Capoeira Regional: a escola de Mestre Bimba

Hellio Campos · Capítulo 41 de 66

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Capoeira Regional: a escola de Mestre Bimba

Aspectos pedagógicos no entendimento dos Mestres, contramestres e professores de Capoeira

Aspectos pedagógicos no

 

entendimento dos Mestres,

 

contramestres e professores de

 

Capoeira

 

A nossa curiosidade vai de encontro às nossas desconfianças sobre a percepção dos mestres, contramestres e professores de capoeira, no que se diz respeito ao ensino e a pedagogia de Mestre Bimba.

Cremos que esse desejo de investigar justifica-se por estarmos inquirindo profissionais da capoeira que não conviveram com Bimba, pertencentes a uma nova geração de professores capoeiristas, comprometidos com o ensino da capoeira e preocupados com a vertente da capoeira, como ferramenta de educação.

Queremos então examinar os contrastes e semelhanças, se é que existem, entre as opiniões dos alunos de Bimba e as daqueles outros capoeiristas dedicados ao ensino da capoeira, em outras circunstâncias de vida e de universo. Neste sentido, perguntamos: para você, Mestre Bimba criou uma concepção nova de ensinar capoeira baseada em processos e técnicas mais eficientes para efetivar o seu Projeto de Capoeira? Explique.

Barbieri responde ao questionamento, levantando dúvidas:

 

Não sei se “novas”, pois não se tem, ainda, o relato detalhado de como os

outros mestres ensinavam. Não sei se “baseada em processos e técnicas

mais eficientes”, pois é importante não esquecer que a manifestação da

Capoeira que entrou para o Código Penal, não foi a denominada de

Regional! E qual era o “Projeto de Capoeira” de Mestre Bimba?

 

Pangolim também se coloca com certas dúvidas:

 

Mais ou menos, pois não acredito que Mestre Bimba tenha criado muita

coisa da Regional, haja vista os termos e estruturas que não faziam parte de

seu universo, contudo, a Regional representou sim uma revolução para a

capoeira, pois foi um marco no desenvolvimento da arte para seu

reconhecimento social (sic).

 

Cabocla entende não se tratar de algo novo, mas, sim, de uma recriação de métodos e técnicas:

 

Na minha análise, não é uma nova concepção de ensino de Capoeira e, sim,

uma recriação de técnicas e métodos oriundos desta, incorporando, em

predominância para a Capoeira Regional, um paradigma predominante do

sistema europeu presente no modelo educacional brasileiro, cuja prática

pedagógica vinha da lógica cartesiana. Exemplificando com um aspecto, a

Capoeira Regional enquanto um fenômeno ou um conceito foi se isolando da

totalidade em que se originou, subtraiu a referência africana que é a matriz

fundadora da Capoeira. Se o processo foi mais eficiente para o projeto de

sua proposta, não tenho certeza, pois demandaria da investigação criteriosa

da avaliação pelo Mestre Bimba, após esta ter entrado em vigor e se

expandido, o que é possível de levantar, pelas entrevistas que este deixou,

seus depoimentos, o que relatou aos alunos e pessoas de sua confiança

(sic).

 

Dudu responde de maneira afirmativa:

 

Sim. Porque acredito que Mestre Bimba atingiu todos os seus objetivos: pôs

em prova seu estilo de capoeira desafiando todos os lutadores e ganhou

todas as lutas. Formou uma grande quantidade de alunos em capoeira, e se

vivo estivesse, estaria muito orgulhoso em ver a capoeira sendo ensinada

em todo o mundo.

 

Burguês assim comenta:

 

Sim. Um mestre que cria uma metodologia, técnicas inovadoras, exames de

especialização etc., e põe sua arte à prova com luta em ringue, que prova

para a sociedade que a Capoeira é uma arte que pode ser praticada por

todas as classes sociais. Realmente, seu projeto foi eficiente de ter criado

uma nova fórmula de ensinar capoeira que até hoje nós o seguimos como

grande mestre da capoeira (sic).

 

Tosta também concorda com a afirmação anterior de Dudu, e acrescenta que Mestre Bimba “deu uma nova concepção à capoeira”, o que justifica pelo fato dele ter tirado a capoeira da rua e a colocado em recinto fechado, criando assim técnicas eficientes e uma nova roupagem.

Lucas responde à questão com uma afirmativa: “sim! Uma vez que, até então, não tinha sido criado um método para o ensino da mesma e tentativas anteriores foram frustradas”.

Carson parece estar de acordo sobre a não existência de métodos para o ensino da capoeira anteriores ao método concebido por Bimba e por esse motivo ele se coloca de maneira assertiva, argumentando que os “alunos aprendiam capoeira na rua observando e jogando. O mestre propôs um aprendizado racional, propondo uma rápida evolução na aquisição das técnicas”.

Daiola assim certifica: “sim, creio ter sido Mestre Bimba um homem observador e, vendo as dificuldades em alguns alunos, decidiu ‘escrever sua cartilha’, onde aplicou golpes de ataque e defesa, que na sua concepção eram fundamentais”. Ressalta a criação de uma sequência organizada para tornar o aprendizado mais fácil e dinâmico.

