Capoeira Regional: a escola de Mestre Bimba

Hellio Campos · Capítulo 11 de 66

Páginas do PDF

Capoeira Regional: a escola de Mestre Bimba

Mestre João Pequeno de Pastinha

 

João Pereira dos Santos nasceu no dia 27 dezembro de 1917, na cidade de Araci, interior do Estado da Bahia, localizada entre as Cidades de Serrinha e Tucano. Filho de vaqueiro que o fez ter muitas moradas, pois seu pai era impelido a trabalhar em fazendas, o que exigia constantes mudanças de endereço.

 

Quando conheceu Mestre Pastinha, já praticava capoeira nas ruas de Salvador, tendo os primeiros contatos com a capoeira através de Barbosa e Juvêncio; porém, foi Pastinha quem o amparou e ensinou os segredos da Capoeira Angola. Nas suas palestras, ele lembra com saudade da convivência e da amizade de Pastinha e destaca um momento em que o mestre disse para ele: “João tome conta disto, que ela vai morrer”. Uma responsabilidade e tanto, que João Pequeno faz valer a cada minuto de sua vida.

Decanio2, em entrevista no documentário O Velho Capoeirista, diz que, para ele, João Pequeno é o aluno mais importante de Pastinha e ressalta sua importância histórica tão significativa quanto a de Mestre Pastinha, pois se “Pastinha instalou, iniciou o movimento de retorno da ludicidade na capoeira, João Pequeno deu continuidade à obra”, por ser um aluno mais constante e fiel aos ensinamentos do seu mestre e que “permanece teimosamente vivo jogando capoeira aos oitenta anos de idade”.

Pastinha colocou João Pequeno para ajudar nas aulas, logo que este começou a participar da academia de Capoeira Angola, chegando mesmo a ser uma espécie de contramestre, fato este comprovado pelo Mestre Curió. Nesta função de colaborador, muitos capoeiristas passaram por suas mãos, inclusive João Grande, que foi levado à academia pelo próprio João Pequeno.

Em 1966, sob a liderança de Mestre Pastinha, João Pequeno

participou do 1o Festival Mundial de Arte Negra, em Dakar Senegal, juntamente com João Grande, Gato, Roberto Satanás, Camafeu de Oxóssi e Gildo Alfinete.

João Pequeno participou do Programa Nacional de Capoeira da Secretaria de Educação Física e Desporto do Ministério de Educação (SEED/MEC), em 1990, tendo gravado o seu primeiro disco solo, à época um LP, fruto do Projeto Oficina do Movimento do Liceu de Artes e Ofícios da Bahia.

João Pequeno foi um elemento importante na (re)estruturação da Capoeira Angola, justamente no momento em que Pastinha não tinha mais forças suficientes para tocar seu projeto; João Pequeno, nessa oportunidade, aflorando no final dos anos setenta, organiza sua academia e lá começa a traçar os caminhos para um novo projeto da Capoeira Angola.

Sua academia está localizada no Forte Santo Antônio Além do Carmo, sendo o primeiro mestre a se instalar naquela localidade, lutando cotidianamente contra o descaso das autoridades e os preconceitos, e sendo constantemente ameaçado de despejo.

Outrossim, a sua academia passou a ser referência para capoeiristas de todo o mundo, os quais se dizem encantados com a capoeira ali praticada, sendo a simplicidade dos movimentos, o método de ensino, o aconchego, a boa conversa, os sábios ensinamentos do mestre a sua marca registrada.

Mestre João Pequeno tem levado a Capoeira Angola para muitos lugares, onde quer que seja, no Brasil ou fora dele, ministrando palestras, cursos, workshops, seminários e participando dos batizados e troca de cordéis de vários grupos de capoeira. É um divulgador incansável da Capoeira Angola.

Ele tem recebido muitas homenagens, dentre as quais destacamos o Título de Cidadão da Cidade do Salvador, em 3 de setembro de 1998, concedido pela Câmara Municipal de Salvador. Nessa ocasião, em entrevista à TV Bahia, ele se expressou dizendo enfaticamente ser uma pessoa feliz, reconhecida e agradecida, pois

se considerava um “doutor na capoeira”. Capinam 3, poeta e compositor baiano, assim se referiu: “Salvador fez um gesto mais que necessário, oportuno”, pois, no seu entendimento, a capoeira baiana não tem tantos mestres desse quilate para manter viva a tradição, e que essas homenagens são fundamentais no sentido de manter em evidência a nossa história, nossa cara e nossa identidade.

Duas outras homenagens merecem menção. São elas: a Ordem do Mérito dos Palmares, em 16 de setembro de 2002, e a de Doutor Honoris Causa, outorgada pela Universidade Federal de Uberlândia, em 18 de dezembro de 2003. No momento, tramita o projeto de reconhecimento para a outorga do título de Doutor Honoris Causa pela Universidade Federal da Bahia.

Lembro-me perfeitamente da participação de João Pequeno no seminário comemorativo dos vinte anos da FACED/UFBA (Faculdade de Educação da UFBA), quando o mesmo, na sua simplicidade, palestrou sobre a Capoeira Angola e encantou todos os presentes. Após o evento, fui procurado por vários colegas que se disseram impressionados com a desenvoltura, a tranquilidade, a segurança e o bom humor com que João Pequeno se apresentou, conquistando todos os presentes.

João Pequeno, como tantos outros mestres de capoeira, se ressente de um reconhecimento concreto, por parte das autoridades baianas, pois, ao mesmo tempo que a Câmara Municipal de Salvador lhe concede um título dessa envergadura, ameaçam despejá-lo do Forte do Santo Antônio Além do Carmo, sem levar em consideração a sua importância histórica no conjunto da revitalização do Centro Histórico de Salvador. Para Decanio, a “capoeira deu ao Forte de Santo Antônio um cunho de respeito”, e a presença de João Pequeno e sua Capoeira Angola desperta a atenção dos governantes.