Capoeira Regional: a escola de Mestre Bimba

Hellio Campos · Capítulo 28 de 66

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Capoeira Regional: a escola de Mestre Bimba

Títulos, prêmios e homenagens

Durante o breve discurso na festa do Zumbimba, realizada em 20 de novembro de 2005, no Forte da Capoeira, Nenel assim falou: “muitas pessoas duvidavam da minha capacidade para ensinar capoeira, ou seja, dar continuidade ao trabalho de meu pai”; e ainda complementou: “algumas pessoas falavam que meu pai não preparou nenhum de seus filhos para continuar a sua obra”. Nessa comunicação, Nenel parecia desabafar uma mágoa ainda enraizada no peito e anunciar claramente aos presentes que está pronto para cuidar da Capoeira Regional de Bimba.

 

Títulos, prêmios e homenagens

 

Muitos capoeiristas da atualidade têm a necessidade de conhecer mais de perto a obra de Mestre Bimba e, por esse motivo, são impelidos pela ansiedade de compreender cada vez mais esse homem, símbolo da capoeiragem baiana.

Tais capoeiras não medem esforços em sua inquietude de entender como Mestre Bimba, um homem sem educação formal, que mal sabia assinar o próprio nome, contudo provido de genialidade, conquistou um lugar de destaque, passando a ser considerado referência, quando se trata de educação, cultura e resistência afro-descendente.

Ao longo de sua trajetória de vida, Bimba foi sempre ovacionado por sua ousadia, feitos e realizações, todavia ele não contava devidamente com o reconhecimento que almejava dos poderes públicos baianos, o que lhe causava desapontamento e desgosto. Reconhecimento este que vem ocorrendo post-mortem, a exemplo dos títulos e homenagens.

Jair Moura relata com a propriedade de quem participou de perto dos acontecimentos:

 

Em 1956, integrei delegação, chefiada por Mestre Bimba, que excursionou

às cidades do Rio de Janeiro e São Paulo. No Rio, onde Bimba foi

homenageado pelo prefeito Negrão de Lima, fizemos uma exibição na

Associação Brasileira de Imprensa. Em São Paulo, atuamos três vezes na

TV Record, com numerosa assistência, lotando as suas dependências, e

demonstrando seu entusiasmo com aplausos prolongados. As autoridades

paulistanas também homenagearam Bimba, que foi agraciado com a

medalha de “Honra ao Mérito” (1993, p. 37).

 

A Prefeitura Municipal da Cidade do Salvador, através do Decreto

5.099, de 24 de fevereiro de 1977, expressa no seu Art. 2 o que “A rua do Nordeste, citada no artigo anterior, passa a ser denominada de RUA MESTRE BIMBA. A rua tem o código 1096 com seu início na Rua Norte e término na Rua Leste no Bairro do Nordeste de Amaralina”.

Consta na justificativa do Decreto:

 

Considerando que o Sr. MANOEL DOS REIS MACHADO, conhecido como

Mestre Bimba, primeiro responsável pela oficialização da capoeira como

instrumento de educação física, por sua contribuição para o enriquecimento

do nosso folclore, é uma individualidade de indiscutível expressão, não só no

âmbito local como nacional.

 

O Shopping Iguatemi, uma das mais importantes instituições comerciais da Bahia, homenageou Bimba atribuindo uma placa com seu nome em uma das mais movimentadas alamedas internas.

A Prefeitura Municipal de Salvador mais uma vez homenageia Mestre Bimba com um obelisco em forma de berimbau, contendo insígnia de bronze com o rosto de Bimba; situada na Praça do Capoeirista, popularmente chamada de Praça Mestre Bimba, no final do bairro do Rio Vermelho e no início de Amaralina, precisamente no início da Av. Amaralina. Hoje, esse local é por demais frequentado por capoeiristas do mundo inteiro que vêm prestar sua singela homenagem. É comum os mestres de capoeira reunirem seus alunos e, ali, prestarem homenagens, realizando rodas de capoeira, fazendo a limpeza local e contando, em tom de aula, a história do grande mestre.

