Capoeira Regional: a escola de Mestre Bimba

Hellio Campos · Capítulo 9 de 66

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Capoeira Regional: a escola de Mestre Bimba

A Mandinga do jogo

Valorizava a capoeira em seus mais variados aspectos, afirmando que, dentro dos limites esportivos, a capoeira contribui indubitavelmente para o desenvolvimento físico e da saúde e que qualquer pessoa poderia praticá-la, pois não apresentava risco algum. E filosofava dizendo: “capoeira é para homem, menino e mulher”; “capoeira é tudo que a boca come”. Ressaltava, com veemência: praticamente não há limite de idade para entrar numa academia de Capoeira Angola. Bastante elevado é o número de pessoas cuja idade ultrapassa os sessenta anos. São indivíduos que praticam esse esporte desde a juventude, possuindo uma invejável movimentação corporal, agilidade e flexibilidade de articulação que impressionam.

 

A mandinga do jogo

 

Definindo o jogo de capoeira, Pastinha assevera que o bom capoeirista lança mão de inúmeros truques para enganar e distrair o adversário. Dissimula, aparenta que se retira e se volta rapidamente, tentando surpreender. Pula de um lado para outro. Agacha-se, deita e se levanta desordenadamente. Avança e recua. Finge que está fora do jogo, que não está vendo o adversário, com a finalidade de atraí-lo para uma emboscada. Simula, gira e se contorce numa ginga maliciosa e desconcertante.

O capoeirista não tem pressa, observa o adversário, usa a visão periférica, sente o melhor momento para entrar e aplicar um golpe ou mesmo um contragolpe; prevê a saída, ginga sempre e está em constante movimento para aproveitar tudo o que o ambiente possa lhe proporcionar.

Para Silva, o jogo de angola “é a arte simulada no jogo da vida, onde os Capuêiristas (sic) representam todas as passagens que a vida lhe (sic) oferece: da maldade a (sic) falsidade, da mandinga a (sic) inocência, do logro a (sic) astúcia e da ignorância à sabedoria, a forma peculiar de ser, de viver” (2003, p. 109).

A Capoeira Angola tem um número reduzido de golpes, mas nem por isso deixa de ser eficiente e perigosa enquanto luta. Mestre Bola Sete diz que os principais golpes da Capoeira Angola são desferidos com os pés e as partes dos mesmos com o objetivo de atingir o adversário. Afirma também que existem dúvidas quanto aos nomes dos golpes e suas variações. Justifica este fato, reportando-se a um grande número de mestres que batizavam os golpes com diferentes nomes e aos muitos golpes tidos como primitivos que foram modificados ou desapareceram, ao mesmo tempo em que novos movimentos foram criados e aperfeiçoados (1989, p. 43).

A ginga é a característica marcante do jogo da capoeira e identifica cada capoeirista, seu estilo, manha, malícia, habilidade e competência.

Para Mestre Bola Sete,

 

Ginga — É o principal movimento da Capoeira. Na ginga o capoeirista

poderá defender-se com o auxílio das mãos e dos braços, negaceando em

várias posições, deslocar-se para qualquer posição permitindo-lhe uma

melhor posição para a defesa, o ataque e o conta-ataque além da utilização

do “floreio”, que consiste no jogo de corpo, onde o capoeirista, como o nome

já diz, utiliza movimentos corporais, com o intuito de distrair o adversário

para melhor aplicar-lhe o golpe (1989, p. 44).

 

Mestre Itapoan, abordando o ensino da ginga na Capoeira Regional, ressalta que Mestre Bimba insistia que o aprendizado da ginga era o ponto crucial, a parte mais importante no ensino da capoeira. “A ginga é o ponto de partida de todas as aquisições futuras. É a posição ‘fundamental’ do capoeirista”. Mestre Itapoan afirma ter assistido Mestre Bimba repetir muitas vezes que “a ginga é a alma do capoeirista” (1994, p. 80). É importante frisar que não existem duas gingas iguais; ela depende da habilidade motora e da interiorização pessoal, pelas quais aflora o sentimento, a emoção e o amor, transmudados em movimento negaceado único.

A roda de Capoeira Angola constitui-se em um dos momentos mais marcantes, representando o coroamento da inserção no mundo capoeirístico e uma das ocasiões mais ricas de aprendizado.

Para Costa, a roda representa um aspecto profundo, ritualístico, uma maneira de harmonizar e equilibrar as formas e energias presentes na capoeira: a democracia prevalece, todos os participantes têm importância funcional, não existindo privilégios, configurando, assim, uma contribuição harmônica, “todos podem jogar sua voz” e consequentemente todos são igualmente importantes no contexto da roda de capoeira (1993, p. 113).

