Capoeira Regional: a escola de Mestre Bimba

Hellio Campos · Capítulo 21 de 66

Páginas do PDF

Capoeira Regional: a escola de Mestre Bimba

Capoeira regional: experiências universitárias

Capoeira regional: experiências

 

universitárias

 

As evidências nos levam a crer que a Capoeira Regional adentra o meio acadêmico, por iniciativa dos alunos de Mestre Bimba, sendo que o principal argumento sugere precipuamente a aproximação física entre a Faculdade de Medicina da Bahia, situada no Terreiro de Jesus, e a academia de Mestre Bimba, distante aproximadamente trezentos metros, localizada na rua do antigo Maciel de Cima, uma via de acesso ao Terreiro de Jesus, conhecida também como Centro de Cultura Física Regional, bem como a relação estreita entre seus alunos e a consequente incorporação de elementos acadêmicos à própria Capoeira Regional.

Outro aspecto relevante diz respeito diretamente a um estudante de medicina chamado Cisnando Lima que, apaixonado pelas artes marciais, logo que chegou a Salvador, percorreu as rodas de capoeira procurando um mestre para lhe ensinar a dança guerreira dos negros da Bahia.

De acordo com Decanio — colega e amigo de Cisnando —, o mesmo descobriu Mestre Bimba “numa roda de capoeira no Curuzú, a quem logo escolheu para ‘mestre’, impressionado pelas habilidades exibidas e pela técnica nitidamente superior à de todos os que tinha presenciado”. Decidido, submeteu-se aos testes de admissão aplicados por Bimba, demonstrando coragem e resistência, consideradas como a “única porta de entrada para a roda de Mestre Bimba” (1996, p. 111).

Cisnando foi o primeiro aluno branco pertencente a uma classe social abastada de Salvador a praticar a capoeira e também foi o principal interlocutor entre Mestre Bimba, a Capoeira Regional e a universidade.

Idealista, sonhador e com a impetuosidade de um jovem acadêmico, induziu Mestre Bimba a enriquecer a “Luta Regional Baiana”, a registrá-la, a introduzi-la na estrutura social da época, a adquirir o direito à liberdade de ensino, a fugir da marginalidade e a ganhar ares de cidadania, através da prática regulamentada.

Outro feito de Cisnando — e a verdadeira razão do seu empenho — foi o de divulgar a Capoeira Regional entre os seus colegas, companheiros de geração, e estreitar as relações entre a capoeira — uma prática marginalizada, discriminada — e a universidade, uma instituição que abriga a elite do povo brasileiro por ser considerada uma casa privilegiada dos saberes.

Apesar da capoeira ser considerada uma atividade à margem da sociedade, constatamos a sua presença, de alguma maneira, dentro das instituições de ensino — especialmente a universitária — consubstanciada pela sua prática espontânea e informal. Sabemos também, pelos informes de ex-alunos de Mestre Bimba, em especial daqueles que frequentaram a faculdade de medicina, que os mesmos incentivaram a prática da capoeira dentro dos muros da universidade, no sentido de mostrar aos seus colegas a sua arte de capoeirar.

Esses estudantes universitários, não apenas praticavam a capoeira, como organizavam grupos folclóricos com o intuito de se apresentarem nos mais variados eventos acadêmicos. Senna conta que “a capoeira tornou-se espetáculo folclórico através dos estudantes universitários baianos que praticavam a regional” (1990, p. 39). Afirma que a principal motivação era a de se apresentar em shows, com o objetivo de angariar fundos para as suas viagens acadêmicas, congressos, seminários e jogos universitários.

A capoeira foi ganhando, aos poucos, notoriedade, a ponto da sua recepção no meio acadêmico gozar de simpatia, em face do expressivo valor educativo e cultural. Por outro lado, existiu a preocupação dos mestres de capoeira para que a mesma não se engessasse academicamente, perdendo, assim, a sua autenticidade.

