Capoeira Regional: a escola de Mestre Bimba
Histórias da academia de Mestre Bimba: o cotidiano da aprendizagem
Histórias da academia de
Mestre Bimba: o cotidiano da
aprendizagem
Mestre Bimba tinha uma maneira toda peculiar de tratar as situações inusitadas, os problemas que surgiam nas aulas, na academia e até durante as apresentações do seu grupo folclórico. Com um perfil muito austero, impunha respeito aos alunos, e sua palavra era uma ordem que deveria ser cumprida, sem muita demora.
Lembro-me perfeitamente quando as pessoas chegavam na academia para assistir as aulas: ele sentado no banco, de costas para a porta, no momento em que a aula acontecia, muitas vezes abria a porta para receber os visitantes. Logo perguntava, de forma direta: “você veio assistir à aula de Capoeira Regional?” Sem cerimônia, dizia o preço, literalmente, cobrava. Aparentemente, parecia tratar-se de um ato grosseiro, descabido, mas o mestre era um profissional da capoeira e fazia isso valer. Por esse motivo, garantia um lugar sentado para os visitantes.
Outra lembrança marcante era quando um de seus alunos chegava na aula acompanhado de uma garota. Bimba logo se apressava em perguntar quem era aquela “moça bonita”, que chamava de “tijubina”, sempre fazendo um gracejo elogioso à garota e deixando o aluno meio escabreado, porém orgulhoso. Naquele dia, este entrava na roda e fazia a coisa acontecer.
De uma certa feita, presenciei o mestre tirar satisfação de “Jiquié” (Ezequiel Martins) sobre um mal-entendido entre Eziquiel e Josevaldo Lima de Jesus (Sacy), que estavam ministrando aulas na Polícia Militar.
Estava na aula, na academia da Rua das Laranjeiras, quando entrou Eziquiel. O mestre prontamente se dirigiu a ele, fazendo algumas perguntas sobre o ocorrido. Não entendi bem o que estava acontecendo, contudo vi o mestre peitar Eziquiel, chegando muito próximo dele, praticamente peito a peito, corpo a corpo, encurralando Eziquiel contra a parede. O mestre parecia um gigante, enquanto Eziquiel ficava cada vez mais diminuto, pequeno. Depois de uma rápida discussão e dos pedidos de desculpa de Eziquiel, as coisas se acalmaram.
Sobre esse assunto, Sacy1 relatou que, num dia de domingo, estando na Praia da Boa Viagem, encontrou Eziquiel, uma pessoa com quem se relacionava muito bem, até mesmo por que ele ensinava capoeira no Clube dos Oficiais da Polícia Militar, e facultava a Eziquiel que participasse das aulas, mesmo sendo este apenas cabo. Nesse encontro, Eziquiel disse a Sacy: “o mestre está
retado2 com você”; ao que Sacy perguntou: “chateado comigo por quê?”; Eziquiel então respondeu: “porque você está dando aulas de
capoeira no Ginásio Acrópole 3”.
Sacy me informou que esse fato aconteceu em 1967, quando ele já dava aulas para Acordeon, numa academia que funcionava em sua casa, em Brotas, e, por vezes, o convidava para assumir aulas no Ginásio Acrópole.
Na conversa, Eziquiel voltou a afirmar para Sacy: “o mestre disse que não queria ver sua cara na academia”. Com essa assertiva, Sacy ficou muito preocupado, “pois a academia de Mestre Bimba era como se fosse sua própria casa”. Numa analogia, era a mesma coisa que seu pai o colocasse para fora de casa.
Logo o tempo mudou, mesmo acompanhado de sua namorada, aquele domingo ensolarado foi ficando escuro, parecendo um dia de chuva, carregado de nuvens, ruim de verdade. Sacy só tinha um pensamento: ir à academia e conversar com Bimba, para esclarecer tudo.
