Capoeira Regional: a escola de Mestre Bimba

Hellio Campos · Capítulo 54 de 66

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Capoeira Regional: a escola de Mestre Bimba

A metodologia de ensino da Capoeira Regional: avaliação dos mestres, contramestres e professores

A metodologia de ensino da

 

Capoeira Regional: avaliação

 

dos mestres, contramestres e

 

professores

 

Quando iniciamos esta investigação, logo nos preocupamos com a questão metodológica, um assunto muito pouco explorado nas pesquisas que envolvem a capoeira, em especial a Capoeira Regional. Não foi somente este motivo que nos remeteu a estudar sobremodo a metodologia usada por Mestre Bimba para ensinar a Capoeira Regional, outro importante motivo foi o de entender com mais profundidade como pensam os mestres, contramestres e professores de capoeira da atualidade sobre o tema, e se eles utilizam elementos metodológicos usados por Bimba, principalmente a sequência de ensino e a cintura desprezada.

Mestre Gladson, assim se posicionou:

Acho muito bom. Independente de estratégias pessoais, hoje adotadas na

minha forma de ensinar, bem como de novas sequências, não descarto o

treinamento das oito sequências, da cintura desprezada e nem da roda com

um berimbau e dois pandeiros com quadras e corridos. Todos os

movimentos das sequências estão inseridos em qualquer proposta de jogar

capoeira em qualquer estilo da atualidade. Na cintura desprezada, damos o

início para a descoberta de novos movimentos coreográficos. E por final, os

alunos são agraciados com a melhora da resistência aeróbia através dos

treinos dos movimentos em separado e da resistência anaeróbia quando do

treino das sequências em um tempo predeterminado.

 

Falcão fala do seu ponto de vista:

 

Do meu ponto de vista, a sequência de ensino de Mestre Bimba foi um

artifício bastante apropriado para dar visibilidade à capoeira no seio da

classe média de sua época. Através dela a capoeira incorporou os códigos

do ensino formal e do treinamento físico sistematizado e passou a adquirir

mais prestígio nesse contexto. Afinal, através de um método, a capoeira

poderia ser ensinada para um número cada vez mais significativo de

pessoas. Para aquele momento, a sequência de Bimba atendeu esse

objetivo de elevar a capoeira ao patamar de um conteúdo formal de ensino.

Atualmente, muitos mestres e professores a usam como referência histórica,

aliada a outros procedimentos metodológicos mais sintonizados com os

novos aportes teóricos da Pedagogia crítica e do treinamento desportivo.

 

Para Amorim:

 

O Mestre Bimba mostra toda sua genialidade quando cria a sequência de

ensino. Esta combinação de movimentos reflete o que há de mais moderno

em termos de metodologia de ensino, pois proporciona o aprendizado de

estruturas simples de defesa e ataque, evoluindo para estruturas mais

complexas. O sentido de lateralidade é trabalhado desde a primeira parte da

sequência quando o aluno é obrigado a defender-se utilizando cocorinha

para um lado e depois para o outro conforme a situação. Um outro fator

relevante é que ao dominar a sequência o aluno possui condições de entrar

na roda e jogar. Em relação à cintura desprezada acho que o Mestre foi feliz

em criar uma estratégia para que seus alunos soubessem se defender caso

tenham sido projetados, sem dúvida esse conhecimento é valioso em

situação de combate frente a um lutador de alguma modalidade que vise à

projeção do seu oponente. Outra função que vejo na sequência é a

mobilidade que o capoeirista ganha quando pratica os balões, no entanto é

possível jogar capoeira bem sem dominar profundamente os balões.

Daiola comenta a sequência de golpes:

 

Por ser uma sequência de golpes combinados, em meu ver, acredito que

este método ajuda muito no aprendizado, pois condiciona o aluno a treinar

os movimentos e em consequência a aprendê-los. Acredito também que

ajuda o aluno novo, iniciante, a ter uma melhor apresentação quando entra

numa roda, pois as sequências não deixam de ser uma pequena simulação

de jogo (ataque e defesa).

 

Carson considera que a metodologia usada por Bimba “foi um grande passo na popularização da capoeira, pois proporcionava um aprendizado muito mais rápido no jogo”. Concebe ser um método bastante eficiente e que a partir dessa criação de Mestre Bimba é que surgiram outros métodos usados hoje.

Lucas concorda com Carson na praticidade do método, dizendo ser uma metodologia fantástica e que não conhece outro que possibilite “tanta eficiência e precisão”. Dudu diz ser “um método vencedor, atual, educativo e disciplinador, o qual desenvolve no aluno todas as relevâncias bio-psico-motoras, além de prepará-lo para a roda”.

Cabloca chama a atenção da preparação técnica e do repertório de movimentos:

 

Como a preparação técnica para a Capoeira Regional é uma metodologia

dinâmica, variada no repertório de movimentos de ataque e defesa, favorece

o condicionamento corporal geral, todavia, perigosa se o Capoeirista ou

Mestre formador somente se restringir a ela, pois, para o Jogo de Capoeira,

livre e de situações criadas no momento em que se confronta com o

adversário, outros fatores fundamentais devem existir.

