Capoeira Regional: a escola de Mestre Bimba

Hellio Campos · Capítulo 45 de 66

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Capoeira Regional: a escola de Mestre Bimba

Aprendendo a Capoeira Regional

 

Até 1972 só existia uma escola de Capoeira Regional — o CCFR — localizada no Maciel de Cima, próximo ao Terreiro de Jesus, no Centro Histórico de Salvador, um local de difícil acesso, visto que ali funcionava um dos principais meretrícios da cidade, num belo sítio histórico em decadência.

Essa não seria a principal dificuldade para se chegar até a academia de Mestre Bimba. O preconceito contra as manifestações culturais e populares advindas dos negros escravizados era outro forte empecilho, sem falar nos receios explícitos sobre a violência na capoeira. Talvez por esses motivos aqui explicitados é que Bimba valorizava tanto quando alguém chegava sozinho para se matricular no CCFR. A rigor, os seus alunos na sua maioria eram levados por outros alunos mais antigos.

O futuro aluno, ao chegar na academia, era interpelado por Mestre Bimba, que logo lhe fazia umas perguntas básicas, com a finalidade de conhecer melhor o candidato: Por quê escolheu a Capoeira Regional? Onde estudava? Quem o levou? Qual sua idade? Quem é sua família? E até perguntava de maneira humorada

se tinha tijubina.3

Mestre Bimba disse que aplicava esse procedimento, pois não queria que vadios, malandros e vagabundos frequentassem sua academia. Entendia ele que esses indivíduos eram perniciosos e causavam danos à imagem da capoeira.

Em seguida, o candidato era submetido ao exame de admissão, em que Bimba verificava as habilidades motoras do novo aluno, submetendo-o aos exercícios básicos obrigatórios: cocorinha, queda de rins e deslocamento para trás (ponte). Esses exercícios tinham também, como finalidade, investigar os aspectos das valências físicas, a exemplo da flexibilidade, da força e do equilíbrio.

Itapoan afirma que em outros tempos o exame era mais contundente, o mestre aplicava uma “gravata” no pescoço dos indivíduos e dizia “aguenta sem chiar”, se o aluno aguentasse estava matriculado, caso contrário, ia aprender em outro lugar (1994, p. 61). O mestre contava isso rindo e fazendo chacota dele mesmo, afirmando que perdeu muitos alunos e dinheiro, porém justificava ser um procedimento de macho.

Os ex-alunos de Mestre Bimba não gostam de serem chamados de ex-alunos, justamente por que se dizem permanentemente discípulos e continuam aprendendo com os ensinamentos do mestre até os dias de hoje, colocando em prática no cotidiano as suas lições, como uma filosofia de vida.

As dificuldades já observadas, nos levaram a questionar os entrevistados, com a finalidade de tentar entender melhor de que maneira as pessoas chegavam até o CCFR, e que impressão tinham de Mestre Bimba no primeiro contato com ele.

Cafuné assim contou suas impressões:

 

Foi muito forte, até por que a minha chegada lá na academia, teve também

uma curiosidade, eu li uma reportagem dele no jornal, falando da capoeira

Regional, foi o que me despertou, falando sobre a luta regional baiana, da

defesa pessoal que ele ensinava, foi o que despertou a vontade de ir até lá e

conhecê-lo e, realmente fui, e fui apressado como é a minha maneira de ser

às vezes, bati na porta e pedi para falar com Mestre Bimba e um aluno me

atendeu, me levou até ele e perguntei, mestre posso assistir uma aula? Ele

chamou o aluno que me havia levado até ele e disse, pegue ele e mostre na

porta, feche a porta e mande ele lê o que tem escrito lá. Eu voltei até a porta

e li, estava escrito: aula dois mil, mensalidade dois mil, visita dois mil, então

o mesmo preço de uma mensalidade seria o mesmo preço de uma visita,

então eu raciocinei, bom então, se eu vou ter que pagar, vou pagar logo uma

mensalidade e ficar. Foi uma impressão muito forte, porque aquilo

demonstrou uma personalidade e uma capacidade muito grande dele botar a

gente com o pé no chão e mostrar o que é que você tá fazendo ali (sic).

