Capoeira Regional: a escola de Mestre Bimba
Capoeira regional: a visão dos Mestres, contramestres e professores
Como se referiu Cafuné, era um local onde se aprendia capoeira, convivia com os diferentes, enriquecia o espírito e se fazia amigos: “a gente começava a praticar aquela cumplicidade, aquela amizade e harmonia que a gente tinha ali dentro”. Medicina fala de uma situação deveras instigante, pois também relatou a confiança que Bimba tinha nos seus alunos que sempre os colocava para ajudar na administração do seu centro de cultura e capoeira. Possivelmente, pela insegurança que o assolava, pelo pouco estudo, mas, sobretudo, como um gesto de confiança partilhado por todos os seus alunos.
Capoeira regional: a visão dos
Mestres, contramestres e professores
Segundo estimativas baseada em dados empíricos, atualmente, mais de 80% da capoeira ensinada no mundo é Capoeira Regional ou uma variação dela, como dizem alguns mestres, uma “deturpação”. Assim, perguntamos: como os mestres e professores percebem a Capoeira Regional? Qual o olhar para este estilo de capoeira?
Para Minhoca:
A capoeira regional é uma arte-luta, que pode ser abordada tanto no aspecto
cultural quanto esportivo, possui exame de admissão, método de ensino,
especialização, cintura desprezada, esquenta-banho, formatura, 7 toques no
berimbau, orquestra constituída por 1 berimbau e 2 pandeiros, quadras,
corridos, jogo de iúna na formatura, chave de ouro, tira medalha, graduações
(representadas através dos lenços), orador, paraninfo, madrinha, mais do
que todos esses serviços técnicos, ela é um excelente instrumento de
cidadania (sic).
Pangolim diz que a Capoeira Regional é “um estilo revolucionário que ajudou a capoeira a sair da clandestinidade e cumpriu bem seu papel histórico nas décadas passadas”. Dudu retrata a Capoeira Regional como um “estilo novo e eficiente de ensinar capoeira” Já, Burguês, diz ser a Capoeira Regional uma renovação que evolui até os dias de hoje. Para Queijadinha d’Angola, a Capoeira Regional “aproxima-se do que denomino de uma visão moderno-esportiva”. Tosta enfoca a Capoeira Regional como “uma luta de grande poder, que através dos seus métodos, faz com que o seu praticante desenvolva várias habilidades, como: agilidade, força, destreza, coordenação, equilíbrio entre outros, aumentando a noção de tempo e espaço”. Lucas, por sua vez, destaca a Capoeira Regional como sendo “uma manifestação cultural de suma importância para a organização e o desenvolvimento da capoeira no mundo”.
Daiola assim disse: “Para mim, a Capoeira Regional é, além de cultura, um ótimo esporte, que trabalha não só a parte física do corpo, como também a criatividade e a percepção. Ela é completa desde o método de ensino até seus toques, cantos e sua ‘malandragem’”. No entendimento de Boneco, a Capoeira Regional “é sem dúvida nenhuma uma capoeira mais dinâmica, objetiva, com mais recursos”. Acha ele que, atualmente, não se pratica mais a verdadeira Capoeira Regional, visto que ela vem sofrendo modificações, a ponto até de ser intitulada “Capoeira Regional Contemporânea”. Carlos Amorim salienta esse estilo de capoeira, distinguido-a pela característica marcante de “uma defesa pessoal bastante eficiente” e justifica dizendo que possui uma série de golpes que possibilitam ao seu praticante poder praticá-la de muitas maneiras, sem perder a sua característica de luta. Pode, ainda, ser utilizada como ginástica; serve para ser exibida num contexto folclórico e representa, sobretudo, a nossa cultura.
Para Cabloca, a Capoeira Regional “é uma recriação a partir da capoeira praticada em meados da década de 1920 para 1930, em Salvador, de movimentos de danças da cultura afro, de elementos oriundos de outras artes de defesa pessoal e do sistema educacional no Brasil”.
