Capoeira Regional: a escola de Mestre Bimba

Hellio Campos · Capítulo 46 de 66

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Capoeira Regional: a escola de Mestre Bimba

Ensinando a gingar

O preconceito com a prática da capoeira na época e a figura emblemática de Bimba, inclusive por ser negro, resultavam numa certa apreensão dos jovens, futuros alunos e seus familiares, sobre os relacionamentos e os conteúdos educativos a serem conquistados. Talvez estes motivos sejam os principais geradores de tensão, quando da chegada à escola de Bimba. Chegar a um lugar desconhecido, passando por uma rua malcheirosa, sob os olhares das prostitutas, sentadas debochadamente na frente de suas casas em ruínas, feias e caindo aos pedaços, já era um “trauma de chegada”.

A academia de Mestre Bimba gozava de bom conceito na sociedade baiana, era falada pelos seus alunos, pela qualidade da capoeira ali jogada, das façanhas do mestre e dos seus alunos. Quando postos à prova, davam bem conta do recado.

Chegar ao CCFR acompanhado de um aluno mais antigo parece que trazia conforto, maior segurança, tranquilidade, maior confiança e era também uma referência importante para um bom inicio de curso.

Existem indicativos de que essas primeiras dificuldades eram compensadas pela boa impressão que tinham do Mestre Bimba, embora nem sempre sendo recebidos com cortesia especial e bem-humorada, mas, sobretudo, pela admiração de conhecer um homem austero, forte, decidido, claro nas suas exposições e que inspirava confiança.

 

Ensinando a gingar

O próximo passo era o ensino da ginga e para isso o mestre convidava o aluno novato ao centro da roda, frente a frente, pegava-o pelas mãos e ensinava primeiramente os movimentos das pernas e a colocação exata dos pés, para, em seguida, realizar o movimento em coordenação com os braços, agora soltos, fixando a

“guarda alta”.4 Esse momento era importantíssimo para o calouro, pois lhe proporcionava a aproximação e o toque do mestre, o que lhe transmitia segurança.

Sobre essa fase do aprendizado, Decanio (1996, p. 166-167) assim se refere:

 

…após a aprovação do Mestre e…

…num verdadeiro “exame de admissão”…

…verificação das juntas… do equilíbrio…

…deslocamento para trás …etc…

…o neófito era aceito sob o grau de CALOURO…

…e descansava no “bancu”!

…na próxima sessão recebia a aula inicial…

…o Mestre pegava pelas duas mãos do calouro…

…puxava a dança do gingado…

…em seguida abandonava as mãos do aluno…

…demonstrava a “guarda alta”…

…levando a mão até a fronte… sem cobrir os olhos!

…enquanto a outra descia para trás…

…em proteção ao flanco…

…mantendo o equilíbrio…

 

Cafuné retrata a primeira aula, dizendo que teve medo pela falta de confiança nele próprio, quiçá não fosse capaz de fazer os movimentos da capoeira. Então, “Mestre Bimba me convidou para ir ao meio da sala e ali ele pegou na minha mão, solicitando que fizesse o que ele fazia com todo mundo: queda de rim, para um lado e para o outro, cocorinha e depois a ginga”. Salienta que a particularidade do mestre em pegar na sua mão, lhe passou uma energia muito grande naquele momento, lhe transmitindo confiança instantânea.

Escurinho, descrevendo a sua primeira aula na academia, disse que frequentava a turma das seis horas da manhã, na qual participavam poucos alunos, aproximadamente oito, e um aluno mais antigo de nome Borba ensinou a ele os movimentos básicos da capoeira, os movimentos da sequência. Por praticar outros esportes, teve facilidade em aprender rapidamente os movimentos. Sobre seu exame de admissão, ressaltou, afirmando:

 

[…] o primeiro movimento que você fazia era a cocorinha, depois fez a queda

de rim para direita e esquerda, também de frente tocando os calcanhares

atrás, depois tinha que fazer o aú, para esquerda e direita e finalizava com o

deslocamento para trás com a ajuda de Mestre Bimba, que apóia a mão nas

costas (sic).

 

Medicina também comentou sua primeira aula, dizendo que foi “introspectiva e com receio”. Aquele “ambiente da academia, a presença do Sr. Manoel dos Reis Machado, da sua mulher Dona Alice, de alguns alunos já graduados e outros treinando, outros tocando berimbau, me davam a sensação de prazer interior e ao mesmo tempo me perguntava: como fui parar naquele espaço?”

Itapoan salienta que na primeira aula “Mestre Bimba com aquele hábito de segurar nas mãos do seu aluno, ele selava ali, uma parceria com você, que eu acho que não existe mais, essa parceria nos dias de hoje. Aquela arte de segurar a mão da gente ali, rapaz, filosoficamente até os caras falam assim, aquilo ali é pra te mostrar a volta que o mundo dá” (sic).

