Capoeira Regional: a escola de Mestre Bimba

Hellio Campos · Capítulo 60 de 66

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Capoeira Regional: a escola de Mestre Bimba

Mestre Decanio

Eusébio não titubeou e partiu para a nova experiência; morou nos Estados Unidos da América, estudou dança na Universidade do Sul de Illinois e ministrou aulas de capoeira e danças brasileiras. O seu esforço, talento e determinação foram os pontos positivos que o fizeram galgar um cobiçado posto, um lugar na Galeria de Dançarinos Dunham e ser reconhecido entre as cinco pessoas do mundo a obter o grau de mestre na Técnica Dunham.

A sua estada nos Estados Unidos o levou juntamente com a Cia. de Dança de Dunham a se apresentar no importante Teatro de Nova York, o Carnegie Hall; depois vieram os shows na Broadway. Vale salientar o apoio e a convivência irmanada dos amigos capoeiristas, os baianos Jelon Vieira e Loremil Machado.

 

Mestre Decanio

 

Angelo Augusto Decanio Filho, atualmente com 83 anos, é o aluno mais antigo de Mestre Bimba em atividade. Ingressou no Centro de Cultura Física Regional, em 1938, com a finalidade de aprender a jogar capoeira, ainda como estudante de medicina da Faculdade de Medicina da Bahia, permanecendo versado na Capoeira Regional até a presente data.

Nos idos de 1966, já aluno de Bimba, eu ouvia falar muito de Decanio, ou seja, um dos alunos mais afamados da Capoeira Regional, não apenas pelo seu porte de jogo, por ser um “cobra” na arte da capoeiragem, mas principalmente por ser um médico famoso, um estudioso da capoeira, faixa preta de judô, apreciador de vários outros esportes e médico particular do mestre.

Certa feita, eu, calouro recém-chegado ao CCFR, presenciei a entrada gloriosa de Decanio na academia. Naquele momento, todos os presentes viraram suas atenções para o capoeirista, que, aos seus 43 anos, parecia “velho” para todos nós, jovens iniciantes. Decanio chegou para treinar! Apresentava ótima forma física condizente com seu aspecto esportivo, desenvolto, falante e gozando da atenção humorada de Bimba. Foi um reboliço, muita expectativa pela roda e jogo de Iúna.

Fiquei atento, não tirei os olhos de Decanio. Nos meus 19 anos nunca vira um médico jogar capoeira; ali estava um e um dos bons. Decanio fez a sequência e depois foi para a roda, jogar no toque do São Bento Grande. Jogou com Onça, um jogo pra pirão no dito popular. Pude perceber claramente por que Decanio era famoso: demonstrou naquele jogo desenvoltura, habilidade, malícia, mandinga, experiência e sabedoria, tudo que um bom capoeirista pode ter. Fiquei impressionado, mais ainda, quando amigavelmente conversou longamente com o mestre e mãe Alice.

Decanio é médico formado pela Faculdade de Medicina da Bahia na década de 1930, casado com Maria Isabel Pereira. Decanio é professor universitário, capoeirista e aluno destacado de Mestre Bimba.

Nas atividades da medicina, exerceu atribuições, a exemplo de Chefe de Clinica Cirúrgica do Hospital Santa Izabel da Santa Casa de Misericórdia da Bahia, professor de Anatomia Humana da Escola Baiana de Medicina e Saúde Pública (EBMSP), Professor Titular de Técnica Cirúrgica e Cirurgia Experimental da EBMSP, Professor Titular de Clínica Cirúrgica da EBMSP, Cirurgião do Hospital Santo Antonio das Obras Sociais de Irmã Dulce, Fundador do Capítulo Brasileiro da Sociedade Internacional de Angiologia, Graduado em Medicina do Trabalho pela EBMSP, Especialista em Perícia Médica do INSS, professor de Acupuntura da União dos Profissionais em Acupuntura do Brasil, apenas para citar algumas das suas ações na área da medicina, que são inúmeras.

Vale ressaltar que Decanio sempre teve uma atuação destacada como profissional da medicina, não apenas por ser considerado um cirurgião de mão-cheia, mas, sobretudo, por participar de várias pesquisas, atuar como conferencista de seminários, congressos e simpósios, nacionais e internacionais.

Em paralelo ao sucesso na medicina, ele também é detentor de um vasto currículo na área esportiva, com relevo especial para a capoeira, conquistando no CCFR o grau máximo na Capoeira Regional: o “lenço branco” de contramestre de Mestre Bimba. O “lenço branco” era uma insígnia honorífica que Mestre Bimba outorgava aos alunos de maior destaque na academia, em especial àqueles que comprovadamente contribuíram para a propagação da Capoeira Regional.

Extrapolando a figura do capoeirista vigoroso e destemido, Decanio assumia outras atribuições na Capoeira Regional: orientar Bimba quanto à organização administrativa, orador oficial, empresário e promotor de shows.

Sua contribuição para a capoeira como um todo não pára aí. Sempre muito requisitado para participar dos mais variados eventos capoeirísticos, no Brasil e no exterior, aliado ao vasto conhecimento cultural e trânsito livre com os mestres, é muito respeitado, tanto na Capoeira Regional como na Capoeira Angola.

Na literatura específica escreveu a “Herança de mestre Bimba: filosofia e lógica africanas da capoeira”, da Coleção São Salomão, com prefácio de Jorge Amado; um livro único, completo, escrito no balançar do corpo, no flanar da mente, gingando com os fatos, lições e palavras, apresentado poeticamente ao leitor, sendo considerado pelos estudiosos do assunto uma referência. Publicou uma outra pérola, “A herança de mestre Pastinha”, uma obra escrita e fundamentada em duas fontes: a primeira, passada para

ele por seu amigo Carybé5, que lhe confiou os documentos com que fora presenteado por Mestre Pastinha, um quadro a óleo sobre tela “Roda de Capoeira” e uma série de apontamentos em folhas soltas. A segunda, o Caderno e Álbum do Centro Esportivo de Capoeira

Angola, cedido por Wilson Lins6, amigo particular de Mestre Pastinha que lhe havia confiado o documento para publicação.

Sua contribuição literária não pára por aí: ele tem se destacado através de diversas outras publicações, em boletins, jornais, sites, revistas especializadas, por vezes apresentando temas originais e polêmicos, a exemplo do artigo “Transe capoeirano: estado de consciência modificado na capoeira” publicado pela “Revista da Bahia” da Editora Gráfica da Bahia em 2001.

No prefácio do livro”A herança de mestre Pastinha”, Itapoan salienta que o trabalho de Decanio “é de uma felicidade tamanha que tenho a certeza vai colocar a cabeça de muitos capoeiristas em ebulição, os obrigando a uma nova leitura da verdadeira Capoeira Angola”.