Capoeira Regional: a escola de Mestre Bimba
A metodologia de ensino da Capoeira Regional: avaliação dos mestres, contramestres e professores
A metodologia de ensino da
Capoeira Regional: avaliação
dos mestres, contramestres e
professores
Quando iniciamos esta investigação, logo nos preocupamos com a questão metodológica, um assunto muito pouco explorado nas pesquisas que envolvem a capoeira, em especial a Capoeira Regional. Não foi somente este motivo que nos remeteu a estudar sobremodo a metodologia usada por Mestre Bimba para ensinar a Capoeira Regional, outro importante motivo foi o de entender com mais profundidade como pensam os mestres, contramestres e professores de capoeira da atualidade sobre o tema, e se eles utilizam elementos metodológicos usados por Bimba, principalmente a sequência de ensino e a cintura desprezada.
Mestre Gladson, assim se posicionou:
Acho muito bom. Independente de estratégias pessoais, hoje adotadas na
minha forma de ensinar, bem como de novas sequências, não descarto o
treinamento das oito sequências, da cintura desprezada e nem da roda com
um berimbau e dois pandeiros com quadras e corridos. Todos os
movimentos das sequências estão inseridos em qualquer proposta de jogar
capoeira em qualquer estilo da atualidade. Na cintura desprezada, damos o
início para a descoberta de novos movimentos coreográficos. E por final, os
alunos são agraciados com a melhora da resistência aeróbia através dos
treinos dos movimentos em separado e da resistência anaeróbia quando do
treino das sequências em um tempo predeterminado.
Falcão fala do seu ponto de vista:
Do meu ponto de vista, a sequência de ensino de Mestre Bimba foi um
artifício bastante apropriado para dar visibilidade à capoeira no seio da
classe média de sua época. Através dela a capoeira incorporou os códigos
do ensino formal e do treinamento físico sistematizado e passou a adquirir
mais prestígio nesse contexto. Afinal, através de um método, a capoeira
poderia ser ensinada para um número cada vez mais significativo de
pessoas. Para aquele momento, a sequência de Bimba atendeu esse
objetivo de elevar a capoeira ao patamar de um conteúdo formal de ensino.
Atualmente, muitos mestres e professores a usam como referência histórica,
aliada a outros procedimentos metodológicos mais sintonizados com os
novos aportes teóricos da Pedagogia crítica e do treinamento desportivo.
Para Amorim:
O Mestre Bimba mostra toda sua genialidade quando cria a sequência de
ensino. Esta combinação de movimentos reflete o que há de mais moderno
em termos de metodologia de ensino, pois proporciona o aprendizado de
estruturas simples de defesa e ataque, evoluindo para estruturas mais
complexas. O sentido de lateralidade é trabalhado desde a primeira parte da
sequência quando o aluno é obrigado a defender-se utilizando cocorinha
para um lado e depois para o outro conforme a situação. Um outro fator
relevante é que ao dominar a sequência o aluno possui condições de entrar
na roda e jogar. Em relação à cintura desprezada acho que o Mestre foi feliz
em criar uma estratégia para que seus alunos soubessem se defender caso
tenham sido projetados, sem dúvida esse conhecimento é valioso em
situação de combate frente a um lutador de alguma modalidade que vise à
projeção do seu oponente. Outra função que vejo na sequência é a
mobilidade que o capoeirista ganha quando pratica os balões, no entanto é
possível jogar capoeira bem sem dominar profundamente os balões.
Daiola comenta a sequência de golpes:
Por ser uma sequência de golpes combinados, em meu ver, acredito que
este método ajuda muito no aprendizado, pois condiciona o aluno a treinar
os movimentos e em consequência a aprendê-los. Acredito também que
ajuda o aluno novo, iniciante, a ter uma melhor apresentação quando entra
numa roda, pois as sequências não deixam de ser uma pequena simulação
de jogo (ataque e defesa).
Carson considera que a metodologia usada por Bimba “foi um grande passo na popularização da capoeira, pois proporcionava um aprendizado muito mais rápido no jogo”. Concebe ser um método bastante eficiente e que a partir dessa criação de Mestre Bimba é que surgiram outros métodos usados hoje.
Lucas concorda com Carson na praticidade do método, dizendo ser uma metodologia fantástica e que não conhece outro que possibilite “tanta eficiência e precisão”. Dudu diz ser “um método vencedor, atual, educativo e disciplinador, o qual desenvolve no aluno todas as relevâncias bio-psico-motoras, além de prepará-lo para a roda”.
Cabloca chama a atenção da preparação técnica e do repertório de movimentos:
Como a preparação técnica para a Capoeira Regional é uma metodologia
dinâmica, variada no repertório de movimentos de ataque e defesa, favorece
o condicionamento corporal geral, todavia, perigosa se o Capoeirista ou
Mestre formador somente se restringir a ela, pois, para o Jogo de Capoeira,
livre e de situações criadas no momento em que se confronta com o
adversário, outros fatores fundamentais devem existir.