Na segunda-feira à tarde, Sacy foi à academia. “Fiquei embaixo, na barbearia, então o mestre chegou, todo desconfiado”. Sacy prontamente dirigiu-se a ele, cumprimentando-o com uma boa-tarde. O mestre respondeu-lhe prontamente, com um semblante alegre, mas mesmo assim ele ficou apreensivo, subiu rapidamente a escada, atrás de Bimba, pois estava receoso do mestre entrar na sala e não deixa-lo entrar. Na subida da escada, ele foi logo perguntando se o mestre estava aborrecido com ele, por estar ensinando capoeira no Ginásio Acrópole, e falou que foi Eziquiel que tinha lhe contado. O mestre o interpelou, dizendo que não sabia de nada, que não tinha falado nada com Eziquiel e findou o assunto. Sacy entrou na academia para participar da aula e treinou normalmente.
Eziquiel não demorou a chegar e foi cumprimentando o mestre que, imediatamente, levantou-se do banco em que sentava para tocar seu berimbau e comandar a aula, dirigindose a Eziquiel e dizendo: “Você disse o quê a Sacy? Eu nunca lhe disse nada, não sou homem de conversa rapaz, me respeite!”. Sacy ficou pensando que o mestre daria um galopante no seu aluno, mas não o fez, apenas pedindo que se retirasse da academia. Alguns dias mais tarde, Eziquiel voltou à academia e se desculpou, sendo imediatamente reintegrado às aulas.
Lembro-me perfeitamente da nossa viagem para Vitória do Espírito Santo com o grupo de apresentação de capoeira. Esse evento foi organizado por Medicina e teve toda uma preparação coordenada por Mestre Bimba, passando principalmente pela escolha dos alunos que o acompanhariam juntamente com todo o seu staff, as baianas e os tocadores. A viagem foi longa e chegamos cansados e famintos. Depois de alojados, fomos a um restaurante para jantar. Chegando lá, houve demora no atendimento e ninguém aguentava mais de fome. Então, o garçom se dirigiu a Bimba, perguntando-lhe o que desejava, ao que ele simplesmente respondeu: “Caixão e vela!”.
Esta resposta curta e direta chamou a atenção dos presentes. Eu, que estava sentado à sua frente, interpretei que o mestre mandava um recado, dizendo que precisava ser atendido com presteza. Percebi também que o mestre sempre estava consultando seu relógio; ele era pontual, exigia pontualidade e estava desgastado com a viagem.
Itapoan, falando dos acontecimentos inusitados ocorridos na academia de Bimba, lembra uma passagem em que Canhão, um dos alunos formados, estudante de medicina e famoso por seus golpes duros, dotado de muita flexibilidade, malvado e detentor de um famoso escorão, “se atracou com o carioca Hélio, foram ao chão e o Canhão utilizou-se de atitudes que o mestre não gostou; na tentativa de se livrar de Hélio ele deu uma mordida no braço deste e ao levantar-se aplicou um tremendo ‘galopante’ em um calouro que nada tinha com o que se passava” (2005, p. 144). Conta que imediatamente o mestre saiu em defesa do calouro e, indignado com a atitude de Canhão, um aluno formado, não contou conversa, expulsou-o da academia, a bem da disciplina. Os colegas, sentindo a situação, foram ao mestre pedir que ele reconsiderasse a penalidade imposta a Canhão. Bimba não queria saber, não queria falar no assunto: atitude tomada e fim de papo.
Depois de alguns dias, encontramos Canhão treinando na academia. Ipapoan relata que perguntou ao mestre. “O Canhão voltou?”. E Bimba debochadamente disse: “Olha Itapoan, o cara estuda medicina, vai que eu um dia eu precise tomar uma injeção e ele em vez de aplicar uma para viver aplica uma para matar. É melhor deixar o homem por aí”.