Falcão fala igualmente do seu olhar: “A minha visão em relação à Capoeira Regional é a de que ela tem sido alvo de muitas tentativas de re-significações, embora alguns discípulos de Mestre Bimba estejam empenhados em preservar suas principais contribuições”. Carson exprime seu sentimento e de certa maneira concorda com Cabloca e com Falcão sobre as mutações que a Capoeira Regional vem sofrendo: “Acredito que a Capoeira Regional, tal como ela foi concebida pelo Mestre Bimba, não exista mais, pois, como ele próprio previu, ‘ela vai se modificando com o tempo’”. Porém, ela foi e é de vital importância para o desenvolvimento de nossa arte, pois foi através dela que as autoridades da época reconheceram o valor da capoeira. A Capoeira Regional traz a beleza e a plasticidade da luta.
Falcão também fala acerca do processo de difusão da capoeira, em escala mundial: “a Capoeira Regional vem incorporando novos elementos estéticos e menosprezando alguns que faziam parte de sua estrutura ritualística, como a conhecida ‘cintura desprezada’, por exemplo”. Hoje, o que se verifica é um acentuado uso de acrobacias, cada vez mais complexas, e o aumento na velocidade dos jogos.
Nas citações das duas amostras expressas anteriormente, encontramos divergências no que diz respeito ao entendimento da Capoeira Regional e essas discrepâncias são verdadeiramente significativas, no sentido de compreendermos melhor o significado da Capoeira Regional para esses informantes.
Tabela 5 - Análise comparativa entre alunos de Mestre Bimba e
mestres, contramestres e professores de capoeira
CAPOEIRA CAPOEIRA REGIONAL NA
REGIONAL NA VISÃO DOS MESTRES,
VISÃO DOS CONTRAMESTRES E
ALUNOS DE BIMBA PROFESSORES
Um local de É uma arte-luta que pode aprendizagem de ser abordada de várias capoeira; maneiras;
um local de é um estilo revolucionário aprendizagem que ajudou a capoeira a para a vida; sair da clandestinidade;
um local de é um estilo novo e eficiente companheirismo; de ensinar capoeira;
um local onde se é uma manifestação tinha irmandade; cultural de suma
importância para o
desenvolvimento e
organização da capoeira
no mundo;
um local de é, além de cultura, um cumplicidade ótimo esporte; onde se cultivava
a amizade e a
harmonia;
um centro que é uma capoeira muito
merece muitos dinâmica, objetiva, e estudos; composta de muitos
recursos;
um local onde se é uma defesa pessoal ensinava a bastante eficiente; defesa pessoal
com o misto de
dança folclórica;
um local onde se é alvo de muitas re-ensinava a parte significações; comportamental;
um local onde trás a beleza e a existia um plasticidade da luta; nivelamento para
todos os alunos;
a Capoeira tem incorporado novos Regional tem elementos estéticos; e complexidade; e
um local onde se Mestre Bimba deixou convivia com os excelentes representantes diferentes e se para continuar sua criação. enriquecia o
espírito.
Não restam dúvidas sobre as diferenças, uma vez que os alunos de Mestre Bimba se exprimiram sobre o assunto movidos pela emoção, sedimentada em suas lembranças do tempo em que conviveram, aprendendo a arte de capoeirar na academia de Mestre Bimba, há mais de 30 anos atrás. Eram outros tempos, outras concepções, outros momentos, outras exigências, outras formas de comunicação e de valoração da capoeira.
Percebemos, então, que eles, por terem vivido a roda da Capoeira Regional de Bimba, estão certos da sua complexidade, dos ensinamentos manifestos naquele espaço único, dos sentimentos de irmandade e amizade realçados nos dias atuais nos muitos encontros de capoeiristas, nas mudanças comportamentais advindas do amadurecimento pessoal e no ganho indiscutível pela convivência diuturna com os diferentes.
Compreendemos, portanto, que os mestres, contramestres e professores, que intitulo aqui de “nova geração”, estão vivendo uma “nova era” da valorização da capoeira no mundo, especialmente quando eles se colocam, certificando ser a Capoeira Regional uma manifestação cultural que também é esporte e dança folclórica. Ressaltam, ainda, o valor estético, a plasticidade da luta, o dinamismo das re-significações, um estilo revolucionário que ajudou a capoeira a sair da clandestinidade e a eficiência no ensinamento dessa arte, dança, luta e esporte.