Capoeira Regional: a escola de Mestre Bimba
Menino, quem foi seu mestre? Meu mestre foi Salomão. Sou discípulo que aprendo, sou mestre que dou lição.
Menino, quem foi seu mestre? Meu mestre foi
Salomão. Sou discípulo que aprendo, sou mestre
que dou lição.
Existem seguramente oito autores que escreveram sobre Mestre Bimba e a Capoeira Regional. Todos eles tiveram uma preocupação biográfica, histórica, técnica e até filosófica. Entretanto, existindo uma carência sobre o processo pedagógico, as atividades de ensino e o relacionamento de Bimba com seus alunos, bem como o reflexo na vida pessoal e profissional de cada um deles.
Entendo ser relevante estudar mais a fundo o ato pedagógico e a metodologia usada por Mestre Bimba para ensinar a Capoeira Regional, assim como o relacionamento dele com seus discípulos e as consequências desse aprendizado na vida pessoal de cada um. Relevante ainda no sentido de poder mostrar que Mestre Bimba, não somente criou a Capoeira Regional como arte, luta, defesa pessoal, mas, sobretudo, se preocupou também em alcançar seus objetivos de maneira coerente com seus propósitos e por isso buscou sedimentar sua prática de ensino em processos pedagógicos e didáticos simples, fundamentados na sua experiência de vida.
Paulo Freire, em reflexão sobre o ato de ensinar, assevera a necessidade do comprometimento e da autoridade. “Não posso escapar à apreciação dos alunos. E a maneira como eles me percebem tem importância capital para o meu desempenho” (1966 p. 96-108). Destaca a importância da autoridade, dizendo ser crucial uma atitude forte, afetiva e democrática possibilitando ao aluno uma percepção clara de segurança e esperança.
Na disciplina Ludopedagogia III, ministrada pelos professores Cipriano Luckesi e Bernadete Porto, na Faculdade de Educação da UFBA, em 2005, foi enfatizada a relação entre educador e educando. Luckesi, reportando-se ao sujeito da práxis pedagógica e à relação do educador com o educando, declara que o individuo, para exercer o papel de um mestre ou educador, tem que ter compromisso político, competência teórica e técnica, salientando, ainda, que a “arte de ensinar”, o processo educativo, deve contemplar o envolvimento afetivo e o desejo determinado da elevação cultural dos educandos (1994, p. 117).
Tendo frequentado o Centro de Cultura Física Regional durante sete anos e convivido de perto com Mestre Bimba e seu grupo folclórico formado por seus alunos, tocadores de berimbau convidados e as baianas, lideradas por mãe Alice, sua esposa, sempre percebi seu compromisso e coerência com o ensino da Capoeira Regional e o quanto o mestre era verdadeiro no trato da sua arte e na qualidade do relacionamento com seus alunos, valorizando enormemente a disciplina, a ética, os princípios e o respeito.
Entendemos que a pedagogia vigente de Mestre Bimba tinha como substrato a sua visão de mundo e de homem, baseada na sua experiência de vida o que o conduzia a uma prática educativa bastante realista, conectada com o mundo da época. Podemos até afirmar que a sua filosofia de educação forjava sua práxis educativa.
Referindo-se à metodologia utilizada por Bimba, e ao jeito dele transmitir seu ensinamento a seus alunos, Gato Branco assim comenta:
Mestre Bimba era uma pessoa muito prática, ele era muito objetivo, dentro
do jeitão dele. Se ele percebesse que a gente desse um aú errado, que não
fosse uma coisa que servisse realmente para a capoeira, a não ser fazer
folclore que às vezes ele não gostava muito, ele queria o cara mais duro,
mais objetivo, ele parava ali e dizia que não era assim e tal, ele era muito
objetivo nas coisas e, também deixava a gente muito solto, à vontade, no
momento que ele ensinava as sequências, e o resto era pau puro lá e cada
um por si. Agora ele interferia na hora em que achava que a gente não
estava fazendo a coisa corretamente. Por exemplo, de vez em quando tinha
uns que gostavam de dar uma bênção com o pé de ballet, esticado, e ele
dizia que ali não era lugar de bailarino não, bênção não se dá assim, e aí
mandava um outro colega dar uma bênção na gente mesmo para arrebentar
a boca do balão, para mostrar que aquilo era jogo de homem. Então, ele
tinha essa metodologia para mostrar que a capoeira não era somente dança,
capoeira era também defesa pessoal. Eu o achava objetivo na metodologia
dele (sic).
Mestre Itapoan, referindo-se ao método de ensino e à dedicação de Bimba, cita que “o seu método era artesanal, ele gostava de pegar aluno por aluno e ensinar certos movimentos” (1994, p. 80). Santos diz que “durante as aulas ninguém dava um ‘pio’, pois as atenções sempre se achavam completamente voltadas para sua explicações e ensinamentos”, e complementa ressaltando o comportamento do mestre: “ele, somente ele, era quem quebrava a monotonia, às vezes com uma crítica enérgica seguida de uma orientação complacente, dirigida ao aluno que falhava na aplicação de um golpe, contragolpe ou que esquecia determinada parte da sequência de golpes” (1996, p. 33).
As citações acima, que representam a vivência dos autores e ex-alunos, nos fazem imaginar que Mestre Bimba “pensava certo a capoeira” em todos os sentidos e abrangências. Sobre “pensar certo”, Paulo Freire assegura que ensinar não se resume apenas em transferir conhecimento, é fundamental ter uma postura exigente, muitas vezes difícil e penosa que o docente tem que assumir diante do outro e com os outros, em face da realidade concreta (1996, p. 49).