Edivaldo Boaventura, em matéria publicada no jornal A Tarde, em janeiro de 1988, “A baianização do currículo”, defende, sobremaneira, a aproximação curricular com a cultura, afirmando ser sempre uma preocupação dominante nos educadores. Diz mais: “a educação, para que seja realmente nacional, há de refletir valores, condicionamentos e ingredientes culturais”. Nesta matéria, destaca a importância da língua pátria e da introdução dos estudos africanos.

Em 16 de setembro de 1999, Edivaldo Boaventura volta à tona com a questão da capoeira e a universidade e, desta vez, em seu artigo “A capoeira de beca”, destaca suas múltiplas representações: capoeira como dança, arte, folclore, luta, esporte, lazer e filosofia de vida. Lembra ainda que “se a cultura é o fundamento do currículo, a Capoeira Regional centra-se no eixo do ensino da nossa educação física, como autêntica matéria, ministrada academicamente como disciplina e como atividade, com plena aceitação dos alunos”.

Revela que a capoeira foi criada pelo povo e que, caso seja sistematizada e trabalhada academicamente, será capaz de se integrar perfeitamente à universidade, formando, ao lado dos clássicos métodos da educação e da educação física, uma temática singular de estudo.

Em outra matéria publicada também no jornal A Tarde, no dia 28 de setembro de 2000, ressalta a recepção e as boas-vindas da universidade à capoeira, considerando o seu valor educacional e cultural. Dá ênfase à “aproximação pedagógica e antropológica da capoeira, como disciplina acadêmica” e incentiva o apoio acadêmico.

 

Percebe-se que a Capoeira está inserida e devidamente integrada nas

universidades brasileiras. Está presente das mais variadas formas,

primeiramente de maneira totalmente informal, para depois ser

consubstanciada dentro dos currículos, especialmente nos cursos de

Educação Física como uma disciplina desportiva, detentora de forte apelo

social e cultural.

 

As primeiras manifestações a favor da capoeira no currículo dos cursos universitários aconteceram na Bahia. Inicialmente, inserida no programa curricular do Programa de Melhoria de Ensino Nacional (PREMEM), do Ministério da Educação e Cultura, desenvolvido pela Faculdade de Educação da Universidade Federal da Bahia em 1971.

O PREMEM foi um programa emergencial criado para atender às demandas do ensino de primeiro grau das escolas polivalentes. A capoeira integrou as atividades da disciplina educação física, atendendo a um total de 657 alunos, divididos em grupos por faixa etária. O objetivo da disciplina era o de favorecer uma sociabilidade que permitisse suavizar a carga de estudo a que se encontravam submetidos os estudantes. O caráter relaxante e descontraído foi um marco da disciplina.

 

As atividades propostas foram a Ginástica, Voleibol, Futebol de Salão,

Basquetebol, Handebol, Atletismo e Natação. A capoeira entrou no contexto

pela via da Ginástica sendo ministrada por Mestre Xaréu e Mestre Itapoan. O

programa constou basicamente sobre a Capoeira Regional fundamentada

nos ensinamentos e metodologia aplicada por Mestre Bimba no Centro de

Cultura Física Regional. As aulas foram ministradas nas dependências da

Vila Olímpica da Bahia até dezembro de 1973.

 

A segunda manifestação favorável à capoeira foi a do Curso Superior de Educação Física, da Universidade Católica de Salvador, quando da reforma curricular em 1982, introduzindo definitivamente a capoeira como disciplina obrigatória, com uma carga horária de 60h, sendo convidado para assumir a cadeira o Professor Josevaldo Lima de Jesus (Mestre Sacy), formado pela Academia de Mestre Bimba.

Nesse período já se discutia de maneira tímida a possibilidade da inserção da capoeira como disciplina curricular, desejo especialmente dos alunos de Mestre Bimba, que tinham se aventurado a ensinar capoeira em outros estados brasileiros.

Vale registrar a presença dos alunos de Mestre Bimba nas universidades baianas, sempre engajados nos diretórios acadêmicos, associações atléticas e na Federação Universitária de Esportes. Como líderes, fomentavam a prática da capoeira em todos os segmentos, ora ministrando aulas avulsas, ora organizando grupos folclóricos, ora levando para dentro das universidades apresentações e ora discutindo-a em várias esferas.

