Capoeira Regional: a escola de Mestre Bimba

Hellio Campos · Capítulo 33 de 66

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Capoeira Regional: a escola de Mestre Bimba

Mestre Bimba: uma representação simbólica

Mestre Bimba: uma

 

representação simbólica

 

Mestre Bimba é certamente um mito para seus alunos, como também para os mestres, contramestres e professores de capoeira que, na atualidade, exercem a liderança em seus grupos, no Brasil e no exterior. Mas qual a imagem que eles têm de Mestre Bimba? O que Mestre Bimba representa para eles? Qual a visão deles sobre a Capoeira Regional e sua contribuição? Mestre Bimba é um símbolo da Capoeira Regional?

Os símbolos nos falam de sonhos, conquistas, crenças, amores, paixões que se foram, alegrias vividas, dores guardadas, tristezas sofridas, segredos da alma, expressões do espírito. Os símbolos falam da gente, de mim, de você, da família, do grupo de estudos, do grupo de capoeira, da escola, das festas, da cidade, do povo e principalmente da história.

Jaffé assim se exprime sobre os símbolos:

 

A história do simbolismo mostra que tudo pode assumir uma significação

simbólica: objetos naturais (pedras, plantas, animais, homens, vales e

montanhas, lua e sol, vento, água e fogo) ou fabricados pelo homem (casas,

barcos ou carros) ou mesmo formas abstratas (os números, o triângulo, o

quadrado, o círculo). De fato, todo cosmo é um símbolo em potencial (1977,

p. 232).

 

O homem é um ser com propensão para criar símbolos, o homem transforma inconscientemente objetos ou formas em símbolos e lhes dá vulto, tanto na religião quanto em objetos naturais.

Para Nasser, “a noção de símbolo apresenta uma variedade de definições e a cada definição corresponde uma morada. A definição depende da relação que estabelecemos conosco, com o mundo, com os outros e com o transcendente (objetividade, intersubjetividade e transcendência)” (2003, p. 25).

O símbolo ocorre quando o arquétipo surge no aqui e no agora podendo, de algum modo, ser percebido pela consciência. Todo símbolo tem que ser bem fundamentado em um arquétipo e, apesar de nem todo arquétipo ser um símbolo, ele sempre o é como possibilidade.

Por outro lado, se algo é ou não um símbolo, depende do ponto de vista da consciência que o contempla. Portanto, um mesmo fenômeno pode ser sinal para um e símbolo para outro. Um caminho que se perde no horizonte pode misteriosamente evocar uma continuidade em direção ao infinito, como pode apenas significar um mero trajeto real e concreto. Uma ponte sobre um abismo pode representar o único meio de transporte de um lugar para outro, como pode também inexplicavelmente remeter à imagem de uma ligação, da solução de um problema, do término de um isolamento etc.

O símbolo é a melhor formulação possível de algo desconhecido. Quando conseguimos explicar alguma coisa através de analogias ou por sua designação abreviada, estamos falando de sinal e não de símbolo. Como exemplo, podemos dizer que a cruz representa o amor de Jesus pela humanidade, trata-se de uma explicação e, portanto, estamos lidando aqui com um sinal; porém, se, ao nos depararmos com a cruz, sentirmos uma afeição inexplicável capaz inclusive de modificar nossa vida, então estamos falando de um símbolo.

Nasser afirma que “o símbolo depende da estrutura ou condição espiritual de cada homem, ou seja, o símbolo compõe a linguagem da alma e do espírito, através da transcendência, funcionando como um mediador, uma ponte. Enquanto vida, o símbolo é um constante transformador de energia” (2003, p. 38). A energia é o elemento responsável por converter o homem, sua alma e espírito vivos.

Como em tudo que existe energia, há vida, o símbolo igualmente possui uma energia que tem a capacidade de transformar e modificar as emoções, sentimentos e as coisas.

Pela capacidade de transformação, o símbolo, até certo ponto, pode tornar o visível até no invisível e no divino e, com irresistível força, ele atrai o homem que o contempla. É imprescindível como o próprio espírito do mundo, toca a nossa alma. Portanto, o símbolo aproxima o divino do homem.

Os símbolos também representam as conquistas e a vida de um homem, de uma comunidade e até mesmo de um povo. Os símbolos contam histórias, reportam-se ao povo, aos seus costumes, seus credos, sua linguagem, assumindo, assim, um dado antropológico universal.

