A Era dos Impérios 1875-1914

Eric J. Hobsbawm · Capítulo 39 de 51

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A Era dos Impérios 1875-1914

Capítulo 11 | Razão e sociedade

CAPÍTULO 11

 

RAZÃO E SOCIEDADE

 

Eles acreditavam na Razão como os católicos na Virgem Maria.

Rom ain Rolland, 1915

 

Nos neuróticos, o instinto de agressão está inibido, ao passo que a consciência de classe o libera; Marx mostra como ele pode ser gratificado sem prejuízo para o significado da civilização; pela apreensão das verdadeiras causas da opressão e pela organização adequada.

Alfred Adler, 1909

 

Não partilhamos a crença obsoleta de que todos os fenômenos culturais podem ser deduzidos, como produto ou função, de constelações de interesses "materiais". No entanto, acreditamos que foi cientificamente criativo e fecundo analisar os fenômenos sociais e os fatos culturais sob esse ângulo específico, na extensão em que eles são economicamente condicionados. Assim continuará sendo no futuro previsível, desde que esse princípio seja aplicado com cuidado e não restringido pela parcialidade dogmática.

Max Weber, 1904

 

Há outra form a de enfrentar a crise intelectual que deve ser m encionada aqui. Pois um a form a de pensar o então im pensável era rej eitar ao m esm o tem po a razão e a ciência. É difícil m edir a força dessa reação contra o intelecto nos últim os anos do velho século, ou m esm o, retrospectivam ente, apreciar essa força. Muitos de seus defensores m ais expressivos pertenciam ao subm undo, ou demi-monde, da inteligência, e hoj e estão esquecidos. Nós tem os tendência a negligenciar a voga do ocultism o, da necrom ancia, da m agia, da parapsicologia (que preocupou alguns destacados intelectuais britânicos) e das várias versões do m isticism o e da religiosidade orientais, que vicej aram nas m argens da cultura ocidental. O desconhecido e o incom preensível se tornaram m ais populares do que j á tinham sido desde o início da época rom ântica (ver A Era das Revoluções, cap. 14:2). Podem os observar de passagem que a m oda desses tem as, antes principalm ente lim itada à esquerda autodidata, agora tendia a se deslocar de m odo notável em direção à direita política. Pois as disciplinas heterodoxas não eram m ais, com o haviam sido, pretensas ciências com o a frenologia, a hom eopatia, o espiritualism o e outras form as de parapsicologia, preferidas por aqueles que eram céticos em relação ao aprendizado convencional d o establishment, m as sim significavam rejeição da ciência e de todos os seus m étodos. Entretanto, em bora essas form as de obscurantism o tenham dado algum as contribuições substantivas às artes de vanguarda (com o, por exem plo, através do pintor Kandinsky e do poeta W. B. Yeats), seu im pacto nas ciências naturais foi irrelevante.

Na verdade, seu im pacto no grande público tam pouco foi m uito grande. Para a grande m aioria das pessoas instruídas, sobretudo os recentem ente educados, as antigas verdades intelectuais não estavam em questão. Ao contrário, eram triunfantem ente reafirm adas por hom ens e m ulheres para quem o "progresso" estava longe de ter exaurido suas prom essas. O m aior avanço intelectual dos anos 1875-1914 foi o desenvolvim ento m aciço da instrução e do autodidatism o populares e o aum ento do público leitor nesses estratos. Na verdade, o autodidatism o e o auto-aperfeiçoam ento foram um a das principais funções dos novos m ovim entos da classe trabalhadora e um dos m aiores atrativos para seus m ilitantes. E o que as m assas recém -instruídas de leigos absorveram e aceitaram , sobretudo se eram politicam ente da esquerda dem ocrática ou socialista, foram as certezas racionais da ciência do século XIX, inim iga da superstição e do privilégio, espírito que presidia a instrução e o esclarecim ento, prova e garantia do progresso e da em ancipação das classes m enos favorecidas. Um a das vantagens decisivas do m arxism o em relação a outras tendências socialistas era j ustam ente o fato de ele ser um "socialism o científico". Darwin e Gutenberg, o inventor da im prensa, eram tão respeitados pelos radicais e social-dem ocratas quanto Thom as Paine e Marx. A frase de Galileu "E contudo se m ove" era persistentem ente citada na retórica socialista, indicando o triunfo inevitável da causa dos trabalhadores.

As m assas estavam ao m esm o tem po em m ovim ento e sendo instruídas. Entre m eados da década de 1870 e a guerra, o núm ero de professores de prim eiro grau aum entou em cerca de um terço nos países com um bom sistem a educacional, com o a França, e em sete ou até treze vezes a cifra de 1875 em países anteriorm ente deficientes em educação, com o a Inglaterra e a Finlândia; o núm ero de professores de segundo grau deve ter se m ultiplicado por quatro ou cinco (Noruega, Itália). Essa própria conj ugação de m ovim ento e instrução fez a linha de frente da velha ciência avançar m ais, enquanto seu reforço, na retaguarda, estava se preparando para a reorganização. Para os professores de segundo grau, ao m enos nos países latinos, dar aulas de ciência significava inculcar o espírito dos enciclopedistas, do progresso e do racionalism o, daquilo que um m anual francês (1898) cham ou de "libertação do espírito", fácil de identificar ao "livre-pensam ento" ou à libertação da Igrej a de Deus. Se algum a crise existia para esses hom ens e m ulheres, não era a da ciência ou da filosofia, m as a do m undo daqueles que viviam no privilégio, na exploração e na superstição. E no m undo fora da dem ocracia ocidental e do socialism o, a ciência significava poder e progresso em um sentido m enos m etafórico. Significava a ideologia da m odernização, im posta às atrasadas e supersticiosas m assas rurais pelos

científicos[a], elites políticas esclarecidas de oligarcas inspirados pelo positivismo — como no Brasil da República Velha e no México de Porfirio Díaz. Significava o segredo da tecnologia ocidental. Significava o darwinism o social que legitim ava os m ultim ilionários am ericanos.

