A Era dos Impérios 1875-1914

Eric J. Hobsbawm · Capítulo 45 de 51

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A Era dos Impérios 1875-1914

Capítulo 6

 

Alguns historiadores pensam que a Rússia, a econom ia que m ais rapidam ente se desenvolvia no fim do século XIX, teria continuado a avançar e a evoluir rum o a um a sociedade liberal próspera se seu progresso não tivesse sido interrom pido por um a revolução que só podia ter sido evitada pela Prim eira Guerra Mundial. Nenhum a previsão teria surpreendido m ais os contem porâneos do que essa. Se havia um Estado onde se acreditava que a revolução fosse não só desej ável com o inevitável, era o im pério dos czares. Gigantesco, pesado e ineficiente, econôm ica e tecnologicam ente atrasado, com 126 m ilhões de habitantes (1897), 80% de cam poneses e 1% de nobreza hereditária, ele era organizado de um a form a que todos os europeus instruídos consideravam francam ente pré-histórica no fim do século XIX: a autocracia burocrática. Esse m esm o fato tornou a revolução o único m étodo passível de m udar a política do Estado que não fosse dar um puxão de orelhas no czar ou fazer a m áquina estatal se m ovim entar de cim a para baixo: poucas pessoas poderiam optar pela prim eira possibilidade, e ela não im plicava necessariam ente a segunda. Com o havia a consciência quase universal da necessidade de um tipo ou outro de m udança, praticam ente todos — desde os que no Ocidente teriam sido cham ados de conservadores m oderados até a extrem a esquerda — eram obrigados a ser revolucionários. A única indagação era de que tipo.

O governo do czar estava ciente, desde a Guerra da Crim éia (1854-1856), de que a posição russa de grande nação de prim eira linha não podia m ais se basear, com segurança, apenas no tam anho do país, em sua grande população e nas conseqüentem ente vastas, porém prim itivas, forças arm adas. A Rússia precisava se m odernizar. A abolição da servidão, em 1861 — j unto com a Rom ênia, a Rússia era o últim o baluarte da servidão cam ponesa na Europa —, visava a puxar a agricultura russa para o século XIX, m as não produziu nem um cam pesinato satisfeito (cf. A Era do Capital, cap. 10:2) nem um a agricultura m odernizada. O rendim ento da produção de cereais na Rússia européia era (1898-1902) de pouco m enos de 63 hectolitros por hectare, contra cerca de 100 nos EUA e 246 na Grã-Bretanha. Mesm o assim , a expansão da fronteira agrícola para a produção cerealista de exportação transform ou a Rússia num dos m aiores fornecedores m undiais de grãos. A safra líquida do conj unto dos cereais aum entou 160% entre o início da década de 1860 e o da de 1900, e as exportações quintuplicaram ou sextuplicaram , aum entando em contrapartida a dependência dos cam poneses russos em relação aos preços do m ercado m undial, que (para o trigo) caíram a quase a m etade durante a depressão agrícola m undial.