Canhão foi protagonista de alguns episódios, no mínimo estranhos. Certa feita, em uma apresentação no Sítio Caruano, no Nordeste de Amaralina, num ambiente repleto de turistas estrangeiros, com todo o elenco empolgado por isso, o mestre anunciou o Samba Duro. Este normalmente acontecia depois do Samba de Roda, no final das apresentações, na parte apoteótica do show, quando somente os homens participavam; o pandeiro dava o tom e os capoeiristas em duplas entravam na roda para sambar e derrubar o outro com uma rasteira. Para isso, o capoeira teria que sambar, fazer suas evoluções e distrair o outro usando da malandragem, enganando-o e, então, aplicando-lhe uma rasteira, fazendo o companheiro se estatelar no chão.
Itapoan, que participou inúmeras vezes do Samba Duro, considera que esta dança é só para homens e cita que a platéia vibrava muito com as rasteiras aplicadas pelos capoeiristas e as quedas sensacionais (1994, p. 72). Diz ainda que o mestre vibrava cantando:
Lê, lê, ô, Lê, lê, ô a turma de Bimba chegou
Lê, lê, ô, Lê, lê, ô a turma de Bimba chegou
A turma de Bimba chegou, pela mão do seu criadô
Lê, lê, ô, Lê, lê, ô a turma de Bimba chegou
A turma de Bimba chegou, trazendo seu criadô
Lê, lê, ô, Lê, lê, ô a turma de Bimba chegou
A dança tinha uma regra: somente poderia se aplicar rasteira, não valia em hipótese alguma utilizar outros golpes da capoeira. No momento apoteótico, todos os capoeiristas entravam na roda e “o couro comia”. Justamente nessa hora, Canhão desferiu uma violenta meia-lua de compasso que passou raspando na minha cabeça. Indignado retruquei na hora, o mestre viu, não gostou e não falou nada. Depois desse dia, nunca mais vi Canhão participando de apresentações no Grupo de Capoeira de Mestre Bimba.
Bimba tinha critérios rígidos para a escolha dos seus alunos que integravam o grupo de apresentações. Escolhia quem ele tinha mais confiança, quem fosse formado, quem tivesse experiência na capoeira, golpes bem definidos, capacidade de jogar uma capoeira floreada; quem fosse corajoso, apresentando uma boa cintura desprezada, uma bela iúna e tivesse a capacidade de impressionar o público com golpes diferentes, de efeito acrobático e que causassem suspense.
Uma vez perguntei ao mestre por que não convidava Fernão Dias Sampaio (Jagunço) e Tarcisio Pomponet (Capanga) para integrarem o elenco do grupo folclórico, ao que ele me disse que os dois eram bons capoeiristas, dos melhores, porém eram bastante duros no jogo da capoeira e não estavam prontos para participar de apresentações.
Mais uma vez recorro a Itapoan, sobre o caso de Camisa Roxa, um dos expoentes do CCFR, bom capoeirista, muito admirado e um exemplo de dedicação.
Fizeram uma fofoca contra o Mestre. Camisa Roxa quando soube foi falar
com o Mestre que não queria que ele treinasse mais na Academia. A uma
certa altura o Camisa falou: “Mestre, o senhor não é homem, me diga quem
foi que disse isso”. O Mestre entendeu que o Camisa Roxa estava dizendo
que ele não era homem e foi aquele drama. Nós alunos querendo explicar e
o Mestre irredutível, bateu as janelas, que estava fechando, e literalmente
expulsou o Camisa que a essa altura já chorava. Falamos com o Camisa que
ele voltasse outro dia pra conversar com o Mestre, pois naquela hora não
dava mais (sic) (2005, p. 145).
Itapoan cita que durante a semana os alunos se encarregaram de explicar a Bimba que houve um mal-entendido e que Camisa Roxa não quis, em hipótese alguma, ofender o mestre, uma pessoa que ele adorava. Mestre Bimba ouviu todas as explicações dos alunos e não esboçou nenhuma reação, ficando apenas calado.
Atendendo aos apelos dos colegas, num belo dia, Camisa Roxa, compareceu à academia; entrou, cumprimentou e todo cismado foi à janela. O mestre ficou impassível: não estava nem aí, não deu bola. O mestre deu andamento normal à aula e tocou iúna. Todos os formados jogaram e o mestre continuou tocando, chamando Camisa Roxa para o jogo, pois no toque da iúna os formados presentes têm obrigatoriedade de entrar na roda, jogar e fazer o esquete.