Falcão assim responde:

 

Sim. Mestre Bimba chamava a atenção dos seus discípulos para a

importância da boa preparação física do capoeirista. A capoeira é uma

prática que exige muito em flexibilidade, resistência e força muscular, e

Mestre Bimba recomendava que os exercícios básicos fossem realizados

diariamente, visando a obter um bom desempenho. O próprio regulamento

da academia do Mestre Bimba é um documento que evidenciava essa

preocupação. Mesmo que a maioria dos capoeiras não ensine a Regional da

mesma forma como Mestre Bimba ensinava, há um consenso na

comunidade capoeirana de que é fundamental conhecer e praticar as

técnicas introduzidas por ele (sic).

 

Para Amorim:

O Mestre Bimba criou uma nova concepção sem sombra de dúvida, na

verdade ele quebra um paradigma com seu método de ensino, retirando a

capoeira de um estado de degradação e devolvendo seu verdadeiro caráter

de luta, pois a mesma foi criada, inicialmente, com o objetivo de combater e,

com o passar do tempo de descaracterização, ele na verdade a conduz de

volta ao seu caminho original. A inovação é a criação de um método que até

então não existia, pois o aprendizado da capoeira não era sistematizado, ele

passava de uma geração para outra através de métodos de tentativa e erro

alem da observação, o que denota empirismo, sendo assim, Mestre Bimba

traz um pouco de ciência para o ensino da capoeira (sic).

 

Para Gladson:

 

A rotina de trabalho, voltada para o aprendizado e a habilidade de qualquer

modalidade, é criada e usada por professores em geral. Porém, na Capoeira,

o primeiro a criar uma rotina de trabalho para o aprendizado de nossa Arte

foi Mestre Bimba. Foi muito feliz, criou uma sequência pedagógica simples,

facilitando a compreensão de ataque, defesas e contra-ataque, com golpes

comuns, que até hoje são os responsáveis pelo desenrolar de uma roda de

Capoeira. A harmonia, o respeito, a melhora do condicionamento físico, a

cooperação, a busca da noção de distância, etc., quando do treino através

das sequências e da cintura desprezada, do jogo entre formados com

formados, alunos com formados e alunos com alunos, mostram o ganho da

eficiência através do método simples, porém objetivo, principalmente para

desencadear a noção do direito da liberdade, igualdade e fraternidade entre

participantes. Assim sendo, acredito sim, que o Mestre Bimba criou e soube

valorizar uma nova concepção de ensinar a Capoeira, não só para a

efetivação de seu projeto, mas, também, para a gratificação do seu eu

interior, enquanto um mestre e doutor formado pela difícil universidade da

vida (sic).

 

Entendemos que todo cidadão deve ter direito ao conhecimento e à oportunidade de apropriar-se dos resultados do processo histórico do conhecimento produzido ao longo do tempo pela humanidade. São os conhecimentos sobre o mundo físico, sobre o mundo biológico e sobre o mundo social. É notório que esses conhecimentos são obtidos pelo uso de uma determinada metodologia.

Luckesi traz à baila a necessidade do educando de se apropriar também dessa metodologia, ou seja, que ele conheça e pratique os métodos inerentes à sua pratica, cujos conhecimentos foram construídos ao longo das suas experiências. E ressalta: “não se aprende a utilizar alguma metodologia sem alguma exercitação” (1994, p. 85). A inventividade e criatividade são elementos essenciais nesse processo.

Nos depoimentos, tantos dos alunos de Mestre Bimba como dos mestres, contramestres e professores de capoeira, encontramos indícios de que os conhecimentos da Capoeira Regional passados por Bimba foram assimilados por seus alunos através de um trabalho sistematizado, valorizado pela aplicação de uma metodologia baseada na vivência prática do mestre, na inventividade e numa motivação especial.

Decanio, um dos alunos mais velhos de Bimba em atividade, falando sobre a pedagogia aplicada de Mestre Bimba (1996, p. 141), assim relata de forma poética:

 

Bimba foi muito mais que um simples mestre de capoeira…

… foi um grande psicólogo …

… um gênio capaz de enxertar no coração dum rapaz …

… a fascinação pela coragem …

… ao lado da prudência …

… para se defender da malícia …

… que o aguarda a cada encruzilhada da vida!

… suas histórias …

… seus ditos chistosos…

… seus gestos marcantes …

… nos transladavam magicamente …

… ao teatro da vida …

… onde vivenciávamos sua experiência …

… sem o custoso sofrimento da prática …

… em cada história um exemplo!

… um perigo a ser contornado …

… uma advertência …

… um alerta …

… um ensinamento …

… em cada dito uma lição a ser vivenciada!

… anos a fio sem conseguir esgotar o seu repertório …

… passava horas enfeitiçado …

… acompanhando suas narrações …

… sempre aprendendo …

… sobre a natureza humana …

… e situações de vida!

… uma sombra enorme …

… que me protegeu muitas vezes…

… em condições perigosas …

… que já pré-vivenciara…

… na magia de suas histórias!

 

Esse tema nos parece ser fascinante e, como já dissemos no início desse texto, ainda é pouco explorado, merecendo ser alvo de uma pesquisa mais profunda, com certeza. Cabe como um problema a ser destrinchado em dissertações de mestrado ou mesmo teses de doutorado, em que o rigor e o detalhamento poderão dar-lhe o tom científico que lhe é inerente.