Capoeira Regional: a escola de Mestre Bimba
Mestre Bimba, o comunicador
A orquestra da Capoeira Regional é composta por um berimbau e dois pandeiros. Mestre Bimba justificava, dizendo que o berimbau é quem comanda o ritmo do jogo, e os jogadores precisam ouvir e sentir o seu som por inteiro para se encaixarem na roda e viverem o jogo na sua plenitude.
Mestre Bimba, o comunicador
Como já falamos anteriormente, Mestre Bimba era uma pessoa que não teve estudo formal, mal sabia escrever para garantir a própria assinatura nos documentos pessoais. Porém, era possuidor de um carisma e sabedoria ímpar.
Sempre me impressionou a maneira como Bimba se comunicava, quer seja com seus alunos, quer seja com estranhos, quer seja apresentando o show folclórico ou nas festas de batizado e formatura. Ele tinha um jeito próprio de se comunicar, era um homem da oralidade, parecia distinguir com clareza cada momento da sua interferência com pessoas ou grupos. Era de uma perspicácia sem igual, acompanhada do bom humor e extraordinariamente realista.
José Carlos Andrade Bittencourt (Mestre Vermelho) contava uma passagem muito interessante sobre um jogo de capoeira, entre Mestre Caiçara e Mestre Bimba. Dizia que, certa ocasião, num dia de formatura, Mestre Caiçara apareceu no Nordeste de Amaralina para desafiar Bimba. Caiçara era tirado a esperto, brigador e gostava de tulmultuar o ambiente. Era o seu jeito de ser.
Bimba se sentiu ofendido e mesmo desrespeitado com aquela atitude de Caiçara, um autêntico representante da Capoeira Angola. Os alunos ficaram em reboliço e queriam tirar satisfação daquele ato inconsequente do famoso capoeirista, todavia, Bimba disse que esperassem e tivessem calma. No final da formatura, Bimba convidou o “desafiante” para o pé-do-berimbau e, consequentemente, para entrar na roda. Logo na saída de “aú”, Bimba desferiu e acertou uma violenta “bênção” que atingiu o rosto do desafiante, partindo-lhe os lábios e o nariz. O brigador retrucou indagando: “que é isso mestre?” E Bimba, calmamente, respondeu, em alto e bom som, firme como uma pedra, seco, rasteiro e em tom sarcástico: “é pé”.
Este episódio retrata muito bem o realismo de Bimba, possivelmente uma maneira “pura” de comunicação, direta, convincente, oportuna e humorada, o que denota o caráter firme dos grandes homens.
Presenciei muitas apresentações do grupo folclórico de Mestre Bimba e ficava encantado observando a maneira singular com que o mestre se comunicava, despertando a atenção da platéia, muitas vezes de turistas estrangeiros, aos quais ele fazia delirar com o seu jeito de ser.
Bimba na sua maneira de comunicar aproximava as pessoas, transformando-as mutuamente, usando os signos no sentido de liberar cada um de si mesmo, e convidava a todos para compartilharem experiências, idéias e sentimentos.
Ele se comunicava de diversas maneiras: quando tocava o berimbau, cantando, tocando atabaque e falando diretamente com seu público. Para Dias, Bimba já operava vários recursos de comunicação: o contato com a imprensa, a oratória nos cerimoniais, os discursos, os convites de formatura, murais, quadros de avisos, fotos, recortes de jornais e quadros de formatura (1999, p. 28).
Internamente, o talento de comunicador se fazia notar. Nas aulas, as interferências eram providenciais, bem oportunas, pontuais, muitas vezes sinalizadas apenas com um olhar, uma palavra, um gracejo, o tom do berimbau ou mesmo um toque corporal. As histórias representavam uma faceta marcante nesse contexto, porque eram contadas, com desenvoltura, ar de mistério e realismo, atraindo especial atenção dos alunos. A comunicação de Bimba, portanto, confunde-se com sua própria vida e a experiência da oralidade.
Nas festas de batizado e formatura, apresentava-se imbuído de um ar de soberano, de líder, de contador de histórias fazendo gracejos com todos os presentes e interagindo facilmente com as pessoas sem deixar entrar na intimidade.
Certa feita, no final da década de 1960, durante a Olimpíada Baiana da Primavera, estava no grupo de Bimba, participando da apresentação no Ginásio Antonio Balbino, onde o mestre tinha sido convidado para fazer a abertura das competições do folclore. O ginásio estava lotado, fazia muito barulho e então Mestre Bimba pegou o microfone e começou a falar da sua Capoeira Regional, contando histórias. No mesmo instante, o silêncio se fez presente para ouvir Bimba que em seguida pegou o berimbau e chamou os alunos para uma roda, envolvendo aqueles 6.000 espectadores numa grande roda de capoeira, cantando e batendo palmas. Bimba conquistou aquela platéia e, no final do show, foi longamente ovacionado. Este episódio impressionou-me sobremaneira e, hoje, passados 40 anos, ainda reside claramente na minha memória.