Com o os cam poneses não eram nem vistos nem ouvidos coletivam ente fora de seus povoados, o descontentam ento de quase cem m ilhões de cam poneses podia facilm ente passar despercebido, em bora o flagelo da fom e de 1891 tenha cham ado a atenção para o problem a. Entretanto, esse descontentam ento não foi só acentuado pela pobreza, pelos sem -terra, pelos im postos elevados e preços baixos para os cereais, m as tinha tam bém form as potenciais de organização significativas através das com unidades coletivas dos povoados, cuj a posição com o instituições oficialm ente reconhecidas foi, paradoxalm ente, fortalecida pela libertação dos servos e reforçada ainda m ais na década de 1880, quando alguns burocratas as consideraram com o um inestim ável bastião da lealdade tradicionalista contra os revolucionários sociais. Outros, no terreno oposto do liberalism o econôm ico, faziam pressão para que elas fossem rapidam ente elim inadas e suas terras transform adas em propriedade privada. Um debate análogo dividia os revolucionários. Os narodniks (ver A Era do Capital, cap. 9) ou populistas — com , é preciso que se diga, algum apoio instável e hesitante do próprio Marx — pensavam que um a com una cam ponesa revolucionada podia constituir a base de um a transform ação socialista direta da Rússia, poupando o país dos horrores do desenvolvim ento capitalista; os m arxistas russos acreditavam que isso não era m ais possível, porque a com una j á estava se dividindo em dois grupos m utuam ente hostis, burguesia e proletariado rurais. Eles tam bém teriam preferido essa situação, pois só tinham fé nos trabalhadores. Am bos os lados, nos dois debates, testem unham a im portância das com unas cam ponesas, que detinham 80% da terra, em cinqüenta províncias da Rússia européia, em posse com unitária, a ser periodicam ente redistribuída por decisão da com unidade. A com una estava, de fato, se desintegrando nas regiões do sul, onde a com ercialização estava m ais im plantada, com m enos rapidez, porém , do que acreditavam os m arxistas: perm anecia quase universalm ente inabalada no norte e no centro. Nos locais onde continuava forte, era um organism o que articulava o consenso do povoado em torno da revolução bem com o, em outras circunstâncias, a favor do czar e da Sagrada Rússia. Nos lugares onde estava se desfazendo, levou a m aioria de seus habitantes a se unirem para defendê-la ativam ente. Na verdade, felizm ente para a revolução, o desenvolvim ento da "luta de classes no povoado", predita pelos m arxistas, ainda não fora suficiente para com prom eter a im agem do m ovim ento, que parecia ser m aciço de todos os cam poneses, m ais ricos e m ais pobres, contra a nobreza e o Estado.

Independente de suas opiniões, quase todos os participantes da vida pública russa, legal ou ilegal, concordavam em que o governo do czar adm inistrara m al a reform a agrária e negligenciara os cam poneses. Agravara, na verdade, seu descontentam ento quando este j á era agudo, desviando recursos da população rural para um a m aciça industrialização patrocinada pelo Estado na década de 1890. Isto porque o grosso da receita fiscal da Rússia vinha da área rural, e os im postos elevados, j untam ente com tarifas protecionistas vultosas e m uita im portação de capital, eram essenciais para o proj eto de aum entar o poder da Rússia czarista através da m odernização econôm ica. Os resultados, obtidos por m eio de um a m escla de capitalism o privado e de Estado, foram espetaculares. Entre 1890 e 1904, foram duplicados os quilôm etros de ferrovias (em parte devido à construção da linha transiberiana), enquanto a produção de carvão, ferro e aço dobrou nos últim os cinco anos do século. Mas o outro lado da m oeda foi o fato de a Rússia czarista passar a ter um proletariado industrial em rápida expansão, concentrado em com plexos fabris extraordinariam ente grandes de poucos centros principais e, por conseguinte, ter tam bém um com eço de m ovim ento de trabalhadores com prom etido, é claro, com a revolução social.

Um a terceira conseqüência da industrialização rápida foi o desenvolvim ento desproporcional de regiões não pertencentes à Grande Rússia, situadas nas extrem idades oeste e sul do im pério, com o a Polônia, a Ucrânia e o Azerbaij ão (petróleo). As tensões nacionais e sociais se intensificaram , sobretudo com a tentativa do governo czarista de aum entar seu controle político por m eio de um a política sistem ática de russificação através da educação a partir dos anos 1880. Com o vim os, a com binação dos descontentam entos sociais aos nacionais é indicada pelo fato de as variantes dos novos m ovim entos sociais dem ocráticos (m arxistas) da m aioria dos povos m inoritários e politicam ente m obilizados do Im pério czarista terem se tornado de fato partidos nacionais. O fato de um georgiano (Stalin) vir a ser dirigente de um a Rússia revolucionada constitui m enos um acidente histórico que o de um corso (Napoleão) ter se tornado dirigente de um a França revolucionada.