Itapoan conta que chamou Camisa Roxa e foi para o pé do berimbau. Camisa Roxa consentiu, entrou na roda e jogou sua iúna. O mestre, com essa atitude, sem falar nada, reintegrou Camisa, um dos seus alunos prediletos, à academia.
Outro fato marcante aconteceu comigo. Um dia, por volta das sete horas da manhã, meu pai subiu ao sótão da nossa casa do Rio Vermelho para me acordar, meio espantado, dizendo que Mestre Bimba estava a minha espera na sala de visitas. Imediatamente, dei um pulo da cama, desci as escadas correndo e me deparei com o mestre sentado na poltrona, com o seu costumeiro terno e guarda-chuva na mão. Falei “Oi mestre, o que o traz aqui tão cedo?” Ele prontamente respondeu que tinha acontecido um acidente com um dos seus alunos, Volta Grande, no treino da noite anterior. Muito constrangido e sensibilizado, falou que Volta Grande tinha morrido, que os alunos que estavam presentes, tinham prestado socorro e o levado para o pronto socorro, mas ele não resistiu e faleceu.
O mestre pediu-me, então, para levá-lo ao Necrotério Nina Rodrigues, para verificar pessoalmente o resultado da autópsia. Seguimos para lá e no caminho passamos na casa de Itapoan, na Avenida Princesa Izabel. Ao chegarmos, eu e Mestre Bimba ficamos no carro. Itapoan foi ver o resultado da autópsia, logo retornando e dizendo que Volta Grande tinha morrido de “edema pulmonar” proveniente de uma “hipertrofia cardíaca”.
Depois fomos informados por sua mãe, Brasiliana Valente, que ele tinha um problema cardíaco congênito e os médicos que o acompanhavam já haviam alertado sobre a gravidade da doença, informando também da pouca expectativa de vida. Por esse motivo, sua mãe resolveu criá-lo em plena liberdade: ele, um adolescente de 17 anos, deveria gozar o máximo da vida. Ele gostava de praticar esportes e amava deliberadamente a capoeira, se empenhava bastante nos treinamentos, apresentava um talento especial, um estilo próprio, muito elegante e cheio de vitalidade.
Com o prestígio e o carinho que gozava dos companheiros da academia, foi homenageado durante o seu enterro e Eraldo Moura Costa, “Medicina”, escreveu uma crônica, na revista Notícias Esportivas, intitulada “A última volta de ‘Volta Grande’”.
É muito comum o capoeirista da atualidade perguntar detalhes do Centro de Cultura Física Regional. São curiosidades fora do comum e que, na maioria das vezes, trazem à tona relatos de ex-alunos cheios de emoção. Muitos querem saber como era o traje de treinamento na academia de Mestre Bimba. A rigor, os alunos podiam treinar capoeira com qualquer roupa, era comum treinarem vestidos de short e camiseta, mas muitos preferiam usar somente o short e nus da cintura para cima.
Também, nós, alunos, sempre estávamos discutindo sobre o vestuário dos antigos capoeiristas, com argumentos baseados nas análises pictóricas das pranchas da “Viagem Pitoresca”, de Rugendas e Debret. Alguns colegas se fundamentavam nos indícios das vestimentas usadas pelos escravos em seu labor, tanto na zona urbana quanto na zona rural. Outros diziam, igualmente, que os capoeiristas se vestiam com ternos de linho branco, bem engomado, usados aos domingos para ir, em especial, às festas de largo.
Não sei de quem foi a idéia, mas possivelmente dos alunos de Bimba que participavam do seu grupo de apresentação: no grupo os capoeiristas usavam calças confeccionadas com pano de vela, sem braguilha, meia perna e amarradas na cintura por um cordão trançado branco.