Torna-se verdadeiramente importante que o educador tenha clareza de seus atributos na compreensão da realidade em qual está inserido, o comprometimento político e a competência teórica e prática no campo em que atua, bem como uma atitude profissional marcante.
Ainda sobre este assunto, e especificamente sobre a relação mestre-aluno, Abreu assim se referiu:
O ensino da capoeira passava a ser ministrado como atividade profissional,
podendo a relação mestre-aluno também se efetivar como cliente-fornecedor
(vista a grosso modo), passível de alterar os aspectos culturais de intimidade
e afetividade entre mestre-aluno que estavam contidos no processo de
iniciação anterior (1999, p. 38).
Para Abreu, essa relação no ensino da capoeira sustentada por Bimba é uma grande novidade, que chama de “novidade radical” no universo da capoeiragem baiana, principalmente por que até então a
capoeira era aprendida de “oitiva”.8
Parece que Mestre Bimba compreendia claramente a sua responsabilidade de mediador entre a cultura elaborada, acumulada na sua vivência como homem do povo, adquirida nas suas experiências vividas no cais do porto, como trapicheiro e em outras esferas, no exercício das profissões de carroceiro, carvoeiro e das rodas de capoeira. Experiências essas acumuladas pela sua sobrevivência e na busca constante de seu sonho, o de ser um mestre de capoeira e viver como um profissional da arte de capoeirar, um educador da capoeira.
Seu ex-aluno Muniz Sodré, reportando-se às lições de Mestre Bimba, lembra que foram lições “salomônicas”, adquiridas na convivência com o mestre na roda da Capoeira Regional:
Do curso na academia de Mestre Bimba, de todo aquele período, ficaram-me
lições “salomônicas”, dessas que se guardam para toda a vida. A primeira foi
dada pela experiência de ver conviverem democraticamente em um mesmo
espaço (de certo modo, semelhante à boa escola pública, aquela idealizada
por Anísio Teixeira) ricos e pobres, escuros e claros, como já disse antes,
gente da elite e gente da plebe (2002, p. 70).
A citação de Muniz Sodré deixa claro todo um sentimento de ter convivido em uma escola cujo mestre interagia com seus alunos de maneira democrática, fazendo valer uma premissa dos iguais, sinalizando abertamente sua práxis pedagógica, demonstrando a compreensão da realidade na qual estava atuando. Nesse particular, o mestre fincava suas bases da educação fundamentada na sua vivência histórica, cultural e nas relações de classe. Essa compreensão parece ter sedimentado o sonho de criar uma nova capoeira, a Capoeira Regional, que viria a romper com o status quo estabelecido.
Esse estado democrático existente no Centro de Cultura Física Regional, ou seja, na academia de Mestre Bimba, suscitava uma ação ativa e participativa dos seus alunos.
O mestre criava um ambiente de constantes desafios. Itapoan, em suas palestras sobre a Capoeira Regional, afirma ter adquirido o gosto pela história do Brasil quando Mestre Bimba, certa feita, em plena apresentação de capoeira, o convidou a falar para um grupo de turistas sobre a Capoeira Regional.
Cafuné diz que, após ter sido batizado com seu apelido, ficou intrigado e até mesmo desapontado, pois os apelidos para os capoeiristas da sua época eram sugestivos de homens valentes, a exemplo de canhão, onça, filhote de onça, quebra ferro, malvadeza etc. Porém, depois do desapontamento e de uma reflexão banhada pela brisa que soprava na praia de Amaralina, entendeu que o seu apelido não tinha nada de pejorativo, mas sim de desafiador, de superação mesmo; ele não tendo um porte físico avantajado, tinha de se superar na técnica e no conhecimento. Relata que esse desafio mudou sua vida, que amadureceu e que se tornou homem.
Pessoalmente, o meu desafio foi o de vencer minha timidez e a ginga, não somente alongou meus músculos, mas, sobretudo, alargou meus horizontes além da roda, remetendo-me ao caminho da conquista dos meus sonhos. Lembro-me perfeitamente de quando incluí o aquecimento na aula das 14 horas. Já tinha conhecimento da importância de iniciar a aula com uma movimentação global e multilateral dos músculos, articulações e ativação das grandes funções. Os colegas me solicitavam que puxasse o aquecimento e o mestre permitia, mas ficava olhando, atento a todas as movimentações, sem uma interferência direta. Hoje, entendo que Bimba valorizava a iniciativa dos alunos, proporcionando-lhes confiança e estímulo.
Mestre Bimba, apesar de durão em suas atitudes, estava sempre atento às possíveis contribuições de seus alunos. Com sua aproximação e convivência com os alunos de medicina, ele incorporou à sua pedagogia elementos pertencentes ao meio universitário, a exemplo da admissão, formatura, madrinha, paraninfo, orador e quadro de formatura.
Como educador, Bimba parecia dominar inteiramente a sua práxis pedagógica. Tinha coerência com sua proposta do ensino da Capoeira Regional, estava sempre atento aos seus alunos, utilizando uma didática bem particular, através da qual motivava seus alunos a crescerem e a se desenvolverem, não apenas no jogo da capoeira, mas como indivíduos e como cidadãos.
Os alunos tinham o mestre como uma grande referência, um homem austero, disciplinador, exigente, humorado que transmitia confiança e encorajava pessoas. Os alunos se sentiam estimulados em reformular sua cultura, eram capazes de perceber seus limites e suas potencialidades. Eram capazes de criar novos movimentos capoeirísticos, eram capazes de trilhar seus próprios caminhos e elaboras sua própria história.