No Estado do Rio de Janeiro, encontramos ótimas experiências com a capoeira inserida em várias faculdades e universidades, remontando à década de 1970, o que representa um pioneirismo nesse tipo de atividade.

Coube ao Grupo Senzala, em 1972, desenvolver os primeiros trabalhos desse gênero, quando o grupo teve acesso ao curso de engenharia da antiga Universidade do Estado da Guanabara (UEG), atualmente a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).

Nesse ano, relata o Prof. Augusto José Fascio Lopes1 (Mestre Anzol), alunas do curso de direito reivindicaram o direito de praticarem a capoeira dentro do programa da prática desportiva obrigatória e que, a princípio, houve desconfiança do reitor, até certa resistência, pois o mesmo tinha dúvidas de que as alunas pudessem participar, sem comprometimento físico e psicológico, das aulas de capoeira. Sendo as dúvidas devidamente esclarecidas, o curso transcorreu sem maiores problemas.

O Estado do Rio de Janeiro sempre se pautou por ser um pólo importante de capoeira. Soares, reportando-se ao século XIX, evidencia a chegada da Família Real ao Brasil, em 1808, e a Abdicação do primeiro imperador, em 1831, lembrando que a capoeira era o “flagelo” das autoridades competentes em manter a ordem no Império. Distingue a época que chamou de crítica durante a formação do Estado nacional, já que “como expressão combativa da massa escrava negro-africana, que monopolizava o trabalho na cidade, a capoeira foi canal expressivo da resistência escrava, e por isso vítima permanente da violência senhorial e policial” (1994, p. 7). Cita Adolfo Morales de Los Rios Filho — cuja obra trata do Rio de Janeiro à época imperial — que apresenta significativas e meritórias observações sobre a origem dos capoeiristas, chamando a atenção pela primeira vez das consequências da escravidão urbana como o provável berço da capoeira. Os escravos urbanos adeptos da capoeiragem trabalhavam essencialmente como pretos de ganho, carregadores de toda ordem, serviçais, vendedores, mariscadores, peixeiros e pescadores.

A capoeira do Rio de Janeiro se expressa pelas maltas de capoeira, o que Soares intitula de “unidade fundamental da atuação dos praticantes de capoeiragem”. Tais unidades ou grupos eram formados por até cem indivíduos, sendo a “malta uma forma associativa de resistência mais comum entre escravos e homens livres pobres no Rio de Janeiro da segunda metade do século XIX”.

Esses grupos aos poucos foram se organizando, a ponto de se

constituírem em duas “nações”: a dos “guaiamus” 2 3 e a dos “nagôs”,

que mantinham uma rivalidade severa, permanecendo quase todo tempo em guerra entre si.

Soares, narrando a violência nas festas populares e religiosas na cidade e outros encontros, em função de novas tradições criadas pelo Estado Imperial, ressalta que “eram oportunidades que as maltas não perdiam de exibir suas habilidades públicas, ou resolver contendas que, não raro, degeneravam em tumultuados conflitos que o poder policial raramente conseguia coibir” (1994, p. 72).

Historicamente, a capoeiragem do Rio de Janeiro torna-se singular não apenas pelas maltas — os Nagôas e os Guaiamus — mas, também, pelos famosos capoeiristas de outrora e pela capoeira diferenciada do presente.

Assim, o Rio de Janeiro tem se constituído como uma referência na arte de capoeirar, principalmente pelos numerosos grupos de capoeira, pelos campeonatos universitários, pelos megaeventos e pela inserção da capoeira em muitos projetos universitários. Podemos citar algumas experiências nas universidades Estácio de Sá, Gama Filho, Castelo Branco, Bennett, UERJ, Federal Rural e Federal do Rio de Janeiro, as quais contemplam a capoeira nos seus currículos e através de projetos de prática desportiva, extensão e pesquisa.

