Capoeira Regional: a escola de Mestre Bimba
A capoeira na escola
Ao longo da sua história, a capoeira vem resistindo a muitos percalços, provenientes em sua maioria do preconceito relacionado à sua origem. Todavia, parecendo um paradoxo, ela vem conquistando valorosos espaços na sociedade brasileira e, possivelmente, o mais importante deles tenha sido a conquista das instituições de ensino, em particular, a escola.
Para Falcão, a inclusão da capoeira nas instituições de ensino representa uma situação inusitada (1995, p. 10). O que causa sua admiração é que a prática da capoeiragem era, há algumas décadas, uma ação marginal, passiva de penalidades previstas no Código Penal Brasileiro.
Essa conquista deve-se principalmente à aproximação da capoeira com a educação física. A partir daí, a educação física reconhece os valores sócio-educativos e esportivos da capoeira, apropriando-se do seu conteúdo e inserindo-a como disciplina ou mesmo em projetos integrantes do currículo das escolas de ensino fundamental e médio, tanto em instituições públicas como privadas.
Para Santos, “a capoeira vem sendo progressivamente valorizada e ocupando lentamente o seu espaço em vários segmentos sociais, pelas suas características próprias e bem definidas de harmonia de movimento e embelezamento de uma roda de capoeira…” (1990, p. 13). Tudo nos leva a crer que outros predicados estreitam e entrelaçam a capoeira ao ambiente escolar, justamente por ser ela uma atividade genuinamente brasileira, bem ajustada aos alunos, por ser oriunda de uma manifestação popular, rica de movimentos e música, com substrato cultural e bastante difundida na sociedade brasileira.
Mais uma vez, Santos salienta as características da capoeira, afirmando que:
A capoeira pode ainda ser caracterizada como uma soma de ritual, onde
através de instrumentos musicais, cantos, palmas e da padronização de
uniformes brancos os indivíduos mantêm uma movimentação constante,
sincronizando um combate à distância em forma de jogo, dança, ou luta, com
movimentos de todas as partes do corpo em posição em pé ou invertida,
criando ataques, contra-ataques e acrobacias1.
Segundo Costa, “a capoeira é um caminho lúcido para a sobrevivência de nossa cultura, oferecendo um braço forte para resistir à nossa alienação de nós mesmos. A capoeira é o braço da história com a cultura popular, para resgatar nossa condição de povo” (1993, p. 140). Para Reis, “a capoeira talvez seja um dos caminhos para a efetiva democratização da escola” (2001, p. 23).
Uma abordagem mais ampla e relacionando a capoeira com a educação, inspirada em Santos (apud HURTADO, 1990, p. 27), nos leva a entender que o processo educativo é gradual. Ele se inicia com o nascimento do indivíduo, evolui durante a sua existência, estimulando e desenvolvendo suas capacidades físicas, mentais e sociais, especialmente pelas mudanças ocasionadas, de maneiras mais ou menos intensas, de acordo com as diferentes fases de seu desenvolvimento bio-psico-fisiológico. Isso nos possibilita entender o papel da capoeira, quando integrada ao processo educativo, como uma forma peculiar de construção do indivíduo.
A capoeira na escola tem se configurado como um instrumento diferenciado, no sentido de promover a educação dos jovens escolares, de acordo com o grau de motivação que esses estudantes apresentam, decorrente possivelmente do estímulo instigante de que os mesmos possam ver, fazer e contextualizar sua prática, tornando-se sujeitos na construção de sua história. Outro aspecto realmente significativo é a possibilidade da total liberdade de participação e expressão.
Maria Angélica Rocha, na sua dissertação de mestrado em Educação (Supervisão e Currículo), apresentada à Pontifícia Universidade Católica de São Paulo — “A capoeira como ação educativa nas aulas de educação física” (1994) —, assim se refere:
Atualmente, percebe-se que a preocupação maior dos educadores é a de
ensinar o que é importante para a classe dominante que dita as regras, e
não para criança atendendo à sua realidade e necessidade. Por revelar fatos
históricos que marcaram época, a capoeira como Educação Física pode ser
considerada como uma atividade transformadora. Através da musicalidade,
dos movimentos, dos cantos, do diálogo em aula, a capoeira como Educação
Física pode transmitir aspectos marcantes da sociedade brasileira, como as
preferências dos negros, seus romances, trabalhos, crenças, amigos e
inimigos, costumes, sofrimentos, características estas notáveis em suas
cantigas.2
A capoeira, nos programas de educação física, foi introduzida praticamente de três formas: na primeira, sendo incluída nos métodos de ginástica tradicional; na segunda, como conteúdo diferenciado da ginástica escolar; e, na terceira, como disciplina esportiva de caráter optativo.
Barbieri reforça o assunto, afirmando que, “[…] em algumas
escolas de ensino de primeiro e segundo graus3, ela é praticada ou como meio da educação física ou como esporte […]” (1993, p. 33), e citando principalmente as escolas de Salvador, a experiência da Fundação Educacional do Distrito Federal e um trabalho diferenciado do Liceu de Artes e Ofícios da Bahia. Hoje, encontramos essa prática disseminada em praticamente todas as capitais brasileiras e num sem-número de escolas espalhadas por todo o território nacional.
Nas nossas observações empíricas sobre este assunto, em especial dentro da realidade de Salvador, a capoeira inicia sua caminhada escolar pela necessidade premente de contribuir com as aulas de educação física e para superar as dificuldades de material, de espaço físico e programa.
Na nossa experiência, no período de 1970 a 1976, como professor de educação física da rede pública, no Colégio Estadual Manoel Devoto, situado no bairro do Rio Vermelho, em Salvador, tentamos dar conta das aulas de Educação Física em uma instituição que não dispunha de ginásio, quadra de esportes, material especializado, ou seja, não contava com áreas apropriadas ao desenvolvimento de uma prática, no mínimo razoável e motivadora, para os alunos.