O símbolo não cristaliza os sentimentos, todavia gera uma moldura na qual esses sentimentos possam se expressar livremente, pois a moldura não contém uma definição de contornos precisa e hermética, deixando, em aberto, possibilidades vivas de busca do seu sentido.

Sempre estamos questionando o que Mestre Bimba realmente representa para os seus alunos. Qual o valor evocativo atribuído a Bimba e suas experiências, durante a convivência no CCFR?

Gato Branco falando do que Mestre Bimba representa para ele, assim se expressou:

 

Mestre Bimba, eu costumo dizer, nas minhas recordações, com amigos,

Mestre Bimba é um diamante, não era um diamante lapidado, era uma

verdadeira lição de vida, era um homem inculto, mas ao mesmo tempo com

uma sabedoria fantástica, e ele transmitia essa sabedoria para os seus

alunos da melhor forma possível, em termos de aconselhamento, enfim,

preparava a gente para a vida.

Medicina assim se refere: o “Mestre Bimba que conheci era um homem negro, pobre, honesto, inteligente, vaidoso, sem instrução escolar, educado, com princípios familiares, apesar de possuir várias famílias (o que não era uma exceção na sua época)”.

Itapoan fala que escreveu dois livros biográficos sobre Mestre Bimba, o primeiro, “Bimba, perfil do mestre”, em 1982, sem a conotação de ser uma biografia definitiva, o segundo, “A saga do Mestre Bimba”, em 1994, um trabalho mais elaborado, quando fez uma análise mais aprofundada da Capoeira Regional e enfocou a metodologia, a vida, crônicas, reportagens veiculadas na imprensa escrita à figura de Bimba, assim como colheu um maior número de informações sobre o mestre. Contudo, ressalta que “Mestre Bimba é uma pessoa muito grande para que você coloque só em uma obra”, e afirma que continua pesquisando e tem descoberto muitos fatos novos extremamente interessantes.

Sobre o assunto — pessoas verdadeiramente importantes, que chama de figuras exponenciais —, destaca Antonio Conselheiro, Lampião, Zumbi e Mestre Bimba, dizendo que são personalidades inesgotáveis, pois “você vai ter sempre alguma coisa para escrever sobre essas pessoas”.

Salienta que Mestre Bimba, para ele, é muito forte, possivelmente uma figura masculina que, de algum modo, veio “substituir” o seu pai que morreu um ano antes dele entrar para a Academia de Mestre Bimba. “Era a figura masculina que eu tinha como espelho”.

Chamando a atenção do que representa Mestre Bimba neste universo:

 

Aonde você chegar e falar de Mestre Bimba é sinônimo de capoeira, todo

mundo sabe que você está falando de capoeira. Mestre Bimba hoje é uma

figura pública e incontestável, e a capoeira regional dele. Hoje você vê a

capoeira que se ensina no mundo todo, no Brasil todo, quase 90% ou mais

de 90% é derivado da academia do Mestre Bimba, da capoeira regional, com

algumas modificações, algumas adaptações que as pessoas tentam, umas

felizes e outras infelizes, mas a capoeira do Mestre Bimba é a capoeira que

está no mundo, que está no Brasil todo (sic).

 

Cafuné diz assim: “Mestre Bimba para mim foi a princípio um mestre, um professor de capoeira, mas à medida que a gente ia se aproximando, ia tendo contato e convivendo com ele, a gente sentia que ele era muito mais do que isso, ele era um professor de vida, ele me colocou na vida, me ensinou a viver”.

Sariguê se refere a Bimba, dizendo ser o mestre uma “figura altiva” e essa sua maneira de ser brioso o magnetizava. Afirma ainda que Bimba se impunha pela sua presença, “não precisava falar nada, a presença dele já era o suficiente”.

Arara considera Mestre Bimba “um chefe de família austero, rigoroso, mas um chefe de família que também mostrava suas alegrias, suas descontrações, a exemplo das festas de formatura”.

Quando perguntamos ao Sacy, quem era Mestre Bimba para ele, que imagem tinha de Mestre Bimba, ele foi enfático, pediu permissão para falar de pé, e justificou dizendo que “tem pessoas que temos que reverenciar mesmo não tendo a oportunidade de falar diretamente para o mestre, contudo, estou falando com um aluno do mestre, um contemporâneo meu” (sic).