Outro aspecto importante é que aos poucos a educação física foi se apropriando da capoeira como uma disciplina interessante para complementar o currículo de formação profissional. A justificativa recai, principalmente, sobre o valor educacional e cultural da capoeira, ou seja, um esporte autenticamente brasileiro que pode ser contemplado de várias maneiras. César Augustus Barbieri, em sua tese de doutorado “O que a escola faz com o que o povo cria: até a capoeira entrou na dança!”, defendida na Universidade de São Carlos, em 2003, observa que:

 

Em todos os períodos, tradicionalmente estabelecidos pelos estudiosos da

história desse processo de construção de nossa formação social,

encontramos, de uma forma ou de outra, direta ou indiretamente, registros

de interpretação que indicam a rica e complexa polissemia que caracteriza

as diversas interpretações sobre “o que é” a Capoeira.

 

Barbieri aprofunda mais a questão na tentativa de entender o fenômeno capoeira, recorrendo a Heidegger, baseado no conceito de dasein, entendido pelo processo ser-no-mundo. Ele se refere aos vários sentidos atribuídos à capoeira em épocas diferentes, os quais vão se modificando ao “longo dos anos (ou melhor, dos séculos), perdendo sua força e ficando quase que esquecidos; outros revigorando-se e quase sobrepujando os demais, tornandose uma referência; e, ainda, outros tantos novos sentidos surgindo, a cada dia que passa, como é possível ao abordar-se as diversas interpretações desse fenômeno”.

Continuando em sua busca para compreender o fenômeno capoeira, agora pela visão dialético-fenomenológica da relação homem-mundo-fenômeno, Barbieri também mira a concepção materialista-dialética da realidade e diz fazer-se “necessário que sejam considerados os diversos sentidos atribuídos à capoeira, tais como luta, dança, arma, brinquedo, defesa pessoal, atividade criminosa, arte, jogo, esporte, arte marcial, terapia, educação física e movimento político social”.

Outras universidades brasileiras têm despontado com trabalhos singulares sobre a capoeira, contemplando sua prática em formas diferenciadas de entendimento, mas valorizando principalmente os aspectos histórico, esportivo, social, educacional e cultural.

Na atualidade, a capoeira tem se consolidado nos cursos de educação física de todo o território brasileiro. No meu entendimento, o que favoreceu sobremaneira essa inserção nos currículos, além do reconhecimento do seu valor educacional e cultural, do esforço pessoal de mestres de capoeira e professores de educação física,

foi a abertura singular conferida pela Resolução no 3, de 16/6/1987, do Conselho Federal de Educação, que trata da formação dos profissionais de educação física, bacharéis ou licenciados. Em seu

Art. 3o o , relativo ao Conhecimento Técnico, o inciso 2 estabelece:

 

Que cada Instituição de Ensino Superior (IES) partindo dessas outras áreas

elaborará o elenco de disciplinas da parte da formação geral do currículo

pleno, considerando as peculiaridades de cada região e os perfis

profissionais desejados (Bacharelado e/ou Licenciatura Plena).

 

A abertura estabelecida pela Resolução 03 veio em boa hora, justamente quando a educação física passava por uma “crise” de identidade, cuja discussão iniciou-se de forma mais veemente durante o “IIº Congresso Brasileiro de Esporte para Todos”, em 1984. Nessa oportunidade, foi elaborada a “Carta de Belo Horizonte”, enfocando a necessidade de reformulação curricular visando à concepção de um novo profissional de educação física que pudesse atender aos anseios da população brasileira.

Depois de publicada a Resolução 03/87, todos os cursos de educação física tiveram um período para adequação dos seus currículos, o que facilitou, no nosso entender, a inclusão da disciplina capoeira, ora como disciplina de caráter obrigatório, ora como disciplina opcional de aprofundamento, ora como disciplina eletiva.

A inserção da capoeira nas faculdades e universidades nem sempre ocorreu de forma amistosa; em muitas ocasiões, os professores que defendiam a inclusão da capoeira no currículo tiveram verdadeiros embates com seus pares, no sentido de justificar e mostrar a relevância da capoeira como disciplina para a formação do profissional de educação física. E nesse esforço aconteceram fatos curiosos, que relatamos em seguida.