Para Balão, a metodologia é excelente. “Particularmente treino pouco estes movimentos na academia. Conheço todas as sequências de ensino e cintura desprezada e vejo a eficiência dos movimentos”. Imagina que o método usado por Bimba ainda é bastante atual. “Para a nossa época é supereficiente imagine há 70 anos atrás. O mestre ‘sistematizou’ o treino, importante para um melhor entendimento do aluno”.
Burguês acha extraordinário, contudo crê que, se Mestre Bimba estivesse vivo, o método teria evoluído bastante, teria sofrido uma renovação, um aperfeiçoamento. Para Boneco, “Bimba foi o precursor de um desencadeamento evolutivo na metodologia do ensino da capoeira”. Ele oportunizou a outras gerações ensinar capoeira de maneira mais segura, com clareza e simplicidade. Tosta afirma ser uma metodologia eficiente que possibilita perceber e “assimilar os golpes da capoeira, melhorando a sua agilidade no ataque e na defesa, aumentando assim a sua auto-estima e principalmente a sua confiança”.
Queijadinha d’Angola, Minhoca, Pangolim e Gavião se reportam a outros aspectos como: a) a metodologia usada foi fundamental para institucionalizar a capoeira; b) foi a primeira tentativa de sistematização da capoeira; c) é uma fonte importante de referência; d) uma metodologia típica de um processo de escolarização da capoeira; e) perfeito para o aprendizado dos golpes básicos da capoeira e para o desenvolvimento do jogo; f) o método é bem interessante por possibilitar que o aluno em pouco tempo possa participar da roda de capoeira.
Mestre Bimba dizia que a capoeira se aprende igualmente de “oitiva” e revelava o valor do ensino da Capoeira Regional pela sua sequência de ensino, a cintura desprezada e a sistematização que impunha uma lógica para se jogar capoeira, com desenvoltura apurada e marcante, eficácia em pouquíssimo tempo de prática
Falcão lembra que “nos primórdios, o aprendizado da capoeira ocorria de maneira vivencial e informal, geralmente nos fins de
semana” (1996, p. 93). A “vadiação” 1 — como era conhecida a prática da capoeiragem — misturava-se a outros hábitos cotidianos das classes populares.
O jogo de capoeira poderia ocorrer a qualquer momento, em qualquer lugar, não obstante ocorria na maioria das vezes em frente aos bares, armazéns, mercados, igrejas, praças, feiras e em festas populares. Nessas rodas, era comum se “passar o chapéu” para angariar dinheiro ou mesmo disputar o dinheiro jogado na roda, pegando-o com a boca, prática essa abominada por Bimba. Levando a crer que as relações entre os capoeiristas eram bastante intensas, fazendo com que os capoeiras mergulhassem de “corpo e alma” naquela realidade.
A criação da Capoeira Regional trouxe uma mudança significativa no processo de ensino-aprendizagem da capoeira. Uma nova ordem foi criada, no instante em que Mestre Bimba instalou sua academia, trazendo a prática da capoeira para um ambiente fechado e em seguida a registrando na Secretaria de Educação, Saúde e Assistência Pública do Estado da Bahia, e passando, então, a adotar uma metodologia considerada inovadora para os padrões da época.
Para Senna, “a Capoeira Regional baiana, que foi um trabalho de métodos de ensino e treino da CAPOEIRA tradicional sem sobrenome, tinha a sua característica diferencial, baseada na forma mais acelerada com que era praticada […] (sic)”. Cita que Mestre Bimba foi o criador da sequência na capoeira, do balão cinturado e da diplomação pela formatura (1990, p. 36).
Decanio (1996, p. 168) enfoca a sequência de maneira sui generis:
… assim …
… de movimento em movimento …
… o aluno completava o aprendizado da “sequência”…
… conjunto dos elementos fundamentais de ensino …
… e continuava praticando sem o berimbau…
… durante o período necessário ao aprendizado…
… dos movimentos básicos da regional…
… a obra prima do Mestre …
… foi a concepção genial…
… desta sequência de movimentos …
…. fundamental ou de ensino …
… que permite ensinar e difundir a capoeira …
… em tempo incrivelmente curto …
… em apenas 6 meses …
… consegue preparar um capoeirista de boa formação …
… pronto a entrar na roda …
… sem passar vergonha … nem apanhar muito …
… quando o calouro adquiria a agilidade …
… reflexos … “golpe de vista” …
… capazes de prevenir acidentes …
… era o principiante “batizado”…
… ao som do berimbau em ritmo lento …
… “puxado” por um “formado” de boa índole …
Torna-se evidente que essa matéria não se esgota nessa discussão provocativa sobre a qual estamos debruçados. Cremos estar suscitando uma oportunidade de estudos sobre algo fantástico, como se referiu Mestre Lucas; da genialidade de Bimba, como se reportou o professor Amorim; da capacidade de interferir na popularização da capoeira, como ressaltou o contramestre Carson; da sistematização citada pelo Mestre Balão; e da valorização da sequência no ensino-aprendizagem, observada pelo Mestre Gladson.