reacionários". Toda via, um a política que conduzisse pelo m enos os representantes m oderados do m ovim ento operário a um alinham ento m ais am plo e favorável à reform a, bem com o à união entre dem ocratas, republicanos, anticlericais e "hom ens do povo", especialm ente contra os inim igos m obilizados dessas boas causas, teria boas perspectivas de êxito. Foi sistem aticam ente seguida na França, de 1899 em diante, por Waldeck Rousseau (1846-1904), arquiteto de um governo de união republicana contra inim igos-que claram ente o desafiavam , no caso Drey fus; e na Itália por Zanardelli, cuj o governo, em 1903, contava com o apoio da extrem a esquerda; e m ais tarde pelo grande em busteiro e conciliador Giolitti. Na Inglaterra, após algum as dificuldades nos anos 1890, os liberais, em 1903, concluíram um pacto eleitoral com o recém -fundado Com itê de Representação Trabalhista, o que ofereceu a este condições de entrar para o Parlam ento, com algum a força, em 1906, com o Partido Trabalhista. Em outros países, o interesse com um no sentido de am pliar o sufrágio aproxim ou os socialistas dos outros dem ocratas, com o na Dinam arca, onde em 1901 — pela prim eira vez na Europa — o governo pôde contar com o apoio de um partido socialista e nele confiar.

O m otivo dessas propostas do centro parlam entar à extrem a esquerda não era, usualm ente, a necessidade do apoio socialista, um a vez que m esm o os grandes partidos socialistas eram grupos m inoritários que, na m aioria dos casos, poderiam facilm ente ser elim inados do j ogo parlam entar, com o o foram os partidos com unistas, de com parável dim ensão, na Europa, após a Segunda Guerra Mundial. Os governos alem ães m antiveram afastado o m ais form idável de todos esses partidos, por m eio da assim cham ada Sammlungspolitik (política de união am pla) ou, m ais exatam ente, reunindo m aiorias de anti-socialistas garantidos, conservadores, católicos e liberais. O que os hom ens sensatos das classes dom inantes não tardaram a discernir foi, por assim dizer, o desej o de explorar as possibilidades de dom ar as feras da floresta política. A estratégia do abraço cordial teve resultados vários, e a intransigência dos em pregadores propensos à coerção e à provocação de confrontos industriais de m assas não facilitou as coisas, ainda que em seu conj unto essa estratégia funcionasse, pelo m enos na m edida em que conseguiu cindir os m ovim entos operários de m assas em alas irreconciliáveis, um a m oderada e outra radical, geralm ente m inoria — e isolando esta últim a.

A dem ocracia, no entanto, seria tanto m ais fácil de dom ar quanto m enos agudos fossem seus descontentam entos. A nova estratégia envolvia, portanto, um a disposição no sentido de em preender program as de reform a e bem -estar social, que m inaram os clássicos acordos liberais de m eados do século, com governos que eram m antidos à distância do cam po reservado à iniciativa e à em presa privada. O j urista inglês A. V. Dicey (1835-1922) viu o rolo com pressor do coletivism o, em m archa desde 1870, achatando a paisagem da liberdade individual na tirania centralizada e niveladora das refeições escolares, seguros de saúde e aposentadorias. Em certo sentido, ele tinha razão. Bism arck, lógico com o sem pre, j á na década de 1880 decidira cortar as raízes da agitação socialista por m eio de um am bicioso esquem a de previdência social; foi seguido, nesta orientação, pela Áustria e pelos governos liberais ingleses de 1906-1914 (aposentadorias, bolsas de trabalho, seguros de saúde e desem prego) e m esm o pela França, após algum as hesitações (aposentadorias em 1911). É interessante que os países escandinavos, hoj e "Estados do bem -estar social" par excellence, fossem então alheios ao assunto; e diversos países fizeram apenas gestos sim bólicos nessa direção, e os EUA do tem po de Carnegie, Rockefeller e Morgan, nem isso. Nesse paraíso da iniciativa privada, m esm o o trabalho de m enores perm anecia fora da alçada da lei federal, em bora por volta de 1914 existissem leis que o proibiam , teoricam ente, até na Itália, na Grécia e na Bulgária. Por volta de 1905, leis geralm ente disponíveis estipulavam indenizações a operários em caso de acidente, m as não interessaram o Congresso e foram condenadas pelos tribunais com o inconstitucionais. Exceto na Alem anha, tais esquem as de bem -estar social eram m odestos até os últim os anos que precederam 1914, e m esm o na Alem anha m alograram visivelm ente na tentativa de sustar o crescim ento do partido socialista. Não obstante, ficou estabelecida um a tendência nesse sentido, notavelm ente m ais acelerada nos países protestantes da Europa e da Australásia.