Todos os liberais europeus, a partir de 1830, tinham conhecim ento e eram favoráveis a um m ovim ento de libertação nacional polonês, baseado na burguesia, contra o governo czarista, que ocupava a m aior parte daquele país dividido, em bora o nacionalism o revolucionário não fosse

m uito visível ali desde a insurreição derrotada de 1863[d]. A partir de cerca de 1870, eles tam bém se acostum aram — e apoiaram — à nova idéia de um a revolução im inente no próprio coração do im pério, governado pelo "autocrata de todas as Rússias", tanto devido ao fato de o próprio czarism o dar sinais de fraqueza interna e externa, com o ao surgim ento de um m ovim ento revolucionário m uito visível, no início com posto quase inteiram ente por integrantes da assim cham ada intelligentsia: filhos e, em grau elevado e sem precedentes, filhas da nobreza e da burguesia, os estam entos m édios e outros instruídos, inclusive — pela prim eira vez — um a proporção substancial de j udeus. A prim eira geração desses revolucionários era m aj oritariam ente narodnik (populista) (cf. A Era do Capital, cap. 9), voltada para o cam pesinato, que não tom ou conhecim ento deles. Foram m uito m ais bem -sucedidos agindo em pequenos grupos terroristas — especialm ente quando, em 1881, conseguiram assassinar o czar, Alexandre II. Em bora o terrorism o não tenha podido enfraquecer significativam ente o czarism o, deu destaque internacional ao m ovim ento revolucionário russo e aj udou a cristalizar um consenso praticam ente universal, com exceção da extrem a direita, em torno da necessidade e da inevitabilidade de um a revolução russa.

Os narodniks foram destruídos e dispersos após 1881, m as renasceram sob a form a de um partido "Revolucionário Social" no início da década de 1900; desta vez, porém , os povoados estavam preparados para escutá-los. Eles se tornariam o principal partido rural de esquerda, em bora tam bém tenham ressuscitado a ala terrorista, onde, à época, estava infiltrada a polícia

secreta[e]. Com o todos que esperavam algum tipo de revolução russa, eles haviam sido estudantes aplicados de teorias ocidentais apropriadas e, portanto, graças à Prim eira Internacional, do m ais vigoroso e proem inente teórico da revolução social: Karl Marx. Na Rússia, dada a inviabilidade social e política das soluções liberais ocidentais, até as pessoas que em outros lugares teriam sido liberais eram m arxistas antes de 1900, pois o m arxism o ao m enos predizia um a fase de desenvolvim ento capitalista no cam inho que levava à sua derrubada pelo proletariado.

Não é surpreendente o fato de os m ovim entos revolucionários que cresceram sobre as ruínas do populism o dos anos 1870 serem m arxistas, em bora só tivessem se organizado num partido social-dem ocrata russo — ou, antes, num com plexo de organizações social-dem ocratas rivais, que ocasionalm ente agiam em conj unto, sob o m anto geral da Internacional — no final da década de 1890. A esta altura, a idéia de um partido baseado no proletariado industrial tinha algum fundam ento real, m esm o se o m ais forte apoio de m assa ia para a social-dem ocracia, à época ainda provavelm ente com posta por artesãos e trabalhadores autônom os em pobrecidos e proletarizados do norte da região onde eram confinados os j udeus, baluarte da Liga Judaica (1897). Nós costum am os acom panhar o avanço do grupo específico de revolucionários m arxistas que finalm ente prevaleceu, ou sej a, aquele liderado por Lenin (V. I. Uly anov, 1870-1924), cuj o irm ão fora executado devido à sua participação no assassinato do czar. Por m ais relevante que possa ser — e a genialidade de Lenin na com binação de teoria e prática revolucionárias não é a

m enor das causas dessa im portância — é preciso lem brar de três coisas. Os bolcheviques[f] eram apenas um a entre várias tendências dentro ou próxim o da social-dem ocracia russa (por sua vez diferente de outros partidos socialistas de base nacional do im pério). De fato, eles só se transform aram em partido autônom o em 1912, quando quase certam ente se tornaram a força m aj oritária da classe trabalhadora organizada. Em terceiro lugar, para os socialistas estrangeiros, com o provavelm ente para a m assa dos trabalhadores russos, as distinções entre diferentes tipos de socialistas ou eram incom preensíveis ou pareciam secundárias, todos sendo igualm ente m erecedores de apoio e solidariedade com o inim igos do czarism o. A principal diferença entre os bolcheviques e os outros era que os cam aradas de Lenin eram m ais bem -organizados, m ais eficientes e m ais confiáveis.