Tais aulas eram ministradas no campo de futebol em frente ao quartel do exército de Amaralina, no morro de Anita Costa e no campinho de futebol do IPASE. A coisa se complicava quando chovia e tínhamos que utilizar as instalações do colégio, como salas de aulas, corredores e a área da cantina.
Da nossa parte, professor de educação física tido como “leigo”4 — todavia formado em Capoeira Regional na Escola de Mestre Bimba — passei a incluir a capoeira nas aulas e usávamos como referência o conteúdo aprendido no Centro de Cultura Física Regional (CCFR); seguíamos a sua metodologia, sendo a estratégia principal de ensino-aprendizagem a sequência de ensino adaptada ao nível escolar, dividindo-a em partes para melhor assimilação e compreensão dos alunos; procurávamos aproveitar todos os espaços por menores que fossem. Podemos, então, afirmar ter sido uma experiência muito bem-sucedida, positiva e gratificante.
Devido às dificuldades de material, as nossas aulas, na sua maioria, eram realizadas sem a presença do berimbau ou pandeiro, contudo lançávamos mão da criatividade e espontaneidade. As aulas tinham uma motivação própria, com a participação dos alunos cantarolando músicas acompanhadas das palmas, destacando o aspecto rítmico do jogo.
Ainda baseado em observações, podemos afirmar que existe um problema que merece atenção especial. As escolas de um modo geral estão incluindo a capoeira, principalmente como atividade extra classe e, devido à enorme demanda, contratam professores sem uma qualificação apropriada para o mister.
Para Rocha, “a pior das dificuldades, no meu caso, é a falta de professores que ensinem capoeira para crianças em escolas, para que se possam ter intercâmbios, troca de experiências e mais motivação para os alunos” (1994, p. 66). Ressalta que os professores são em sua maioria pertencentes a academias e grupos de capoeira, que se reúnem em escolas, porém sem um vínculo educativo com elas.
Surge, então, uma polêmica, que causa certo desconforto, entre professores de educação física e mestres de capoeira. Eis a questão: quem deve ministrar aulas de capoeira na escola? Professores de educação física ou mestres de capoeira? Os professores respondem dizendo-se credenciados para o cargo pela sua formação em educação física. Os mestres retrucam afirmando que são eles que detêm o conhecimento da capoeira que lhes foi passado pelos velhos mestres, de geração a geração.
Não cabe aqui tomar nenhum partido, apenas esclarecer o nosso posicionamento sobre o assunto. Entendo que existe espaço para os dois profissionais trabalharem com a escolarização da capoeira, bastando discernir e estabelecer competências e atentar para os trâmites legais burocráticos. Por outro lado, tendo a concordar com Maria Angélica Rocha quanto observa a dificuldade de um maior intercâmbio entre os profissionais que se dedicam a esse labor, com a finalidade de trocar experiências, discutir a temática em profundidade e criar um aporte científico.
O que nos chama a atenção é o fato da capoeira ser uma novidade no processo de ensino/aprendizagem da Educação Física, justamente por se diferenciar de outras práticas corporais alienígenas sistematizadas. Ela se identifica pelos valores afro-brasileiros que representam toda a historicidade e origem do próprio povo brasileiro.
Para Santos, “a capoeira como educação física faz parte da nossa história; contribui na formação de valores das crianças, jovens e adultos; favorece o espírito crítico reflexivo da nossa realidade” (1990, p. 29). E acrescenta que a capoeira tem uma história importantíssima que deve ser transmitida aos alunos através dos movimentos, musicalidade e em diálogos democráticos. Polissemia pedagógica
Aprender capoeira é, acima de tudo, interagir com a identidade cultural de um povo, é vivenciar a expressão corporal, é ter a possibilidade de adquirir o espírito crítico reflexivo da sociedade em que se está inserido. É a certeza da contribuição para um elo harmônico corpo/mente, valorizando o talento, as potencialidades humanas e reconhecendo seus limites e oportunidades.
Num contexto bem amplo, identificamos ser a capoeira uma excelente forma de educação, principalmente através do instrumento da educação física e podemos destacar pontos positivos que reforçam essa prática.
Mestre Bimba, reportando-se à eficiência da capoeira, costumava afirmar para seus alunos que a capoeira, por si só, era uma excelente forma de ginástica. Isso era consubstanciado na sua prática cotidiana, pois suas aulas tinham como base apenas os movimentos capoeirísticos e o próprio jogo de capoeira em versões diferenciadas.
A capoeira desenvolve as qualidades físicas de base, atuando com eficácia na melhora da condição física geral, desenvolvendo sobremaneira os sistemas aeróbico, anaeróbico e muscular. Tem uma influência marcante no aspecto cognitivo, afetivo e motor. Estimula a coragem, a autoconfiança, a auto-estima, a cooperação, a formação do caráter e da personalidade.
Sobrinho et al referem-se à prática da capoeira, assegurando que ela “adquire dimensões bem mais amplas do que uma simples atividade corporal relacionada a uma determinada etnia, e passa a ter um significado de prática social, ampliando o eixo da discussão sobre as questões raciais e étnicas, para as questões de classe social dentro do sistema capitalista” (1999, p. 179).
Cremos que a educação é mediada pelo mundo em que se vive, formatada pela cultura, influenciada por diversas linguagens, impactada por crenças, clarificada pela necessidade, afetada por valores e moderada pela individualidade. Trata-se, portanto, de uma experiência vivenciada na realidade empírica, com a interação entre a cultura e a sociedade personalizada, pelo processo de criar significados, pelas leituras e visões pessoais do mundo em que se vive.