A roda é uma figura geométrica na qual se pressente circular uma grande quantidade de energia devido ao somatório das energias presentes e ao seu movimento constituído pelos toques, cânticos e ritmos comandados pelo berimbau, que parece atrair forças da natureza cósmica, emanando uma vibração indescritível, a ponto de muitos capoeiristas afirmarem entrar num estado de transcendência e liberdade.

Para jogar na roda da Capoeira Angola, o capoeirista precisa conhecer o ritual. Inicialmente, tem que observar o conjunto musical formado por três berimbaus de tamanhos e sonoridades diferenciadas: o maior, chamado de gunga ou berra-boi, que marca o toque principal, normalmente tocado pelo mestre; o médio, denominado de viola, que faz acompanhamento ao primeiro; e o terceiro, o menor, conhecido como pequeno ou violinha, que marca os tons distintos dos demais, criando uma riqueza de harmonias através dos repiques. Os outros instrumentos que compõem a bateria são dois pandeiros, atabaque, agogô e reco-reco.

O ritual determina que os dois capoeiristas, quando dispostos a vadiar, devem se agachar “ao pé do berimbau” e esperar o canto da ladainha, geralmente entoado pelo mestre que está tocando o gunga, seguido pelos berimbaus médio e violinha e, por fim, os pandeiros e demais instrumentos. Durante o canto de entrada, os capoeiristas devem aguardar o momento de sair para o jogo através da senha inserida na música: “que o mundo dá”; os jogadores se benzem fazendo o sinal da cruz e demonstram suas habilidades, em exercícios preparatórios e orações, pedindo para que o jogo lhes seja favorável. Os toques mais praticados durante a ladainha (louvação) são Angola e São Bento Pequeno. Na sequência da roda é a vez do canto corrido que pode ser acompanhado pelos toques de São Bento Grande ou Angola Dobrada, dentre outros; a roda segue em movimento contínuo, com os capoeiristas realizando a compra do jogo, a chamada e a volta ao mundo.

O berimbau dita o ritmo do jogo e o toque de angola revela um jogo baixo e de meia altura, que tem como objetivo uma contenda difícil e viril. O São Bento Grande indica um jogo lento, porém astuto, manhoso e competitivo. O toque de São Bento Pequeno tem um ritmo mais rápido e sugere um jogo educativo, técnico, privilegiando os golpes desequilibrantes, traumatizantes, projeções e fundamentos aprimorados de esquivas. A cavalaria é um toque tradicional de aviso que tende a imitar um trote de cavalos, lembrando o barulho da cavalaria na época da escravidão. Os mestres costumavam tocar a cavalaria quando pressentiam a aproximação de um estranho no ambiente da capoeira.

A indumentária é uma questão bastante discutida no meio capoeirístico e o uso do traje branco é o mais aceito, por lembrar a tradição dos antigos capoeiristas. Mestre Bola Sete assim se reporta:

 

Em nossa terra, os capoeiristas do passado, nos dias de trabalho, usavam

camisa de alinhagem, urucubaca ou bulgariana, calça bem folgada de

pantalona ou qualquer outro tecido barato, arregaçada quase até o joelho,

chinelos de chagrin ou descalços. Nos domingos, trajavam-se com mais

esmero. Vestiam a “domingueira”, que geralmente era de linho branco,

amarravam um lenço de esguião de seda no pescoço, que tinha como

finalidade proteger do suor o colarinho da camisa, além de servir como

defesa contra navalha, pois, como sabemos, a navalha não corta seda pura;

sapato de bico fino e uma pequena argola de ouro na orelha esquerda, que

era uma característica dos negros Angola (1989, p.175).

 

A roupa branca tem um significado todo especial, representa a maestria do bom capoeirista que, ao jogar capoeira, deveria sair ileso, com veste impecável, sem estar amarrotado e com a alvura incontestável, mostrando sua ligeireza, astúcia e mandinga de não estar carimbado pela sujeira desferida através de um golpe dado pelo adversário.

É importante registrar que outros mestres — a exemplo de Valdemar da Liberdade, João Pequeno, João Grande, Traíra, Totonho de Maré, Cobrinha Verde, Caiçara, Canjiquinha, Paulo dos Anjos, Curió, Gildo Alfinete, Augustão, Mala, Gato, Bom Cabrito, Vermelho Afonjá, dentre outros — fizeram e fazem acontecer a Capoeira Angola, nas suas mais variadas vertentes e especificidades, resgatando a tradição, fortalecendo o convívio, a pesquisa e a expansão. Todos têm — ou tinham — como principal referência a figura de Mestre Pastinha — “o guardião da Capoeira Angola”.