Aos poucos, todos os alunos foram aderindo ao uso da calça, que era encomendada a D. Alice, esposa de Bimba que ficava com ele na academia. Alguns treinavam com camisetas e outros não. Após o treino, deixava-se a calça no vestiário e fazia-se a recomendação à D. Alice para lavá-la para o próximo treino. Nunca vi nenhuma reclamação sobre a lavagem ou mesmo troca. É preciso dizer que alguns alunos, especialmente os formados, que porventura assistiam à aula, muitas vezes de roupa social ou mesmo de paletó e gravata, pois saíam do trabalho e davam uma passadinha para ver a aula, invariavelmente jogavam iúna.
Itapoan, referindo-se ao relato do Dr. Ruy Gouveia, ex-aluno de Bimba, falecido aos 75 anos, cearense, médico formado pela Faculdade de Medicina localizada no Terreiro de Jesus, destaca pontos importantes para entendermos melhor a academia de Mestre Bimba e o próprio Bimba na figura de mestre educador (1994, p. 17).
Cita que Ruy Gouveia foi contemporâneo de Cisnando, Galba e Decânio, e embarcou nessa de capoeira através de Cisnando que, segundo ele, era um grande incentivador, uma espécie de contramestre.
Itapoan assim narra:
Dr. Ruy Gouveia conta que foi Cisnando quem motivou os estudantes: “Veio
tudo no rastro dele. Ele era uma espécie de Contra-Mestre, testava os
alunos. ele era brabo demais, ele já sabia um pouco de lutas e não sei mais
o que. Em 1935 o Galba e Deusimar, dois cearenses, me convidaram para ir
treinar, eu atendi e fui, lá num porão da casa do Galba, começamos lá, e eu
dei o primeiro treino fazendo a ginástica de cueca, não tinha nem calção
ainda. Bimba fazia aqueles exames, ficava em pé, baixe, suba, para poder
avaliar as condições dos músculos, das juntas, avaliava tudo! Ficamos com o
mestre, ele sempre mudando de casa. A primeira Academia foi na Roça do
Lobo, Tororó, descia ali, rua Bananal, 4. Você imagine que eu era tão vidrado
nesse negócio de Capoeira, que nesse tempo eu ia a pé, tinha bonde, tinha
tudo, mas eu era estudante pobre, não tinha dinheiro para ir e voltar. Ia a pé,
chegava lá a pé, e um detalhe, cansei de pedir dinheiro de volta ao Mestre:
Me dá um cruzado pra eu voltar de bonde!” (sic). (1994, p. 18).
Ruy Gouveia conta ainda que, certa vez, Mestre Bimba ficou doente e ele e Galba, então estudantes de medicina, davam uma atenção ao mestre, cuidavam dele e resolveram assumir as aulas, substituir o mestre naquela emergência; Gouveia dava aulas pela manhã e Galba pela tarde.
Gouveia ressalta que Mestre Bimba era uma pessoa muito grata, ficou preso a ele, ficou amigo e que certa feita fez uma surpresa visitando-o em seu consultório no Ceará.
Guardo boas lembranças das aulas de capoeira do horário das 14 horas, principalmente dos treinos arrojados, da conversa com o mestre e das amizades que fiz. Porém, não me esqueço das aulas em que estava presente “Filhote de Onça” (José Raimundo Borges de Azevedo), um capoeirista bastante respeitado na Capoeira Regional, não apenas por ser formado, mas, sobretudo, pelo seu porte físico: era muito forte, verdadeiro peso pesado, com seus mais de 100 kg e a agilidade de um felino.
Itapoan, em a “Saga de Mestre Bimba”, retrata o perfil de alguns bons capoeiristas que marcaram época na academia de Bimba, e descreve “Filhote de Onça” como “um capoeirista forte, brigador, brincalhão por excelência e que encarava qualquer capoeirista por mais técnico que fosse”. Diz ainda que “Filhote” era o que se podia chamar de “nada pra ninguém”, e que fazia par, constantemente, com Airton Neves Moura (Airton Onça), outro peso pesado (1994, p. 65).
