Capoeira Regional: a escola de Mestre Bimba
Contribuição na formação educacional, cultural, profissional e de filosofia de vida
Contribuição na formação
educacional, cultural,
profissional e de filosofia de
vida
Será que houve uma efetiva contribuição dos ensinamentos de Mestre Bimba para a formação educacional, cultural, profissional e até mesmo na filosofia de vida dos seus alunos? A partir deste questionamento buscamos entender de que maneira tal contribuição aconteceu, qual a verdadeira influência da Capoeira Regional, da relação dos alunos com Bimba e da convivência dos diferentes colegas no curso de Capoeira Regional.
São bastante controversas as informações sobre o perfil de Mestre Bimba: uns afirmam ser ele um autoritário, disciplinador, embrutecido, uma pessoa sem instrução formal, que era rude, chegando a ser grosseiro no tratamento com seus alunos, mas outros tantos referem-se ao mestre como uma pessoa que usava da autoridade, embora sem apresentar na sua conduta um autoritarismo, relacionando-se de modo amigável, e se dedicando a um relacionamento individualizado, de acordo a personalidade de cada um de seus alunos.
Cafuné assim explica o seu relacionamento com Bimba:
Eu sentia um carinho muito grande dele com relação a minha pessoa. Tanto
que ele brincava muito comigo com relação ao meu apelido, não só nas
aulas com os colegas que faziam brincadeiras com relação a isso, mas
sempre brincadeiras de cunho carinhoso e isso era uma característica muito
dele, gostava muito quando ele colocava a mão no meu ombro para falar
alguma coisa, quando eu tava por perto e ele colocava a mão no meu ombro
e fazia as palestras dele, e ele fazia isso com todos, não era só comigo.
Quando havia shows e exibições dele, do grupo que eu participava ele
contava a história do meu apelido, ele contava que uma suposta noiva minha
chegava lá e reclamava dele, Mestre por que o senhor colocou esse apelido
nele e ele explicava que eu era muito tímido, que ele fez aquilo para mexer
comigo, aí ele fazia sempre uma brincadeira que a mulher achava que era
por outra coisa e tal, e era sempre essa relação de amizade, muito próxima
de carinho mesmo (sic).
Cafuné, além disso, se reporta à contribuição da Capoeira Regional em sua vida.
Principalmente pessoal, porque eu era uma pessoa que só olhava para o
chão, eu tinha medo de olhar para frente, eu tinha uma dificuldade de me
relacionar com as pessoas, para eu arranjar uma namorada eu tinha que
levar dois, três amigos para a gente sair para eu procurar uma namorada, no
emprego, meu primeiro trabalho meu irmão mais velho que me arranjou, eu
nunca tinha saído e depois da Capoeira Regional eu levantei a cabeça e vi
que tinha horizonte à frente, que eu podia dar um passo, sem precisar de
outras pessoas, acho que a coisa mais importante que a Capoeira Regional
fez na minha cabeça eu acredito que tenha sido esta (sic).
Medicina assim comenta:
Na formação educacional, me deu perseverança para o meu ser; na cultura,
me iniciou no aprendizado e a cultuar o que se refere à cultura baiana e
brasileira; na profissional, porque aprendi muito sobre medicina popular (que
ele conhecia como poucos) e pude adaptar à medicina alopata que aprendi
na Faculdade e com os meus clientes. Até hoje utilizo seus ensinamentos
(apesar da globalização e do avanço acelerado da biotecnologia) sobre sua
filosofia de vida, que foi uma coisa pessoal, intrínseca e mística. Aprendi a
exercer responsabilidade social (muito em moda atualmente) desde que
conheci o Mestre Bimba que já tinha esta prática no seu dia-a-dia, cito como
por exemplo a convivência benemerente com os moradores da rua das
Laranjeiras, no Pelourinho, com as prostitutas e seus filhos, entre outras
(sic).
