Capoeira Regional: a escola de Mestre Bimba

Hellio Campos · Capítulo 22 de 66

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Capoeira Regional: a escola de Mestre Bimba

Aspectos da conquista e resistência

Tabela 2 Grade Curricular do Curso de Nível Superior em

Capoeira da UGF

Antropologia da Didática Organização de Capoeira Eventos

 

Anatomia Estágio I, II, III, Preparação

IV Física Aplicada

 

Biomecânica Aplicada Fabricação de Psicologia

Instrumentos Aplicada

Capoeira p/Especial Fisiologia I e II Recreação na

Capoeira

 

Cultura Afro-Brasileira Historia da Ritmos e

Capoeira I e II Cantigas

 

Desenvolvimento de Medicina Treinamento Aprendizagem I e II Aplicada Desportivo I e II

 

Administração e Metodologia Marketing da Capoeira

 

Nos nossos estudos, principalmente durante a pesquisa da nossa tese de Livre Docência: “Capoeira, do popular para a universidade: uma trajetória de resistência”, defendida na American World University (AWU), em 1999, encontramos importantes declarações dos sujeitos investigados sobre o assunto em discussão.

 

Aspectos da conquista e resistência

 

Buscando compreender os aspectos relativos à conquista e à resistência da capoeira, bem como identificar os fatores que levaram à sua inserção em contexto universitário, colocamos a seguinte questão aos nossos entrevistados: em sua opinião, de que maneira a capoeira conquistou a universidade? E quais os motivos que levaram a essa conquista?

Ao examinar as respostas deste questionamento, encontramos dois pontos de vista divergentes: o primeiro, com um percentual de 86%, afirma que a capoeira já conquistou a universidade e o segundo, com apenas 14%, assevera que a capoeira ainda não a conquistou.

Um dos entrevistados diz que a aproximação da capoeira com a universidade deve-se “ao processo de democratização do sistema universitário”, “à abertura da universidade para a cultura popular” e “ao reconhecimento de artistas e intelectuais da capoeira como uma prática valiosa de cunho educacional e cultural”. Outro afirma que “a capoeira ainda está conquistando o espaço universitário” e a principal razão para isso, o que este entrevistado chama de “fenômeno”, é o potencial que a capoeira possui, enquanto área de conhecimento da cultura afro-brasileira, respaldada pela dinâmica trajetória de conquistas de diferentes espaços socioculturais no Brasil. Enumera, ainda, um segundo ponto que diz ser determinante, ou seja, “a busca pedagógica de temas e conteúdos provenientes das realidades e contextos socioculturais brasileiros, discutidos nos atuais parâmetros curriculares”.

Muitos dos entrevistados asseguraram que a inclusão da capoeira no contexto escolar foi um dos grandes trunfos que a levaram para dentro das universidades. Lembraram, ainda, da influência decisiva da Capoeira Regional nesse processo.

A presença da capoeira nas instituições de ensino formal, seja no fundamental e médio ou no meio universitário, desperta curiosidade e até mesmo espanto, especialmente por ter sido uma atividade outrora marginalizada, reprimida pela força policial e repleta de preconceitos da sociedade, que rapidamente passa a ser valorizada como uma atividade importante no contexto educacional, cultural e de formação de cidadãos.

A capoeira representa a resistência de uma arte, de um povo que, mesmo marginalizado, não se dobra frente às dificuldades, pelo contrário, encontra forças para lutar e conquistar seus merecidos espaços.

Nas rodas de capoeira uma questão sempre se faz presente: quais os tipos de resistência que a capoeira sofreu para conquistar o meio acadêmico, sabendo que a universidade é uma instituição da elite do saber e muito conservadora?

Os estudiosos, em sua maioria, são unânimes em atestar que a capoeira sofreu uma forte resistência durante toda a sua trajetória, advinda do processo brasileiro de escravidão e, sustentada pelo racismo e pelo preconceito, é entendida como uma atividade de negros, malandros, vadios, marginais e desocupados.

Reportando-se ao preconceito, e ampliando o foco até às artes e à cultura negra, observam que este é extensivo às atividades populares de um modo geral que, por vezes, são entendidas, de modo pejorativo, como coisa “de gente do povo”. Nessas circunstâncias, a capoeira, o samba e o candomblé são usados pelos “tradicionais” como uma manifestação folclórica, o que os classifica de forma esdrúxula, oportunista e descartável.

Segundo Patrocínio, “[…] essa cultura foi caracteristicamente violentada, negada, oprimida e desfigurada ao longo dos anos pelo mercantilismo escravista, pelo racismo e pela política e ideologia do embranquecimento” (1989, p. 43).

Nossa investigação mostrou que a capoeira sofreu e sofre resistência, principalmente do sistema político-ideológico e econômico-social que discrimina referências educacionais e culturais. Revelou, ainda, que a capoeira vem resistindo para impor-se no meio social através do fazer e viver diferenciado, buscando valorizar sua própria identidade e potencialidade.

Tudo indica que a capoeira tenha se defrontado — e ainda se defronta diuturnamente — com significativas barreiras dentro da academia, principalmente o descaso científico, o elitismo intelectual e o preconceito racial e social. Alguns mestres, que tiveram de lutar para que seus projetos fossem aprovados em seus departamentos, afirmam que não encontraram uma resistência declarada à capoeira, todavia ficou subtendida uma resistência natural da sociedade brasileira, incorporada ao subconsciente através da herança cultural hegemônica.

Por outro lado, encontramos outros mestres que afirmam não terem tido dificuldades em aprovar seus projetos, pois têm encontrado apoio de toda ordem dentro dos setores acadêmicos e administrativos da universidade. Relatam, entretanto, as dificuldades encontradas em setores muito específicos, o que revela a resistência natural da sociedade brasileira em relação à herança cultural e social da raça africana.

A conceituação da capoeira no ensino formal universitário também não tem unanimidade entre os mestres e professores de capoeira. De um modo geral, alguns apontam para a evidência, que consideram verdadeiramente proveitosa para a capoeira, de que, pelo simples fato dessa atividade estar inserida na academia, uma instituição que promove os saberes, o tema capoeira pode ser estudado em maior profundidade e consequentemente adquirir novos contornos. Existe, no entanto, a preocupação da capoeira não ser “engessada” pelo formalismo do ensino universitário. Por estar inserida, na sua maioria, em cursos de graduação em Educação Física, a inquietação se estende aos programas, à metodologia e à redundância dos aspectos fisiológicos.

Fica evidente que mestres e professores acreditam que, na universidade, a capoeira tenderá a evoluir numa outra perspectiva, especialmente a acadêmica. No entanto, têm receios de que possa ser ministrada em uma forma aquém do seu potencial, reduzida aos aspectos técnicos e biológicos, ressaltando que o enfoque deverá contemplar primordialmente a educação pautada na tradição e seus rituais.

A capoeira vem de um segmento bem diferente das demais disciplinas curriculares dos cursos de Educação Física e, por essa razão, é indispensável que ela mantenha suas características fundamentais, absolutamente essenciais à preservação de sua integridade, evitando, assim, que seja de alguma forma contaminada pelo “cientificismo”, tornando-se desse modo uma matéria árida.

Entendemos ser de competência da universidade incentivar pesquisas de toda ordem e abraçar a capoeira como uma manifestação cultural bem difundida nas camadas populares, propiciando oportunidades diversas de estudos aprofundados, com a finalidade de resguardar e resgatar essa inusitada manifestação que representa a história e a identidade do povo brasileiro.

Quantos aos aspectos educativos e sociais, encontramos fortes argumentos que justificam a entrada e a permanência da capoeira no meio universitário, especialmente como disciplina de formação profissional. Foram devidamente enaltecidos os aspectos pedagógicos, filosóficos, educacionais, culturais, históricos, sociais, integradores, prazerosos, artísticos, lúdicos, marciais, folclóricos e tradicionais. Verificamos, ainda, uma orientação e uma valorização dos atributos de corporeidade, habilidade motora, resistência cultural, musicalidade, espírito de grupo e liberdade de expressão.