 

Gato Branco reportou-se ao primeiro encontro, dizendo que já tinha um conhecimento da Capoeira Regional, pois seu irmão, Fernando (Cancão-de-fogo), era aluno formado de Mestre Bimba e costumava levar até sua casa seus colegas, contemporâneos da academia, entre eles Sacy e Acordeon.

Conta, ainda, que passou a querer frequentar as aulas de capoeira, porém sofreu resistência de seu pai. Quando conseguiu se desvencilhar dessa imposição, foi à academia acompanhado por dois amigos da rua.

 

[…] fui lá na academia do mestre para me matricular, quando cheguei lá foi

que eu vi aquele homão, forte, austero, ele me perguntou o que é que eu

queria lá. A primeira impressão não foi muito boa, mas eu disse que queria

aprender capoeira, ele perguntou já jogou capoeira angola? Fez alguma

luta? E eu então respondi, não, não fiz nada eu estou aqui querendo

começar do zero, aprender, e ele disse então tá certo, me dê seu pescoço aí

pegou meu pescoço, me deu uma gravata apertou e quase me mata, então a

experiência que eu tive com ele, foi a pior possível no início, mas, como eu

consegui segurar a onda com aquela gravata e talvez tenha ficado o tempo

que ele achou necessário, então ele me aprovou e dali em diante eu virei

amigo do mestre. Acordava de manhã cedo, e às vezes ficava até duas

horas conversando com ele (sic).

 

Medicina relata que o seu primeiro encontro com Mestre Bimba não foi dos melhores, pois sentiu uma “sensação de medo devido ao seu porte atlético, sisudo, de poucas palavras, exigia respeito sem grosseria, talvez devido ao local em que sua Academia funcionava”. Medicina cita ainda que “apesar da academia funcionar na Rua das Laranjeiras, zona do baixo meretrício de Salvador e de frequência constante de marginais, ele nunca viu as pessoas consumindo drogas, a não ser álcool e tabaco”.

Do seu primeiro contato com Bimba, Arara conta:

 

Quando eu decidi entrar na capoeira, eu já tinha optado por ela, apesar de

ter visto mais Capoeira Angola do que a Capoeira Regional. Fui ver então a

Capoeira Regional, ensinada na Academia de Mestre Bimba. Entrei e me

dirigi ao Mestre Bimba e, quando me dirigi a ele, fiquei na dúvida se ele era

realmente o Mestre Bimba, porque eu tinha uma idéia diferente de Mestre

Bimba, então encontrei um senhor alto e forte, já de meia idade, pois eu

imaginava Mestre Bimba com uma conformação física diferente. Mestre

Bimba não era uma pessoa de estar com os dentes abertos para estranhos,

me recebeu bem, mas sem nenhuma cortesia especial. Conversei um pouco

com ele, fiz algumas perguntas sobre a idade das pessoas e horários e, a

partir daí, já saí decidido a voltar para me matricular na Capoeira Regional

(sic).

 

Sacy comenta com emoção a sua entrada na academia de Bimba:

Coisa legal que aconteceu na minha vida. A gente ouvia falar de Mestre

Bimba como se fosse uma lenda. Qual garoto de rua da época que não ouvia

falar da capoeira de Mestre Bimba? De repente chegou um amigo meu

chamado Chicão que treinava capoeira em Mestre Bimba e me disse que

estava treinando com Bimba. Para mim foi uma grande surpresa. Disse

então para ele, rapaz me leve lá. Com menos de uma semana já estava eu

lá. Quando entrei, me senti como se tivesse entrando, é até difícil de explicar,

entrar na Academia de Bimba era como se estivesse entrando na Academia

de Agulhas Negras, na Escola de Cadetes em Barbacena ou Campos dos

Afonsos, para ser um militar. Para mim era como se tivesse indo ao encontro

dos verdadeiros deuses, uns verdadeiros ídolos. Quanto à figura do mestre a

gente nem tem palavra para descrever. Eu olhava para aqueles capoeiristas

como Camisa Roxa, Cabeludo e pensava quando chegaria a ser um deles. É

difícil explicar certas coisas, certos acontecimentos e somente aqueles que

passaram pela Academia de Mestre Bimba são capazes de ter alguma

explicação plausível (sic).

