Capoeira Regional: a escola de Mestre Bimba

Hellio Campos · Capítulo 25 de 66

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Capoeira Regional: a escola de Mestre Bimba

Mestre bimba e a difusão da Capoeira Regional

Mestre Bimba foi privilegiado por seu corpo forte: homem alto e de grande envergadura, preparado psicologicamente para os embates e grandes desafios, um tipo atlético que chamava a atenção. Pires diz que “essa foi uma condição pessoal imprescindível para que ele pudesse colocar a capoeira no campo de combate com outras lutas” (2002, p. 41).

Bimba tinha consciência do que fazia. Nos desafios de rinque, abdicou do lado lúdico da capoeiragem, dispensando o urucungo (berimbau) e o pandeiro e fazendo valer o lado agonístico, a técnica e as qualidades físicas. Dizia existir um espaço privilegiado para apresentar a Capoeira Regional como arte e manifestação cultural.

 

Mestre bimba e a difusão da Capoeira

 

Regional

 

Consciente do seu projeto para a Capoeira Regional, Mestre Bimba sabia que precisava partir para divulgar a sua criação, a Luta Regional Baiana, e não mediu esforços; queria mostrá-la ao público, queria alcançar os rincões mais distantes e algumas vezes repetia, com firmeza, que criou a Capoeira Regional para o mundo. Mestre

Itapoan 6 afirmou que, por diversas vezes, ouviu Bimba dizer que não criou a Capoeira Regional para ele, mas para o mundo, o que ele achava uma asserção meio megalomaníaca, mas hoje reconhece que o mestre tinha um ideal firme e pensava lá na frente.

O mestre tinha clareza do objetivo de fortalecer a Capoeira Regional, ou a “Luta Regional Baiana”, aproveitando o espaço das lutas marciais, provocando outros lutadores, não importando a modalidade ou estilo, pois tinha confiança na sua potencialidade e numa estratégia que podia ser considerada perfeita para a época: apresentar seu produto, sua criação, sua arte, num local digno de repercussão, como o Parque Odeon, na Praça da Sé, local de muita visibilidade.

Muitas vezes tive a oportunidade de ouvir as histórias do mestre. Depois das aulas, ele gostava de encostar-se à janela, fumando seu charuto, quando colocava o pé apoiado no parapeito para que a perna ficasse confortavelmente mais alta, o que era uma recomendação médica por conta do inchaço constante na perna, decorrente de uma erisipela. Nós, alunos, nos reuníamos sentados no chão e, fascinados, ouvíamos as suas histórias. Entre elas, uma que denota o esforço do mestre para promover a sua invenção. Dizia ele que, em 1918, fez uma vaquinha com seus alunos para juntar sete tostões, preço que foi pago à polícia para obter uma licença especial para fazer uma demonstração do jogo da capoeira.

A partir daí, Bimba empreendeu cada vez mais a sua arte e passou a figurar constantemente nos noticiários dos principais jornais da época. Para Dias, “Bimba tinha a percepção do ambiente midiático: foco das atenções, imaginário coletivo, meio de difusão”. Salienta, ainda, que a primeira fase de difusão da “Luta Regional Baiana” foi baseada na arte marcial que era um grande chamariz” (1999, p. 23). Posso acrescentar, fundamentado nas entrevistas e documentos, que Bimba sempre esteve atento para apresentar, também, a capoeira como um componente cultural.

A reportagem publicada no Diário da Bahia, em 13 de maio de 1936, afirma “ser Maré, e não Bimba, o campeão de capoeira da Bahia”. Bimba refuta as alegações de Samuel de Souza, configuradas no Imparcial, de 12 de março do mesmo ano: “Não resta dúvida de que o Bimba é forte e ágil, porém é exagero chamá-lo de campeão baiano de capoeiragem, pois merecidamente cabe ao Maré esse título”. E segue dizendo que a capoeira introduzida por Bimba no Parque Odeon não é a legítima de Angola, pois a mesma para ser praticada necessita do acompanhamento dos instrumentos: berimbau e pandeiro. Bimba logo se prontifica a lutar pela posse da almejada faixa. Nessa mesma reportagem, ele responde às provocações, dizendo:

 

Não me abracei ao título de Campeão, como se este fosse propriedade

minha, entretanto penso que mais merecidamente ficará elle commigo que

com meu companheiro de esporte Maré, uma vez que pelos jornaes desafiei

a todos os capoeiristas deste Estado e somente subiu ao “ring” o valoroso

adversário Henrique Bahia que consegui derrotar ante numerosa assistência.

Maré, como merecedor do título máximo, deveria apparecer naquella época

e não agora no noticiário posterior. Resta porém esclarecer o seguinte: A

capoeira d’Angola apenas poderá servir para demonstrações rithmadas e

não para lucta em que a força caracterizará a violência e a agilidade a

victória. Ao som do Berimbau e o Pandeiro não podem medir forças dois

capoeiras que tentem a posse de uma faixa de campeão, e isto se poderá

constatar em centros mais adiantados, onde a capoeira assume aspecto de

sensação e cartaz. (sic).

 

A rigor, Mestre Bimba enfatiza a sua criação, a Capoeira Regional, como capaz de preparar lutadores para enfrentarem desafios nos ringues, reforçando que a Capoeira Angola não serve para encontros onde o atributo que rege é a violência. Ao mesmo tempo destaca veementemente a questão cultural, certificando que, ao som do berimbau e do pandeiro, os capoeiristas não poderiam medir forças, pois a capoeira revela um aspecto sensacional, ou seja, de apresentação. E mais: diz estar disposto a mostrar, ao som do berimbau e do pandeiro, o quanto também é bamba.

Nessa trajetória de afirmação, podemos salientar a preocupação de Bimba com os componentes culturais, a cada investida aproveitando os espaços que vão surgindo — muitos deles provocados pelos seus alunos, especialmente os universitários, os estudantes de medicina —, e nos quais ele vai se constituindo num autêntico representante da resistência negra, num defensor e propagador das manifestações culturais.

Na sua ida para Goiânia, em 1972, em uma visita para avaliar as condições que estavam lhe oferecendo, dá o seguinte depoimento:

 

O que me traz aqui ao Estado de Goiás, motivo este de suspender conforme

já está divulgado pelo professor que é aluno meu chamado Osvaldo Souza,

de maneira que não deixei minha terra por ser uma terra ruim, sim vim, por

motivo de finança, quer dizer que aqui em Goiânia eu achei mais apoio do

que na minha própria terra, vim ao Estado, motivo que pretendo conseguir

essa escola da Capoeira Regional junto ao professor Osvaldo e também

todo folclore que existe na Bahia eu tenho vontade de botar aqui em Goiânia

(grifo nosso). (sic).

Neste depoimento, podemos observar o interesse marcante de Mestre Bimba com as manifestações culturais da Bahia. Nas suas apresentações, existia praticamente um show completo em que a capoeira era a grande motivação, seguida do samba de roda, maculelê, dança dos orixás, candomblé e samba duro. Outro destaque do seu interesse era a exigência que um aluno explicasse durante o evento a história da capoeira.

Na década de 1930, Bimba passa a ser notícia nos jornais, a exemplo do jornal A tarde, de 3 de dezembro de 1934, cuja reportagem fala do Festival Beneficente da Casa dos Mendigos, realizado no Estádio de Brotas, em que o mestre presta uma homenagem. No Diário da Bahia, em 28 de janeiro de 1936, Bimba lança um desafio aos capoeiristas baianos; já, no jornal A Tarde, de 16 de março de 1936, o título anuncia: “Mestre Bimba, campeão na capoeira, desafia todos os luctadores bahianos”.

