Capoeira Regional: a escola de Mestre Bimba
Capoeira Regional: uma visão dos alunos de Bimba
Capoeira Regional: uma visão
dos alunos de Bimba
Os pontos de vista e o entendimento dos alunos de Mestre Bimba e de mestres, contramestres e professores de capoeira, a respeito da Capoeira Regional nos auxiliam a esmiuçar algumas particularidades inerentes ao olhar daqueles que conviveram diretamente com Bimba e igualmente daqueles pertencentes à nova geração de capoeiristas.
Sabendo de antemão que nossos entrevistados tiveram uma expressiva passagem pelo Centro de Cultura Física Regional, em diferentes épocas, isso nos instiga a buscar a impressão que cada um deles tem sobre o CCFR.
Cafuné assim se coloca:
Eu tenho duas impressões fortes. Uma, que era o local de aprendizagem,
não só de capoeira, mas como aprendizagem de vida e, a segunda, a
impressão de uma irmandade muito grande, um companheirismo, uma
comunicação muito grande, uma cumplicidade muito forte entre as pessoas
que estavam ali e que praticavam. E isso não tava só ali dentro, como a
gente levava isso também para fora; nossos colegas que estavam ali com
outras pessoas que estavam de fora, a gente começava a praticar aquela
cumplicidade, aquela amizade e harmonia que a gente tinha ali dentro.
Para Medicina:
O Centro de Cultura Física Regional ainda vai merecer muitos estudos sobre
a sua fundação e manutenção. Não sei como ele sobreviveu, inclusive após
já ser considerado um local de referência para a capoeira, com aquela
administração tão primária do Mestre Bimba. Como pude participar e ajudar
na parte da administração financeira (naquela época não possuía nenhum
conhecimento sobre o assunto), após oito meses do meu ingresso para
aprender capoeira até o meu afastamento, quando já médico e fazendo pós-
graduação e também cuidando das necessidades médicas do Mestre Bimba
juntamente com o Mestre de capoeira Ângelo Decanio, meu mestre na
Faculdade de Medicina em Técnica Cirúrgica (que dominava como poucos
professores e médicos baianos). Somente sei que as dificuldades financeiras
e a falta de uma administração efetiva levaram à sua falência e à
inconsequente transferência do Mestre Bimba e suas famílias para Goiânia
(sic).
Gato Branco refere-se ao centro de cultura física, dizendo: “para mim, naquele tempo, é que o centro formava bem os jovens. Bimba buscava alguma forma de ensinar, transmitir os ensinamentos da capoeira regional, como uma defesa pessoal com um misto de dança folclórica (sic)”. Porém, “não somente se detinha a ensinar defesa pessoal, ensinava a parte comportamental, como a gente devia se comportar como capoeirista”. Enfoca ainda, que esses ensinamentos adquiridos na academia o têm servido muito na vida profissional.
Galo é enfático, afirmando que:
Mestre Bimba tinha um nivelamento para todos os alunos, ele impunha
aquela austeridade no ensinamento, agora, tinha alguns alunos que ficavam
no esquenta-banho e às vezes no Sítio Caruano depois das festas e, às
vezes, nós íamos para lá onde acontecia uma festa, eu diria familiar, da
família de Mestre Bimba, dos seus capoeiristas. Então a gente tinha um
tratamento, assim, eu diria em determinados momentos. Essa é outra
imagem que vem, depois que ia todo mundo embora, tanto lá, mas
principalmente lá em cima no terreiro, ele ficava sentado naquela janela —
se lembra Helio? — e botava os pés pra cima e ficava batendo papo com a
gente, aquilo era outro ensinamento, porque aí ele relaxava e começava a
contar as suas histórias, histórias que nos ensinavam sem precisar estar
naquele momento dando pernada, estava nos ensinando como interpretar
todos os passos e as pernadas que ele deu na vida (sic).
Angoleiro conta muitas histórias da sua inserção na capoeira, dizendo que inicialmente começou a praticar Capoeira Angola com Mestre Pastinha e depois, por insistência do seu pai, chegou até a academia da Capoeira Regional de Bimba. Relata, ainda, que no início não gostava muito, mas que contou com o apoio decisivo de Bimba: “eu contei com a paciência de Mestre Bimba, ele tinha o maior carinho, ele tinha um cuidado comigo que era um negócio, ele não era um pai não, ele era uma mãe muito cuidadosa, ‘bota a perna aqui Angoleiro’ e me levava com jeito”. Angoleiro diz ainda ter sido uma pessoa difícil, “muito torto em matéria de comportamento de rua” e que na escola, em casa, na academia, ele tinha um tipo diferente da personalidade “meio doida” que apresentava na rua. Esse comportamento deu margem a Mestre Bimba para lhe aplicar uma punição, “uma suspensão” que coincidiu com o dia da formatura. Admite Angoleiro que esse fato o marcou profundamente.
Angoleiro conta em detalhes o fato incomum:
[…] a suspensão aconteceu no dia da minha formatura, a minha madrinha
seria inclusive Emilia Biancardi, tava tudo certo, tudo bonito, ela estava
pronta para ser a madrinha e ele me deixou na casinha, uma budeguinha
onde era servida a mulher barbada lembra, ele me deixou ali, meu parceiro
de formatura era Medicina Branco, que não é o Medicina de Itabuna. Então,
quando foi um dia ele passou na oficina de meu pai e disse ‘diga ao
Angoleiro para ir lá’, era perto do meu aniversário, meu aniversário é 25 de
abril, isso foi em 1961. Então, no dia 23 de abril num domingo cheguei lá, ele
fez uma roda pra mim e me formou, a festa não foi lá no Sítio Caruano. Pois
bem, ele me formou, fez a roda comigo, foi uma festa muito bonita, eu chorei
pra burro na época, fez o jogo do ‘tira-medalha’, me deu minha medalha e
me deu de presente, uma coisa que tenho até hoje, que foi o dobrão de
Santa Cecília dele, como uma forma de expressar seu carinho. Ele gostava
muito de mim e eu andava muito com ele (sic).
Angoleiro conta ainda que Mestre Bimba, nos intervalos de aula, especialmente a do meio-dia, o convidava para acompanhá-lo à oficina de seu pai, e muitas vezes desciam o Chariou Gonçalves para ir ao Cais do Ouro e sempre foi muito carinhoso com ele. Disse que Mestre Bimba era engraçado, gozador, “moleque”, e “uma pessoa totalmente diferente do que ouço falar por aí da dureza dele”.
Sobre a maneira de Mestre Bimba ensinar a Capoeira Regional, Angoleiro fala particularmente de um momento em que o mestre procurava ensinar-lhe um martelo, ou melhor, a corrigir o golpe do martelo, que ele praticava de maneira perigosa, e se lembra dos exercícios que desenvolveu na cadeira. À forma didática usada por Bimba, acrescenta sua paciência, “de maneira competentíssima e paciente que um didata efetivamente assumido, assuntado, entendeu, na sua base de sabedoria pode referenciar” (sic). Diz ficar intrigado com a complexidade da Capoeira Regional: “pra mim, complexidade saudável, é exatamente o fato dela ter sido instituída por essa relação apresentada por esse didata que foi Mestre Bimba, mas com a sua própria pedagogia montada à maneira dele, uma pedagogia perfeita” (sic).
Escurinho — que disse militar na área da capoeira há 43 anos, colaborando com a Fundação Mestre Bimba, Projeto Capoerê, escrevendo artigos, orientando mestres de capoeira, participando de eventos e ministrando aulas — asseverou que frequentou assiduamente a escola de Bimba durante nove anos ininterruptos. “Eu andava colado com ele”. Lembrou ainda que foi um aluno privilegiado, por ter acesso livre à academia, pois podia frequentar as aulas de Capoeira Regional sem ter um horário fixo.
Sobre a influência da Capoeira Regional na sua vida, Escurinho salientou que “aprendeu a se relacionar com as pessoas e que o relacionamento entre indivíduos é uma arte de viver, é como uma arte de vender, ser um vendedor e essa experiência na academia de Mestre Bimba lhe proporcionou oportunidades na sua vida profissional. Por esses e muitos outros motivos, ele considera Mestre Bimba um educador. “A imagem que tenho de Bimba é a de um educador”.
Nalvinha retrata a Capoeira Regional pela sua vivência no Grupo Folclórico:
Eu sambava e dançava o candomblé. O grupo de apresentações trouxe o
ensinamento valioso para mim, foi a partilha. Sabe, eu aprendi a partilhar e
aprendi a me preocupar com o próximo. Você lembra, principalmente quando
nós viajávamos, a preocupação que ele tinha com todo mundo, de ficar num
bom lugar, ficar num hotel legal, ter boa comida, queria estar certo que todos
estivessem bem, realmente se preocupava com todos (sic).
Ressalta que Mestre Bimba fazia questão de dividir o cachê entre todos os participantes: alunos, tocadores e baianas. “Nesse ponto quero dar o meu testemunho de que eu participei do Grupo de Apresentações de Bimba e em diversas ocasiões recebi a partilha do cachê, que como estudante vibrava com a possibilidade de um bom fim de semana”.
Sacy entende que o Centro de Cultura Física Regional “era uma escola de vida, ali você não somente aprendia a se defender e atacar, lógico, até como uma luta. Nós aprendíamos uma terapia de vida, dentro da academia de Bimba, lá você se desligava dos problemas”.
Assim revela: “não tínhamos problemas com os companheiros da capoeira, lá não havia inimizade, era um ambiente muito sadio”. Sobre o ambiente, assevera que não existia fofoca por esse motivo. “Chegar na academia era como se tivéssemos chegando na própria casa”.
Arara afirma que entrou para “aprender a Capoeira Regional pela sua admiração, principalmente por julgar ser a capoeira mais dirigida para a defesa pessoal, também pela sua beleza”.
A impressão que guardo da Academia de Mestre Bimba tem um sentimento
de muita fraternidade. A Academia era uma família, embora tivesse treinos
meio quentes, mas existia o culto da amizade, uma amizade e
companheirismo a toda prova. Tanto assim, quem mexia com um aluno de
Bimba, podia estar mexendo com toda a Academia, mexia no enxame todo.
A Academia tinha um ambiente bem família comandada por um chefe de
família austero, que também mostrava suas alegrias, especialmente nas
festas de formaturas, onde Bimba se mostrava mais descontraído e alegre
(sic).
Para Geni, “na Academia de Mestre Bimba a convivência era bastante franca. Mestre Bimba nos ensinava não somente a capoeira, mas ensinava a se ter o respeito mútuo, ensinava como na vida se ganha e se perde”. Contou, que teve a oportunidade de tomar um galopante de um companheiro de jogo e o mestre fez a pressão costumeira incentivando que corresse atrás do prejuízo, fosse em busca da forra.
Geni disse ainda que na academia de Mestre Bimba, “a gente jogava uma capoeira forte. Em todas as aulas, nós víamos acontecer os golpes da rasteira, vingativa, banda-de-costa, banda-traçada, galopante e ainda tinha o esquenta-banho, mas nunca presenciei uma briga”.
Mestre Bimba ensinava a gente ser um capoeirista, a respeitar o colega, a
viver em comunidade, a saber se você tomou uma rasteira hoje é por que
você vacilou, você deu uma brecha, porém amanhã pode recuperar o tempo
perdido. Na Academia de Mestre Bimba foi o lugar onde fiz bastantes amigos
e aprendi mais do que na Capoeira Angola, mais que Capoeira de Rua, que
na roda todo mundo é igual.
Decanio chama a atenção que uma das lições da Capoeira Regional é simplesmente fazer as pessoas entenderem que não se cria nada sozinho, apenas o Deus Criador é capaz de fazê-lo. “Na verdade, a Regional no boom da capoeira não é de Bimba só, não é minha, não é sua, não é dele, não é de ninguém, é o dedo de Deus”. Relata a influência dos alunos na construção da Capoeira Regional, citando o papel de Cisnando na década de 1930, quando veio para a Bahia estudar medicina e frequentou intensivamente as aulas de Bimba.
A academia de Mestre Bimba era uma verdadeira escola; escola essa que ensinava Capoeira Regional como principal motivação, no entanto extrapolava suas ações, ensinando a viver, a ser um cidadão, um homem de princípios morais. O ensino da Capoeira Regional não se limitava unicamente à sala de aula, ao espaço físico do CCFR, ele ultrapassava os muros da academia, proporcionando novas experiências e conhecimentos.
A capoeira ensinada no CCFR tinha um vigor motivacional surpreendente, justamente pelos desafios impostos cotidianamente e por um aprendizado baseado na experimentação constante e sempre na perspectiva da descoberta do novo.