No IPA4, a capoeira foi introduzida de maneira inusitada, até

mesmo como desafio, conta o Prof. Carson Siega 5, atual professor da disciplina capoeira.

Carson conta que, quando aluno do curso de educação física do IPA, em 1981, participava no intervalo das aulas de rodas de capoeira organizadas pelos alunos que já tinham uma vivência do jogo quando:

 

Certa vez, durante uma roda, no intervalo das aulas, onde todos se divertiam

com uma capoeira em “alto astral”, chegou um funcionário do IPA, a mando

do reitor, ordenando que a roda terminasse, pois essa atividade havia sido

proibida dentro da instituição.

Intrigado com o acontecido, Carson procurou desvendar o mistério da proibição e chegou à informação de que a capoeira era proibida na instituição por ser a mesma praticada por “desordeiros”, “politiqueiros de esquerda” e até “drogados”.

Por meio de um trabalho voluntário começou, juntamente com um

colega, a ministrar aulas de capoeira na ESEF6, sendo em seguida convidado pelo reitor para fundar um grupo de capoeira, com a finalidade de atender aos alunos de 1º, 2º, e 3º graus da instituição. O grupo funcionava em caráter de programa de extensão universitária, trabalho que rendeu bons frutos, pois a capoeira passou a ser vista como uma atividade de importância vital na educação dos jovens gaúchos.

Com a reforma curricular, a disciplina capoeira foi devidamente contemplada, sendo feito, posteriormente, um concurso para a cadeira, no qual o Prof. Carson Siega teve a oportunidade de lograr aprovação, estando atualmente ministrando a disciplina no sétimo semestre, com um programa bem peculiar, envolvendo os fundamentos da capoeira.

Em recente conversa com o Prof. Carson Siega, soube que numa adequação curricular a disciplina capoeira foi transformada em uma disciplina de lutas, porém o conteúdo da capoeira continua no bojo do programa.

Na USP7 8 , a capoeira está presente principalmente no CPUSP,

como disciplina obrigatória para atender à prática desportiva e aos cursos de extensão dirigidos, especialmente, à comunidade infanto-juvenil. Também está inserida como disciplina de caráter obrigatório na grade curricular do curso de Educação Física. Outro projeto atende às faculdades de Farmácia, Química, Arquitetura, Politécnica, Psicologia, Educação Física, sindicatos dos funcionários, Conjunto de Moradores da CPUSP e Instituto de Pesquisas Tecnológicas, através de professores de capoeira devidamente contratados pelos centros acadêmicos.

Importante registrar a presença da capoeira em outros campi e faculdades: campi de Bauru, São Carlos, Ribeirão Preto e Pirassununga. Nas faculdades de San Remo, Engenharia Mauá, Anhembi e, ainda, nas universidades Mackenzie, São Judas Tadeu, Unicamp, UNESP (de Rio Claro), Unicastelo, Mogi das Cruzes e Santo André.

A rigor, encontramos professores de educação física e capoeiristas atuando junto às comunidades universitárias de modo geral.

O processo de aproximação da capoeira das universidades paulistas foi acontecendo gradativamente pela oportunidade que as academias de capoeira tiveram de participar de eventos diversos, a convite dos alunos universitários ou mesmo dos diretores dos centros acadêmicos.

Na atualidade, é difícil enumerar e possivelmente listar todos os cursos de educação física que contemplam a disciplina capoeira, contudo vale registrar que existem trabalhos bem expressivos.

No Estado da Bahia — considerado o berço da capoeiragem — praticamente todos os cursos de educação física conferem à disciplina tratamento especial, incluindo-a no currículo em caráter obrigatório. Essa deferência deve-se à valorização de uma manifestação afro-descendente, amparada pelo substrato cultural e popular, e bem aceita pelos estudantes.