 

Itapoan menciona que foi levado à academia por um primo. Assistiu à aula do canto da sala, todavia com a atenção para Bimba tocando berimbau, dando as suas ordens, comandando aquele ritual todo e então ficou deveras impressionado com aquilo tudo que via e com o dinheiro do judô se matriculou na capoeira. “Quer dizer a primeira impressão que eu tive foi muito forte dele, tanto que eu continuei até ele ir embora e morrer em Goiás” e ressalta que “quando Bimba gostava de você, ele conversava legal, mas ele era muito fechado com as pessoas estranhas, era uma pessoa direta nas respostas, não tinha meias palavras”.

Sariguê disse que recebeu dinheiro de sua mãe para se matricular no Karatê na Academia de Caribe e como não sabia andar direito na cidade, pela pouca idade que tinha, acabou visitando as academias de capoeira de Pastinha e Caiçara. Somente depois, um amigo seu o encaminhou para a academia de Mestre Bimba. Chegando lá, mostrou ao mestre um “bolinho” de dinheiro dizendo que queria se matricular naquela capoeira. Disse ainda que o mestre ficou eufórico e comentou que se todos os alunos viessem à academia com tanto dinheiro assim ele estaria rico. Sariguê afirmou que o dinheiro que usou na matrícula serviu para pagar várias mensalidades.

Boinha falou que seu interesse em aprender a Capoeira Regional tinha como principal motivação preparar-se para se defender das brigas de rua. Comentou que conhecia Mestre Bimba de nome, já tinha ouvido falar muito dele, pelos jornais e pessoas. Passou a querer ir até a academia, para ver como era a coisa e se possível se matricular. Porém, expõe que para chegar até a academia não era tão simples assim, precisava de alguém para levá-lo e apresentá-lo ao Mestre Bimba. Afirma ainda que as pessoas poderiam chegar diretamente a Bimba, contudo passavam por um “interrogatório”, em que Bimba perguntava: “Quem é você? Qual sua família? Você vem de onde? Você estuda onde? Ele tinha um cuidado de saber quem eram as pessoas. Era cuidadoso e eu não sei onde ele aprendeu aquilo”. Ressalta que nos dias de hoje não percebe essa mesma preocupação com os atuais mestres de capoeira.

Ao entrar na academia, ficou surpreso porque se deparou com um homem alto, forte e com voz grossa. Essa primeira impressão lhe foi acrescentada de emoção, quando Mestre Bimba, o pegou pela mão para ensinar a gingar: “quando o mestre pegou minha mão me passou uma energia diferente, algo que tomou conta de meu corpo, de cima, da cabeça até os pés, que nunca vi em outro lugar”.

Geni começou o seu aprendizado pela Capoeira Angola e o seu mestre foi Canjiquinha, que o estimulou a experimentar a Capoeira de Rua. Inquieto, resolveu “assistir a Capoeira Regional de Bimba na academia dele” e para isso pagou ingresso. “Esse primeiro contato não foi muito bom, justamente por que eu treinava na academia do Mestre Canjiquinha”. Disse então, que “Canjiquinha era uma pessoa bastante aberta; brincalhão, gozador; e todo mundo dizia que ele era a ‘alegria da capoeira’”. Chegando na academia de Bimba, encontrou uma pessoa sisuda, fechada, que o cumprimentou com um simples “boa-tarde!”, indicando-lhe o banco para ele sentar. Geni sentiu um certo desconforto, ficando, como ele disse, “meio cabreiro”. Assistiu um pouco da aula e foi embora.

Nestes depoimentos, observamos que existia de fato uma certa dificuldade para fazer parte do CCFR, quer seja pela localização, quer seja pelos preconceitos com a capoeira da época e até mesmo pelo misticismo que envolvia a figura de Bimba, como um profissional da capoeiragem baiana, um mestre de capoeira.

Para entendermos melhor essa situação, temos que lembrar das exigências que Mestre Bimba fazia para os candidatos a seus discípulos. A primeira a pontuarmos era que Bimba só aceitava na sua escola pessoas que fossem estudantes e/ou trabalhadores, chegando mesmo a solicitar a Carteira de Trabalho. A segunda exigência era a cobrança de matrícula e mensalidades, o que já, definitivamente, selecionava os seus alunos, oportunizando apenas àqueles de poder aquisitivo maior, normalmente pessoas das classes média e alta da sociedade baiana. A terceira, eram os exames de acesso à academia, nada convencionais.