Gato Branco fala da autoconfiança:
Eu posso fazer assim uma analogia a respeito do que a Capoeira me
proporcionou, basicamente enfocando um aspecto, o aspecto da
autoconfiança e de saber que a gente, se quiser, a gente pode, as coisas a
gente consegue, porém, como eu era um menino franzino apesar da boa
estatura, bom porte para a prática da Capoeira Regional, mas eu não me
achava capaz de chegar no estágio que eu cheguei naquela época, aos três
anos e meio a quatro anos de jogar Capoeira, com a desenvoltura como eu
joguei, isso me deu a autoconfiança que tem me acompanhado na minha
vida laborativa, inclusive nas funções que eu tenho e tive, por que na vida
tudo é uma disputa, vem disputando funções e nessas disputas a gente vai
para o enfretamento, sabendo que a gente pode conseguir as coisas. Eu,
fazendo uma analogia o que a Capoeira me ofereceu, eu acho que o aspecto
da autoconfiança foi muito importante e também na minha função gerencial,
que foi a função que norteou toda minha atividade laborativa, como gerente
já se vão mais de vinte e cinco anos, eu tive a oportunidade de, no banco,
enfrentar clientes desaforados, arrogantes que as vezes tentavam me
intimidar, por não atender um crédito, não atender uma solicitação que no
ponto de vista técnico não podia e as vezes o cara se sentia magoado, isso
aconteceu algumas vezes; tá certo, apesar da gente engolir muito sapo, mas
a gente tem de se impor, a gente se impunha e reagia a um desaforo, a
gente reagia porque sabia que existia por trás toda uma confiança de que a
coisa não podia ser daquela maneira, então basicamente a autoconfiança
que a capoeira me deu, ela vem me acompanhando ao longo da vida, no
enfrentamento das questões (sic).
Sariguê conta do sentimento de carinho que Bimba demonstrava por ele:
Ah, isso inclusive, ele tinha um jeito carinhoso. O mestre, até o jeito dele ser
carinhoso era diferente. Mas você sentia quando ele fazia alguma colocação,
ele tinha costume de chegar, sempre que tinha um batizado, sempre que
tinha uma apresentação lá, ele me chamava no centro e dizia: esse menino
que chegou aqui, as costas dele só dava um palmo da minha mão, hoje em
dia dá dois palmos da minha mão, a mãe dele nunca trouxe uma latinha de
leite para o mestre, e eu me sentia super envaidecido, porque o mestre tinha
um jeito de mostrar para você, que ele gostava de você, sem ele dizer, eu
gosto de você, são pequenos detalhes que fazem a diferença. No grupo
dele, eu fui convidado porque, fazer parte do grupo do mestre era uma
honra, eu acho que chegar ao máximo na academia do mestre era fazer
parte do grupo dele, e além de eu fazer parte do grupo dele, meu jogo era a
chave de ouro.
Sariguê enfoca que Bimba e a Capoeira Regional foram determinantes na sua formação como homem: “com certeza, eu costumo dizer que a capoeira, ela foi decisiva em toda a minha vida, não foi só na minha vida profissional não, em toda a minha vida como cidadão” (sic); frisa asseverando que “a capoeira que eu aprendi, que foi a capoeira do Mestre Bimba, que tinha tudo isso, tinha aquele conceito que é realmente uma arte marcial, então quando eu fui fazer as outras atividades, eu já vim preparado pelo Mestre Bimba” (sic).
Itapoan fala da relação de Mestre Bimba com seus alunos, assegurando que ele gostava de conversar e que ele somente dava ordens quando estava ensinando.
Pois é, tinha alunos que ele conversava e se dava muito bem, contava
piadas e falava da vida dele tudo em fatos. Ele só dava as ordens nas aulas,
como todo ensinamento é assim, a gente também como professor, tem
alunos que a gente trata melhor, quando a gente nota que um aluno é muito
interessado a gente faz tudo por aquele aluno, agora o outro não muito
interessado a gente faz o trivial. O Mestre Bimba era assim, se você era um
aluno interessado, ele descobria que você estava interessado e começava a
te dar coisas, e também falava muito por, tipo assim não por parábolas, mas
quase isso ele dava toques, se você pegasse legal, se você não pegasse,
ele não ia te explicar de novo. Então ele era uma figura direta assim, mas
tinha uma amizade muito grande com a gente, um carinho muito grande
pelos alunos dele (sic).
Essa maneira de conversar com seus alunos, já apontada anteriormente por outros entrevistados e autores, demonstra o carinho e a maneira peculiar de Mestre Bimba passar seus ensinamentos, que tinha como principal motivação o conteúdo da capoeira, contudo se estendia, abarcando outros assuntos, a exemplo da sua história de vida, dos movimentos capoeirísticos da época, das lições por parábolas e da conversa bem-humorada. Galo ressalta esse momento, dizendo ser uma imagem sempre presente na sua mente: “ele botava os pés pra cima e ficava batendo papo com a gente, contando suas histórias, ensinava a gente a refletir sobre os passos da capoeiragem, sem a necessidade de usar as pernadas”.