Na Escola de Educação Física da Universidade Católica do Salvador, a disciplina Capoeira Desportiva é de caráter obrigatório, sendo ministrada no sexto semestre com um enfoque mais desportivo, como disse o Prof. Josevaldo Lima de Jesus (Mestre

Sacy)9, que afirma: “trato ela não apenas como capoeira luta, capoeira folclore somente, mas também como atividade de competição, um desporto, com suas regras, com as suas vantagens e apreciação das qualidades físicas”. Ele cita que teve dificuldades na ocasião da implementação da disciplina por ser a primeira experiência brasileira e, portanto, não tinha referências para a elaboração do programa do curso e, por isso, baseou-se na metodologia adotada por Bimba para o ensino da Capoeira Regional; revela, ainda, que contou com a decisiva ajuda do professor Evilásio Rodrigues.

Na atualidade, a disciplina EDF 383 — Capoeira Desportiva — tem uma carga horária de 60 horas, 3 créditos e não tem pré-requisitos, sendo desenvolvida com seguinte ementa:

Origem e desenvolvimento da capoeira, aspectos filosóficos, antropológicos

e educacionais desportivos, música e instrumentos, sequências, jogos,

elaboração de eventos (formativos e lúdicos), aspectos técnicos e táticos,

métodos de treinamento e regulamento técnico (competições e arbitragens).

 

O Curso de Licenciatura em Educação Física da Universidade Federal da Bahia, que está lotado na Faculdade de Educação, valoriza bem a capoeira sob vários aspectos: (a) como disciplina inserida no currículo em dois momentos, o primeiro como disciplina obrigatória e o segundo como disciplina optativa; (b) através da Atividade Curricular em Comunidade (ACC) e também em eventos diversos (seminários, debates, grupos de estudo, apresentações etc.).

Já a disciplina EDC 238 — Capoeira I — conta com carga horária de 60 horas e se baseia em uma ementa que enaltece o estudo de abordagens históricas e conceituais da capoeira como um todo:

 

Estudo de abordagens históricas e conceituais sobre Capoeira. A herança

das danças, lutas e jogos como construção de identidade étnica e cultural

africano-brasileira. Aspectos históricos, filosóficos, técnicos e sócio-culturais

da Capoeira Angola. Fundamentos básicos da Capoeira Angola. Processos

de reelaboração da Capoeira na Bahia. A Capoeira Regional, suas

referências históricas, filosóficas e técnicas. Estudo biográfico dos principais

representantes da Capoeira na Bahia.

 

A disciplina EDC 239 — Capoeira II — tem uma carga horária maior, ou seja, de 75 horas, justificada por ser uma disciplina optativa e de aprofundamento. Sua ementa sugere um enfoque mais reflexivo e investigativo sobre a problemática da capoeira:

 

Estudo da problemática da Capoeira no contexto baiano e brasileiro. Crise

identitária e o surgimento de segmentos e diferentes escolas com seus

processos metodológicos de ensino. Desenvolvimento dos fundamentos da

Capoeira. Produção de conhecimentos refletindo sobre questões atuais que

envolvem a Capoeira e suas dimensões, considerando necessidades e

interesses do aluno e da turma.

 

Por outro lado, o Programa de Pós-graduação em Educação também confere seu valor à capoeira, ao autorizar, em 2000, o funcionamento da disciplina Educação, Cultura e Capoeira, ministrada como Tópico Especial em Educação, o que constituiu uma iniciativa inédita e bem-sucedida, marcando sobremodo a inclusão da capoeira como tema a ser discutido academicamente. Além do mais, tem aumentado significativamente o número de candidatos inscritos nos cursos de mestrado e doutorado que apresentam projetos sobre a temática da capoeira, indicando, assim, um interesse singular.

Podemos destacar, ainda, na UFBA, outras iniciativas, a exemplo das escolas de Dança e de Teatro e da Faculdade de Ciências Humanas, que têm incentivado muitos projetos de extensão e pesquisa nessa área.

A rigor, a UFBA tem despontado como uma universidade que reconhece o valor educativo e cultural das manifestações culturais e populares do povo baiano, principalmente admitindo a importância da interação da academia junto às manifestações advindas historicamente do povo.