Quando “Filhote” chegava para a aula, todos nós já sabíamos que existia a possibilidade de entrarmos na roda com ele, preparando nosso espírito para um jogo durissimo.
Na hora do esquenta-banho, “Filhote” constantemente fazia um desafio, no mínimo inusitado, pois se deitava no chão e convidava os presentes que tivessem coragem para segurá-lo. Era uma farra, segurávamos nas pernas, nos braços, nas costas e pescoço, depois falávamos: “pronto”. Ele não considerava, começava a se mexer, ficando escorregadio por causa do suor e dos portentosos músculos; ia tomando conta da situação, se levantando e, ao ficar de pé, todos corriam para se proteger; alguns eram simplesmente jogados contra a parede, tomavam rasteiras e, se bobeassem, levavam uma bênção e iam ver navios.
Todo esse movimento era um excelente treinamento de esperteza, acompanhado atentamente por Mestre Bimba que, bem-humorado comentava a façanha, gozava os perdedores e sempre aproveitava para dar algumas lições.
Já comentei sobre o samba duro nos shows folclóricos, agora falarei sobre o maculelê. O maculelê era um dos pontos altos do show, sempre estávamos treinando, especialmente nos dias de domingo, no Sítio Caruano. José Valmório Lacerda (Bolão), além de ser um bom capoeirista, assíduo frequentador da academia e peça importante nas apresentações folclóricas, quando tomava parte na capoeira, no samba duro e puxava o maculelê.
Para ser um integrante do grupo folclórico, além das qualidades já citadas anteriormente, o capoeira deveria dominar perfeitamente o
manejo das 4 grimas, ou seja, ter ritmo, coordenação e coragem.
Bolão, que era um grande puxador de maculelê, pela liderança, habilidade, descontração e criatividade, certa feita acertou em cheio meus dedos; reclamei, observando que era um iniciante e que deveria ter mais cuidado na hora de bater as grimas; ele, então, me respondeu que essa era uma maneira de batizar o novo integrante para ver se ele tinha coragem. Resisti às suas investidas, passei no teste e guardo de relíquia uma marca no dedo médio da mão direita.
Esses relatos têm o propósito de mostrar algumas facetas vividas na escola de Bimba e mostrar ainda o comportamento do mestre frente a algumas situações, para entendermos melhor o seu ato pedagógico.
Era muito comum e divertido escutar as aventuras dos nossos companheiros de academia; sempre estávamos escutando suas travessuras, brigas e desafios na sua maioria vitoriosos.
Mais uma vez, Itapoan, comentando sobre a esperteza de um dos mais afamados “malandros” da academia, assim se refere:
Salário Mínimo” (Dielson Oliveira), era o “malandro” da turma, morava em
Itapoã, assim como eu e Gia, e foi eu quem levou ambos para a Academia
do Mestre. Cheio de gírias, esperto, brigador de rua e excelente capoeirista,
apesar do tamanho reduzido o que lhe valeu o apelido. Muito querido pelo
Mestre, que inclusive certa vez o convidou para esconder-se em sua casa,
depois de uma briga que Salário teve com um Marinheiro, no bar do pai dele,
e a Marinha ficou procurando por ele por toda parte, porque ele deu um “vôo
de morcego” no tórax do marinheiro que entrou em coma (sic) (1994, p. 65).
A casa de Mestre Bimba ficava ao lado do espaço de eventos, no Sítio Caruano, no Nordeste de Amaralina, onde eram realizados os batizados, formaturas, campeonatos, ensaios, aulas especiais e shows folclóricos. O mestre eventualmente fazia um feijoada e convidava os alunos, tocadores e outros. Tive o privilégio de estar presente em uma dessas feijoadas regadas a capoeira e mulher
barbada5, com um detalhe muito particular: após ter saboreado a feijoada completa, com tudo a que se tem direito, comecei a suar
uma suadeira só e logo em seguida uma maresia6. Depois do merecido descanso, fomos todos curtir um boa roda de Capoeira Regional.
