Capoeira Regional: a escola de Mestre Bimba

Hellio Campos · Capítulo 48 de 66

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Capoeira Regional: a escola de Mestre Bimba

As aulas

A utilização da cadeira aparece na fala de Cafuné como um fato novo, um artifício didático, que o mestre usava antes de ensinar a sequência diretamente. Podemos considerar uma etapa deveras importante, pois possibilitava ao aluno iniciante experimentar alguns golpes básicos integrantes da sequência. O exercício consistia no aluno ficar de frente para uma cadeira comum de madeira com encosto alto, gingar como se ali tivesse um outro capoeirista e então era solicitado que desferisse os golpes: duas meias-luas de frente, armada, duas queixadas, meia-lua de compasso, entre outros golpes. A utilização da cadeira tinha vida útil, pois com o tempo o aluno cada vez mais desenvolto acabava se exercitando de maneira mais completa, ou seja, jogando capoeira com a cadeira quando da ausência de outro capoeirista. Essa estratégia didática está marcada na lembrança de todos os alunos de Bimba.

 

As aulas

 

A aula propriamente dita consistia de uma metodologia simples, porém bastante eficaz, pelo motivo de deixar os alunos sempre em prontidão, sedentos por uma oportunidade de jogar capoeira, de entrar na roda, no desejo de mostrar para o mestre e demais companheiros, e a si próprios, seus avanços no aprendizado e sua potencialidade.

Primeiramente, o mestre reunia todos os alunos daquele horário em volta da roda e solicitava aos mais antigos, com mais experiência, preferencialmente os alunos formados, que, dois a dois, realizassem a sequência da cintura desprezada, uma combinação de golpes ligados e de projeção que têm como finalidade treinar o capoeirista para se defender de uma situação de enfrentamento em que tivesse pouco espaço. Por esse motivo, a exigência do treino todos os dias e a indicação veemente para que o capoeirista sempre caísse em pé ou agachado, jamais sentado.

Caso acontecesse de cair sentado ou bater as nádegas no chão, era motivo para algum comentário e o mestre muitas vezes autorizava a repetição do golpe, normalmente melhorado na segunda tentativa, pela atenção, concentração e esforço; cabia então ao mestre fazer algum tipo de elogio. Esses elogios sempre aconteciam em poucas palavras, ou ele simplesmente dizia: “Bonitooo!!!”

Essa comunicação pontual feita ao aluno tinha uma conotação importantíssima, pelo fato de ser uma advertência in loco, visualizada, sentida e entendida pelo aluno instantaneamente, e vale ressaltar que a chamada acontecia na maioria das vezes nos momentos de acerto, funcionando como um reforço positivo.

Depois, era a vez da sequência de ensino e o mestre mantinha a mesma dinâmica da chamada em duplas, escolhendo comumente os dois alunos de acordo com o tipo físico, a experiência, volume de jogo, velocidade dos movimentos, habilidade motora e a “manha” de jogar.

O passo seguinte era o jogo propriamente dito, o chamado para a roda, no qual a estratégia anterior das duplas prevalecia e as indicações eram também uma constante. Na hora do jogo, a atenção para com o toque do berimbau e jogar no ritmo era uma exigência do mestre. Dizia ele: “o berimbau dita o ritmo a ser jogado; preste atenção ao toque!”. O toque do São Bento Grande orientava para um jogo mais agressivo, pesado, rápido, contundente, objetivo e com golpes mais definidos, o que poderíamos chamar de um “jogo duro”.

A outra possibilidade era o toque de Banguela, incitando um jogo malicioso, baixo, rasteiro, curtido e floreado. Para Decanio, a Banguela ou Banguelinha suscitava um jogo de dentro, corpo a corpo, colado, quase sem espaço entre os jogadores e servia de treinamento para defesa de arma branca. (1996, p. 174).

Mestre Itapoan retrata com propriedade o método de ensino:

 

O Mestre Bimba possuía um método de ensino simples e eficiente. Todos os

dias os alunos (calouros e formados) chegavam à Academia e faziam a

“Cintura Desprezada”, uma sequência de golpes, contragolpes e defesas.

Em seguida o Mestre pegava seu Berimbau e tocava “São Bento Grande”

para todos. Pedia sempre para os Formados “puxarem” os calouros mais

velhos. Jogavam alunos com alunos, Formados com Formados e depois

alunos com Formados. O Mestre tinha o cuidado de não repetir as duplas

todos os dias para não se “acostumarem”. Na sequência tocava “Iúna”, jogo

exclusivo dos Formados. Depois da “Iúna” não se jogava mais ao som do

Berimbau (sic) (1994, p. 79).