Galo, falando dos orientadores que norteiam sua vida, cita quatro personalidades: a primeira, seu pai, Manoel de Oliveira Figueiredo; a segunda, Prof. Edaumo Souza Couto, professor-orientador do mestrado na Universidade de Minas Gerais; a terceira, Prof. Mathews Stober, orientador do curso de doutorado na Alemanha; e a quarta, Manoel dos Reis Machado. Galo faz questão de frisar que todos eles têm sua importância singular, não necessariamente nesta ordem.

Sobre Mestre Bimba, ele chama a atenção que:

 

[…] não só ele pega na nossa mão, nos auxiliando nos primeiros passos,

mas não só os passos físicos, ele dá também a orientação dos passos, eu

diria até do equilíbrio emocional; transporta naquele momento uma energia

muito forte, que transmuta a Capoeira, auxiliando na vida e até o nosso

sucesso como pessoa. […] Na primeira aula, ele realmente…, o primeiro dia

é impressionante, quando o mestre em uma roda pega na sua mão, de frente

pra você, lhe olha fundo nos olhos que vai até o pé, depois sobe para a

cabeça, que lhe dá aquela emoção da responsabilidade diante daquele

homenzarrão e ele ali desce ao nível do discípulo, fazendo-o compreender

toda aquela energia, talvez ele, naquele momento, não estivesse nem

sabendo da sua força espiritual, do que estava transmitido aos seus alunos.

Esse para mim foi o primeiro impacto, ele mostra os passos, ele começa a

gingar na sua, naquele momento (sic).

 

Almeida cita que Acordeon — aluno conceituado de Bimba do final da década de 1950 — comenta o ato de ensinar do mestre, afirmando: “[…] ele era forte na alma, tinha uma faca no olhar que cortava a gente de cima a baixo quando estava a ensinar” (1994, p. 14). Essa asserção de Acordeon vem confirmar o momento mágico da primeira aula, do primeiro encontro com o mestre, o qual Galo explica que esse ato de Mestre Bimba, de pegar nas mãos do seu aluno, não finda ali, como algo instantâneo e rotineiro, mas se perpetua para a vida inteira, o que ele chama de “a arte de gingar com a vida”, tomando novos significados ao passar dos anos.

Não encontramos uma referência absoluta de que todos os alunos que entrassem na Academia de Mestre Bimba teriam a obrigatoriedade de passar pelos exames de admissão e pelo ensinamento da ginga com o apoio do mestre.

Geni conta que antes de entrar no CCFR já praticava Capoeira Angola e teve também uma experiência marcante na capoeira de rua. Idealizou praticar a Capoeira Regional, entretanto foi informado, por um dos alunos de Bimba, Eziquiel, que o mestre não aceitava alunos que tinham praticado com outros mestres.

Decidiu então procurar Tarzan, um aluno de Bimba, para o encaminhar até a academia. Tarzan sugeriu dar-lhe umas aulas, ensinar-lhe a sequência e a cintura desprezada. Depois o apresentou a Mestre Bimba, dizendo ser seu aluno. Geni disse que foi muito bem recebido por Bimba, que brincou com ele e perguntou se ele tinha coragem mesmo de aprender a Capoeira Regional. Geni afirmou que Mestre Bimba, por ele já ter sido iniciado na capoeira, pulou etapas do aprendizado. Teve, assim, contato com Bimba, mas não teve o privilégio de pegar nas suas mãos para aprender a gingar, justamente por ser ele um aluno de Tarzan. Como sua evolução foi rápida, devido à sua experiência com outras formas de lutas, teve a felicidade de ser batizado em pouco tempo por mim (Xaréu).

Bimba desenvolveu um método próprio para ensinar o aluno a gingar. O gingado é um movimento de jogo de corpo, num vaivém em círculos, com transferência constante de peso, ora na perna da frente e ora na perna de trás. Os braços tendem a acompanhar o balanço do corpo, com a função de guarnecer o tronco, se posicionando no plano frontal ligeiramente acima da linha dos olhos e protegendo também o rosto.

A sequência pedagógica desenvolvida por Bimba era bem simples e constava de três etapas: na primeira, o mestre desenhava um quadrado de 40 cm; na segunda, solicitava que colocasse os pés nos pontos A e B, segurava-o pelas mãos e solicitava que o aluno movimentasse os pés em diagonal até os pontos C e D.

Continuava segurando as mãos do aluno até sentir que o movimento ganhava qualidade de coordenação, ficava cada vez mais seguro, mais desenvolto, mais relaxado, então o mestre soltava as mãos e mostrava o posicionamento dos braços, até o ponto de deixar o discípulo gingando sozinho. Sempre chamava a atenção da coordenação perfeita, braço direito, perna esquerda e, braço esquerdo, perna direita, fazendo uma analogia com o movimento de andar. Aproveitava a oportunidade para contar uma anedota dizendo que nunca viu ninguém andar na coordenação desengonçada de braço direito, perna direita e braço esquerdo, perna esquerda. Fazia uma rápida imitação e todos presentes riam a valer.

 

Figura 7 - Quadrado para ensinar a gingar.

Figura 8 - O mestre segurando o aluno: primeiros passos.

 

 

Figura 9 - O mestre solta o aluno para gingar sozinho.