Capoeira Regional: a escola de Mestre Bimba
Mestre Bimba: O mito sagrado da capoeira
Perguntamos em seguida a Nenel: Qual a sua visão do Mestre Bimba como pai? Ele respondeu de maneira enfática: “não consigo separar a imagem de Bimba como mestre e pai. Para cada pessoa ele tinha uma forma de tratamento. Ele não separava as pessoas, não distinguia entre os filhos de sangue e os filhos da escola de capoeira”.
Nalvinha, umas das últimas filhas que chegou a se iniciar na arte de capoeirar, numa época em que preconceitos e tabus erram arraigados, necessitando de arrojo e determinação para aprender a capoeira no meio de rapazes, alunos/filhos de Bimba. Nalvinha comenta sempre que Mestre Bimba tinha um enorme desejo, que foi realizado apenas em parte: o de criar um grupo especial de alunas, ensinar a sua arte para as mulheres.
Nalvinha reportando-se à sua história de vida, comenta fatos interessantes, como filha e aluna de capoeira de Mestre Bimba:
Mestre Bimba para mim, além de ser meu pai, lógico que foi um pai dez,
acho, porque tive uma vida muito difícil, ele era preocupado com o nosso
futuro, nosso bem-estar, da família, apesar de ter tido filhos com várias
mulheres, mas sempre conseguiu cuidar de todos, unir todos. Você lembra,
que no show cultural tinha eu, Nenel, tinha mais dois Demerval e Bilósca que
eram de outra mulher, que a gente se dá bem até hoje. Então ele era assim,
um pai que se preocupava com os filhos em todos os aspectos, na
educação, na saúde e principalmente com o futuro. Ele se preocupava muito,
possivelmente por ele ter tido a gente já com a idade avançada, então
passava na cabeça dele que ele iria e a gente ia ficar e aconteceria o
momento que a gente ia precisar dele, como realmente aconteceu. Ele se
preocupava muito que a gente estudasse e por isso mantinha a gente na
escola particular, porque achava que ele pagando era melhor pra gente, pra
gente aprender, ter mais segurança, então eu acho que, para mim, foi um pai
dez, além de um educador. Ele também educava a gente pela Capoeira,
lembro quando ele sentava com vocês depois da aula para conversar sobre
Capoeira, a gente estava junto com vocês, participando junto (sic).
Mestre Bimba: O mito sagrado da
capoeira
Analisando os depoimentos dos alunos de Mestre Bimba — mestres, contramestres e professores de capoeira — identificamos nas suas falas o apreço, admiração, respeito e reverência, que revela para todos uma relação do entendimento de um mito. Muniz Sodré atesta que “Mestre Bimba foi e continua sendo restituído pela memória de hoje. Filhos e discípulos o perpetuam; reverenciam-no aqueles que, por secreta afinação com o povo, escutam o apelo dos cablocos, os ‘donos da terra’, no toque do berimbau” (2002, p. 106). Ele ressalta, ainda, as homenagens recebidas, principalmente a de 12 de junho de 1996, com a outorga, pela UFBA, do Título de Doutor Honoris Causa.
A imagem que os entrevistados fazem de Bimba aflora na consciência interpolada pelo processo inconsciente. A consequência disso é que tudo que se apresenta como realidade imediata consiste em imagens bem configuradas, o que indica, portanto, que nós vivemos, na verdade, somente num mundo de imagens.
Silveira, citando Jung, certifica que ele reconhece na imagem grande importância, assim como nas fantasias e nos delírios. Para a autora, Jung vê, nos produtos da função imaginativa do inconsciente, auto-retratos do que está acontecendo internamente na psique, sem quaisquer máscaras ou véus, pois é peculiaridade essencial da psique configurar imagens de suas atividades por um processo inerente à sua natureza. “A energia psíquica faz-se imagem, transforma-se em imagem” (2000, p. 85). Sobre as obras de Jung, esta autora assegura:
Através de toda a obra de Jung, encontram-se inúmeras leituras de imagens,
sejam de sonhos, visões, desenhos, pinturas, sempre estudadas em série,
pois “essas imagens são auto-representações de transformações
energéticas que obedecem a leis específicas e seguem direção definida”.
Trata-se de tentativas de realizar o processo de individualização que consiste
na dialética entre o ego e imagens do inconsciente.
Silveira observa, ainda, que as imagens de caráter mitológico são, para Jung, a “linguagem inata da psique em sua estrutura mais profunda; e aí estão “as raízes de nossas vidas psíquicas, fonte de toda a imaginação criadora”.