A prova m ais im pressionante desse avanço do evangelho sim ples da ciência e da razão foi o recuo dram ático da religião tradicional, ao m enos no centro dos países europeus de sociedade burguesa. Isto não quer dizer que a m aioria da espécie hum ana estivesse prestes a se tornar "livre-pensadora" (para usar a expressão da época). A grande m aioria dos seres hum anos, inclusive praticam ente todas as m ulheres, m anteve seu com prom isso com a fé nas divindades ou espíritos, bem com o com seus ritos, fosse qual fosse sua religião, localidade ou com unidade. Com o vim os, as Igrej as cristãs foram , por conseguinte, acentuadam ente fem inizadas. Considerando-se que todas as principais religiões desconfiavam das m ulheres e insistiam firm em ente em sua inferioridade, e algum as, com o a j udaica, praticam ente as excluíam do culto religioso form al, a lealdade das m ulheres aos deuses parecia incom preensível e surpreendente aos hom ens racionalistas, sendo com freqüência considerada m ais um a prova da inferioridade de seu gênero. Assim , deuses e antideuses conspiravam contra elas, em bora os partidários do livre-pensam ento, teoricam ente com prom etidos com a igualdade dos sexos, tivessem um a participação envergonhada nessa conspiração.

Um a vez m ais, na m aior parte do m undo não-branco, a religião ainda continuava sendo a única linguagem para falar do cosm os, da natureza, da sociedade e da política, tanto form ulando com o sancionando o que as pessoas pensavam e faziam . A religião era o que m obilizava hom ens e m ulheres para obj etivos que os ocidentais expressavam em term os seculares, m as que, na verdade, não podiam ser inteiram ente traduzidos na linguagem secular. Os políticos britânicos podem querer reduzir Mahatm a Gandhi a um m ero agitador anti-im perialista que usava a religião para inflam ar as m assas supersticiosas, m as, para o Mahatm a, um a vida santa e espiritual era m ais do que um instrum ento político para a conquista da independência. Qualquer que fosse seu significado, a religião era ideologicam ente onipresente. Os j ovens terroristas bengalis da virada do século, a infância do que m ais tarde veio a ser o m arxism o indiano, eram inicialm ente inspirados por um asceta bengali e seu sucessor Swam i Vivekananda (cuj a doutrina Vedanta é provavelm ente m ais conhecida através de um a versão californiana m ais anódina), cuj a m ensagem eles interpretavam de m odo plausível com o um cham ado à sublevação do país, então subm etido a um a potência estrangeira, em bora destinado a oferecer um a fé universal à

hum anidade[b]. Afirm ou-se que "não foi através da política secular e sim de sociedades quase religiosas que os indianos instruídos adquiriram o hábito de pensar e se organizar em escala nacional". Tanto a absorção do Ocidente (através de grupos com o o Brahm o Sam aj — ver A Era das Revoluções, cap. 12:2) com o a rej eição do Ocidente pela classe m édia nativista (através do Ary a Sam aj , fundado em 1875) revestiram -se dessa form a; sem contar a Sociedade Teosófica, cuj as vinculações ao m ovim ento nacional indiano serão destacadas m ais adiante.

E se em países com o a Índia os estam entos instruídos e em ancipados que acolheram a m odernidade acharam as ideologias desta inseparáveis da religião (ou, se as acharam separáveis, tinham que ocultar cuidadosam ente o fato), fica óbvio que a atração que um a linguagem ideológica puram ente secular exercia sobre as m assas era irrelevante e que um a ideologia puram ente secular era incom preensível. Onde as m assas se rebelaram , o fizeram provavelm ente sob a bandeira de seus deuses; com o ainda, depois da Prim eira Guerra Mundial, contra os britânicos por causa da queda do sultão turco, que fora um califa ex officio, ou chefe de todos os m uçulm anos; ou contra a revolução m exicana por Cristo Rei. Em sum a, em escala m undial, seria absurdo considerar a religião significativam ente m ais fraca em 1914 do que em 1870 ou 1780.

Contudo, no centro dos países burgueses, em bora talvez não nos EUA, a religião tradicional estava recuando com rapidez sem precedentes, tanto em sua força intelectual com o entre as m assas. Tratava-se, até certo ponto, de um a conseqüência quase autom ática da urbanização, pois é praticam ente certo que, outros fatores perm anecendo iguais, a cidade tem m ais probabilidades de desencoraj ar a devoção que o cam po, e a grande cidade m ais que a pequena. Mas até as cidades se tornaram m enos religiosas com a assim ilação dos im igrantes das devotas regiões rurais aos urbanos a-religiosos ou céticos. Em Marselha, m etade da população ainda freqüentava o culto dom inical em 1840, m as em 1901 a proporção caíra a 16%, Mais ainda, nos países católicos, que englobavam 45% da população européia, a fé recuou com especial rapidez no período, diante da ofensiva conj unta (citando um a queixa clerical francesa) do racionalism o da classe m édia e do socialism o dos professores das escolas, m as particularm ente diante da com binação de ideais em ancipatórios e cálculo político que tornou a luta contra a Igrej a o problem a político chave. A palavra "anticlerical" surgiu na França nos anos 1850 e o anticlericalism o se tornou um ponto central da política do centro e da esquerda francesas a partir de m eados do século, quando o controle da m açonaria passa para as m ãos de anticlericais.

O anticlericalism o se tornou um problem a central da política dos países católicos por duas razões principais: porque a Igrej a Católica Rom ana optara por um a rej eição total da ideologia da razão e do progresso, só podendo, portanto, ser identificada à direita política, e porque a luta contra a superstição e o obscurantism o, m ais que dividir capitalistas e proletários, uniu a burguesia liberal e a classe trabalhadora. Os políticos astutos não deixaram de ter isso em m ente ao lançar apelos à unidade de todos os hom ens de bem : a França superou o caso Drey fus com essa frente unida, desestabilizando im ediatam ente a Igrej a Católica.

Um dos subprodutos dessa luta, que acarretou a separação entre Igrej a e Estado na França em 1905, foi um a acentuada aceleração da descristianização m ilitante. Em 1889, só 2,5% das crianças da diocese de Lim oges não haviam sido batizadas; em 1904 — o auge do m ovim ento — essa porcentagem foi de 34%. Mas m esm o a onde a luta entre Igrej a e Estado não ocupava o centro da cena política, a organização dos m ovim entos de m assa de trabalhadores ou a entrada dos hom ens com uns na vida política pois a m ulheres eram m uito m ais leais à fé) tiveram o m esm o efeito. No piedoso vale do Pó, no norte da Itália, as queixas relativas ao declínio da religião se m ultiplicaram no fim do século. (Na cidade de Mântua, dois terços se abstiveram da com unhão pascal j á em 1885.) Os trabalhadores italianos que se incorporaram ao operariado siderúrgico da Lorena antes de 1914 j á eram ateus. Nas dioceses espanholas (ou antes, catalãs) de Barcelona e Vich, a proporção de crianças batizadas na prim eira sem ana de vida caiu à m etade entre 1900 e 1910. Em sum a, para a m aior parte da Europa, progresso e secularização andavam de m ãos dadas. E a velocidade do avanço de am bos era diretam ente proporcional à perda do status das Igrej as, que lhes havia dado as vantagens de um m onopólio. As universidades de Oxford e Cam bridge, que tinham excluído ou discrim inado os não-anglicanos até 1871, deixaram rapidam ente de ser um refúgio do clero anglicano. Em Oxford (1891) a m aioria dos diretores de faculdades ainda pertenciam às ordens religiosas, m as não m ais nenhum de seus professores.

Houve, na verdade, pequenos retrocessos: a classe alta anglicana, convertida à fé m ais vigorosa do catolicism o; os estetas fin-de-siècle, atraídos pelo ritual colorido; talvez especialm ente os irracionalistas, para quem o próprio absurdo intelectual da fé tradicional provava sua superioridade em relação à razão; e os reacionários, que constituíram o grande baluarte da antiga tradição e hierarquia m esm o quando não acreditavam nelas, com o foi o caso de Charles Maurras, líder intelectual na França da m onarquista e ultracatólica Action Française. Havia, de fato, m uitos que praticavam suas religiões, e até alguns fervorosos fiéis entre docentes, cientistas e filósofos, m as a fé religiosa destes poucos poderia ter sido inferida a partir de seus escritos.

Em sum a, intelectualm ente, a religião ocidental nunca tivera tão pouco espaço com o no início do século XX, e politicam ente estava batendo em retirada, para dentro de m uralhas confessionais fortificadas contra assaltos de fora.

O beneficiário natural dessa com binação de dem ocratização e secularização foi a esquerda política e ideológica, e foi nesse cam po que se deu o florescim ento da velha crença burguesa na ciência, na razão e no progresso.

O herdeiro de m ais peso das velhas certezas (política e ideologicam ente transform adas) foi o m arxism o, o corpo teórico e doutrinário elaborado após a m orte de Karl Marx a partir de seus escritos e dos de Friedrich Engels, sobretudo dentro do Partido Social Dem ocrata alem ão. Em m uitos sentidos o m arxism o, na versão de Karl Kautsky (1854-1938), definidor de sua ortodoxia, foi o últim o triunfo da confiança científica positivista do século XIX. Era m aterialista, determ inista, inevitabilista, evolucionária, e identificava firm em ente as "leis da história" com as "leis da ciência". O próprio Kautsky considerou inicialm ente a teoria da história de Marx com o "nada além da aplicação do darwinism o ao desenvolvim ento social", afirm ando, em 1880, que o darwinism o nas ciências sociais ensinava que "a transição de um a concepção de m undo velha a um a nova ocorre inelutavelm ente". Paradoxalm ente para um a teoria que prezava tanto a ciência, o m arxism o tinha, de m aneira geral, m uitas desconfianças em relação às dram áticas inovações contem porâneas na ciência e na filosofia, talvez porque pareciam trazer um enfraquecim ento das certezas do m aterialism o (por exem plo, livre-pensam ento e determ inism o) que eram tão atraentes. Foi só nos círculos austro-m arxistas da Viena intelectual, onde ocorreram tantas inovações, que o m arxism o m anteve o contato com esses avanços, em bora possa tê-lo feito ainda m ais entre os intelectuais russos revolucionários devido à ligação ainda m ais m ilitante de seus

gurus m arxistas ao m aterialism o[c]. Os cientistas da natureza da época tinham , portanto, pouca m otivação profissional para se interessar por Marx e Engels, e assim , em bora alguns fossem politicam ente de esquerda, com o na França do caso Drey fus, poucos se interessaram por eles. Kautsky nem publicou a Dialética da Natureza, de Engels, a conselho do único físico profissional do partido, para quem o Im pério Alem ão aprovou a assim cham ada Lex Arons (1898), que excluiu os docentes social-dem ocratas de designações universitárias.

Contudo, qualquer que fosse o interesse pessoal de Karl Marx no progresso das ciências naturais de m eados do século XIX, seu tem po e sua energia intelectual foram inteiram ente dedicados às ciências sociais. E neste terreno, bem com o na história, o im pacto das idéias m arxianas foi substancial.

Sua influência foi tanto direta com o indireta. Na Itália, no centro-leste da Europa e, sobretudo, no Im pério Czarista, regiões que pareciam à beira da revolução social ou da desintegração, Marx conquistou im ediatam ente um apoio intelectual am plo, extrem am ente brilhante, m as às vezes tem porário. Nesses países ou regiões houve m om entos, com o por exem plo durante os anos 1890, em que praticam ente todos os intelectuais acadêm icos m ais j ovens eram , de um a form a ou de outra, revolucionários ou socialistas, e a m aioria se considerava m arxista, com o tem acontecido com freqüência na história do Terceiro Mundo desde então. Na Europa ocidental poucos intelectuais eram profundam ente m arxistas, apesar das dim ensões dos m ovim entos de m assas dos trabalhadores com prom etidos com um a social-dem ocracia m arxiana — salvo, estranham ente, na Holanda, dando então início à sua revolução industrial. O Partido Social Dem ocrata alem ão im portou suas teorias m arxistas do Im pério Habsburgo (Kautsky, Hilferding) e do Im pério Czarista (Rosa Luxem burgo, Parvus). Aqui, o m arxism o era influente sobretudo através de pessoas suficientem ente im pressionadas, tanto pelo seu desafio intelectual com o político, para tentar a crítica de sua teoria ou buscar respostas alternativas não socialistas às questões intelectuais que ele colocava. Tanto no caso de seus paladinos com o de seus críticos, para não falar dos ex-m arxistas ou pós-m arxistas que com eçaram a aparecer a partir do final da década de 1890, com o o em inente filósofo italiano Benedetto Croce (1866-1952), o elem ento político era nitidam ente dom inante; em países com o a Grã-Bretanha, que não precisava se preocupar com um forte m ovim ento m arxista de trabalhadores, ninguém deu m uita atenção a Marx. Em países onde havia m ovim entos fortes desse tipo, em inentes professores, com o Eugen von Böhm -Bawerk (1851-1914), na Áustria, usaram o tem po que lhes sobrava de suas tarefas com o professores ou m inistros para refutar a teoria m arxista. Mas é claro que o m arxism o dificilm ente teria suscitado um a produção intelectual tão substancial e prestigiosa, a favor e contra, se suas idéias não tivessem um a im portância intelectual considerável.

O im pacto de Marx nas ciências sociais ilustra a dificuldade de com parar seu desenvolvim ento ao das ciências naturais nesse período. As ciências sociais lidavam essencialm ente com o com portam ento e os problem as de seres hum anos que estão longe de ser observadores neutros e isentos de seus próprios problem as. Com o vim os, até nas ciências naturais a ideologia se torna m ais im portante à m edida que vam os passando do m undo inanim ado à vida e, especialm ente, aos problem as de biologia diretam ente im plicados e referidos a seres hum anos. As ciências sociais e hum anas operam inteiram ente, e por definição, na zona explosiva onde todas as teorias têm im plicações políticas diretas e onde o im pacto da ideologia, da política e da situação em que os pensadores se encontram é preponderante. É perfeitam ente possível, no período que nos interessa (com o em qualquer outro), ser tanto um astrônom o de destaque com o um revolucionário m arxista, com o A. Pannekoek (1873— 1960), cuj os colegas de profissão sem dúvida achavam sua política tão irrelevante para sua astronom ia com o seus cam aradas sua astronom ia para a luta de classes. Se se tratasse de um sociólogo, ninguém teria considerado sua política irrelevante para suas teorias. As ciências sociais ziguezaguearam , passaram e tornaram a passar pelo m esm o território ou m uitas vezes andaram em círculo por esse m otivo. Ao contrário das ciências naturais, faltava-lhes um corpo central de conhecim ento e teoria cum ulativos universalm ente aceito e um cam po estruturado de pesquisa no qual se pudesse dizer que o progresso era resultado de um aj uste da teoria às novas descobertas. E, durante o período que analisam os, a divergência entre os dois ram os de "ciência" se tornou acentuada.

De certo m odo isso era novo. No auge da crença liberal no progresso, parecia que a m aioria das ciências sociais — etnografia/antropologia, filologia/lingüística, sociologia e diversas escolas im portantes de econom ia — partilhava um quadro básico de pesquisa e teoria com as ciências naturais, o evolucionism o (ver A Era do Capital, cap. 14:2). O cerne da ciência social era o estudo da ascensão do hom em de um estado prim itivo até o atual e a com preensão racional deste presente. Esse processo era habitualm ente considerado com o um progresso da hum anidade passando por vários "estágios", em bora m antendo em suas m argens sobrevivências de estágios anteriores, bastante sem elhantes a fósseis vivos. O estudo da sociedade hum ana era um a ciência positiva com o qualquer outra disciplina evolucionária, da geologia à biologia. Parecia perfeitam ente natural a um autor escrever um estudo das condições do progresso com o título de Physics and Politics, Or thoughts on the application of the principles of 'natural selection' and

'inheritance' to political society[d] como um livro que seria publicado na década de 1880 na Coleção Científica Internacional por um a editora de Londres, lado a lado com volum es com o The Conservation of Energy, Studies in Spectrum Analysis, The Study of Sociology, General Physiology

of Muscles and Nerves and Money and the Mechanism of Exchange [e].

Entretanto, esse evolucionism o não tinha afinidades nem com as novas m odas em filosofia nem com o neopositivism o, com o tam pouco com os que com eçaram a ter suas dúvidas sobre um progresso que parecia estar levando para a direção errada e, portanto, sobre as "leis históricas" que o tornavam aparentem ente inevitável. A história e a ciência, com binadas de m aneira tão triunfal na teoria da evolução, estavam agora sendo separadas. Os historiadores acadêm icos alem ães rej eitaram as "leis históricas" com o parte de um a ciência que pudesse operar generalizações, pois não havia lugar para tanto em disciplinas hum anas dedicadas especificam ente ao único e irrepetível, ou até à "m aneira subj etivo-psicológica de ver as coisas", separada "do obj etivism o cru dos m arxistas por um vastíssim o abism o". A pesada artilharia da teoria m obilizada nos anos 1890 na m ais graduada publicação européia dedicada à história, a Historische Zeitschrift — em bora originalm ente dirigida contra outros historiadores com excessiva propensão à ciência social, ou qualquer outra — logo dirigiria seu poder de fogo basicam ente contra os social-dem ocratas.

Por outra parte, estas ciências sociais e hum anas, na m edida em que podiam aspirar à argum entação rigorosa ou m atem ática ou a m étodos experim entais das ciências naturais, tam bém abandonaram a evolução histórica, às vezes com alívio. Foi o caso até de algum as que não podiam aspirar a nenhum dos dois, com o a psicanálise, que foi descrita por um historiador sagaz com o "um a teoria a-histórica do hom em e da sociedade que podia tornar suportável (aos correligionários liberais de Freud em Viena) um m undo sem rum o e fora de controle". Em econom ia, um a "batalha de m étodos" bem am arga entrou para a história na década de 1880. O lado vencedor (liderado por Carl Menger, outro liberal vienense) representava não apenas um a visão do m étodo científico — argum entação dedutiva contra a indutiva — m as um estreitam ento proposital das até então am plas perspectivas da ciência dos econom istas. Os econom istas com preocupações históricas eram ou bem expulsos para o lim bo dos excêntricos e agitadores, com o Marx, ou bem , com o a "escola histórica", dom inante na econom ia alem ã, instados a se reclassificarem em outra categoria, por exem plo historiadores da econom ia ou sociólogos, deixando a verdadeira teoria aos analistas dos equilíbrios neoclássicos. Isso significou que questões de dinâm ica histórica, desenvolvim ento econôm ico e m esm o de flutuações econôm icas e crises foram em grande parte expulsas da nova ortodoxia acadêm ica. A econom ia tornou-se assim a única ciência social do período que analisam os a não ser incom odada pelo problem a do com portam ento não-racional, pois era definida de m odo tal que excluía todas as transações que não pudessem ser descritas de algum m odo com o racionais.

De m aneira sim ilar, a lingüística, que fora (j unto com a econom ia) a prim eira e m ais confiante das ciências sociais, agora parecia perder o interesse no m odelo de evolução lingüística que fora sua m aior realização. Ferdinand de Saussure (1857-1913), que foi o inspirador póstum o de todas as m odas estruturalistas após a Segunda Guerra Mundial, concentrou-se, ao contrário, na estrutura de com unicação estática e abstrata, da qual as palavras eram um veículo possível. Sem pre que as ciências sociais e hum anas puderam , se assim ilaram às ciências experim entais, com o, notadam ente, um a parte da psicologia, que correu para o laboratório para dar continuidade a seus estudos sobre a percepção, a aprendizagem e a m odificação experim ental do com portam ento. Isso produziu um a teoria russo-am ericana do "behaviorism o" (I. Pavlov, 1849-1936; J. B. Watson, 1878-1958), que dificilm ente pode servir de orientação para a m ente hum ana: a com plexidade das sociedades hum anas, ou m esm o as vidas e as relações hum anas com uns, não se prestam ao reducionism o dos positivistas de laboratório, por m ais em inentes que sej am , nem o estudo de suas transform ações no tem po pode ser feito experim entalm ente. Assim , a conseqüência prática de m aior proj eção da psicologia experim ental, os testes de inteligência (cuj o pioneiro foi Binet, na França, a partir de 1905), foi achar m ais fácil determ inar os lim ites do desenvolvim ento intelectual das pessoas por m eio de um QI aparentem ente perm anente, do que determ inar a natureza desse desenvolvim ento, ou com o ocorreu, ou aonde podia levar.

Essas ciências sociais positivistas ou "rigorosas" cresceram , gerando departam entos universitários e profissões, m as sem algo m ais que possa ser com parado à capacidade de surpreender e chocar das ciências naturais revolucionárias do período. De fato, onde as prim eiras estavam sendo transform adas, os pioneiros desta transform ação j á haviam feito seu trabalho em período anterior. A nova econom ia do lucro m arginal e do equilíbrio se voltava para W. S. Jevons (1835-1882), Léon Walras (1834-1910) e Carl Menger (1840-1921), cuj o trabalho original fora desenvolvido nos anos 1860 e 1870; os psicólogos experim entais, em bora sua prim eira publicação com esse título tenha sido a do russo Bekhterev em 1904, se voltavam para a escola alem ã de Wilhelm Wundt, criada nos anos 1860. Entre os lingüistas, o revolucionário Saussure era ainda m al conhecido fora de Lausanne, pois sua fam a se baseia em anotações de aula publicadas após sua m orte.

As questões m ais dram áticas e controvertidas das ciências sociais e hum anas guardavam estreita relação com a crise intelectual fin-de-siécle do m undo burguês. Com o vim os, ela revestiu duas form as. Sociedade e política pareciam necessitar ser repensadas na era das m assas, em particular os problem as da estrutura e coesão sociais, ou (em term os políticos) a lealdade dos cidadãos e a legitim idade do governo. O que preservou a ciência econôm ica de convulsões intelectuais m aiores foi, talvez, o fato de a econom ia capitalista ocidental não estar, m anifestam ente, enfrentando problem as da m esm a gravidade ou, ao m enos, eles eram tem porários. De m aneira geral, tratava-se das novas dúvidas a respeito dos pressupostos do século XIX em relação à racionalidade hum ana e à ordem natural das coisas.

É na psicologia que a crise da razão fica m ais óbvia, ao m enos na m edida em que ela tentava se conciliar não com situações experim entais, m as com a m ente hum ana com o um todo. O que restaria do próspero cidadão visando a obj etivos racionais através da m axim ização do lucro pessoal, se esse processo se baseava em uns quantos "instintos" com o os dos anim ais (MacDougall); se a m ente racional não passava de um barco navegando nas ondas e correntezas do inconsciente (Freud); ou m esm o se a consciência racional era apenas um tipo especial de consciência, "ao passo que em sua totalidade, dela separadas pela m ais frágil película, residem form as potenciais de consciência totalm ente diferentes" (William Jam es, 1902)? Qualquer leitor da grande literatura, qualquer apreciador da arte ou pessoas introspectivas am adurecidas j á estavam , é claro, fam iliarizados com tais observações. Contudo, foi agora e não antes que essas observações se tornaram parte do que se autodenom inava o estudo científico da psique hum ana. Elas não se aj ustavam à psicologia de laboratório ou dos testes; a coexistência de dois ram os de investigação da psique hum ana foi incôm oda. Na verdade, o inovador m ais m arcante nessa área, Sigm und Freud, criou um a disciplina, a psicanálise, que se separou do resto da psicologia e cuj a pretensão a um status científico e valor terapêutico foi, desde então, tratada com desconfiança nos círculos científicos convencionais. Por outro lado, seu im pacto em um a m inoria de hom ens e m ulheres em ancipados foi rápido e considerável, inclusive em parte das ciências hum anas e sociais (Weber, Som bart). Um a term inologia vagam ente freudiana se incorporaria ao discurso corrente de leigos instruídos após 1918, ao m enos na Alem anha e nas regiões de cultura anglo-saxônica. Além de Einstein, Freud é provavelm ente o único cientista do período (pois ele assim se considerava) cuj o nom e é conhecido pelo hom em da rua. Isso foi devido, sem dúvida, à conveniência de um a teoria que autorizava hom ens e m ulheres a j ogarem a culpa de suas ações em algo independente de sua vontade com o seu inconsciente, m as ainda m ais ao fato de Freud poder ser visto, acertadam ente, com o alguém que rom peu tabus sexuais e, erradam ente, com o paladino da libertação da repressão sexual. Pois a sexualidade assunto aberto à discussão e pesquisa públicas e a um a abordagem literária com poucos disfarces no período que analisam os (basta pensar em Proust na França, Arthur Schnitzler na Áustria e Frank Wedekind na

Alem anha)[f] — era central para a teoria de Freud. Freud não foi, é claro, o único, nem sequer o prim eiro, autor a pesquisá-la em profundidade. Ele não pertence ao crescente contingente de sexólogos que apareceu após a publicação do livro Psychopathia Sexualis (1886), de Richard von Krafft-Ebing, que inventou o term o "m asoquism o". Ao contrário de Krafft-Ebing, a m aioria dos sexólogos era reform ista, visando conseguir tolerância pública para várias form as de tendências sexuais não convencionais ("anorm ais"); e inform ar e libertar da culpa os que pertenciam a tais

m inorias sexuais (Havelock Ellis, 1859-1939, Magnus Hirschfeld[g]). Ao contrário dos novos sexólogos, Freud não despertou tanto o interesse de um público especificam ente preocupado com problem as sexuais, m as o de hom ens e m ulheres cultos e suficientem ente em ancipados dos tabus j udaico-cristãos tradicionais para aceitar o que há m uito im aginavam , ou sej a, o enorm e poder, ubiqüidade e m ultiform idade do im pulso sexual.

Freudiana ou não-freudiana, individual ou social, o que preocupava a psicologia não era com o os seres hum anos raciocinavam , m as quão pouco essa capacidade de raciocinar afetava seu com portam ento. A partir daí foi capaz de refletir a era da política e da econom ia das m assas de duas m aneiras, am bas críticas: por m eio da "psicologia das m ultidões", conscientem ente antidem ocrática, de Le Bon (1841-1931), Tarde (1843-1904) e Trotter (1872-1939), que afirm ava que todos os hom ens abandonavam o com portam ento racional quando reunidos em m ultidão; e por m eio da publicidade, cuj o entusiasm o pela psicologia era notório e que há m uito descobrira que sabão não era vendido por argum entos. Publicaram -se trabalhos sobre a psicologia da publicidade desde antes de 1909. Entretanto, a psicologia, lidando principalm ente com o indivíduo, não teve que se entender com os problem as de um a sociedade em processo de m udança. A disciplina transform ada da sociologia, sim .

A sociologia foi, provavelm ente, o produto m ais original das ciências sociais no período que nos ocupa; ou, em term os m ais precisos, a tentativa m ais significativa de com preender intelectualm ente as transform ações históricas que são o tem a central deste livro. Pois os problem as fundam entais que preocuparam seus expoentes m ais notáveis eram políticos. Com o m antinham as sociedades sua coesão fora dos costum es e da aceitação tradicional da ordem cósm ica, em geral sancionada por algum a religião, que um dia haviam j ustificado a subordinação social e as norm as? Com o funcionam as sociedades enquanto sistem as políticos sob tais condições? Em sum a, com o pode lidar um a sociedade com as conseqüências im previstas e perturbadoras da dem ocratização e da cultura de m assas, ou, num a form ulação m ais geral, de um a evolução da sociedade burguesa que parecia levá-la a algum outro tipo de sociedade? Esse conj unto de problem as é o que distingue os hom ens, hoj e considerados com o fundadores da sociologia, da legião de evolucionistas positivistas inspirados em Com te e Spencer (ver A Era do Capital, cap. 14:2), hoj e esquecidos, que até então representavam esse tem a.

A nova sociologia não era um a disciplina acadêm ica estabelecida nem sequer bem definida, e até hoj e não conseguiu estabelecer um consenso internacional em torno de seu conteúdo exato. No m áxim o, algo com o um a "área" acadêm ica surgiu nesse período em alguns países europeus, em torno de alguns poucos hom ens, revistas, sociedades e inclusive um a ou duas cátedras universitárias; m ais notavelm ente na França, em torno de Em ile Durkheim 1858-1917), e na Alem anha em torno de Max Weber (1864-1920). Apenas nas Am éricas, e em especial nos EUA, havia um núm ero significativo de sociólogos com esse nom e. Na verdade, boa parte do que hoj e seria classificado com o sociologia era trabalho de hom ens que ainda continuavam a se considerar de outras áreas: Thorstein Veblen (1857-1929), econom ista, Ernst Troeltsch (1865-1923), teólogo, Vilfredo Pareto (1848-1923), econom ista, Gaetano Mosca (1858— 1941), cientista político, e até Benedetto Croce, filósofo. O que deu a esse cam po algum a unidade foi a tentativa de entender um a sociedade que as teorias do liberalism o político e econôm ico não podiam , ou não podiam m ais, abranger. Contudo, ao contrário da m oda sociológica em algum as de suas fases posteriores, sua preocupação m aior nesse período era refrear a m udança da sociedade, antes que transform á-la, para não falar de revolucioná-la. Daí sua relação am bivalente com Karl Marx, hoj e m uitas vezes citado, com Durkheim e Weber, com o fundador da sociologia do século XX, m as cuj os discípulos nem sem pre gostam m uito desse rótulo. Nas palavras de um intelectual alem ão contem porâneo: "Deixando de lado as conseqüências práticas de suas doutrinas e a organização de seus seguidores com elas com prom etidos, Marx levantou questões intrincadas m esm o do ponto de vista científico, às quais tem os que nos esforçar para desem aranhar".

Alguns dos que se dedicavam à nova sociologia se concentraram em saber com o as sociedades realm ente funcionavam , de m odo diferente do que supunha a teoria liberal. Daí a profusão de publicações versando sobre o que hoj e seria cham ado de "sociologia política", baseadas, em grande m edida, na experiência da nova política dem ocrático-eleitoral e dos m ovim entos de m assas, ou de am bos (Mosca, Pareto, Michels, S. e B. Webb). Alguns se concentraram em saber o que m antinha as sociedades coesas contra as forças desagregadoras, oriundas dos conflitos entre as classes e entre os grupos que as com punham , e na tendência da sociedade liberal a reduzir a hum anidade a indivíduos dispersos, desorientados e desenraizados ("anom ia"). Daí a preocupação dos principais pensadores — quase invariavelm ente agnósticos e ateus — com o Weber e Durkheim , com o fenôm eno da religião, e daí a crença de que todas as sociedades precisam , sej a da religião, sej a de seu equivalente funcional para m anter seu tecido social; e de que os elem entos de todas as religiões podiam ser encontrados nos ritos dos aborígines australianos, à época norm alm ente considerados sobreviventes da infância da espécie hum ana ( ve r A Era do Capital, cap. 14:2). Reciprocam ente, as tribos prim itivas e bárbaras que o im perialism o agora perm itia, e às vezes exigia, que os antropólogos estudassem m inuciosam ente — o "trabalho de cam po" se tornou parte integrante da antropologia social no início do século XX —, eram agora vistas basicam ente não com o dem onstrações de estágios evolucionários passados, m as com o sistem as sociais em funcionam ento efetivo.

Mas qualquer que fosse a natureza da estrutura e da coesão das sociedades, a nova sociologia não podia eludir o problem a da evolução histórica da hum anidade. Na verdade, a evolução social ainda continuava sendo o cerne da antropologia, e, para hom ens com o Max Weber, a questão de saber de onde a sociedade burguesa tinha vindo e para onde estava evoluindo perm anecia candente tanto quanto para os m arxistas, e por razões análogas. Weber, Durkheim e Pareto — os três liberais com graus variáveis de ceticism o — estavam preocupados com o novo m ovim ento socialista e se encarregaram de refutar Marx, ou antes sua "concepção m aterialista da história", por m eio da elaboração de um a perspectiva m ais geral de evolução social. Em preenderam , por assim dizer, a elaboração de respostas não-m arxianas a perguntas m arxianas. Isso é m enos óbvio em Durkheim , pois Marx não tinha influência na França, a não ser com o aquele que propiciou um tom ligeiram ente m ais verm elho ao velho revolucionarism o

j acobino-communard[h]. Na Itália, Pareto (mais lembrado como economista matemático brilhante) aceitou a realidade da luta de classes, m as replicou que ela não levaria à derrubada de todas as classes dirigentes e sim à substituição de um a elite dirigente por outra. Na Alem anha, Weber foi cham ado de "o Marx burguês", por ter aceito m uitas das perguntas de Marx, virando, contudo, de cabeça para baixo seu m étodo ("m aterialism o histórico") de respondê-las.

O que m otivou e determ inou o desenvolvim ento da sociologia no período que abordam os foi, portanto, a percepção da crise nas questões da sociedade burguesa, a consciência da necessidade de fazer algo para evitar sua desintegração ou transform ação em tipos diferentes de sociedade sem dúvida m enos desej áveis. Isso terá revolucionado as ciências sociais ou até criado um a base adequada para a ciência geral da sociedade cuj a construção seus pioneiros em preenderam ? As opiniões divergem , m as são, em sua m aioria, provavelm ente céticas. Contudo, há um a pergunta que pode ser respondida com m ais segurança: esses hom ens terão propiciado os m eios para evitar a revolução e a desintegração que eles esperavam represar ou reverter?

A resposta é negativa. A cada ano que passava a com binação de revolução e guerra ficava m ais próxim a. Acom panhem os agora a sua traj etória.

 

[a] Em espanhol no original. (N. da T.)

[b] "Oh, Índia... alcançarás tu, por m eio de tua graciosa covardia, aquela Liberdade m erecida

apenas pelos bravos e os heróicos?... Oh, tu, Mãe da força, tira de m im a fraqueza, tira de m im a

falta de hom bridade e faz de m im um hom em " (Vivekananda).

[c] Por exem plo, Sigm und Freud ficou com o apartam ento do líder da social-dem ocracia

austríaca, Victor Adler, na Berggasse, onde Alfred Adler (não era parente do prim eiro), um psicanalista com prom etido com a social-dem ocracia, apresentou em 1909 um trabalho sobre "A

psicologia do m arxism o". O filho de Victor Adler, Friedrich, era, em com pensação, cientista e

adm irador de Ernst Mach.

[d] Física e Política, ou Pensamentos sobre a aplicação dos princípios da "seleção natural" e

"herança" à política. (N. da T.)

[e] A conservação da energia, Estudos sobre análise espectral, O estudo da Sociologia, Fisiologia

geral de músculos e nervos e O dinheiro e o mecanismo de câmbio. (N. da T.)

[f] Proust no que tange à hom ossexualidade m asculina e fem inina; Schnitzler — m édico — a

favor de um a abordagem honesta da prom iscuidade sexual fortuita (Reigen, 1903, escrito

originalm ente em 1896-1897); Wedekind (Frühlings Erwachen, 1891), sobre a sexualidade da

adolescência.

[g] Ellis com eçou a publicar seus Studies in the Psychology of Sex em 1897; o Dr. Magnus

Hirschfeld com eçou a publicar seu Jahrbuch für sexuelle Zwischenstufen (Anuário de casos

sexuais fronteiriços) no m esm o ano.

[h] Communard: partidário/participante da Com una de Paris (1871). (N. da T.)