A outorga do título de Doutor Honoris Causa (post-mortem) a Manoel dos Reis Machado (Mestre Bimba) torna patente a atenção que a UFBA tem destinado a projetos dessa natureza. Recentemente, foi aprovado pelo Departamento de Educação Física, da Faculdade de Educação, um projeto para conferir, também, o título de Doutor Honoris Causa a João Pereira dos Santos (Mestre João Pequeno).

Muitas são as universidades brasileiras que tratam do fenômeno capoeira como um objeto de estudo importante. Na sua maioria, iniciando seus estudos nos cursos de graduação em educação física para, daí, criarem uma motivação particular com a finalidade de aprofundamento dos conhecimentos através dos projetos de pesquisa e extensão.

Encontramos referências nas seguintes instituições de ensino superior: Universidade Federal de Minas Gerais, Universidade Estadual de Maringá, Universidade Federal de Santa Catarina, Universidade Federal de Brasília, Universidade Estadual de Campinas, Universidade Gama Filho, Universidade Federal de Sergipe, Universidade de Santa Cruz do Sul, Universidade Federal de Pernambuco, Universidade Rural de Pernambuco, Universidade Estadual de Feira de Santana, Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Universidade Federal do Piauí e tantas outras.

A “Revista Capoeira: Arte e Luta Brasileira”, Ano II, nº 10 traz, nesta edição, a cobertura completa do Iº Festival Ford Universitário de Capoeira, evento que foi uma realização da própria revista. O festival aconteceu em São Bernardo do Campo (SP), em 2000, contando com a participação de dezoito faculdades e universidades.

A matéria mostra o interesse dos universitários por esse tipo de evento, que congregou 250 atletas disputando as seguintes modalidades: individual (masculino e feminino) e por equipe. A platéia foi de aproximadamente três mil animados espectadores e o evento teve a parceria da Federação Universitária Paulista de Esportes (FUPE) e o patrocínio da Ford do Brasil. Ainda contou com o decisivo apoio do Governo do Estado de São Paulo, Secretaria de Esportes e Turismo da Prefeitura e importantes empresas privadas.

Sobre o acontecimento, Luiz Renato Vieira, professor da Universidade de Brasília e mestre de capoeira, assim declarou:

 

Eventos dessa natureza, nesse padrão de organização, seriedade e ao

mesmo tempo amizade e descontração, são excelentes para a capoeira, pois

a colocam no patamar merecido sem “burocratizar”. Ao contrário, aproximam

as pessoas, constroem amizades e elevam a nossa luta.

 

Nas nossas observações não temos visto muitos encontros destinados ao público universitário brasileiro, o que exprime uma carência no fomento à prática esportiva nas instituições do ensino superior brasileiro.

Outras iniciativas que valem registro neste trabalho referem-se aos cursos de pós-graduação na área específica da capoeira. A primeira ação incomum nesta direção foi organizada pela Universidade de Brasília (UnB), através do “Curso de Especialização em Capoeira na Escola” (lato sensu), com carga horária de 375 horas. Realizado no período de 1º de setembro de 1997 a 30 de junho de 1998, contou com a seguinte grade de disciplinas:

Tabela 1 - Grade Curricular do Curso de Especialização em

Capoeira na Escola, da UnB

História da Capoeira Capoeira na Fundamentos

Escola Pedagógicos

da Educação

Física Escolar

 

Metodologia Didática do Ensino Fundamentos Aplicada à Capoeira Superior Sóciofilosóficos

I da Capoeira

 

Cultura e Expressão Organização e Tradição/Rituais da Corporal em Normatização Capoeira Capoeira da Capoeira

 

Metodologia da Metodologia Fundamentos Pesquisa Aplicada à Técnicos da

Capoeira II Capoeira

 

Processos de Fundamentos Bases Morfo-Ensinoaprendizagem Musicais e fisiológicas da de Habilidades Instrumentação da Prática da Motoras na Capoeira Capoeira Capoeira

 

Seminário de Elaboração de Monografia/Projeto Monografia/Projeto

 

O segundo, foi o curso sequencial “Curso de Nível Superior em Capoeira”, idealizado pela Universidade Gama Filho (UGF), com uma carga horária total de 460 horas e um sugestivo elenco de disciplinas expresso na tabela a seguir: