Capoeira Regional: a escola de Mestre Bimba
Dois joões: os alunos seguidores
Mestre Pastinha sempre foi tido como um filósofo da capoeira. Criou e incutiu refinados modos, finas maneiras de tratar o ensino da arte de capoeirar, fortalecida pelo aspecto espiritual, da liberdade e da igualdade. Uma frase presente nas rodas de capoeira parece afirmar sua ideologia: “capoeira é pra homem menino e mulher, só não aprende quem não quer”.
Ele sempre desejou a expansão da Capoeira Angola, pensava em vê-la no mais alto podium, difundida na sociedade e por isso tinha uma especial preocupação com a sua continuidade, filosofando em seus manuscritos: “quando as pernas fazem miserê: metafísica e prática da capoeira”. No seu dizer simples, ele dá o recado, dizendo que reconhece seus pupilos e sabe exatamente a hora em que as pernas são capazes de caminhar por conta própria, o momento de atribuir-lhes responsabilidades, dar força para o gavião voar em busca de novas experiências. Por isso, na década de 1970 e início da de 1980, quando Pastinha já passava por dificuldades, inclusive já com a cegueira, nomeou dois de seus alunos para darem continuidade ao seu trabalho, assim dizendo:
Eles (João Pequeno e João Grande) serão grandes capoeiras do futuro e
para isso trabalhei e lutei com eles e por eles. Serão mestres mesmo, não
professores de improviso, como existem por aí e que só servem para destruir
nossa tradição que é tão bela. A esses rapazes ensinei tudo o que sei, até
mesmo o pulo do gato (DIÁRIO DE NOTÍCIAS, 3. out. 70).
Mestre Pastinha enaltecia seus alunos, afirmando “na minha academia tem dois meninos, todos dois se chamam João: um é cobra mansa, o outro é gavião. Um joga no ar, o outro enroscado pelo chão”. Esse dois Joões não decepcionaram e na atualidade são considerados os herdeiros diretos de Mestre Pastinha: um fez sua vida na Bahia e o outro voou para longe, Nova York.