Com as suas vitórias no ringue, o noticiário é inevitável e o Diário de Notícias, de 7 de fevereiro de 1936, traz o título: “O esporte nacional: no Parque Odeon, o capoeirista Bimba venceu seu forte adversário Henrique Bahia”; descreve os lances belíssimos e que o público vibrou muito: “Venceu o Bimba, que foi muito aplaudido pela assistência”.

No Imparcial, de 7 de fevereiro de 1936, lê-se que “A noitada esportiva no ‘Stadium’ Odeon: Mestre Bimba demonstrou sua ótima ‘performance’ derrotando o não menos valoroso Henrique Bahia, antes de findar o primeiro round”. A luta contra Henrique Bahia foi um sucesso, o que proporcionou muitos comentários, a exemplo do que o Estado da Bahia, de 7 de fevereiro de 1936, publicou: “Bimba é Bamba”, considerando a ovação que teve Bimba ao subir no tablado com seu adversário Henrique Bahia; ressalta, ainda, a presença, na primeira fila, de cidadãos norte-americanos conhecedores do “boxe” que, impressionados, mostraram-se interessados em conhecer melhor as “letras” do desporto nacional. O jornal diz que “depois de vários minutos de jogo, cadenciado, cheio de passes e agilidade e contorções felinas, o ‘Mestre Bimba’ projetou, em grande estilo, o seu adversário ao chão, sob aplausos calorosos, com um pontapé no peito”.

As notícias publicadas nos jornais Estado da Bahia, de 23 de março de 1936, e A Tarde, de 24 de março de 1936, tratam sobre a luta de Bimba contra Vitor H.U., na qual este acabou se retirando, alegando que Bimba tinha posto em prática um jogo proibido, que tinha usado um “sopapo galopante”, golpe da “Luta Regional Bahiana”, o que Vitor chamou de ilícito. No entanto, o jornal A Tarde defende Bimba das acusações, publicando a cláusula do contrato com o seguinte teor: “O Sr. Victor Benedicto Lopes está disposto a lutar com o Sr. Manoel Dos Reis Machado, no dia 22 do corrente, a valer tudo e de acordo com o jogo do Sr. Manoel Dos Reis Machado”.

Dá para perceber que Mestre Bimba, na verdade, partiu para a briga e estava decidido a impor a sua Capoeira Regional, estava jogando no jogo do vale tudo para conquistar seu espaço, resistindo às pressões do ringue e, para isso, lutava não apenas contra adversários, mas, principalmente, contra os preconceitos e os estigmas de uma sociedade.

Em 1º de julho de 1936, o jornal A Tarde dá destaque a uma reportagem contendo a foto de Mestre Bimba, com a seguinte legenda: “Mestre Bimba, famoso praxista da capoeira, numa demonstração de sua especialidade com alguns discípulos. Mal colocada entre os números comemorativos no Dois de Julho, este ano, a capoeira, lamentavelmente, fará parte do programa cívico”. A participação de Bimba demonstrando a sua Capoeira Regional na

maior data cívica da Bahia 7 representava, de alguma forma, o reconhecimento dos poderes públicos, era uma aceitação, era uma alforria para a capoeira.

No entanto, Abreu assim se expressa sobre a matéria:

 

O protesto partia de um jornal, que neste mesmo ano (1936), por mais de

uma vez, já havia feito referências elogiosas ao mestre Bimba, que,

inclusive, havia se exibido para o então deputado Simões Filho, fundador

desse periódico. Considerando o relato do cronista Melo Moraes, o 2 de julho

era (ainda é) uma festa popular: na sua véspera “a criolada e a mulataria,

aos mangotes, cantando modinhas, patrióticas e em serenatas locais

desfrutavam à noite prelibando os prazeres da festança”. Neste clima

parecido com os das tradicionais festas de largo da Bahia, mesmo na época,

caberia naturalmente uma roda de capoeira. Na verdade, no protesto d’A

tarde estava implícita a nova feição do preconceito racial das elites baianas,

atualizada em função das conquistas sociais obtidas pelos negros, pós-

abolicionismo (1999, p. 31).