Ao prefaciar o livro “A saga de mestre de Bimba”, de Mestre Itapoan, assim me expresso:
César Itapoan foi um dos alunos mais brilhantes da Academia, e logo cedo
despertou enorme interesse em conhecer algo mais sobre a Capoeira,
muitas vezes presenciei, e até peguei carona das suas longas conversas
com o mestre, onde o assunto palpitante versava, entre outros, da origem à
atualidades da Capoeira e Capoeiristas (sic).
Muniz Sodré também se refere ao assunto das lições, dizendo que Bimba era um sábio e que “não duvidaria que, nele, às vezes ‘baixasse’ algo como uma entidade chamada São Salomão” (2002, p. 72). Lembra-se das extraordinárias lições, afirmando que “o mestre admitia implicitamente que só se permanece na mudança, que os filhos crescem na morte simbólica dos pais, que a aprendizagem criativa comporta a possibilidade de ultrapassagem da maestria”.
Itapoan diz que a Capoeira Regional faz parte da sua vida, tomou conta do seu corpo por inteiro, que as lições de Bimba o ensinaram a entender por que “o vizinho enricou sem trabalhar” e por que “o senhor trabalhou tanto e nunca pôde enricar” e a compreender “a volta que o mundo dá”, certificando-se a cada dia “que o mundo dá muitas voltas”, por isso se sente contemplado e agradece dizendo: “um dia você me ensinou que a ginga é a alma do capoeirista. Eu ainda tô gingando mestre, eu ainda tenho a ginga ‘Seo’ Bimba. Mestre, obrigado, que bom que tive berço”.
Galo atesta que a sua passagem pela Capoeira Regional e a estreita convivência com Mestre Bimba trazem uma contribuição muito forte para a sua formação; refere-se, ainda, a um trabalho que está em andamento, intitulado “Capoeiragem: a arte de gingar com vida”, pelo qual tenta traduzir o nível de influência da Capoeira Regional em sua vida e seu cotidiano, inclusive a repercussão disso na sua vida profissional, em uma área específica das ciências médicas, ou seja, a medicina veterinária. Conta que durante os seus estudos de doutorado, em Medicina Veterinária, na Alemanha, na cidade de Hannover, os ensinamentos da capoeira o ajudaram muito na convivência e na resolução das adversidades próprias da adaptação climática e de uma nova cultura. Lembrava todo o tempo de uma frase de Mestre Bimba: “meu filho, recuar também é golpe”. Hoje, esta frase é quase que um lema, sendo repetida sempre, em momentos oportunos, para os filhos, funcionários, colegas, alunos e amigos. É um ensinamento que suscita uma reflexão nas ações do cotidiano, do pensar e agir.
Para Sacy, “o mestre impunha uma segurança, ele, por si só, era o líder dentro da sala de aula. Com o mestre, nós aprendíamos a respeitar os mais velhos, os professores, os mestres, os seus pais. Ele dava a lição sem precisar dizer a você que era pra fazer aquilo”.
Disse ainda: “ninguém tinha intimidade para falar com o mestre batendo no seu ombro. O respeito sempre se fazia presente e o limite era considerado”. Revela que nenhum aluno tinha a ousadia de mexer no berimbau que ficava preso na parede. Sacy verdadeiramente se refere ao respeito que Bimba impunha, pela sua postura e pelo relacionamento com seus alunos. Disse mais: “Mestre Bimba era uma pessoa introvertida, somente aparecia ser extrovertido durante os dias de festas, formatura e batizados. Parece que se transformava nos eventos, pois nas aulas tinha uma atitude fechada”. Comenta que “seu método era tão eficaz que pouco se dirigia aos alunos durante as aulas. Os alunos de Bimba já sabiam do que o mestre gostava e do que não gostava”.
Sacy certifica que o relacionamento de Bimba era sensorial; ele ditava as ordens por mensagens, por gestos e por olhar. “Os alunos eram ‘obrigados’ a observar o mestre, ele era um ser supremo ali na sua academia”.
Para Boinha, a convivência com Mestre Bimba influenciou de maneira marcante a sua formação educacional:
Sim, eu garanto que se você entrevistar os milhares de alunos de Mestre
Bimba, todos vão falar a mesma coisa. Lá a gente aprendia pela disciplina,
porque em casa com o pai e mãe a gente relaxa, a gente não obedece.