Na academia de Bimba, localizada na Rua das Laranjeiras, no 1, antigo Maciel de Cima, no Terreiro de Jesus, as aulas eram realizadas em vários horários, porém posso destacar que os horários das 6:00h e 7:00h da manhã eram destinados ao público, preferencialmente trabalhador, àqueles que faziam seus treinos e depois iam pegar no batente. No turmo vespertino, a maioria dos alunos era de estudantes e, a partir das 18:00h, treinava a elite de Mestre Bimba. Então, era comum os alunos formados migrarem sempre que possível para outros horários, a fim de conhecer, treinar e se confrontarem com outros capoeiristas.
Quando fui estudar para o vestibular, matriculei-me no Curso Águia que inicialmente funcionou em uma tranversal da Rua Chile, no Edifício Martins Catarino, e posteriormente na Ladeira de São Bento. Nesse período, passei a frequentar a academia no horário das 6:00h, juntamente com o amigo José Luiz Pinto (Gato Branco). Foi uma experiência gratificante: pudemos conviver e treinar com uma turma de capoeiristas bastante afiada, que pouco participava do esquenta-banho pois seu tempo era escasso. Minha amizade com Gato Branco se estreitou e como costumávamos virar as noites estudando, criamos uma maneira singular para despertar, além da pausa para o lanche, o café e a coca-cola, jogávamos capoeira, treinávamos a sequência em uma roda improvisada. Também desafiávamos Paulo Silva e Herval Macêdo, especialistas em judô e karatê.
Wilson Pires, médico e político conceituado na cidade de Teófilo Otoni, “Maxixe” na Capoeira Regional, formado na turma de 1959, afirma que aprendeu capoeira, como defesa pessoal, para se defender das brigas de rua e de desavenças no meio estudantil, em especial nas festas dos diretórios acadêmicos. Muito dedicado ao CCFR, não apenas treinava muito, como fazia parte do grupo folclórico de Mestre Bimba. Destacava-se, principalmente, por ser o orador, nos eventos, apresentando a Capoeira Regional para os espectadores. Por esses predicados, tornou-se muito próximo de Mestre Bimba, que o chamava também pelo cognome de “Mineiro”, por ser oriundo do Estado de Minas Gerais. Daí nasceu um especial interesse de Bimba em visitar Teófilo Otoni, levando todo o seu time da Capoeira Regional.
Maxixe conta que Mestre Bimba sempre lhe cobrava a excursão. “Mineiro tenho uma vontade danada de conhecer Minas Gerais! Espero que você ainda me leve lá” (PIRES, 2005, p. 95).
Em 1969, “Maxixe” cumpriu sua promessa, levando Mestre Bimba e toda a sua comitiva, capoeiristas, baianas e tocadores, para se apresentarem aos teofilotonenses, com o apoio decisivo do Rotary Club Norte. O show aconteceu no Cine Metrópole, totalmente lotado e, nessa oportunidade, “Mineiro” se realizou, fazendo a apresentação de Bimba e da sua Capoeira Regional para sua cidade e seu povo. A platéia ficou maravilhada, ao apreciar capoeira, samba de roda, samba duro e a figura imponente do comunicador e mestre de capoeira Bimba. “Foi um show, um espetáculo de tirar o chapéu”. Mestre Bimba reconhecendo o esforço de dedicação do seu aluno, chamou-o para encerrar a apresentação. “Mineiro, venha fazer a chave de ouro para mostrar a todos os mineiros o quê você aprendeu com seu mestre e com a Bahia!”. Dessa maneira, a Capoeira Regional foi apresentada aos teofilotonenses e logo Maxixe seria convidado para ministrar aulas de capoeira na Escola Pequeno Príncipe, conciliando essa atividade com o exercício da medicina. Mais tarde, juntamente com Werner Miglio, tornou-se o pioneiro, o primeiro a praticar capoeira na cidade de Teófilo Otoni, MG.