Capoeira Regional: a escola de Mestre Bimba
Apresentação I
Ladainha
Estava na adolescência, com meus 13 a 14 anos, quando ouvir falar da fama de excelente capoeirista de Xaréu. Isto me deixou na expectativa de conhecê-lo pessoalmente, o que ocorreu anos depois. Ele passou a ser um dos meus ídolos, juntamente com Itapoan, Acordeon e outros da famosa turma do Bimba. Meus heróis não eram nem o Batman nem o Robin; eram aqueles capoeiras de cujo seleto grupo eu almejava participar.
Corrido
Anos depois, novamente Helio Campos (Mestre Xaréu) estava desenvolvendo um jogo também especial, pois era personagem constitutiva do projeto que levaria a capoeira para o ensino superior e, consequentemente, estabeleceria a capoeira como conteúdo do ensino fundamental. Suas referências como professor universitário se ampliavam e se firmavam a cada turma formada que passava pelas inesquecíveis matérias lecionadas pelo Mestre da Capoeira, seja neste campo ou no do desporto. O fato de ensinar uma matéria pertencente ao universo cultural brasileiro exigia a coragem de um capoeirista; aquele que descobre como fazer ao fazê-lo, como no jogo da capoeira. Ressalte-se que, naquele tempo, a capoeira ainda era considerada “coisa de malando” e as perspectivas de futuro para essa profissão praticamente não existiam. Os grandes mestres estavam esquecidos pelo poder público e a sociedade, em geral, apreciava a capoeira enquanto espetáculo de rua, mas não a aceitava em seu lar. Xaréu estava novamente capoeirando e, neste jogo, despontando com destaque como um diferenciado pedagogo. Isto é fácil de ser constatado ao se observar uma breve caminhada deste mestre pelas ruas de Salvador, quando é constantemente parado para um breve papo com seus ex-educandos ou discípulos, os quais sempre apresentam um sorriso e um ar de agradecimento ao querido Mestre/Professor.
Pelo mundo afora
De sua experiência pedagógica, alguns importantes livros e artigos sobre essenciais aspectos educativos e pedagógicos foram oferecidos pelo Professor Dr. Helio Campos (Mestre Xaréu), quando apresentou uma inovadora metodologia para o ensino da capoeira integrada a elementos ginásticos em obras especializadas relativas ao campo do ensino da capoeira no curso fundamental. Com esta atuação, ele estava, guardadas as devidas distâncias, realizando um viés do Mestre Bimba que esteve sempre atualizando a capoeira em seu tempo. Mestre Xaréu estava desempenhando a mesma atualização da capoeira, ao aproximá-la do universo formal da educação.
Mestre Bimba era conhecido também por ter trazido a universidade para a sua academia, ao aceitar diversos alunos universitários em sua escola; Xaréu é quem leva a capoeira definitivamente para a universidade, ao incluir a capoeira como disciplina obrigatória na prática desportiva na UFBA.
É hora, é hora
De estrutura densa e rigor acadêmico, com novas contribuições para os estudos da capoeira nas mais diversas áreas de conhecimento, esta nova obra do Mestre Xaréu é singular em diversos aspectos, desde questões históricas, sociais a educacionais.
Helio Campos joga com maestria em várias áreas de conhecimento para alcançar com êxito seu objetivo, perpassando os campos da história, da sociologia, da antropologia e, o mais importante, revisitando conceitos adquiridos na vasta experiência de vida capoeirística e acadêmica quando aplica a Análise de Conteúdo para identificar possíveis contribuições da convivência dos discípulos com o Mestre Bimba e a Regional em sua formação integral. Coloca-se em grande desafio quando se propõe a investigar — e consegue identificar — como a capoeira torna-se um modo de vida. Isto pode ser algo sentido por todos os que praticam esta nobre arte, mas é um pressuposto tão complexo que só as qualidades pessoais e as de um experiente pesquisador e praticante da capoeira poderiam demonstrá-lo com tanta clareza. O êxito deste desafio é apresentado ao longo desta brilhante obra.
Na estrutura de “Capoeira Regional: a escola de Mestre Bimba”, o autor perpassa diversos temas que se encadeiam e trazem novas e substanciais contribuições para o campo da capoeira: trata da capoeira e de sua evolução histórica, ressaltando três personagens fundamentais de representatividade da Capoeira Angola – Mestres Pastinha, João Grande e João Pequeno. Quando adentra o universo da Capoeira Regional de Bimba, descreve e analisa de forma crítica praticamente toda a estrutura metodológica da Escola de Bimba. É uma singular contribuição a todos aqueles que se interessam pelo tema, por ampliar e oferecer novos subsídios para elucidar as constantes dúvidas acerca deste patrimônio cultural brasileiro ainda pouco explorado em termos de seus pressupostos, seja pelos praticantes da capoeira, seja pelos estudiosos do assunto. Isto em relação ao pequeno número, porém consistente, de bibliografia a respeito da Escola de Bimba. Além disso, discute a importância da Capoeira enquanto patrimônio da cultura brasileira e realiza uma importante reflexão crítica acerca da relação da Capoeira Regional, e em especial de Mestre Bimba, com o poder — seja de forma extrínseca com a política brasileira, seja de forma intrínseca na sua representatividade entre os capoeiras baianos. O livro oferece, ainda, um amplo panorama da capoeira nas instituições de ensino público e privado em todos os níveis e reserva um espaço para a análise da relação de Mestre Bimba com a universidade, culminando no reconhecimento do Mestre Bimba por meio do Título de Doutor Honoris Causa, do qual Mestre Xaréu foi autor do projeto.
A obra apresenta também uma pesquisa específica sobre a Escola de Bimba por meio de um modelo de estudo que, pela complexidade e desafio, só poderia ser realizado por um pesquisador que tivesse a habilidade para realizar diálogo frutífero com o universo de capoeiristas, cuja característica é de guardar seus conhecimentos como forma de segredo da arte. É com este pesquisador que eles “abrem o jogo”, o que permite que novos conhecimentos na área tornem-se públicos.
Iê, vamos embora
No jogo corporal, inteiro, sem dicotomia, o Grande Mestre Bimba fala hoje por meio de seus discípulos, e Xaréu é, com certeza, uma das mais importantes personalidades nesta área.
Mestre Bimba dizia, em relação ao processo de aprendizagem da capoeira, que: “olhando também se aprende”. Com certeza, se ele tivesse contato com esta obra, acrescentaria de forma atualizada a sua argumentação: lendo também se aprende.
Enfim, “Capoeira Regional: a escola de Mestre Bimba” é fruto de uma densa pesquisa e, a meu ver, um dos mais relevantes e atualizados trabalhos já desenvolvidos nesta área.
EUSÉBIO LÔBO DA SILVA - Mestre Pavão
Professor Livre Docente da UNICAMP