 

Mestre Bimba, para mim era como se fosse um pai, como era para os

demais companheiros, ele não era somente um mestre de Capoeira, era um

educador, do orientador, do amigo, que nos guiava no caminho certo, com

suas palestras, com as suas aulas, durante as suas solenidades nas

academias, o qual era verdadeiro showman, mas antes era realmente um

grande educador. Mestre Bimba para mim foi um grande educador (sic).

 

Perguntamos também, a Escurinho, quem era Mestre Bimba? Ele prontamente, e até com um ar emocionado, assim respondeu: “Mestre Bimba não era, ele continua sendo. Mestre Bimba, para mim é um segundo pai”. E afirma que em todas as oportunidades que tem, nas palestras, nos encontros com amigos e familiares, ele sempre comenta, afirmando que Mestre Bimba tem um significado especial para ele e, por isso, o considera um segundo pai. Disse ainda que tem no seu quarto a fotografia do mestre.

 

Afirmou que teve um contato mais próximo, mais verdadeiro com o mestre

do que com o próprio pai. Disse que com o pai biológico era reprimido das

suas pintanças, muitas vezes com castigo e até apanhava de palmatória e

cipó cabloco. Seu pai nunca chegou para conversar com ele e, com Mestre

Bimba teve a felicidade, ele foi um educador, não só colocou a arte marcial, a

defesa, mas Mestre Bimba ensinou a maneira de chegar, por esse motivo

nunca sofreu nenhuma agressão (sic).

 

Boinha retorquiu da seguinte maneira: “Mestre Bimba para mim é um pai. É um pai porque ele não foi para mim somente um mestre de capoeira, um educador e um orientador.” Relata então a sua história:

 

[…] quando cheguei lá na Academia no início da década de sessenta para

aprender Capoeira, não foi para adestrar o meu corpo, fui aprender pra

brigar, meu objetivo na Capoeira era brigar, mas chegando lá em poucos

meses, eu vi que era completamente diferente, eu queria aprender algo que

não condizia com as normas de Bimba, percebi que estava fora das normas,

então o mestre, um dia ao terminar a aula falou. Todo mundo pode ir, Boinha,

você fica sentado naquele banco. Os colegas saíram intrigados com aquela

atitude do mestre. Então o mestre me passou um sabão, me deu um puxão

de orelha, dizendo que a Capoeira era para educar e não simplesmente

agressão.

 

Disse ainda que o mestre falava por parábolas e que naquele momento ele não entendeu bem o recado, porém, hoje pode compreender o significado daquela lição e mais uma vez afirma: “Mestre Bimba pra mim é um pai, orientador, um homem maravilhoso”, por esse motivo no início da entrevista Boinha se coloca dizendo ser um eterno discípulo de Bimba.

Geni respondeu à questão, dizendo que:

 

É uma figura muito fácil e ao mesmo tempo muito difícil de dizer quem era

Mestre Bimba. Eu considero o Mestre Bimba assim, o Lutero na Capoeira,

uma pessoa que causou um reviravolta, uma reforma global na Capoeira. Eu

acho se não fosse Mestre Bimba, é lógico a Capoeira estaria hoje aí, mas

não com essa roupagem que está. Se nós fomos ver hoje a Capoeira está

em mais de 170 países, e foi Mestre Bimba o primeiro mestre a organizar a

Capoeira. Mestre Bimba foi o primeiro mestre a registrar uma academia de

Capoeira. Foi o primeiro mestre a fazer com que a Capoeira fosse vista com

outros olhos, porque começou a trabalhar a Capoeira na sociedade,

trabalhando na sociedade essa Capoeira foi para o colégio, para a

universidade. Eu acho que Mestre Bimba foi o grande marco na história da

Capoeira. Se não fosse Mestre Bimba, a Capoeira não estaria hoje como

está. Você vê que a Capoeira hoje está em mais de 170 países, tem mais de

25.000 websites, oportunizando empregos para pessoas que não teriam

oportunidade e a Capoeira, posso dizer, é a maior embaixatriz da nossa

cultura, do nosso Brasil (sic).

 

Galo responde o questionamento, dizendo:

 

Que chega a emocionar, porque todos aqueles alunos como você que

realmente cresceram sabem que, algo mais, da relação e da interferência,

sei lá, da posição até cíclica, eu diria e metodológica de Mestre Bimba, sobre

todos nós. Quem é Mestre Bimba? Foi em uma época tudo e passa e

continua ser a razão pela qual estamos aqui, ainda aquele grande mentor,

aquele grande orientador (sic).

 

Comenta ainda que tem realizado algumas palestras, não apenas as específicas de sua área veterinária, mas as que têm a temática da capoeira, o que lhe dá muito prazer e cita como exemplo: “Capoeira retrato de uma época” e “Capoeiragem, a arte de gingar com vida”. Afirma: isso é o retrato de Mestre Bimba!

Quando perguntamos a Decanio quem é Mestre Bimba, ele prontamente afirmou: “é muito difícil responder”. E reportando-se à maestria da capoeira, disse só existir um mestre de capoeira. E mais, disse não conhecer ninguém para botar junto de Mestre Bimba. “Ele é o segundo estágio dos meus ídolos, porque o primeiro é Jesus”. O primeiro, ele encontrou aos oito anos de idade e, o segundo, ele encontrou aos dezesseis anos incompletos, o que ele chamou de coincidência marcante, e destacou ainda um terceiro que são dois ídolos para ele: Carybé e Verger.

Outrossim, Decanio nos fala do depoimento de Itapoan, no filme Mestre Bimba: a capoeira iluminada, sobre a transferência de Bimba para Goiânia, que achou muito bonito quando Itapoan falou, “na Bahia Bimba não morreu e não seria abandonado nunca”. “E Bimba, na minha casa, teria não um quarto, mas um altar, para que nós pudéssemos cultuá-lo como pai, um exemplo de correção”.

Angoleiro conta das suas dificuldades no aprendizado da capoeira, lembrando que Mestre Bimba tinha muita paciência com ele, mandava repetir os golpes várias vezes, foi muito cuidadoso, portanto, ele foi um pai e uma mãe para ele.

Analisando as falas de cada um dos entrevistados, entendemos que Mestre Bimba foi significativamente importante na vida de cada um deles, mesmo esses alunos tendo convivido em épocas diferentes. Não se pode aquilatar aqui a duração e a intensidade dessa convivência, assim como o processo da relação interpessoal e os frutos disso para cada indivíduo.

Nas entrevistas, eles deixaram transparecer a emoção quando falavam de Mestre Bimba. Percebemos também que o estado emocional tem um significado arraigado, porque se configura particularmente na história de vida de cada um, em que ao longo do tempo puderam eleger Bimba como um arquétipo, ora reforçando um estado conflituoso da adolescência, ora como um símbolo para suas vidas.

Para Mattedi, “os arquétipos e as forças impulsionadoras que eles representam não são nem construtivos, nem destrutivos por si só. Eles podem desempenhar os papéis, dependendo do modo como se integram na vida da comunidade ou do indivíduo e do modo como são vividos em termos do aqui e agora” (1997, p. 9).

Essa admiração por Mestre Bimba, antes dispersa, guardada no âmago de cada sujeito da Regional de Bimba, vem se revelando aos poucos pelo crescimento e valoração da capoeira no mundo inteiro. A participação, cada vez mais crescente dos alunos de Bimba nas rodas de capoeira, nos debates, nos batizados, nas formaturas, nos seminários e, sobretudo, através das pesquisas, tem oportunizado descobertas inusitadas sobre a Capoeira Regional.

Temos acompanhado inúmeros relatos referentes à história de vida, em que esses sujeitos depõem sobre suas experiências vividas junto a Mestre Bimba. São na maioria das vezes histórias e descobertas fantásticas, favorecidas pela simplicidade da comunicação, acompanhadas pela exteriorização das emoções, propiciando dessa maneira uma declaração aberta dos seus medos, das desconfianças, dos aprendizados, das emoções, da satisfação e da alegria de ter convivido com Mestre Bimba em alguma época.

Como frisou Decânio, todo aluno de Bimba tinha que ser batizado para deixar de ser um simples homem e ganhar uma conotação diferenciada na sua comunidade, “ser aluno de Bimba e da Capoeira Regional, não simplesmente um homem da capoeira”. Portanto, distinguimos nos relatos apresentados um forte simbolismo de Mestre Bimba como um pai, aquele que orienta, que guia, que dá segurança, que ensinou a arte dos relacionamentos e preparou seus alunos para enfrentarem a vida sempre gingando.