Capoeira Regional: a escola de Mestre Bimba
Capoeira uma história
Uma compreensão adequada do fenômeno da capoeira exige sua investigação em partes encadeadas, cujos fatos aparecem entrelaçados, daí a intenção de clarificá-los e descrevê-los, contextualizando-os historicamente. Os episódios aqui relatados estão baseados em argumentos de vários estudiosos do assunto, os quais nos remetem a análises aprofundadas, à geração de novas idéias e ao estabelecimento de nexos.
Capoeira: uma trajetória de
resistência
A escravidão é uma instituição muito antiga, que data dos primórdios da humanidade, porém foi no século XVI que o tráfico de escravos conformou-se como um negócio organizado, sistemático e vultoso, que representava enormes riquezas, principalmente depois que os portugueses criaram uma rota envolvendo os continentes europeu, africano, americano e, posteriormente, asiático, transformando, então, milhões de negros, em lucrativa moeda de troca e fácil riqueza.
Esses negros eram transportados nos porões dos chamados navios negreiros ou tumbeiros, em condições bastante precárias e subumanas, motivo pelo qual eram muitos os que sucumbiam, por não aguentarem os rigores de uma viagem longa, sendo acometidos de doenças em virtude dos maus-tratos.
Chegando ao Novo Mundo, eram vendidos e na sua maioria trocados por mercadorias como açúcar e fumo. Rego refere-se ao assunto da seguinte maneira: “argumenta-se que a sobrevivência das primeiras engenhocas, o plantio da cana de açúcar, do algodão, do café e do fumo foram os elementos decisivos, para que a metrópole enviasse para o Brasil os primeiros escravos africanos” (1968, p. 9).
Areias, referindo-se também ao tráfico dos escravos, diz que:
Eram os negros tirados do seu habitat natural, colocados nos porões dos
navios e levados para os novos horizontes recém-descobertos pelas grandes
potências européias da época. Chegando à nova terra, eram repartidos entre
os senhores, marcados a ferro em brasa como gado e empilhados na sua
nova moradia: as prisões infectadas das senzalas (1983, p.10).
No entanto, o escravo era uma ótima mercadoria e seus compradores tinham a expectativa de que esta se pagasse em cinco anos, através das jornadas criminosas de trabalhos forçados. A expectativa média de vida dos escravos, porém, girava por volta dos sete anos, devido à precariedade das moradias e à exígua alimentação.
No negócio da troca de mercadorias, por ser altamente rentável e sendo o escravo uma mercadoria barata na África, os senhores de engenho eram forçados a comprar, a cada vez, mais escravos, a ponto de serem até chantageados, pois, caso não os comprassem, não poderiam vender o açúcar. Pressionados, foram impelidos a comprar grande número de escravos, consequentemente endividando-se.
Contudo, os negros, considerados “peças da África”, custavam barato e, por esse motivo, eram descartáveis. Até mesmo os portugueses menos favorecidos economicamente, reconhecidos como pobres, podiam ter pelo menos um escravo. Quando não os possuíam, isso era motivo de humilhação e, muitas vezes, antecipavam seu retorno a Portugal.
Ao chegarem ao Brasil, os negros escravos eram desembarcados nos portos, pagandose por eles impostos, como qualquer outra mercadoria. Em seguida, ficavam expostos à venda nos mercados, onde os senhores e senhoras os examinavam, escolhendo de acordo com os ofícios e serviços a que seriam submetidos. Nessa escolha, tinha-se preferência por determinado tipo físico, pelo aspecto de saúde e até pela região de origem.
Os negros eram usados nos mais diversos tipos de serviços: plantadores, roceiros, semeadores, moedores de cana, vaqueiros, remeiros, mineiros, artífices, pescadores, lavradores, caldeireiros, marceneiros, pedreiros, oleiros e ferreiros; eram domésticos, pajens, guarda-costas, capangas, capatazes, feitores, capitães-do-mato e até carrascos de outros negros.
Os escravos estavam por toda parte, nos setores urbano e rural; viviam nas ruas, nos mercados, portos, mercearias, residências, palácios, repartições, engenhos, senzalas etc.
Com os escravos participando ativamente da sociedade, esta foi aos poucos absorvendo sua cultura: folguedos, danças, culinária e crenças. Perguntamos: o que seria do Brasil, hoje, sem o legado do povo africano?
Machado, referindo-se aos negros, às questões culturais e à forma de transmissão do conhecimento, assim se expressa:
Na verdade, os negros introduzidos no Brasil pertenciam a diversas etnias
que provinham das mais variadas regiões da África. Entretanto, havia fortes
pontos em comum. As suas religiões, os seus costumes, quaisquer que
fossem, mantinham profunda relação com certas formas de família e
organização clânica. Fiéis à cultura dos seus antepassados, os valores de
sua identidade foram transferidos dos mais velhos para os mais novos e
apreendidos facilmente pelas crianças. São valores de uma identidade
coletiva que faz parte de uma herança comum como padrão de
comportamento. Padrão este que está contido no pensamento simbólico e
nas ações em quase todos os aspectos das suas atividades cotidianas,
ressaltando com mais profundidade nas comunidades de candomblé (1989,
p. 71).