Dicey tam bém tinha razão ao sublinhar o inevitável crescim ento no peso e no papel desem penhado pelo aparato estatal, um a vez abandonado o ideal da não-intervenção. Pelos padrões m odernos, a burocracia continuava m odesta, em bora aum entasse em ritm o acelerado — e em nenhum a parte m ais que na Inglaterra, onde os em pregos governam entais triplicaram entre 1891 e 1911. Na Europa, por volta de 1914, esses em pregos iam de 3% da força de trabalho na França — seu ponto m ais baixo, fato aliás surpreendente — e, em seu ponto m ais alto, a 5,5-6% na Alem anha e — fato igualm ente surpreendente — na Suíça. A título de com paração, nos países da Com unidade Econôm ica Européia, na década de 1970, os em pregos governam entais form avam entre 10 e 13% da população ativa.

Não seria possível, no entanto, conquistar a lealdade das m assas sem políticas sociais dispendiosas, que talvez onerassem o lucro dos em presários, de quem dependia a econom ia? Com o vim os, acreditava-se que o im perialism o não só teria condições de pagar reform as sociais com o era tam bém popular. Revelou-se contudo que a guerra, ou a sim ples perspectiva de um a guerra bem -sucedida, encerrava em si um potencial dem agógico ainda m aior. O governo inglês conservador utilizou a Guerra Sul-Africana (1899-1902) para varrer da cena seus adversários liberais na "eleição caqui" de 1900, e o im perialism o am ericano m obilizou com êxito a popularidade dos canhões para a guerra contra a Espanha, em 1898. Na verdade, as elites governantes dos EUA, encabeçadas por Theodore Roosevelt (1858-1919), presidente de 1901-1909, acabava de descobrir o caubói-inseparável-de-seu-revólver com o sím bolo do verdadeiro am ericanism o, da liberdade e da tradição branca nativa contra a horda invasora dos im igrantes das classes baixas e a incontrolável grande cidade. Desde então, esse sím bolo tem sido extensivam ente explorado.

O problem a, todavia, era m ais am plo. Seria possível incutir um a nova legitim idade, em relação aos regim es dos Estados e às classes dom inantes, na m ente das m assas dem ocraticam ente m obilizadas? Grande parte da história de nossos tem pos consiste na tentativa de dar um a resposta a essa pergunta. A tarefa era urgente, pois os antigos m ecanism os de subordinação social j á estavam freqüentem ente em evidente colapso. Assim foi que os conservadores alem ães — essencialm ente um partido de eleitores fiéis aos grandes latifundiários e nobres — perderam m etade de seu quinhão do total dos votos entre 1881 e 1912, pela sim ples razão de 71% de seus votos provirem de aldeias de m enos de 2 m il habitantes, as quais abrigavam um a parte decrescente da população; apenas 5% provinham das grandes cidades de m ais de 100 m il habitantes, para as quais os alem ães se dirigiam em grande núm ero. As antigas

lealdades funcionavam ainda nas grandes propriedades rurais dos junkers, da Pom erânia[k], onde os conservadores m antinham quase m etade dos votos; m as m esm o na Prússia com o um todo conseguiam m obilizar apenas 11-12% dos eleitores. A situação daquela outra classe de senhores, a burguesia liberal, era ainda m ais dram ática. Ela triunfara pela destruição da coesão social das antigas hierarquias e com unidades, pela sua preferência pelo m ercado, em oposição às relações