 

Esse “reconhecimento” dos poderes públicos representa muito mais uma tolerância e a concordância da livre prática das manifestações culturais de origem negra, desde que plenamente vigiada e em espaços sociais previamente determinados pelas elites estabelecidas.

Sobre o fato, Abreu diz que “quando o negro atravessava essas marcas” era considerado um intruso, um invasor, o que mostra claramente o preconceito da herança da escravidão.

Diante do acontecimento e das ponderações de Abreu, deduzo que o protesto de A Tarde se consubstanciou fundamentado no convite especial que teve Mestre Bimba para apresentar sua capoeira, o que não era de costume. Normalmente, a roda de capoeira era formada “espontaneamente”, totalmente à margem da programação oficial, da maneira como acontecia nas festas populares. O que causou indignação foi a inserção de Mestre Bimba na programação, inclusive com destaque artístico e apresentação em coreto construído para tal fim. Através dessa apresentação, Bimba consumava um novo espaço para a capoeira.

As aparições de Bimba na mídia continuam firmes na década de 1940, demonstrando sua perseverança na busca da sua idealização, o que Moura intitula de “abnegação e força de vontade”: “indiscutivelmente um pioneiro, um batalhador obstinado e incansável, apesar do descaso, da falta de colaboração dos poderes públicos em ajudá-lo, incentivando, amparando os seus esforços, para a concretização do seu objetivo”. Moura também afirma que Bimba idealizava a “fundação de um ginásio típico, específico, que seria uma arena, um palco de mestrado, de aprendizagem e de exibições capoeirísticas” (1993, p. 27).

Nesta citação de Moura dá para perceber a visão empreendedora de Bimba que não se contentava apenas com as suas demonstrações nos tablados de lutas, queria muito mais, queria um centro de estudos, de apresentações e de cultura.

Destacaremos a seguir algumas reportagens, a primeira em Saga – Magazine das Américas, Salvador, Agosto de 1944. O texto traz informações sobre a roda de capoeira na “Roça do Lobo”, tendo como protagonista Mestre Bimba enfrentado um negro forte e saindo-se vencedor depois de “lances maravilhosos”. A segunda é um artigo publicado no Ebony Magazin, USA, em janeiro de 1946: “Capoeira is potente weapon against brazilian muggers”, que fala da “capoeira como uma atividade imbatível no combate a salteadores e batedores”. Diz, ainda, que as armas de fogo são muito caras e por esse motivo as pessoas utilizam as facas e navalhas. Chama a atenção para os alunos de Bimba: “os alunos de Bimba aprendem um rápido contra-ataque e podem manejar uma navalha tão bem com os dedos dos pés como com as mãos”. Comenta a agilidade do capoeirista e suas defesas e ataques. Justifica-se este comentário, pois Bimba também ensinava seus alunos a se defenderem dos diversos tipos de armas.

Em muitas ocasiões, o mestre se apresentava acompanhado de seus alunos, a exemplo de alguns desafios e lutas na década de 1930 e nas apresentações públicas. O jornal A Tarde, de 7 de fevereiro de 1946, publicou uma reportagem “A Luta Regional não é meio de cavação”, que discorre sobre a visita de Bimba, acompanhado de dois dos seus discípulos àquela instituição:

 

“Mestre Bimba” atendido pelo repórter disse que desejava dar ao público

esclarecimentos acerca de sua luta, que vem constituindo desde vários anos,

verdadeira ponta de lança para quantos pugilistas que aqui têm aparecido. A

preocupação máxima desses profissionais é desafiar os praticantes e alunos

da Regional que são, em esmagadora maioria, pessoas da nossa sociedade,

inclusive médicos, engenheiros, advogados e estudantes. Todos esses

rapazes, disse-nos “Mestre Bimba”, têm responsabilidades e não vão, de um

momento para outro, ser atirados contra profissionais de “ring”. Até porque a

minha luta foi criada como um meio, com golpes extremos, para a defesa

pessoal e manutenção da integridade dos que a conhecem.

