Capoeira Regional: a escola de Mestre Bimba

Hellio Campos · Capítulo 26 de 66

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Capoeira Regional: a escola de Mestre Bimba

As lições de sabedoria de Bimba

Essa festa marcou definitivamente a despedida de Mestre Bimba da Bahia. Na ocasião, Bimba formou sua última turma de capoeiristas em Salvador. Os formados foram Paulo Roberto M. Ramos (Chicharro), Manoel Tourinho de Santana (Durinho), Eusébio Lobo da Silva (Pavão) e Lindoufo (Papa Vento) e o orador foi o próprio Vermelho, acompanhado dos paraninfos: Itapoan e Eziquiel.

Sobre essa inusitada formatura, Itapoan assim fala:

 

Nesta formatura todos viram que o Mestre não estava como de costume, sua

alegria tão espontânea nestes dias não se fazia presente. Bimba tentava

esconder a tristeza, disfarçá-la em brincadeiras com seus alunos, mas não

conseguia, a tristeza estava estampada em seus olhos, parecia que estava

faltando alguma coisa. Para o Mestre, aquilo não era uma simples formatura,

uma festa, porém o Adeus à Bahia [grifo nosso] (1994, p. 107).

 

Estive presente neste evento que a princípio parecia ser igual a tantos outros dos quais eu estava acostumado a participar, mas existia algo diferente, posso dizer sombrio: nós estávamos ali, naquela festa, nos despedindo de Bimba e do convívio salutar dos capoeiristas da Regional, de uma família irmanada na capoeiragem de Bimba.

Ouvimos comentários de que o Rei da Capoeira deixou as lágrimas rolarem lentamente em sua face, justificando o que sempre falava: dizia não estar deixando a Bahia por ser uma terra ruim, mas por que precisava sobreviver, pois sua decisão de ir embora era prioritariamente por finanças. Disse mais ainda, “se não gozar nada de Goiás, vou gozar no cemitério”.

 

As lições de sabedoria de Bimba

Constantemente, encontramos os alunos de Mestre Bimba falando das boas lições que marcaram a sua convivência com o mestre e a experiência vivida no Centro de Cultura Física Regional.

Esses relatos são acompanhados de histórias, de emoção, de sentimento positivo e de crescimento pessoal. São testemunhos de suas vidas, ora bem-humoradas, ora de dificuldades vividas, ora de súbitas decisões. Na sua maioria, são histórias ocorridas no cotidiano e invariavelmente aventureiras.

Muniz Sodré, um dos afamados alunos de Bimba, que marcou época na academia não apenas pelo seu estilo de jogo, mas principalmente pela capacidade intelectual, foi batizado e é conhecido no meio capoeirístico por “Americano”. Referindo-se a sua experiência na capoeiragem Regional, assim afirma: “Do curso na academia de Mestre Bimba, de todo aquele período, ficaram-me lições “salomônicas”, dessas que se guardam para toda vida” (2002, p. 70). Ressalta ainda que “a primeira foi dada pela experiência de ver conviverem democraticamente em um mesmo espaço (de certo modo, semelhante à boa escola pública, aquela idealizada por Anísio Teixeira) rico e pobre, claro e escuro, como já disse antes, gente de elite e gente da plebe”.

Um momento de muita significância, guardada na memória de cada aluno de Mestre Bimba é aquele da primeira aula, quando Bimba chamava o aluno ao centro da roda para ensinar-lhe a gingar. De frente, segurava o aluno pelas mãos e dava os primeiros passos

da ginga. Luciano Figueiredo (Galo)8 disse: “o mestre me ensinou a gingar para jogar Capoeira, mas continuo gingando até hoje, pois aprendi daquela lição a arte de gingar com a vida”.

Este ensinamento extrapola o espaço físico da roda de capoeira, ele remete o aluno ao espaço cósmico do entendimento das coisas do mundo. O gingar representa estar em constante movimento circular, de comportamento fluido e relaxado. A ginga é pessoal e permite que o capoeirista se desloque em esquivas, em vários ângulos, visualizando a roda como um todo, com um olhar periférico. Esse parece ser um comportamento sábio para viver melhor no mundo contemporâneo no sentido da convivência humana e dos desafios incessantes.