hum anas, Gesellschaft contra Gemeinschaft [l] — e, quando as massas entraram no palco político em busca de seus próprios interesses, eram hostis a tudo o que o liberalism o burguês sim bolizava. Em parte algum a isso era tão óbvio quanto na Áustria, onde os liberais, por volta do fim do século, reduziam -se a um pequeno e isolado punhado de alem ães citadinos da classe m édia e j udeus-alem ães. A m unicipalidade de Viena, sua fortaleza durante a década de 1860, foi perdida para os radical-dem ocratas, para os anti-sem itas e para o novo partido cristão-social, antes de o ser para a social-dem ocracia. Mesm o em Praga, onde esse núcleo burguês poderia reivindicar a representação da reduzida e decrescente m inoria de língua alem ã, que incluía todas as classes (cerca de 30 m il e, em 1910, não m ais que 7% da população), não conseguia m anter a fidelidade nem dos estudantes e pequeno-burgueses nacionalistas alem ães (völkisch), nem a dos operários alem ães, social-dem ocratas e politicam ente passivos, nem sequer a de um a certa proporção de j udeus.

E com respeito ao próprio Estado, ainda norm alm ente representado por m onarcas? Talvez fosse absolutam ente novo, isento de todo precedente histórico relevante, com o na Itália e no novo Im pério Alem ão, para não m encionar a Rom ênia e a Bulgária. Seus regim es talvez fossem o produto de derrotas recentes, da revolução ou da guerra civil com o na França, na Espanha e nos EUA, posteriorm ente à guerra civil, para não m encionar os regim es das repúblicas latino-am ericanas, perenem ente m utantes. Nas m onarquias antigas e estabelecidas — m esm o na Inglaterra da década de 1870 — as agitações republicanas estavam , ou pareciam estar, longe de ser desprezíveis. As agitações nacionais reuniam forças. Poder-se-ia contar com a pretensão do Estado à lealdade de todos os seus súditos ou cidadãos?

Foi este, conseqüentem ente, o m om ento em que os governos, os intelectuais e os hom ens de negócios descobriram o significado político da irracionalidade. Os intelectuais escreviam , m as os governos agiram . "Aquele que se decidir a basear seu pensam ento político num reexam e de com o opera a natureza hum ana, deve com eçar por um a tentativa de vencer a própria tendência para exagerar a intelectualidade da hum anidade", assim escrevia um cientista político inglês, Graham Wallas, em 1908, consciente de que escrevia tam bém o epitáfio do liberalism o do século XIX. A vida política, portanto, tornou-se sem pre m ais ritualizada e repleta de sím bolos e apelos publicitários, tanto explícitos com o sublim inares. À m edida que os antigos m eios — predom inantem ente religiosos — de assegurar a subordinação, a obediência e a lealdade se desagregavam , a necessidade, agora m anifesta, de algo que os substituísse foi atendida pela invenção das tradições, pelo uso de antigos e experim entados suscitadores de em oções com o a coroa, a glória m ilitar e, com o vim os (cf. cap. 3), outros m eios novos, tais com o o im pério e a conquista colonial.

Com o na horticultura, esse desenvolvim ento foi m escla de plantio vindo de cim a — ou pelo m enos da disposição de o realizar — e do crescim ento vindo de baixo. Os governos e as elites governantes sabiam , decerto, o que faziam , ao instituir novas festas nacionais, com o o 14 de j ulho na França (1880), ou quando elaboraram a ritualização da m onarquia britânica, que foi se tornando sem pre m ais hierática e bizantina, desde que isso teve início em 1880. Na verdade, o com entador padrão da constituição inglesa, após a extensão do direito ao voto de 1867, distinguiu lucidam ente entre as suas partes "eficientes", pelas quais o governo era realm ente realizado, e as partes "dignificadas", cuj a função era prom over a alegria das m assas enquanto eram governadas. As quantidades de m árm ore e as torres de alvenaria, com as quais os Estados, ansiosos por confirm ar sua legitim idade — notadam ente o novo Im pério Alem ão —, costum avam encher espaços vazios, deviam ser planej adas pelas autoridades, o que realm ente era feito, m ais para o proveito financeiro do que artístico de m uitos arquitetos e escultores. As coroações inglesas passaram a ser organizadas de m odo absolutam ente consciente, com o operações político-ideológicas, com o fim de serem vistas pelas m assas.