 

Ainda nesta reportagem, Bimba diz que seu aluno Rosendo está apto a lutar contra qualquer adversário e mais uma vez lembra que ele vive do seu trabalho e por isso pode e tem o direito de fazer qualquer exigência.

Esta reportagem teve outro forte motivo, o de Mestre Bimba colocar ponto final a uma certa desqualificação da Capoeira Regional, exortada pelo Sr. Jaime Ferreira. O mestre assim se pronunciou: “que sobre as amabilidades que o Sr. Jaime Ferreira vinha tecendo ao seu Centro de Cultura Física Regional, ele não dava nenhuma importância, pois a Regional era muito mais conhecida na Bahia do que o ‘nobre’ atacante, como vencedor de campeão brasileiro de luta- livre, técnico em jiu-jitsu, bailarino e artista”. E, dessa maneira, foi colocado um ponto final nesse embate.

Nessa década, Bimba empreendeu excursões, especialmente aos estados de São Paulo e Rio de Janeiro, levando seus alunos e a Capoeira Regional para mostrá-los a quem quer que fosse.

Tudo começou quando Garrido, um dos famosos alunos de Mestre Bimba, conheceu um cantor paulista chamado Batista de Souza, que fazia uma turnê artística em Salvador (no Cabaré Tabarís) e o levou para treinar no CCFR. Daí surgiu a idéia de levar a Capoeira Regional para São Paulo. O plano foi levado a Bimba que logo o aprovou.

Acertados os detalhes, a viagem aconteceu no dia quatro de dezembro de 1948, no navio Itapé, da Companhia Costeira do Brasil. O navio quebrou e teve que aportar no Rio de Janeiro para fazer os reparos necessários. O conserto teve a duração de nove dias, tempo suficiente para passeios e contatos na cidade maravilhosa.

Seguiram viagem para São Paulo e aportaram em Santos. Depois, o grupo foi conduzido à Academia Brasileira de Pugilismo, localizada na Barra Funda, de propriedade de Kid Jofre, pai do campeoníssimo Eder Jofre, o “Galo de Ouro”. Santos assim esclarece: “Ali conhecemos uma figura humana extraordinária, Kid Jofre, que nos acolheu com simpatia fora do comum, o que mais tarde me levou a me tornar seu amigo e grande admirador. Fizemos eu, Damião e o Garrido uma exibição de capoeira, incluindo nela uma defesa contra faca”. A exibição foi coroada de sucesso e abriu portas, ao que Damião afirma: “Enfim, estava aprovada em primeira mão a vinda do Mestre Bimba e do restante do grupo a São Paulo” (1996, p. 3).

O grupo de Bimba foi formado por Brasilino, Clarindo, Damião, Adib, Jurandir, Perez e Edevaldo, os quais realizaram muitas lutas e apresentações com muito sucesso, o que suscitou várias reportagens n’ A Gazeta Esportiva e jornal A Tarde.

Para mostrar com fidedignidade a trajetória de Bimba em São Paulo, recorremos ao Mestre Itapoan, que menciona cronologicamente em “A saga de Mestre Bimba”, todos os seus passos na excursão à paulicéia (ALMEIDA, 1994, p. 36-43). No dia 4 de fevereiro, A Gazeta Esportiva noticiou que Mestre Bimba, o rei da capoeiragem na Bahia, embarcou ontem “com destino a São Paulo, a fim de se exibirem no próximo dia 8, no Ginásio do Pacaembu”. No dia cinco, o mesmo jornal publica a matéria “A capoeira estilizada por mestre bimba”:

 

Mestre Bimba, o rei dos capoeiras da Boa Terra, que outrora foi a dor de

cabeça das autoridades policiais e o terror das outras rodas de capoeiragem,

se regenerou, com carinho deu estilo à capoeira, tornando-a um esporte de

muita utilidade para a defesa pessoal, tanto assim que na Bahia este esporte

foi oficializado. O interessante é que, para um capoeira tamanho não é

documento e dizem mesmo os que praticam que quanto maior for o

adversário, maior será o tombo. A agilidade é tudo na capoeira e Mestre

Bimba, apesar de seus 89 quilos e de medir 1,85 de altura, é de uma

agilidade incrível. Dizem os baianos que enfrentar Mestre Bimba é possível

porém encontrá-lo é que são elas. Quer isso dizer, que Mestre Bimba é um

azougue, e por mais ágil que seja o contendor, dificilmente o acertará (sic).

 

No dia 7, A Gazeta estampa a notícia sob o título “Noite de capoeira”, comentando que na quarta-feira acontecerá, no Ginásio do Pacaembu, cinco sensacionais lutas de capoeiragem e Mestre Bimba também entrará na dança. No dia 8, o destaque fica sobre os “Embates entre capoeiristas” e diz que Bimba quer demonstrar que a capoeira não fica nada a dever às outras lutas, a exemplo do boxe, luta-livre ou jiu-jítsu. No dia 9, o periódico se refere ao combate entre Mestre Bimba e Adib e publica o programa das lutas. No dia seguinte, o noticiário ficou por conta do entusiasmo proporcionado pela exibição de capoeira e a vitória de Mestre Bimba, no primeiro assalto.

No dia 12, A Gazeta Esportiva faz a chamada enaltecendo as contendas entre os capoeiristas e os lutadores de luta-livre. “Os capoeiristas baianos aceitaram o desafio da luta-livre. Assistam hoje no Ginásio do Pacaembú”. Na sequência da semana, as lutas aconteceram praticamente todos os dias e o jornal trouxe as reportagens contendo os combates e resultados.

Fim de temporada, o jornal A Tarde, de 25 de fevereiro de 1949, publicou “Os ‘capoeiristas’ estão brilhando em São Paulo”, trazendo à tona os noticiários propagados pela Gazeta Esportiva, nos quais, afirma que “os ágeis lutadores bahianos são praticamente invencíveis” “os discípulos do famoso Mestre Bimba estão fazendo ‘misérias’ em São Paulo”. A reportagem ainda traz um comentário técnico sobre as lutas e dá destaque para os capoeiristas baianos.

O jornal A Tarde, em matéria publicada no dia 7 de março de 1949, enfoca o regresso de Mestre Bimba a Salvador para reabrir sua academia de capoeira. Comenta sobre a visita do mestre à redação para prestar contas da sua vitoriosa excursão. Bimba falou das várias apresentações e lutas que fizeram na capital paulista, consequentemente obtendo resultado muito positivo para a Capoeira Regional. Bimba se disse satisfeito, pois a capoeira foi considerada “a mais mortal das lutas, tanto assim que os seus alunos, enfrentando lutadores da luta-livre, somente puderam usar quatro golpes”. Bimba disse mais, que deixou seis dos seus melhores alunos para cumprir o restante do contrato através de compromissos agendados para Santos e Rio de Janeiro.

Nas décadas subsequentes, Bimba continuaria trabalhando no expansionismo da Capoeira Regional, mudaria o foco afastando-se das lutas e apostando na capoeira como esporte e em sua dimensão cultural.

Como já frisamos anteriormente, Bimba caminhava por muitas frentes em busca do reconhecimento. Waldeloir Rego (1968, p. 315) conta:

 

Mestre Bimba foi o primeiro capoeirista, na história turbulenta da capoeira,

em todo o Brasil a entrar no palácio governamental e se exibir, com seus

alunos, para um governador, que queria mostrar a nossa herança cultural a

seus amigos e autoridades convidados e como tal escolheu a outrora

perseguida capoeira, justamente numa época em que estávamos sob um

regime de ditadura violenta (sic).

 

Sobre este episódio, ou seja, a respeito do convite para Bimba ir até o Palácio do Governo, relata Rego:

Mestre Bimba que de certa feita se achava ele tranquilo, em sua academia,

quando lhe apareceu um guarda do palácio, fazendo-lhe a entrega de um

envelope, contendo um convite para comparecer ao palácio. Sabendose

capoeira e conhecido da polícia, assustou-se e não teve a menor dúvida de

que se tratava de sua prisão. Preparou-se, comunicou o fato a seus

discípulos e avisou que caso não voltasse é porque estaria preso (sic).

 

A surpresa foi grande e o contentamento sem limites, pois o então Interventor Federal na Bahia, Sr. Juracy Montenegro Magalhães, Capitão do Exército Brasileiro, confirmou o convite para que Bimba se apresentasse juntamente com seus alunos para um grupo de amigos e autoridades.

Waldeloir Rego não se conteve e escreveu ao Sr. Juracy M. Magalhães, solicitando a confirmação da veracidade dos fatos. Juracy então respondeu por carta, datada de 10 de maio de 1966, expedida na cidade do Rio de Janeiro, não apenas sustentando os acontecimentos, mas, dizendo: “Não sei se fui o primeiro a ensejar uma oportunidade igual, mas creio que, já nos dias que correm, tornou-se tradição na Bahia uma exibição dessa natureza”.

Moura comenta que Bimba costumava rememorar essa exibição acontecida na década de 1930 e afirma que “o governante da Bahia ficou vivamente impressionado com a técnica da rapaziada e, a certa altura, entusiasmado com uma “cabeçada”, abraçou o mestre” (1991, p. 34).

O interventor Juracy Magalhães demonstrou interesse em aprender capoeira ocultamente, ao que teve a recusa de Bimba, justificando este que o treino perderia em eficiência, pois necessitava da participação de outros alunos.

Outra apresentação de Mestre Bimba que tem especial relevância aconteceu no dia 23 de julho de 1953, quando ele se exibiu juntamente com os alunos Clarindo, Carlos Senna, João Veloso, Lessa, Sena Branco, Rosalvo, Eduardo, Pedro, Mario, Demerval, Gusmão e Indiano, no Palácio da Aclamação, para o Presidente Getúlio Vargas. Nesta oportunidade, o Presidente cumprimentou Bimba com um aperto de mão e disse: “A capoeira é o único esporte verdadeiramente nacional”. Essa apresentação transformou-se num marco histórico, pois o Presidente da República com sua política populista aproveitou o ensejo para liberar as manifestações populares, até então perseguidas pelos poderes públicos e discriminadas pela elite brasileira.

Sobre o nacionalismo e a cultura popular, Vieira cita que a partir dos anos 1930 houve um “intenso processo de apropriação das instituições do ethos popular por parte do Estado” (1995, p. 70). Esta apropriação deveu-se a estratégias de legitimação do sentimento patriótico, uma doutrina política da época, que visava valorizar as manifestações populares como a capoeira, o futebol e o samba.

Para Vieira, “foi nesse ambiente político que Mestre Bimba emergiu como o líder capaz de traduzir para os códigos da capoeira, em suas diversas dimensões (gestuais, rituais, musicais etc), o espírito da disciplina e da eficiência que marcava a sociedade brasileira da época”. Afirma ainda que no período compreendido da década de 1930 à década de 1950 consubstanciou-se a “história da aproximação de Mestre Bimba com as instituições oficiais e seus representantes”.

Mestre Bimba sempre teve um espírito empreendedor, por isso mantinha um grupo de apresentações folclórico do qual ele vendia shows. Comprou uma casa no Nordeste de Amaralina, no Sítio Caruano, e transformou-a em um espaço para shows. Firmou contrato com as agências de viagem, especialmente uma das maiores da Bahia, a Kontik e realizava espetáculos três a quatro vezes por semana. Nos anos 1960, tinha um contrato com a boate de Ondina, situada num lugar privilegiado, o alto de Ondina próximo ao Jardim Zoológico e nas imediações da residência do Governador. Ali, ele se apresentava em um anfiteatro localizado à esquerda de quem entra na boate. Tive o privilégio de participar de inúmeras apresentações, juntamente com Bimba e seus bambas. Nesses shows, o mestre destinava uma parte do seu pagamento para um pró-labore aos tocadores, às baianas e seus alunos. Esse dinheiro recebido de Bimba era uma farra, pois éramos estudantes e na maioria das vezes gastávamos ali mesmo nas diversões com as turistas que nos consideravam artistas de primeira linha e nos assediavam bastante.

Bimba tinha prazer e necessidade de divulgar sua Capoeira Regional, e por esse motivo não se furtava em apresentá-la nas escolas, universidades, quartéis, parques de exposições e clubes sociais.

Essas apresentações extrapolaram os limites da cidade de Salvador e Bimba arregaçou as mangas levando seu grupo para outros Estados. Já relatamos anteriormente a excussão que realizou a São Paulo, Rio de Janeiro e Fortaleza, contudo vale lembrar aqui outras importantes excursões que marcaram época. Maxixi relata uma viagem que fez com o grupo de Bimba a Aracajú, contando em detalhes essa excursão e lembrando a amizade existente entre alunos e baianas (2005, p. 35). Itapoan destaca as apresentações realizadas por Bimba em 1969, no IIº Simpósio Brasileiro de Capoeira, no Rio de Janeiro, onde se discutiu a possibilidade de organização, nomenclatura e unificação da capoeira (2005, p. 39). Nesta oportunidade, o mestre ficou decepcionado com o encaminhamento das discussões, pelos representantes legais da capoeira, abandonando então o evento e retornando a Salvador. Outra apresentação ocorreu durante a Expo Goiás, em Goiânia, para o Presidente Emílio Garrastazu Médici.

A viagem para Teófilo Otoni (MG) aconteceu em 1968, a convite do Rotary Club, e as apresentações ocorreram, no dia 23 de julho,

no cine Metrópole, e, no dia 28, na 5 a Exposição Pecuária da Cidade.

Em Vitória do Espírito Santo foram duas excursões intermediadas por Eraldo Moura Costa (Medicina), a convite da Faculdade de Filosofia. A apresentação foi no Ginásio do Serviço Social do Comércio (SESC). Recordo-me claramente da calorosa recepção dos estudantes universitários e da estreita relação entre o grupo de Bimba e os estudantes.

Três eventos merecem destaque: o primeiro foi o debate em 1968, durante a Semana do Folclore, na Escola de Música, em que Mestre Bimba compareceu com seus alunos defendendo a Capoeira Regional, afirmando que a mesma era uma tradição, pois tinha sólidas raízes. Estavam presentes duas expressões do estudo do folclore: Hildegardes Vianna e Emilia Biancardi. O segundo foi a festa dos cinquenta anos da Capoeira Regional, realizada na Casa de Espetáculo do Sítio Caruano. Foi uma festa original e emocionante contando com a participação de muitos alunos, calouros e formados. Além da tradicional roda de capoeira, jogamos o maculelê, dançamos o samba de roda e praticamos o samba duro. Em seguida, comemoramos com uma farta feijoada. O terceiro foi a “Formatura do Adeus”, que aconteceu no dia 28 de fevereiro de 1973, no Clube da Petrobrás, em Mataripe, atendendo a uma solicitação expressa de José Carlos Andrade Bittencourt (Vermelho), um dos seus alunos formados mais bem conceituados, que inclusive posteriormente adquiriu a posse da academia, no Maciel de Cima.