O fato de a inquietação social e política ser crescente e perigosa ficou óbvio para o governo do czar, em bora a inquietação cam ponesa viesse a continuar por algum as décadas após a em ancipação. O czarism o não desencoraj ou, até às vezes encoraj ou, o anti-sem itism o de m assa, que desfrutava de enorm e apoio popular, com o a vaga de pogroms de 1881 revelou, em bora esse apoio fosse m enor na Grande Rússia que na Ucrânia e nas regiões bálticas, onde estava concentrado o grosso da população j udaica. Os j udeus, cada vez m ais m altratados e discrim inados, eram cada vez m ais atraídos pelos m ovim entos revolucionários. Por outro lado, o regim e, consciente do perigo potencial que o socialism o representava, j ogou com a legislação trabalhista, e inclusive organizou com presteza contra-sindicatos sob o controle da polícia no início da década de 1900, que efetivam ente se transform aram em sindicatos de fato. Foi o m assacre de um a m anifestação organizada por eles que, na verdade, precipitou a revolução de 1905. Entretanto, a partir de 1900, o rápido aum ento da inquietação social ficou cada vez m ais evidente. Os tum ultos provocados por cam poneses, há m uito sem i-adorm ecidos, recrudesceram inegavelm ente a partir de cerca de 1902, ao m esm o tem po que os trabalhadores organizavam o que veio a desem bocar em greves gerais em Rostov-sobre-o-Don, Odessa e Baku (1902-1903).

Regim es inseguros prudentes evitam políticas externas tem erárias. A Rússia czarista enveredou por esse terreno, com o um a grande potência (por m ais que tivesse pés de barro) que insistia em desem penhar o que ela sentia ser o papel que lhe cabia na conquista im perial. O território escolhido foi o Extrem o Oriente — a ferrovia transiberiana fora, em boa m edida, construída para penetrar nesse território. A conquista russa ali esbarrou na expansão j aponesa, am bas às custas da China. Com o sem pre nesses episódios im perialistas, negócios obscuros e auspiciosam ente lucrativos de em presários que ficam na som bra com plicavam o quadro. Com o apenas a infeliz e gigantesca China enfrentara um a guerra contra o Japão, o Im pério Russo foi o prim eiro a subestim ar, no século XX, aquele form idável Estado. A guerra russo-j aponesa de 1904-1905, em bora tenha m atado 84 m il j aponeses e ferido 143 m il, foi um rápido e hum ilhante desastre para a Rússia, ressaltando a fraqueza do czarism o. Até os liberais de classe m édia, que haviam com eçado a se organizar com o oposição política em 1900, se aventuraram a fazer m anifestações públicas. O czar, consciente das ondas revolucionárias cada vez m ais altas, acelerou as negociações de paz: antes de sua conclusão, a revolução estourou, em j aneiro de 1905.

A revolução de 1905 foi, com o disse Lenin, um a "revolução burguesa realizada por m eios proletários". "Por m eios proletários" talvez sej a um a sim plificação excessiva, em bora o início do recuo do governo se tenha devido às greves m aciças de trabalhadores na capital e às greves de solidariedade na m aioria das cidades industriais do im pério; e em bora m ais tarde as greves tenham , outra vez, exercido a pressão que propiciou algo parecido a um a constituição em 17 de outubro. Adem ais, foram os trabalhadores que — sem dúvida a partir da experiência dos povoados — se organizaram espontaneam ente nos "conselhos" (em russo: soviets), dentre os quais o Soviete de Delegados de Trabalhadores de São Petersburgo, instalado em 13 de outubro, funcionou não apenas com o um a espécie de parlam ento de trabalhadores, m as provavelm ente, por um curto período, com o a autoridade m ais efetiva e real da capital do país. Os partidos socialistas reconheceram bem depressa a relevância dessas assem bléias, e alguns tiveram participação destacada nelas — com o o j ovem L. B. Trotsky (1879-1940) em São

Petersburgo[g]. Isso porque, por m ais crucial que fosse a intervenção dos trabalhadores, concentrados na capital e em outros centros politicam ente candentes, foi a irrupção das revoltas cam ponesas em escala m aciça na região da Terra Negra, no vale do Volga e em partes da Ucrânia, bem com o o desm oronam ento das forças arm adas, dram atizado pelo m otim do encouraçado Potemkin, que quebrou a resistência czarista — com o em 1917. A m obilização sim ultânea da resistência revolucionária das nacionalidades m enores foi igualm ente significativa.