Não criaram , todavia, a exigência de um sim bolism o e de um ritual em ocionalm ente satisfatório. O que fizeram foi descobrir e preencher um vácuo deixado pelo racionalism o político da era liberal, pela nova necessidade de se dirigir às m assas e pela transform ação das próprias m assas. A esse respeito, a invenção das tradições corria paralelam ente à descoberta com ercial do m ercado de m assas e do espetáculo e divertim ento de m assas, que pertencem a essas m esm as décadas. A indústria publicitária, pioneira nos EUA após a guerra civil, pela prim eira vez tornou-se dona de si própria. O cartaz m oderno nasceu nas décadas de 1880 e 1890. Um m esm o quadro de psicologia social (a psicologia "das m ultidões" tornou-se assunto da predileção, tanto dos professores franceses com o dos gurus da propaganda nos EUA) reunia o Torneio Real anual (iniciado em 1880), um a exibição pública da glória e da teatralidade das forças arm adas britânicas e a ilum inação da praia de Blackpool, recreio dos novos proletários nos feriados; a rainha Vitória e a m ocinha da Kodak (produto da década de 1900); os m onum entos do im perador Guilherm e aos reis Hohenzollern e os cartazes de Toulouse-Lautrec de fam osas artistas de variedades.

As iniciativas oficiais, naturalm ente, obtinham m aior êxito ao explorar e m anipular em oções básicas espontâneas e indefinidas, ou ao integrar tem as da política de m assas não-oficial. O 14 de j ulho, na França, estabeleceu-se com o dia nacional genuíno, um a vez que m obilizava tanto a afeição do povo pela Grande Revolução com o a dem anda por um carnaval institucionalizado. O governo alem ão, apesar de suas incontáveis toneladas de m árm ore e alvenaria, não conseguiu estabelecer o im perador Guilherm e I com o pai da pátria, m as aproveitou o entusiasm o nacionalista não-oficial, que erguia "colunas de Bism arck" às centenas após a m orte do grande estadista, dem itido por Guilherm e II (que reinou de 1888 a 1918). Inversam ente, o nacionalism o não-oficial estava com o que soldado à "pequena Alem anha" — à qual desde sem pre se opusera — pelo poder m ilitar e pela am bição global, conform e testem unham o triunfo do "Deutschland Über Alles" sobre hinos nacionais m ais m odestos e o da nova bandeira prusso-alem ã, preta, branca e verm elha, sobre a de 1848, preta, branca e am arela, ocorridos na década de 1890.

Os regim es políticos, portanto em penhavam -se num a guerra silenciosa pelo controle dos sím bolos e ritos do pertencim ento à raça hum ana, dentro de suas próprias fronteiras, e não o faziam m enos quando controlavam o sistem a escolar público (especialm ente as escolas

prim árias, que nas dem ocracias eram a base essencial para "a educação de nossos senhores"[m ] dentro do espírito "certo") e, de m odo geral, onde quer que as igrej as fossem pouco confiáveis, o que era feito por m eio da tentativa de controlar as grandes cerim ônias dos nascim entos, casam entos e m ortes. De todos esses sím bolos, talvez o m ais poderoso tenha sido a m úsica, em suas form as políticas de hino nacional e m archa m ilitar — am bas executadas com grande

entusiasm o, nessa época de J. P. Souza (1854-1932) e Edward Elgar (1857-1934) [n] — e, acim a de tudo, a bandeira nacional. Na ausência da m onarquia, a bandeira poderia tornar-se a virtual personificação do Estado, da nação e da sociedade, com o nos EUA, onde a prática da veneração à bandeira com o ritual diário nas escolas do país se difundiu desde fins da década de 1880, até que se tornou universal.

Sorte do regim e que pudesse contar com a m obilização de sím bolos universalm ente aceitáveis, com o o m onarca inglês, que chegava a iniciar suas aparições anuais num festival proletário, o final da taça de futebol, realçando assim a convergência entre o ritual público de m assas e o espetáculo de m assas. Nesse período, os espaços cerim oniais públicos e políticos, por exem plo, aqueles que rodeavam os novos m onum entos nacionais alem ães, bem com o os novos estádios e salas de esporte, desdobravam -se igualm ente em áreas políticas e com eçaram a m ultiplicar-se. Os leitores m ais idosos talvez se recordem dos discursos de Hitler no Sportspalast (palácio de esportes) de Berlim . Sorte do regim e que pudesse pelo m enos associar-se a um a grande causa, para a qual houvesse apoio popular de m assas, com o a da Revolução e a da República, na França e nos EUA.