Capoeira Regional: a escola de Mestre Bimba
A Convivência entre os diferentes na academia de Mestre Bimba
Quando o mestre olhava para você, pronto, era motivo de você se consertar
logo. Essa influência na formação moral da pessoa era muito importante.
Aprendi a esperar, o mestre dizia a fruta só dá no tempo, você aprendia a ser
tolerante. Mestre Bimba me ensinou a viver pela disciplina, fazia a gente
pensar. Ele chamava atenção, dava conselhos. Se você obedecia a ele, você
obedecia a seu pai, sua família, aprendia a ter mais amor pela família (sic).
Nos depoimentos dos entrevistados, podemos observar que praticamente todos comentaram de suas experiências durante o estreito relacionamento com Mestre Bimba, e da real contribuição dos ensinamentos do mestre na formação pessoal. Como era de se esperar, cada um foi tocado de maneira diferente e fica impossível avaliar a intensidade com que este toque despertou algo em cada sujeito. Com certeza, essa experiência modificou esses capoeiristas, segundo os depoimentos, para melhor, considerando os aspectos que eles relataram, como a questão da disciplina, da tolerância, do carinho, da segurança, da autoconfiança, do despertar para a questão cultural e, sobretudo, do respeito.
A Convivência entre os diferentes na
academia de Mestre Bimba
Em alguns dos depoimentos apresentados, foi levantada a questão da arte do relacionamento, que os informantes destacaram como sendo um aprendizado de singular valor para suas vidas, adquirido na roda da Capoeira Regional, no seio da academia de Bimba. Perguntamos, então, como era a convivência dos diferentes, no Centro de Cultura Física Regional? Este questionamento se justifica, não apenas pelas citações dos seus alunos, mas, sobremaneira, por sabermos de antemão que o CCFR era frequentado por indivíduos de estratos sociais diferenciados, níveis de instrução variados, questões culturais, variedade étnica, o forte e o fraco, o hábil e o inábil, o alto e o baixo, o corajoso e o medroso, o adulto e o adolescente, o rico e o pobre, o letrado e o iletrado e pessoas com opções religiosas e políticas bem matizadas.
Para Escurinho, a convivência dos diferentes era saudável, pois não existiam diferenças dentro da academia: “não tinha segregações de negro, de branco, de rico ou de pobre; a diferença você tirava tecnicamente na roda e, se a coisa pegasse, o mestre intervinha e separava, sem tomar partido”.
Galo disse que “não tinha diferença, sinceramente não me lembro”, e que “se Mestre Bimba tratava mal alguém não tinha diferença de cor, de raça e logicamente ele, como uma pessoa muito inteligente que foi, estabeleceu um nível dos seus alunos, como um nível de estudantes, o que é outro ensinamento dele” (sic). Ele não queria alunos que não tivessem futuro, exigia que fossem estudantes e o tratamento era nivelado. “O que realmente chamava atenção era que ele não aceitava o desrespeito, e eu vi Mestre Bimba botar para fora da academia por, principalmente, uso e abuso de força em determinados golpes, ou pelo mau caráter de quem estava jogando”. E lembra de um fato pitoresco, de “um aluno que estava jogando na roda e deixou cair o canivete, demonstrando fraqueza e desonestidade ao ir para a roda armado. Mestre Bimba colocou para fora o aluno e nunca mais eu o vi na academia”. Para Galo, este fato evidencia uma outra importante lição de Bimba.
Já, Gato Branco, comenta o assunto da seguinte maneira:
Bom! Uma das coisas que eu me lembro bem nas preleções do mestre, é
que ele fazia questão de dizer que ali na academia não existia diferença de
classe social, isso com o palavreado dele e a maneira dele colocar as coisas.
Tá certo, que não existiam diferenças, que todos éramos iguais, tá certo,
evidentemente você convivia com pessoas mais pobres de uma classe social
mais baixa, mais ali dentro existia uma irmandade, uma coisa, ali. O diferente
que você coloca, era diferente na cor, na classe social, no nível de
escolaridade, mas lá dentro nos tornávamos iguais e a convivência era a
melhor possível, a gente convivia, na hora da brincadeira a gente estava
brincando, na hora da amargura, a gente era solidário, tá certo, acho que
isso aí foi muito importante para a gente, porque a gente convivia com
pessoas desiguais, como você está dizendo, mas na hora da prática da
Capoeira todos eram iguais perante a lei e a lei era a Capoeira (sic).
Para Medicina, a convivência dos diferentes era:
Desconfiada para os que não eram da sua academia e para os diferentes
(que entendo que sejam os que não compreendiam suas ordens e
ensinamentos) era grosseiro e não pedia a ninguém quaisquer conselhos
como agir com aqueles indivíduos. Tomava a atitude que achava acertada de
imediato, podendo chegar a extremos; ex: expulsar o aluno (ou diferente) da
sua academia (sic).