O caráter "burguês" da revolução podia ser, e foi, dado por certo. Não apenas a esm agadora m aioria da classe m édia era favorável à revolução e a esm agadora m aioria dos estudantes (ao contrário de outubro de 1917) estavam m obilizados para lutar por ela, com o tam bém tanto os liberais com o os m arxistas adm itiam , quase sem discordância, que a revolução, se fosse bem -sucedida, só poderia levar à im plantação de um sistem a parlam entarista ocidental burguês, com suas liberdades civis e políticas características, dentro do qual os estágios posteriores da luta de classes m arxiana seriam travados. Em sum a, havia consenso de que a construção do socialism o não estava na pauta revolucionária im ediata, quanto m ais não fosse porque a Rússia era m uito atrasada. Não estava nem econôm ica nem socialm ente pronta para o socialism o.

Todos concordavam nesse ponto, salvo os social-revolucionários, que ainda sonhavam com um proj eto cada vez m enos plausível de ver as com unas cam ponesas transform adas em unidades socialistas — proj eto paradoxalm ente realizado apenas nos kibutzim da Palestina, produtos do que há no m undo de m enos parecido a um m uj ique, os j udeus urbanos socialistas-nacionalistas que em igraram da Rússia para a Terra Santa após o fracasso da revolução de 1905.

No entanto Lenin viu, com a m esm a clareza que as autoridades czaristas, que a burguesia — liberal ou outra — na Rússia era num érica e politicam ente fraca dem ais para assum ir o governo após o czarism o, da m esm a m aneira com o a em presa capitalista privada russa era fraca dem ais para m odernizar o país sem as iniciativas das em presas estrangeiras e do Estado. Mesm o no auge da revolução, as concessões políticas feitas pelas autoridades foram m odestas, m uito m ais restritas que as de um a constituição liberal-burguesa — pouco m ais que um parlam ento indiretam ente eleito (Dum a) com poderes lim itados no que tange às finanças e nulos em relação ao governo e às "leis fundam entais"; em 1907, quando a agitação revolucionária am ainara e a m anipulação do direito de voto ainda não produzira um a Dum a suficientem ente inofensiva, a m aior parte da constituição foi revogada. Não foi, na verdade, um retorno à autocracia, m as, na prática, o czarism o tornara a se im plantar.

Mas, com o 1905 j á provara, ele podia ser derrubado. O que a posição de Lenin tinha de novo em relação à de seus principais rivais, os m encheviques, era o fato de ele reconhecer que, dada a fraqueza ou a ausência da burguesia, a revolução burguesa deveria, por assim dizer, ser feita sem a burguesia. Seria feita pela classe operária, organizada e conduzida pelo disciplinado partido de vanguarda de revolucionários profissionais — a notável contribuição de Lenin à política do século XX — com o apoio do cam pesinato que ansiava por terra, cuj o peso político na Rússia era decisivo e cuj o potencial revolucionário agora estava sendo dem onstrado. Essa foi, em suas grandes linhas, a posição leninista até 1917. A idéia de que os próprios operários podiam , dada a ausência de um a burguesia, tom ar o poder e passar diretam ente à etapa seguinte da revolução social ("revolução perm anente") de fato havia sido brevem ente ventilada durante a revolução — quanto m ais não fosse para estim ular um a revolução proletária no Ocidente, sem a qual acreditava-se que as chances de um regim e socialista sobreviver fossem m ínim as, a longo prazo. Lenin pensou nessa possibilidade, m as continuou a rej eitá-la com o im praticável.