No ritual de formatura, o mestre se apresentava alegre, bem-humorado, descontraído e aproveitava essa oportunidade para dar conselhos aos seus formandos:

 

Olha, meus filhos, quando vocês estiverem andando na rua pela madrugada

fiquem atentos, não dobrem a esquina junto à parede, dobrem pelo meio da

rua, pois o malandro pode estar esperando do outro lado; não passem

debaixo de árvore polpuda, pode ter alguém escondido na árvore lhe

esperando com um paralelepípedo; se alguém lhe convidar para dormir na

casa de desconhecido, durma de barriga para cima, um olho aberto e outro

fechado, contando as telhas até de manhã; não demonstre para seus amigos

e colegas fora da capoeira seus progressos; é muito melhor apanhar na roda

do que apanhar na rua; quando for brigar com alguém não diga que vai bater

nele, se aproxime conversando fiado quando estiver bem junto bata primeiro

e certo; correr também é golpe; em lugares públicos não sente de costa para

a entrada, não fique de bobeira para a surpresa, mantenha o olhar vigilante;

e vale mais um aluno regular treinado do que um excelente capoeirista fora

de forma.

 

Decanio, falando sobre o que aprendeu com Bimba, ou melhor, através das suas parábolas, lembra-se de uma lição importantíssima: “ficar em cima das molas”, ou seja, estar sempre atento, pronto mesmo para enfrentar o imprevisto (1996, p. 64).

Mestre Itapoan conta que certa vez presenciou um jornalista entrevistando Bimba e ficou surpreso quando ele encostou uma caneta na boca do mestre e perguntou incisivamente “se isso fosse um revólver, qual a saída que o senhor daria?” Os alunos presentes ficaram atônitos esperando “aquela saída”, “uma espetacular esquiva acompanhada de um salto mortal e um contragolpe fatal”, porém, o mestre na sua sabedoria, simplesmente respondeu “morria meu filho” (1994, p. 74). A moral da história se iguala aos dizeres de Bimba: “ter coragem é uma coisa, ser burro é outra”. Essa era uma forma particular de Bimba mostrar aos seus que, estando em desvantagem em uma determinada situação, é melhor refletir e efetuar uma “retirada estratégica” do que perecer.

Uma história hilariante foi publicada em A Tarde, no dia 10 de agosto de 1936. A nota refere-se a Mestre Bimba dizendo “não ser fácil pegar um capoeirista”, e frisando ainda que Bimba “livrou-se da agressão com ‘cabeçadas’ e ‘rabos de arraia’”. Decanio, nomeou tal episódio de “A cilada da ladeira da Vila América”, famosa ladeira que liga o Engenho Velho à Av. Vasco da Gama, atualmente uma das principais vias de transbordo da cidade de Salvador (1996, p. 70). A notícia, veiculada no em A Tarde, menciona a ida de Mestre Bimba à Redação, com a finalidade de esclarecer a agressão que sofreu por um grupo se soldados da Polícia, chefiado por um guarda da Inspetoria conhecido pelo vulgo “Barra-Preta”, quando praticavam desatino, agredindo um rapaz, sem motivo declarado. Por sair em defesa do rapaz, Bimba foi injuriado, contudo conseguiu sair ileso justamente por ter se defendido usando da capoeiragem.

Bimba afirmou na Redação que o grupo estava embriagado e avançou contra ele, que se protegeu correndo até uma ribanceira onde ficou acuado. Sem saída, o mestre dominou o chefe jogando-o despenhadeiro abaixo, os outros soldados, ao verem o seu comandante caído, logo correram ao seu encalço para ajudá-lo. O comentário que corre até os dias de hoje é que Mestre Bimba derrotou, numa briga, um batalhão de Polícia. Foi uma vitória da esperteza, da sagacidade, da habilidade capoeirística e da genialidade de Bimba.

Mais uma vez Itapoan (1994, p. 67), Decanio (1996, p. 70) e Sodré (2001, p. 72) chamam a atenção para as lições de Bimba, considerando que ele costumava transmitir conhecimentos para seus alunos por meio de aforismos.

Bimba tinha uma prontidão sempre bem-humorada para expressar o pensamento moral, possivelmente uma virtude pessoal. Atento aos comentários ou acontecimentos dentro do seu espaço pedagógico, estava constantemente declamando seus ditados em momentos oportunos: “O lutador e o instante é que fazem a luta; importante não é a velocidade é o golpe de vista; não gosto de junta mole demais; a fruta só dá no tempo; bananeira não dá caju; se conhece o bom capoeirista pela ginga; se ele se julgar um bom apenas com a Formatura, está perdido; vamos s’imbora, quem marcou o pior não se engana; capoeira também se aprende de oitiva; e quem quer aprender a costurar tem que se furar na agulha” — apenas para citar alguns.

A rigor, Mestre Bimba baseava seus ensinamentos no universo da realidade vivida por ele, nos acontecimentos do seu dia-a-dia: em uma época em que as pessoas costumavam andar a noite por ruas mal iluminadas e quando não existia transporte em todos os horários, principalmente os noturnos, em que os bondes e as