 

Figura 3 - Obelisco Mestre Bimba

 

A Universidade Federal da Bahia (UFBA) outorgou, no dia 12 de junho de 1996, o Título de Doutor Honoris Causa (post-mortem) a Manoel dos Reis Machado, Mestre Bimba, por reconhecer nele o valor de educador, uma personalidade baiana que extrapolando as rodas de capoeira contribuiu de maneira relevante para expandir, nos cenários nacional e internacional, a cultura baiana.

A solenidade foi celebrada no Auditório da Reitoria da UFBA, sendo incluída na programação do seu cinquentenário. Compuseram a mesa: Reitor Luiz Felippe Perret Serpa; Paulo Brandão, substituto eventual do Vice-Reitor; Iracy Picanço, Diretora da Faculdade de Educação; Dona Alice, esposa do Mestre Bimba; Helio José B. Carneiro de Campos (Mestre Xaréu), professor da FACED e proponente do doutorado honorífico e, ainda, Demerval S. Machado, Formiga, filho de Mestre Bimba.

Em agosto de 1996, a Câmara Municipal de Salvador concedeu a Mestre Bimba a Medalha Thomé de Souza, post-mortem, nos

termos da Resolução n o 1.291/96, de autoria dos vereadores Odiosvaldo Vigas e Pedro Godinho. A solenidade foi realizada no dia 19 de setembro, no Plenário Cosme de Farias. A saudação foi feita por Eraldo Moura Costa, Mestre Medicina, e recebeu a importante comenda, em nome da família, o filho Demerval dos Santos Machado, Formiga.

Recentemente, ou seja, no dia 8 de novembro de 2005, Mestre Bimba recebeu outra homenagem póstuma do Ministério da Cultura do Governo Brasileiro, intitulada Ordem do Mérito Cultural. Considerada uma das mais importantes condecorações do Governo Federal, essa insígnia honorífica foi instituída pelo Ministério da Cultura, em 1995, e tem a finalidade de tornar público o empenho de pessoas que se destacaram no desenvolvimento da cultura brasileira. Mestre Nenel, filho de Bimba, foi quem recebeu a insígnia na solenidade realizada no Palácio do Planalto, em Brasília, na presença do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva e do Ministro Gilberto Gil.

Figura 4 - Diploma de Doutor Honoris Causa da UFBA

 

Em homenagem ao centenário de Bimba, o Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros de Salvador (SETPS) criou, em dezembro de 1999, um vale-transporte de cor laranja, constando na frente a foto do mestre e no verso uma rápida biografia. Por certo, esta iniciativa popularizou ainda mais a imagem de Mestre Bimba e foi uma maneira de reconhecer e valorizar um homem do povo.

Figura 5 - Vale-transporte da SETPS

 

As homenagens póstumas consistem de biografias, literaturas de cordel e textos publicados em revistas especializadas. Nas biografias, chamamos a atenção para os livros: “Bimba: perfil do mestre” e “A saga do Mestre Bimba”, de Raimuindo César Alves de Almeida, Mestre Itapoan; “A herança de Mestre Bimba”, de Angelo A. Decanio Filho; “Mestre Bimba: a crônica da capoeiragem”, de Jair Moura; “Mestre Bimba: corpo de mandinga”, de Muniz Sodré; “Bimba é bamba: a capoeira no ringue”, de Frederico José de Abreu; e “Bimba, Pastinha e Besouro de Mangangá: três personagens da capoeira da Bahia”, de Antonio Liberac C. Simões Pires.

A coleção “Memórias da Bahia II Bimba o Rei Negro”, do Correio da Bahia, editado em 2003, teve como objetivo resgatar personalidades que tiveram papel preponderante na construção da história da Bahia e que marcaram, com sua presença, trabalho e legado, a cultura do nosso Estado.

O destaque dessa coleção vai para um grupo de jovens jornalistas premiados em concursos de reportagens promovidos por diversas entidades, que prima pela apuração séria das informações e pelo respeito à verdade histórica.

O Correio da Bahia iniciou sua abordagem aos grandes nomes da cultura baiana com o caderno dominical, Correio Repórter, no qual homenageou Mestre Bimba, no dia 14 de setembro de 2003.

Na literatura de cordel, o notável artista Bule-Bule diz que “Bimba espalhou a capoeira nas praças do mundo inteiro”, e nos seus versos ressalta a história do mestre:

Dizem que a árvore do bem

Tem galhos pra todo lado

Dá sombra pra todo mundo

O fruto é bem procurado

E dá produto excelente

Quando industrializado

Manoel dos Reis Machado

É nossa árvore do bem

Nosso grande Mestre Bimba

Nome que até hoje vem

Famoso na capoeira

Por não perder pra ninguém

Luiz Gonzaga foi rei

Cantando mulher rendeira

Pelé foi o rei da bola

Com meião e com chuteira

E Mestre Bimba sem dúvida

Foi o Rei da Capoeira

Adeus Planalto Goiano

Adeus Bahia altaneira

Adeus a Roça do Lobo

A Liberdade, a Ribeira

Adeus, adeus Mestre Bimba

Nosso Rei da capoeira

 

Vale salientar que praticamente todas as publicações, livros, monografias, dissertações e teses que tratam da capoeira acabam citando de alguma maneira o Mestre Bimba e a Capoeira Regional, e entendemos ser essa deferência uma consideração e o reconhecimento ao legado de Bimba.

Com a expansão da capoeira, vieram os negócios, principalmente o comércio de abadás, calças, camisas, cordéis, instrumentos, CD-Rom’s e DVD’s. Os grupos de capoeira e seus mestres passaram a produzir músicas e gravá-las, as quais retratam os velhos mestres e Bimba é um diferencial nesse contexto: ele é cantado em verso e prosa por todos os grupos de capoeira independentemente do seu estilo.

Mestre Camisa assim canta, em Mestre dos Mestres:

Manoel dos Reis Machado (bis)

Foi embora e nos deixou

Deus lhe ponha em bom lugar

Pois é merecedor

Foi o rei da capoeira

Foi ele quem me ensinou

Ele foi o Mestre dos Mestres

Meu Mestre que Deus levou

Se não joga mais na terra

Pode lá no céu jogar

Com Traíra e Besouro

Aberrê e Waldemar

Ele foi rei aqui na terra

E hoje é rei em outro lugar, Camará

Iê viva meu Mestre

Iê quem me ensinou

Iê a Capoeira

Iê dá volta ao mundo.

 

Mestre Bimba tem sido homenageado de outras maneiras. Recentemente, foi a vez do diretor Luiz Fernando Goulart e da Lúmen Produções de prestarem seu tributo através do filme de longa metragem (80 min.) Mestre Bimba: a capoeira iluminada, película inspirada no livro “Mestre Bimba: corpo de mandinga”, de autoria de Muniz Sodré. O filme é um documentário com característica biográfica, repleto de detalhes da trajetória de vida de Bimba. É emocionante.

O filme começa apontando para o sucesso. Tendo sido apresentado na XXXª Jornada Internacional de Cinema da Bahia, foi o único filme com lotação esgotada que mereceu uma sessão extra. No Festival do Rio 2005 e na Mostra de São Paulo, obteve o maior público em documentários, com três sessões esgotadas. Esses números mostram o interesse do povo brasileiro por filmes biográficos de personalidades brasileiras oriundas do ambiente cultural do país.

Um outro filme de relevância ímpar é o curta metragem Dança de Guerra, produzido e dirigido por Jair Moura, em 1969. A película tem como finalidade retratar o cerne da Capoeira Regional, mostrando Mestre Bimba no terreiro de candomblé de Mãe Alice, a roda de capoeira e seu ritual, o jogo da regional, Capoeira Angola, samba de roda e depoimentos de Bimba.