A perspectiva leninista repousava num crescim ento da classe operária, num cam pesinato que continuasse sendo um a força revolucionária — e, é claro, tam bém na m obilização, na aliança ou, ao m enos, na neutralização das forças de libertação nacional, pois elas eram recursos revolucionários im portantes, na m edida em que inim igas do czarism o. (Daí a insistência de Lenin no direito à autodeterm inação, ou m esm o à separação da Rússia, em bora os bolcheviques estivessem organizados num partido único para todo o território e, por assim dizer, a-nacional.) O proletariado de fato estava crescendo, pois a Rússia em preendera outra ofensiva industrializadora nos últim os anos antes de 1914; e era m ais provável que os j ovens m igrantes vindos do cam po, num a grande torrente fluindo em direção às fábricas de Moscou e São Petersburgo, seguissem m ais os radicais bolcheviques do que os m oderados m encheviques, sem contar os m iseráveis acam pam entos provinciais de fum aça, carvão, ferro, têxteis e lam a — o Donets, os Urais, Ivanovo — que sem pre se inclinaram para o bolchevism o. Após poucos anos de desânim o na esteira da derrota da revolução de 1905, um a enorm e e nova vaga de inquietação proletária tornou a se erguer em 1912, com seu ascenso dram atizado pelo m assacre de duzentos operários grevistas nas longínquas m inerações de ouro (de propriedade britânica) siberianas no rio Lena.

Mas continuariam os cam poneses revolucionários? A reação do governo do czar a 1905, através do com petente e decidido m inistro Stoly pin, criaria um a m assa substancial de cam poneses conservadores, increm entando ao m esm o tem po a produtividade agrícola por m eio de um m ergulho entusiástico no equivalente russo do "cerceam ento de terras" britânico. A com una cam ponesa foi sistem aticam ente dividida em lotes privados em benefício de um a classe de cam poneses prósperos com m entalidade em presarial, os kulaks. Se Stoly pin ganhasse sua aposta nos "fortes e sérios", a polarização social entre os ricos do povoado, de um lado, e os sem -terra, de outro, a diferenciação das classes rurais anunciada por Lenin realm ente teria ocorrido; m as, diante do panoram a real, ele reconheceu, com seu habitual tino político certeiro, que ela não seria positiva para a revolução. Se a legislação de Stoly pin poderia ou não ter dado os resultados políticos esperados a longo prazo, não podem os saber. Ela foi im plem entada de m aneira bastante am pla nas províncias do sul, onde a com ercialização estava m ais enraizada, notadam ente na Ucrânia, e m uito m enos nas outras regiões. Entretanto, j á que o próprio Stoly pin foi afastado do governo do czar em 1911 e assassinado pouco depois, e j á que, em 1906, o próprio im pério teria só m ais oito anos de paz, a indagação é acadêm ica.

O que é claro é que a derrota da revolução de 1905 nem gerara um a alternativa "burguesa" potencial ao czarism o nem lhe dera m ais do que m eia dúzia de anos de trégua. Em 1912-1914, o país estava um a vez m ais em ebulição, devido à inquietação social. Lenin estava convencido de que um a vez m ais um a situação revolucionária se aproxim ava. No verão de 1914, os únicos obstáculos que se lhe opunham eram a força e a firm e lealdade da burocracia do czar, da polícia e das forças arm adas que — ao contrário de 1904-1905 — não estavam nem desm oralizadas nem engaj adas no cam po oposto; e talvez a passividade da classe m édia intelectual russa, cuj a grande m aioria, desanim ada pela derrota de 1905, trocara o radicalism o político pelo irracionalism o e a vanguarda cultural.

Com o em tantos outros Estados europeus, a deflagração da guerra deu vazão ao ardor social e político. Quando este arrefeceu, foi ficando cada vez m ais evidente que o czarism o estava acabado. Caiu em 1917.

Em 1914, a revolução convulsionara todos os antigos im périos do planeta, das fronteiras da Alem anha aos m ares da China. Com o a Revolução Mexicana, as agitações egípcias e o m ovim ento nacional indiano m ostraram , ela estava com eçando a corroer os novos im périos form ais ou inform ais do im perialism o. Entretanto seus resultados ainda não estavam claros em parte algum a, e era fácil subestim ar a significação de seu fogo, bruxuleando entre o que Lenin cham ou de "m aterial inflam ável na política m undial". Ainda não estava claro que a Revolução Russa produziria um regim e com unista — o prim eiro da história e se tornaria o acontecim ento central da política m undial do século XX, com o a Revolução Francesa fora o acontecim ento central da política do século XIX.

