Capoeira Regional: a escola de Mestre Bimba
Mestre Eziquiel
Certamente, muitos outros alunos deixaram as suas marcar, suas colaborações e fizeram acontecer a capoeira em suas vidas. Como disse Arara, “A Capoeira é minha vida, tem tudo a ver comigo, faz
parte da minha vida” 1.
Aqui homenagearemos alguns desses líderes da capoeiragem Regional, reproduzindo as ações e fatos concernentes ao caráter de cada personalidade, e considerando, acima de tudo, que o homem é também agente de mudança, sujeito da sua vida e integrante da sociedade em que vive.
Para Bastos, o homem constrói sua vida na história, contudo sua criação não só é pessoal, mas também social, em interação com outros homens; o homem é de seu tempo, porém pode transcendê-lo (2002, p. 38). Essa característica que potencialmente é comum a todos os homens, manifesta-se de forma peculiar naqueles que por vocação têm a disposição para construir algo novo.
Compõe o grupo formado por Mestre Bimba alguns de seus seguidores que marcaram de certa forma a aprendizagem e o desenvolvimento da Capoeira Regional, dando continuidade ao trabalho pioneiro do mestre.
Escolher entre os alunos seguidores de Bimba não foi uma tarefa fácil, tivemos que estabelecer alguns critérios: a) anos de atividade capoeirísticas; b) dedicação ao ensino; c) produção literária; d) participação em eventos nacionais e internacionais; e) contribuição científica; e f) ser um divulgador incansável das tradições da Capoeira Regional. A nossa escolha recaiu então sobre os mestres Eziquiel, Itapoan, Pavão, Decanio, Acordeon e Senna.
Mestre Eziquiel
Eziquiel Martins Marinho, conhecido na Capoeira como Mestre Eziquiel, nasceu em 18 de outubro de 1941, em São Gonçalo dos Campos, Bahia, e pertenceu à Polícia Militar, onde ministrou aulas de Capoeira.
Começou a aprender capoeira apreciando as rodas de rua e as famosas festas populares de Salvador, como Bimba sempre dizia, aprendeu de “oitiva”, imitando outros capoeiristas. Foi aluno do Mestre Sacy, na Academia dos Oficiais da PM, que oficialmente funcionava no Quartel dos Dendezeiros, em Itapagipe.
Em meados da década de 1960, foi levado pelo Mestre Sacy para a academia de Mestre Bimba, chegando motivado, bem desenvolto nos movimentos, demonstrando talento e gosto pela arte. Rapidamente se formou, fazendo par com Luciano Figueiredo (Galo), merecendo o “lenço azul”, graduação dos alunos formados. Logo se entusiasmou pela capoeira como esporte, participando dos campeonatos baiano e, mais tarde, sagrou-se bi-campeão brasileiro, em 1976 e 1977, na cidade do Rio de Janeiro, recebendo nessa oportunidade o “Troféu de Melhor Ginga”.
Na roda de capoeira, apresentava um jogo bastante singular, tinha uma ginga descontraída com movimentos soltos, elásticos e de rara leveza. Esses atributos o levaram a participar dos grupos Folclóricos Olodum e Olodumaré, nos quais teve o privilégio de representar a Bahia e o Brasil em dois importantes eventos: o Festival Internacional de Folclore, em Salta, na Argentina obtendo a medalha de ouro, e em Quito, no Equador. Nessas oportunidades, o grupo sagrou-se campeão de folclore, recebendo honrosamente a premiação “Huminaua de Oro”.
Eziquiel participou como convidado especial do Grupo Folclórico da Escola de Veterinária da Universidade Federal da Bahia (UFBA), fazendo apresentações na Festa do Peão de Boiadeiros, em Barretos, São Paulo, em 1971, sagrando-se campeão. Integrou também o elenco do “Capoarte”, da Ginga Associação de Capoeira, no Teatro Boa Vista, na cidade de Salvador, em 1986.
Na capoeira esporte, participou como jurado em diversas edições dos Jogos Escolares Brasileiros (JEBS), a exemplo de Campo Grande, MS; São Luiz, MA; Brasília, DF; e dos Jogos da Juventude em João Pessoa, PB.
Grande incentivador da capoeira esporte, muito contribuiu com suas idéias em discussões na Federação Baiana de Pugilismo e na Federação Baiana de Capoeira; realizou competições na própria academia e participou, como jurado e organizador, em vários eventos dessa natureza na Bahia.
Inquieto e trabalhando sobremaneira pela Capoeira Regional, fundou o Grupo Luanda, cuja temática principal era preservar a metodologia utilizada por Mestre Bimba; sempre realizava os batizados, exames e formaturas aos moldes do seu mestre.