Campbell, em o “Poder dos mitos”, observa sobre o sentido da vida:
Dizem que o que todos procuramos é um sentido para a vida. Não penso
que seja assim. Penso que estamos procurando é uma experiência de estar
vivos, de modo que nossas experiências de vida, no plano puramente físico,
tenham ressonância no interior de nosso ser e de nossa realidade mais
íntimos, de modo que realmente sintamos o enlevo de estar vivos. É disso
que se trata, afinal, e é o que essas pistas nos ajudam a procurar, dentro de
nós mesmos (1990, p. 5).
Campbell (1990) refere-se aos mitos dizendo que são pistas para as potencialidades espirituais da vida humana. Assegura ainda que os indivíduos que lêem sobre os mitos são capazes de se voltar para o seu interior e aí começam a captar mensagens dos símbolos. “O mito ajuda a colocar sua mente em contato com essa experiência de estar vivo”.
Os seres humanos sempre foram criadores de mitos. Somos criaturas eternamente em busca de sentidos.
Segundo Armstrong:
Os seres humanos, por sua vez, facilmente se desesperam, e desde a
origem mais remota inventamos histórias que permitem situar nossas vidas
num cenário mais amplo e nos dão a sensação de que a vida, apesar de
todas provas caóticas e arrasadoras em contrário, possui valor e significado.
Outra característica peculiar da mente humana é a capacidade de ter idéias
e experiências que não podemos explicar racionalmente. Possuímos
imaginação, uma faculdade que nos permite pensar a respeito de coisas que
não se situam no presente imediato e que, quando as concebemos, não têm
existência objetiva (sic) (2005, p. 9).
A imaginação também é uma faculdade que permite aos cientistas caminharem na busca de novos conhecimentos e criarem tecnologias que nos favorecem incomensuravelmente. A imaginação dos cientistas os levou a estabelecerem leis, teorias, que nos levaram às viagens espaciais e a outros feitos somente possíveis no reino da mitologia. “Tanto a mitologia quanto a ciência ampliam os
horizontes do ser humano”1. Portanto, a mitologia, como a ciência e a tecnologia, nos incita a viver mais intensamente neste mundo e a não nos afastarmos dele.
May, citando Malinowski diz que “considerando-o vivo, o mito […] não é uma explicação que responda a um interesse científico, mas uma renovação narrativa de uma realidade primordial, contada como resposta a desejos religiosos profundos, a ânsias morais” (1993, p. 3).
Um mito realmente é um modo de dar sentido a um mundo sem sentido. Mitos são padrões narrativos que dão significados à nossa existência. Os mitos são nosso modo de encontrar esse sentido e esse significado. “Os mitos são como as vigas de uma casa: invisíveis a uma visão exterior, são a estrutura que mantém a casa
de pé para que as pessoas possam morar nela”2.
O mito serve para orientar esses capoeiras para a realidade. Nascido de evento histórico, carrega valores da sociedade e os fazem encontrar o seu sentido de identidade. Podemos então dizer que conhecemos o nosso povo através dos seus mitos.
O mito desperta um sentido de identidade pessoal, fortalece os nossos valores morais, torna possível a nossa acepção de comunidade e proporciona imensa capacidade para criar. “É por meio dos mitos que os homens são suspensos acima de suas capacidades no cotidiano, alcançam visões poderosas do futuro e
realizam tais visões”3.
Percebemos que, tanto os alunos, como os mestres, contramestres e professores de capoeira têm Mestre Bimba como um mito, o que proporciona um maior sentido às suas vidas pessoais, uma maior valoração profissional fundamentada na história de um homem vencedor, um herói, por ter suplantado suas dificuldades, suas limitações e sua pouca instrução, vencendo o preconceito de um ofício e projetando-o para o mundo, numa dimensão jamais vista.
Muniz Sodré cita que o “fato é que de Bimba, hoje, pode-se dizer muitas coisas, pode-se até mesmo ficcionalizar, porque ele já é imagem pública, vive na esfera dos símbolos míticos da Bahia, que dão volta ao mundo por intermédio das atividades dos antigos alunos” (2002, p. 19). Lembrando das biografias e cantigas de louvação, Itapoan assim se expressa: “talvez a capoeira produza um novo mito, mas duvido muito que tenha a amplitude e o brilho do meu mestre, do mestre Bimba, o Senhor Capoeira, que conversa, me guia, diz, ensina e ‘entra’ na roda comigo” (2005, p. 102). Para Decanio, “Bimba não é gente, Bimba é um semideus encarnado, Bimba não vai ser repetido”. O mito Bimba transfigura-se no âmago de cada capoeirista, intensifica e codifica a crença, protege e reforça a moralidade, legitima o ritual e contempla as regras para o jogo e para a orientação do homem.