E contudo j á era óbvio que, de todas as erupções ocasionadas pelo vasto terrem oto social do planeta, a Revolução Russa teria a m aior repercussão internacional, pois até a convulsão incom pleta e tem porária de 1905-1906 tivera resultados dram áticos e im ediatos. Quase com certeza precipitou as revoluções persa e turca, provavelm ente acelerou a chinesa e, ao incentivar o im perador da Áustria a introduzir o sufrágio universal, transform ou, tornando ainda m ais instável, a conturbada política do Im pério Habsburgo. Pois a Rússia era um a "grande potência", um a das cinco pedras angulares do sistem a internacional centrado na Europa e, levando em conta apenas territórios próprios, de longe o m aior, m ais populoso e m ais dotado de recursos. Um a revolução social num Estado assim estava fadada a ter efeitos m undiais poderosos, exatam ente pelo m esm o m otivo que haviam tornado a Revolução Francesa m uitíssim o m ais significativa internacionalm ente que as num erosas revoluções do fim do século XVIII.

Mas as repercussões potenciais de um a revolução russa seriam ainda m ais am plas que as de 1789. A sim ples extensão física e a plurinacionalidade de um im pério que ia do Pacífico à fronteira alem ã significava que sua queda afetava um núm ero m uito m aior de países, em dois continentes, que a de um Estado m ais m arginal ou isolado na Europa ou na Ásia. E o fato crucial de a Rússia estar com um pé no m undo dos conquistadores e outro no das vítim as, no avançado e no atrasado, fez com que sua revolução tivesse repercussões potenciais consideráveis em am bos. A Rússia era tanto um país industrial im portante com o um a econom ia cam ponesa tecnologicam ente m edieval; um a nação im perial e um a sem icolônia; um a sociedade cuj as realizações intelectuais e culturais eram capazes de superar os m ais avançados sim ilares do m undo ocidental e um país cuj os soldados cam poneses ficaram pasm os com a m odernidade dos j aponeses que os capturaram em 1904-1905. Em sum a, a Revolução Russa podia ser relevante ao m esm o tem po para os organizadores ocidentais dos trabalhadores e para os revolucionários orientais, na Alem anha e na China.

A Rússia czarista exem plifica todas as contradições do planeta na Era do Im pério. O único elem ento que faltava para fazê-las explodir em erupções sim ultâneas era a guerra m undial, que a Europa cada vez m ais esperava e que foi incapaz de evitar.

 

[a] Desde então não há um a característica geográfica que dem arque claram ente o

prolongam ento ocidental da m assa de terra asiática, que cham am os de Europa, do resto da Ásia.

[b] A lei islâm ica não exigia um a profissão específica de advogado. O núm ero de pessoas

alfabetizadas foi triplicado entre 1875-1900, criando um m ercado m aior para a im prensa.

[c] Em francês, no original: evoluído. (N. da T.)

[d] As partes anexadas pela Rússia form avam o núcleo da Polônia. Os nacionalistas poloneses

tam bém resistiram , na condição m ais fraca de m inoria, na parte anexada pela Alem anha, m as

chegaram a um a solução de com prom isso bastante confortável no setor austríaco com a

m onarquia dos Habsburgo, que precisava do apoio polonês para criar um equilíbrio político entre

suas nacionalidades em conflito.

[e] Seu cabeça, o policial Azev (1869-1918), enfrentou a com plexa tarefa de assassinar um

núm ero suficiente de pessoas proem inentes para satisfazer seus cam aradas e entregar um

núm ero suficiente destes para satisfazer a polícia, sem perder a confiança de nenhum dos dois

lados.

[f] Assim cham ados devido a um a m aioria tem porária no prim eiro verdadeiro congresso do

Partido Trabalhista Social Dem ocrata Russo (1903). Em russo: bolshe = m ais; menshe = m enos.

[g] A m aioria dos outros socialistas conhecidos estava no exílio e não pôde voltar à Rússia a

tem po de atuar eficazm ente.