Capoeira Regional: a escola de Mestre Bimba

Hellio Campos · Capítulo 40 de 66

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Capoeira Regional: a escola de Mestre Bimba

Aspectos pedagógicos no entendimento dos alunos de Bimba

Para Luckesi, “Uma pedagogia inclui mais elementos que os puros pressupostos filosóficos da educação, tais como os processos sócio-culturais, a concepção psicológica do educando, a forma de organização do processo educacional etc.” (2002, p. 33). É, portanto, imprescindível que esses elementos, à medida que estejam aglutinados e integrados a partir de um pressuposto, tenham um direcionamento filosófico.

Luckesi chama a atenção afirmando que “a reflexão filosófica sobre a educação é que dá o tom à pedagogia, garantindo-lhe a compreensão dos valores que hoje direcionam a prática educacional e dos valores que deverão orientá-la para o futuro”. Consequentemente, não se pode ter uma proposta pedagógica sem uma conjectura lastreada nos fundamentos e proposições filosóficas.

Sabemos perfeitamente que Mestre Bimba não detinha o conhecimento sobre os pressupostos da educação, todavia, acreditamos que tinha consciência do que almejava para a Capoeira Regional e sua maneira de ensinar estava fundamentada na sua história de vida, numa experiência prática. Possivelmente, os pressupostos existiam e estavam subjacentes, embora não sendo explicitados claramente.

Cremos que Mestre Bimba imaginava os caminhos para a sua Capoeira Regional, refletia sobre a melhor maneira de ensinar, a forma de divulgá-la, a eficiência dos golpes, as possibilidades de defesas, as sequências de ensino, as fases da aula, as etapas do curso a serem cumpridas, os toques do berimbau e a roda. Tinha ainda a preocupação com a administração do CCFR, fundou um grupo de apresentações e partilhava suas inquietações com seus alunos.

 

Aspectos pedagógicos no

 

entendimento dos alunos de Bimba

 

Como dissemos anteriormente, existem divergências de opinião sobre este assunto e que têm gerado polêmica. Medicina diz não conceber que “Mestre Bimba tenha pensado em um plano pedagógico para ensinar a Capoeira Regional”. Acreditando Medicina que tudo não passou de uma intuição singular abraçada de maneira inteligente por Bimba. Para Medicina, Mestre Bimba não tinha um projeto pedagógico para a Capoeira Regional: “ele com sua vivência e experiência criou um roteiro para a iniciação dos seus alunos capoeiristas, como se fosse um culto para seu desenvolvimento pessoal”.

Gato Branco tem outra idéia sobre o mesmo tema: “eu acho que ele não só criou a pedagogia, mas também deixou arraigado em todos aqueles que praticaram a Capoeira Regional o sentimento de que valeu a pena ter praticado esse estilo de capoeira”.

Itapoan se refere a Bimba dizendo que a diferença dele para outros mestres de capoeira é que ele estudou a capoeira, criou um método de ensino, era um pesquisador, porque estava sempre experimentando algo inerente à sua práxis e pensava à frente do seu tempo.

Cafuné, de maneira firme, fala: “com certeza absoluta Mestre Bimba criou uma pedagogia para o ensino da Capoeira Regional”, e comenta:

 

Veja bem, quando nós chegávamos na academia, como no meu caso, por

exemplo, que eu era muito tímido, eu com poucas semanas estava jogando

capoeira e com seis ou sete meses estava sendo formado. Hoje, com

pedagogias diferentes, você leva três, quatro, cinco anos para formar um

aluno. Não que ele formasse um professor ou mestre, não era isso, mas ele

formava um capoeirista, muito bom capoeirista com esse pouco tempo. Essa

é a grande diferença da metodologia dele, para outras metodologias que

estão tendo (sic).

 

Galo concorda com Cafuné, quando diz que Mestre Bimba criou uma pedagogia para o ensino da capoeira. “Ele fez, sem dúvida, o seu caminho, o seu histórico e fez o seu próprio modelo pedagógico”. Lembra-se, inclusive fazendo menção às suas observações, até de filmes nos quais a capoeira está presente, de que existe ali uma assinatura do ensinamento de Bimba, na qual aparecem as nuances da pedagogia do mestre.

Para Decanio, Mestre Bimba “não tinha um projeto para sua capoeira, pois gênio não projeta nada, gênio manifesta sua genialidade, […] um projeto é coisa ambiciosa. E o projeto dele, se existia um projeto, era cada um de nós”. Lembra ainda que Mestre Bimba centrava seu ensino de capoeira em cada aluno, usando sempre a estratégia do jogo em duplas. Era costume o mestre chamar dois alunos para o jogo na roda, tendo uma preocupação de variar constantemente as duplas.

 

Dizia ele, hoje você vai jogar com fulano. Mas não escolhia parceiro, pois ele

sabia que quando você combina o jogo a Capoeira engana, porque ele sabia

que não era Helio que esta jogando era Xaréu, não era Ângelo era Decanio,

que não era Boaventura era Boinha. Portanto, a pedagogia de Bimba era

individual e permanece individual até hoje, ele não acabou de nos construir,

a morte dele não nos separou dele, não nos desvinculou dele,

permanecemos alunos de Bimba (sic).

 

Decanio faz uma comparação entre os mestres de capoeira da atualidade que, a todo custo tentam ensinar capoeira, e assim se refere: “ninguém ensina capoeira a ninguém, os dois gênios disseram a mesma coisa: Bimba e Pastinha”.

Geni destaca a importância que Mestre Bimba dava a seus alunos, que gostava de valorizar a capacidade individual de cada aluno, observando as habilidades, o avanço no aprendizado e principalmente o nível de maturidade. Diz ainda: “sob o meu ponto de vista, ele tinha, sim, um projeto pedagógico, tanto que, além dele ter criado tudo isso, um encadeamento de atividades, que na verdade formam uma sequência pedagógica, ele teve a visão de sair para ensinar no Exército Brasileiro”. Geni, na sua fala, salienta os métodos, as sequências de ensino e os toques. Chama a atenção, de maneira veemente, dizendo que Mestre Bimba sempre aceitou a evolução e a colaboração de alguns dos seus alunos, sem, contudo, fugir dos fundamentos da capoeira.

Como vimos, as divergências sobre este assunto são notórias. Medicina acredita ser apenas uma intuição e Decanio ressalta a genialidade de Bimba, enquanto os outros transitam pelos processos de construção da Capoeira Regional, como um todo, para confirmar suas idéias de que Mestre Bimba tinha, sim, um projeto para a sua Capoeira Regional. Todavia, parece-me ser um tema de interessante discussão e lembro ser inevitável destacar inicialmente os pressupostos filosóficos da educação e os processos sociais, culturais, psicológicos e organizacionais, como elementos fundamentais para podermos avançar e compreender que Mestre Bimba tinha, claro, um Projeto Pedagógico.