 

Durante as aulas, podemos destacar uma curiosidade didática utilizada por Bimba. Os alunos não poderiam jogar quantas vezes quisessem, o estipulado era jogar apenas uma vez na Cintura Desprezada, Sequência de Ensino, Jogo na Roda e Iúna. Apenas no Esquenta-banho estava liberado o número de participações, era totalmente livre, era o espaço ímpar do aluno.

Falamos anteriormente que a estratégia consistia nas atividades, preferencialmente, em duplas. Quando naquela aula tinha número par de participantes, tudo corria normalmente. Porém, poderia acontecer de contar também com o número ímpar de alunos, aí ocorria uma disputa entre os alunos participantes para quem faria a

dobra6. Participar mais uma vez era realmente gratificante, uma oportunidade de se aprender mais, de experimentar mais. Esse processo didático me parecer ser muito rico para o aprendizado da capoeira, pela simples razão de manter os alunos atentos às oportunidades, podendo aguçar o gosto de experimentar.

A seguir, vinha o jogo de Iúna, um privilégio dos formados, um chamado para que todos os alunos formados, participantes da aula ou não, mas presentes na sala, jogassem o jogo da Iúna, um jogo distinto que incita amistosidade, curtição, malícia, mandinga e com a

obrigatoriedade do esquete7.

Presenciei muitas vezes alunos formados que estavam de passagem pela academia assistindo a aula, às vezes, vestidos a rigor, de paletó e gravata, serem impelidos a entrar na roda, por ser um momento do jogo da Iúna, um instante especial para os formados de Bimba. Outras características do jogo da Iúna eram a ausência de palmas e do canto durante o desenrolar do jogo, sendo permitido, e até mesmo imposto, o aplauso de todos os presentes no final do jogo.

Para fechar a aula, Bimba anunciava de maneira evidenciada o esquenta-banho: “esquenta-banho, que bonito!”. Esse momento era esperado com ansiedade por todos os alunos, uma ocasião singular do aprendizado da Capoeira Regional. Os alunos tinham a liberdade de treinar golpes, rasteiras, bandas, vingativas, balões cinturados e até de desafiar outros capoeiristas.

Vale lembrar que toda essa liberdade era supervisionada pelo mestre, sempre atendo ao desenrolar da roda. Chamava a atenção daqueles que extrapolavam, principalmente se fosse usada violência, golpes ilícitos ou que infringissem as “regras” estabelecidas.

Incentivava seus alunos reconhecendo o potencial de cada um, indicando os melhores caminhos para se lograr o sucesso, quer seja nos golpes, no jogo e na vida pessoal. Era comum contar rápidas histórias, que ilustravam sobremaneira aquela situação, acompanhadas de fundo disciplinar e moral.

Outras vezes, aproveitava para ensinar novos golpes, uma defesa especial, mas não era nada rigidamente planejado, ficava sempre a critério dele, ao tempo e hora, que com sua experiência sabia aproveitar bem a motivação da classe.

O esquenta-banho era o paraíso dos alunos formados, os “bambas” de Bimba. Eles se destacavam pelos desafios que proporcionavam; escolhiam a dedo seus adversários, alguém que durante o jogo tinha acertado um golpe maldoso e esse espaço era destinado a “desforrar” aquela porrada. Também queriam mostrar por que eram chamados de “bambas”, pois desafiavam dois, três ou mais companheiros de uma só vez. Um detalhe marcante consistia em um aluno formado convidar outro formado e às vezes alunos mais experimentados para o centro da roda. Um terror! Não se tinha a opção de não aceitar, não cabia uma desfeita dessa natureza e o pior era passar por frouxo. Um aprendizado e tanto.

O mestre também não relutava em dar bronca naqueles que saíssem da linha; reclamava com firmeza, austeridade e conhecimento de causa e todos os presentes demonstravam respeito, acompanhando atentamente o desenrolar do fato.

Todo esse cuidado tinha um significado especial, ao tempo em que o mestre facultava um tempo livre dentro de sua sala de aula com o objetivo dos alunos experimentarem as mais variadas possibilidades de aprendizado, utilizando suas próprias descobertas, saindo assim da rigidez didática; Bimba mediava, supervisionava e estabelecia regras simples para serem seguidas por todos os alunos, sem distinção de graduação, inclusive recomendando cuidados expressos para os alunos mais novos.