 

Para Balão, a metodologia é excelente. “Particularmente treino pouco estes movimentos na academia. Conheço todas as sequências de ensino e cintura desprezada e vejo a eficiência dos movimentos”. Imagina que o método usado por Bimba ainda é bastante atual. “Para a nossa época é supereficiente imagine há 70 anos atrás. O mestre ‘sistematizou’ o treino, importante para um melhor entendimento do aluno”.

Burguês acha extraordinário, contudo crê que, se Mestre Bimba estivesse vivo, o método teria evoluído bastante, teria sofrido uma renovação, um aperfeiçoamento. Para Boneco, “Bimba foi o precursor de um desencadeamento evolutivo na metodologia do ensino da capoeira”. Ele oportunizou a outras gerações ensinar capoeira de maneira mais segura, com clareza e simplicidade. Tosta afirma ser uma metodologia eficiente que possibilita perceber e “assimilar os golpes da capoeira, melhorando a sua agilidade no ataque e na defesa, aumentando assim a sua auto-estima e principalmente a sua confiança”.

Queijadinha d’Angola, Minhoca, Pangolim e Gavião se reportam a outros aspectos como: a) a metodologia usada foi fundamental para institucionalizar a capoeira; b) foi a primeira tentativa de sistematização da capoeira; c) é uma fonte importante de referência; d) uma metodologia típica de um processo de escolarização da capoeira; e) perfeito para o aprendizado dos golpes básicos da capoeira e para o desenvolvimento do jogo; f) o método é bem interessante por possibilitar que o aluno em pouco tempo possa participar da roda de capoeira.

Mestre Bimba dizia que a capoeira se aprende igualmente de “oitiva” e revelava o valor do ensino da Capoeira Regional pela sua sequência de ensino, a cintura desprezada e a sistematização que impunha uma lógica para se jogar capoeira, com desenvoltura apurada e marcante, eficácia em pouquíssimo tempo de prática

Falcão lembra que “nos primórdios, o aprendizado da capoeira ocorria de maneira vivencial e informal, geralmente nos fins de

semana” (1996, p. 93). A “vadiação” 1 — como era conhecida a prática da capoeiragem — misturava-se a outros hábitos cotidianos das classes populares.

O jogo de capoeira poderia ocorrer a qualquer momento, em qualquer lugar, não obstante ocorria na maioria das vezes em frente aos bares, armazéns, mercados, igrejas, praças, feiras e em festas populares. Nessas rodas, era comum se “passar o chapéu” para angariar dinheiro ou mesmo disputar o dinheiro jogado na roda, pegando-o com a boca, prática essa abominada por Bimba. Levando a crer que as relações entre os capoeiristas eram bastante intensas, fazendo com que os capoeiras mergulhassem de “corpo e alma” naquela realidade.

A criação da Capoeira Regional trouxe uma mudança significativa no processo de ensino-aprendizagem da capoeira. Uma nova ordem foi criada, no instante em que Mestre Bimba instalou sua academia, trazendo a prática da capoeira para um ambiente fechado e em seguida a registrando na Secretaria de Educação, Saúde e Assistência Pública do Estado da Bahia, e passando, então, a adotar uma metodologia considerada inovadora para os padrões da época.

Para Senna, “a Capoeira Regional baiana, que foi um trabalho de métodos de ensino e treino da CAPOEIRA tradicional sem sobrenome, tinha a sua característica diferencial, baseada na forma mais acelerada com que era praticada […] (sic)”. Cita que Mestre Bimba foi o criador da sequência na capoeira, do balão cinturado e da diplomação pela formatura (1990, p. 36).

Decanio (1996, p. 168) enfoca a sequência de maneira sui generis:

 

… assim …

… de movimento em movimento …

… o aluno completava o aprendizado da “sequência”…

… conjunto dos elementos fundamentais de ensino …

… e continuava praticando sem o berimbau…

… durante o período necessário ao aprendizado…

… dos movimentos básicos da regional…

… a obra prima do Mestre …

… foi a concepção genial…

… desta sequência de movimentos …

…. fundamental ou de ensino …

… que permite ensinar e difundir a capoeira …

… em tempo incrivelmente curto …

… em apenas 6 meses …

… consegue preparar um capoeirista de boa formação …

… pronto a entrar na roda …

… sem passar vergonha … nem apanhar muito …

… quando o calouro adquiria a agilidade …

… reflexos … “golpe de vista” …

… capazes de prevenir acidentes …

… era o principiante “batizado”…

… ao som do berimbau em ritmo lento …

… “puxado” por um “formado” de boa índole …

Torna-se evidente que essa matéria não se esgota nessa discussão provocativa sobre a qual estamos debruçados. Cremos estar suscitando uma oportunidade de estudos sobre algo fantástico, como se referiu Mestre Lucas; da genialidade de Bimba, como se reportou o professor Amorim; da capacidade de interferir na popularização da capoeira, como ressaltou o contramestre Carson; da sistematização citada pelo Mestre Balão; e da valorização da sequência no ensino-aprendizagem, observada pelo Mestre Gladson.