Capoeira Regional: a escola de Mestre Bimba
Mestre Bimba e seus alunos: uma prática educativa
Mestre Bimba e seus alunos:
uma prática educativa
Iniciamos a abordagem da prática educativa de Mestre Bimba com algumas questões. Como podemos conceber o método utilizado por Mestre Bimba para alcançar seus objetivos? Quais os caminhos por ele trilhados, e as estratégias e técnicas empregadas? Quais os procedimentos de conduta e relacionamento com seus alunos?
Já dissemos anteriormente, que Mestre Bimba criou a Capoeira Regional, chamada também de “Luta Regional Baiana”, aproveitando-se dos seus conhecimentos da Capoeira Angola, adquiridos nos ensinamentos com seu mestre, o africano Bentinho, e do Batuque, na convivência com seu pai, Luiz Cândido Machado, batuqueiro famoso.
Pelo fato de recriar a capoeira e dar uma nova cara a essa arte-luta é que alguns autores o consideram como o mago da capoeiragem baiana, entendendo que Mestre Bimba, ao conceber a Capoeira Regional, estabelece uma ruptura com a capoeira então praticada, destacando-se entre os demais capoeiristas da época, passando a exercer uma liderança, sendo enaltecido como ídolo popular, confirmando o respeito nas rodas de capoeira, nas desavenças com a polícia e maestria no ensino de sua arte.
Esse acontecimento marca um período histórico, sendo lembrado pelos estudiosos como um rito de passagem, que distingue definitivamente uma nova era para a capoeira. Por esse motivo, Mestre Bimba se diferencia dos capoeiristas da época, tornando-se um líder, conquistando o poder e sendo reputado como um agente de mudanças, um autêntico herói afro-descendente e até mesmo considerado um rei negro. Através da sistematização da Capoeira Regional, Mestre Bimba suscitou uma nova abordagem pedagógica
da capoeira: montou academia1, estabeleceu aulas regulares, lições, livro didático, discos, cursos avançados, turmas de alunos com horários preestabelecidos e a metodologia do ensino, através dos exercícios, golpes, sequências, jogos diferenciados e grupo de apresentação.
Mestre Itapoan ressalta que a diferença entre Mestre Bimba e os outros capoeiristas da época está em Bimba ter criado um método de ensino, e não aleatoriamente: pesquisou os golpes, as esquivas e as defesas, e seu método desafia os tempos, resistindo até hoje a todos os modismos (1994, p. 61).
Na qualidade de aluno, participei de muitas conversas com Mestre Bimba, verdadeiras aulas teóricas sobre a Capoeira Regional e lembro-me perfeitamente dele mostrando alguns golpes, defesas e saídas que foram pesquisadas por ele. Tinha sempre argumentos coerentes para suas explicações, justamente por que estavam fundamentadas nas suas experiências investigativas, em outras palavras, balizadas por terem sido postas em prática.
Abreu diz que essa atitude pessoal de Bimba teve “consequências históricas de ordem coletiva: ao projetar-se socialmente projetou seu ofício” (1999, p. 26); deu uma nova conotação à arte de capoeirar, agora também na figura do mestre de capoeira, um professor com responsabilidade de passar seus conhecimentos para os alunos. E lembra que Bimba foi o primeiro a abrir um espaço para o ensino regular, uma academia, em 1932, no Engenho Velho de Brotas.
Depois das experiências de ensino da capoeira na Roça do Lobo, Bimba ministrou aulas em domicílios, para alunos de classes abastadas e políticos, tendo posteriormente uma experiência no Clube União em Apuros.
Figura 6 - Quadro referente à conclusão do curso de Capoeira
Regional. Fonte: “Mestre Bimba: a crônica da capoeiragem”, de Jair
Moura.
Na foto acima, apresentamos um quadro, focalizando a conclusão do curso de Capoeira Regional. Vemos Bimba, circundado pelo paraninfo Delfino e por Cisnando, em homenagem especial.
Em 1936, Clube de União, em Apuros, tinha como sede um
imóvel situado na Rua do Bângala, no 86. O proprietário era o Dr. Luiz Gonzaga Ferrer, um devotado amigo de Bimba, e genitor de Asclépios, distinto aluno do mestre. Segundo Jair Moura, é “imprescindível elucidar que o referido clube foi criado com o objetivo de manter disfarçadamente o ensino da capoeiragem, numa época em que campeavam as medidas repressivas das autoridades policiais, que visavam aniquilar ou erradicar a propagação dessa
luta”2.
No intuito de propagar o seu método de ensino, Bimba editou, na década de 1960, um livro didático intitulado “Curso de capoeira regional de mestre Bimba”, no qual consta o regulamento da academia e o método de ensino dividido em 14 lições. A sequência de ensino está contemplada em seis lições.
A primeira lição trata do gingado como a parte mais importante do aprendizado da capoeira; a segunda, enfoca a meia-lua de frente, armada, queda de cocorinha, negativa e saída de aú; a terceira, focaliza os dois martelos, armada, bênção e a saída de aú; a quarta lição (lição retrospectiva), sugere uma prática de jogo, ao som do berimbau, utilizando os movimentos já aprendidos; a quinta lição diz respeito aos dois godemes, galopante, arpão de cabeça e joelhada; a sexta lição destaca a meia-lua de compasso e sua defesa na queda de cocorinha; a sétima lição ensina o golpe desequilibrante da vingativa e a saída de rolê; na oitava lição são apresentados os golpes desequilibrantes da banda de costa, banda trançada e mais um golpe traumatizante, o asfixiante; na nona lição evidencia as rasteiras e suas principais variações; nas lições de número dez, onze e doze, Bimba ressalta o treinamento da cintura desprezada; na décima terceira, propõe o treinamento dos golpes ligado quebra -pescoço, do traumatizante bochecho e do de projeção, a cruz; e finaliza o seu método com a décima quarta lição, enfatizando a defesa contra as armas brancas. Apresenta também, uma sugestão de exercícios básicos e recomenda o treinamento completo, ou seja, o jogo de capoeira usando as músicas do seu disco que leva o mesmo nome.
Neste compêndio, a premissa metodológica sugere que os treinamentos sempre aconteçam em duplas, pois dessa maneira o aprendizado torna-se bem mais eficiente, porque exige que ambos alunos pratiquem juntos todos os movimentos sugeridos no livro.