Cafuné trata da questão, dizendo que “dentro da academia, no momento que a gente estava lá dentro, a gente não tinha muita diferença não, ali nós formávamos um mundo, a gente não sentia essas diferenças não (sic)”. No entanto, faz alusão ao relacionamento de Mestre Bimba com alguns de seus alunos:
Ele tinha admiração por algumas pessoas, como Decânio, por exemplo, que
era uma pessoa que tinha uma participação muito grande na vida dele, que o
ajudava muito e tinha outras pessoas que o ajudavam de certa maneira,
essas pessoas tinham um pouco mais de aproximação com ele, e os mais
antigos que tinham mais liberdades que nós os novos e nós fomos
adquirindo isso aos poucos, então eu não via assim uma discriminação do
pobre, do negro, do branco, não tinha essa coisa tão clara assim, o que
existia era umas pessoas que ajudavam o mestre, que tinham mais
aproximação, tinham um pouco mais de liberdade com ele, mas ele tinha um
carinho muito grande com aquele que chegava desde o primeiro momento
quanto tinha também com o Decânio (sic).
Segundo Sariguê:
[…] o mestre, ele tinha critérios, ou seja, o aluno tinha que estudar ou
trabalhar, então muitas vezes o aluno trabalhava, mas não tinha uma
condição social, nem econômica, nem cultural, mas com isso, ali dentro não
havia diferença, não havia discriminação, por que atenção ele dava para
todos, e quanto mais aquele aluno era interessado, claro, tinha mais acesso
ao mestre, então não tinha discriminação de forma nenhuma, como muitas
pessoas imaginam (sic).
Nenel diz que as diferenças não se consolidavam “devido à presença equilibrada de Bimba; por esse motivo e uma atitude firme e segura do mestre, as pessoas aprendiam a respeitar os limites de cada um”.
Para Itapoan, “a escola de mestre Bimba era uma grande irmandade, uma coisa muito bonita, onde o treinar para melhorar era o lema e ninguém queria ser, nem se achava, melhor que ninguém” (2005, p. 96). O principal objetivo era treinar, e a consequência natural era ficar bom de capoeira, pois não existia a idéia de virar mestre de capoeira e sim ficar cada vez melhor, cada vez mais capoeirista.
Geni inicia dizendo que as pessoas que não conheceram Bimba afirmam ser ele um indivíduo racista, mas ele discorda dessa afirmação, pois, baseado em suas observações, entende que o mestre deve ter sofrido muita discriminação por ser negro e semi-analfabeto. Diz que quando conheceu Bimba, ele era muito bem aceito nos lugares aonde ia e também muito respeitado.
Na Academia de Mestre Bimba diziam que não tinha preto, tinha sim, eu
conheci alguns e convivi de perto com eles. Também frequentavam a
Academia pessoas de diversas classes sociais, lógico sendo que a maior
parte era de estudantes de colégios e jovens universitários. Vale ressaltar,
que Bimba vivia como mestre de Capoeira e por esse motivo foi o primeiro a
organizar uma escola, o Centro de Cultura Física Regional. Posso dizer
claramente que eu nunca senti nenhuma discriminação na Academia. Lá
todo mundo vivia em igualdade, independente do credo, opção política e
condição social (sic).
Sacy assim se expressou: “rapaz, na academia de Mestre Bimba não tinha diferença, lá todos eram iguais. Éramos uma família, não havia segregação de classe social e religião. Lá não havia diferentes, todos eram iguais e viviam em uma democracia plena”.
Arara lembra da existência de grupos diferenciados durante os horários de treinamento. No horário da manhã, treinavam aqueles que trabalhavam. No horário da tarde era a vez dos estudantes e no horário da noite treinava o grupo de elite bem mesclado. “A academia de Mestre Bimba tinha uma semente de elite, os estudantes universitários, isso a fez ser um diferencial entre outras academias de capoeira”. Lembra que Bimba tinha o cuidado de não aceitar crianças para treinamento de Capoeira Regional e a idade média girava entre 16 a 20 anos. Contudo, nas aulas sempre tinha a presença de alunos formados, com idades bem avançadas. “Lá existia uma irmandade e se cultivava a amizade, ninguém podia mexer com os alunos de Bimba, era mexer em um enxame de abelhas”.
Boinha concorda com a existência de diferentes classes sociais, opções religiosas e políticas, no entanto ninguém era melhor que ninguém, era uma convivência irmanada e o amigo lá dentro da academia era amigo fora, na rua, sempre amigo.
Certo é que todos os alunos que foram batizados por Mestre Bimba na Capoeira Regional deixaram de ser pessoas comuns, passaram a figurar entre os privilegiados por terem sido alunos de Bimba.
Mestre Bimba pregava na sua academia que todos eram irmãos, sentimento esse vivido na atualidade, vivido no hoje, quando dos encontros, quer nas rodas de capoeira, quer em outros locais recreativos ou mesmo profissionais. A lembrança de ter sido aluno de Bimba funciona como uma senha, abrindo portas e facilitando o relacionamento. Esse sentimento de irmandade impulsiona para uma boa comunicação e uma relação fraterna, a exemplo da vivida na escola de Bimba.
Observamos durante as entrevistas um brilho nos olhos e uma expressão de contentamento nos sujeitos da Capoeira Regional. Eles denotavam espontaneamente que a convivência dos diferentes fora de uma riqueza sem precedentes para as suas vidas, talvez pelo principal aprendizado de valorizar as pessoas, reconhecendo seus potenciais e limitações, mas, sobretudo, respeitando-os nas suas individualidades.