Capoeira Regional: a escola de Mestre Bimba

Hellio Campos · Capítulo 61 de 66

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Capoeira Regional: a escola de Mestre Bimba

Mestre Acordeon

Decanio soube revelar de maneira singular os manuscritos de Pastinha (“Quando as pernas fazem miserêr”), o que deu realce e valorizou os originais, estimulando o leitor a um melhor entendimento, novas interpretações da filosofia, uma visão realística da essência da Capoeira Angola e de seu guardião.

Participou como representante da Federação Baiana de

Pugilismo, juntamente com Mestre Bimba do 1 o Simpósio Nacional

de Capoeira, em 1968 e do 2 o Congresso Brasileiro de Capoeira na Academia da Força Aérea (AFA), no Rio de Janeiro; como autor do Projeto de Regulamentação da Capoeira para a Confederação Brasileira de Pugilismo, com o objetivo de tornar a Capoeira reconhecida como desporto.

Decanio é hoje muito requisitado pelos grupos de capoeira brasileiros para ministrar palestras, enfocando principalmente a sua história vivida ao lado de Mestre Bimba, o que faz com muita propriedade, contagiando sobremaneira os assistentes. Não são raras as vezes que extrapola, passeando pela temática com tranquilidade e abordando os entrelaces da capoeira com a cultura, a história e a medicina.

 

Mestre Acordeon

 

Ubirajara Guimarães Almeida, conhecido na capoeira pelo nome de guerra de Acordeon, é natural de Salvador, Bahia. Nasceu em 1943, entrou na academia de Mestre Bimba para aprender capoeira na década de 1950. Um dos alunos formados mais conceituados da Capoeira Regional, é reconhecido pelo seu vigor físico e pelo jogo virtuoso, forte, ágil e objetivo.

É na verdade uma figura singular da capoeiragem baiana, porque sua trajetória é marcada pelo envolvimento por completo, de corpo e alma, nesta arte-luta. Desde cedo vislumbrou a capoeira como uma atividade muito maior do que simplesmente luta e troca de golpes, o que fazia muito bem, mas pensava além, pensava na capoeira como negócio, ensino, cultura, arte e fonte de pesquisa.

Em 1964, fundou uma academia no fundo de sua residência em Boa Vista de Brotas e rapidamente conquistou muitos alunos que foram em busca de algo diferente na capoeira, um aprendizado fundamentado no jogo duro, na exigência da boa forma física e valorizada pela música e arte.

Bira Acordeon, como também é conhecido, sempre se destacou pelo seu senso empreendedor: em 1964, fundou o Grupo Folclórico da Bahia e organizou o show Luanda Silé; posteriormente, em 1966, lança o espetáculo Vem Camará: histórias de Capoeira, inicialmente apresentando-se no Teatro Vila Velha, mas, devido ao grande sucesso, rumou para uma série de apresentações na cidade do Rio de Janeiro, com shows agendados para o Teatro Jovem, localizado no bairro de Botafogo. Devido à enorme aceitação do público carioca, o grupo retornou ao Rio, em 1967, para outra temporada. Vale ressaltar que essas apresentações não se restringiram apenas ao teatro, pois o grupo teve oportunidade de se exibir em programas de televisão e clubes sociais, o que popularizou o show folclórico e em especial a capoeira.

Acordeon, como um bom aluno de Bimba, queria ver a Capoeira Regional expandida e conquistando novos espaços. Em 1968, a exemplo de outros, fundou o Grupo Folclórico da Politécnica, dessa maneira levando a capoeira para o seio de importante instituição universitária baiana.

Nesse período, Acordeon participou das Olimpíadas Baianas da Primavera, em várias modalidades esportivas, destacando-se no atletismo. Lembro que durante o desfile de abertura no Estádio Otavio Mangabeira (Fonte Nova), Bira deu um show à parte, mostrando toda sua habilidade capoeirística e impressionando a todos os presentes com seus saltos mortais. Decretava aí a inclusão da capoeira nos eventos esportivos.

Na qualidade de atleta, sempre afeito à prática esportiva, participou do Iº Troféu Brasil de Capoeira, que foi realizado em São Paulo, em 1975, defendendo as cores da Bahia. Novamente volta às competições, durante o Campeonato Brasileiro, em 1976, sediado no Rio de Janeiro, onde sagrou-se campeão na categoria peso pesado, sendo escolhido na oportunidade como o mais completo capoeirista, o melhor do campeonato.

Em 1977, integrando a equipe da Ginga Associação de Capoeira, sagra-se Campeão Baiano de Capoeira, em competição organizada pelo Departamento de Capoeira da Federação Baiana de Pugilismo, numa época de afirmação da capoeira como esporte.

Mestre Acordeon é administrador formado pela UFBA, homem bem-sucedido junto ao empresariado baiano, todavia seu olhar estava para as novas possibilidades da capoeira e com seu espírito irrequieto e aventureiro resolveu voar, tentar novas experiências e a capoeira era o seu trunfo, sua ferramenta para a felicidade.

Em 1978, viajou para os Estados Unidos da América, estabelecendo-se na Califórnia, precisamente em São Francisco, onde montou academia, fundou o Grupo Musical Corpo Santo e como bom músico passou a se apresentar em shows em casas noturnas.

Acordeon não parou por aí, como bom professor e com a experiência adquirida quando docente da Escola de Administração da Trabuco, elaborou projetos de extensão junto com universidades americanas e levou decisivamente a capoeira para o meio universitário americano.

O seu bom conceito no meio capoeirístico não se deve apenas por jogar bem capoeira, pela virilidade do seu jogo, pela energia na roda, mas, sobretudo, por ser um pesquisador nato, um grande conhecedor da arte da capoeira, de promover a capoeira e as manifestações culturais baianas.

As contribuições na esfera da capoeira são inúmeras: além de palestrante convidado para os principais seminários e congressos, no Brasil e no exterior, escreveu dois livros: “Capoeira a brazilian art form: history, philosophy, and pratice”, em 1986, e “Água de beber, camará!: um bate-papo de capoeira”, em 1999. Não parou nisso, e gerou sete CD rooms de músicas de capoeira, a maioria de sua autoria. Ainda na área da literatura, tem escrito artigos e realizado entrevistas em muitas revistas especializadas.

Para Nestor Capoeira7, “Bira Acordeon influenciou toda uma geração de capoeiristas e principalmente serviu de exemplo para encorajar outros mestres de capoeira a divulgarem a capoeira no Brasil e no exterior”. Corroboro com Nestor, acrescentando que esta influência extrapola simplesmente a idéia de divulgar a capoeira, ela toma uma outra dimensão, a de sobrevivência, de trabalhar como um profissional da capoeira no Brasil e no exterior.