Capoeira Regional: a escola de Mestre Bimba
Ensinando a sequência
Figura 10 - Mestre Bimba e seu aluno Fabrício.
Fontes: Mestre Itapoan e livreto do Curso de Capoeira Regional
Mestre Bimba.
Ensinando a sequência
Na aula seguinte, o mestre convidava um aluno formado para ensinar a sequência, que é composta de oito partes, referenciadas por uma imbricação lógica de movimentos de ataque, defesa e contra-ataque. Moura diz ser a sequência um conjunto de lições práticas e eficientes, baseada em golpes e contragolpes, possibilitando ao aluno aprender capoeira no menor espaço de tempo possível (1968, p. 5).
Itapoan salienta que:
[…] essa sequência era destinada aos alunos iniciantes, é um método para
calouros e não para alunos formados, tarimbados. O objetivo era criar uma
consciência no aluno, da necessidade de sempre que atacado, aplicar uma
defesa e um contra-ataque criando assim uma situação de jogo e se
condicionando para tal (sic) (1994, p. 83).
Na nossa experiência, esse método funciona como um jogo de ensino-aprendizagem pelo qual os iniciantes aprendem jogando, pois a realização contempla a participação de dois alunos simulando um jogo de capoeira, como se estivessem dentro de uma roda.
Nessa prática, considerada por Mestre Itapoan como o maior
“Katá” 5 do mundo, cada aprendiz executa 154 movimentos e a dupla 308.
Decanio considera a sequência de ensino uma obra prima, uma invenção de concepção genial e fundamental para o ensino da Capoeira Regional. É um conjunto de golpes indispensável de ensino, sendo praticada sem o som do berimbau e é formada de movimentos básicos do jogo da Regional. Tem a vantagem de proporcionar um aprendizado rápido, eficiente, e serve para divulgar e proporcionar uma boa formação capoeirística. (1996, p. 168).
Na metodologia não cabia Mestre Bimba fazer a sequência com todos seus alunos e em todos os horários, especialmente na dedada de 1960 (período que estudei capoeira com ele), quando a idade avançada não permitia tamanho esforço.
Outro motivo que reputo como verdadeiramente importante era o de oportunizar uma relação de aproximação entre o aluno novato e o aluno mais antigo, geralmente um aluno graduado na academia, um aluno formado.
Medicina, abordando o seu início no estudo da capoeira com Bimba, reporta-se dizendo que Bimba convidou “um aluno já formado para lhe ensinar os principais golpes da arte de ser capoeirista até o final da aula”. Aqui cabe um registro, um esclarecimento sobre este ato. Mestre Bimba dava liberdade para os dois alunos aproveitarem o tempo da aula, no sentido de praticarem a sequência, assim, se por qualquer motivo, o calouro não se adaptasse ao companheiro, o que era raro, poderia trocar por outro colega da aula.
Cafuné, reportando-se a suas primeiras aulas, relembra da apreensão que lhe tomou conta no momento que Bimba lhe solicitou que repetisse os golpes, mas, com o passar do tempo, foi ganhando segurança, principalmente quando realizou os movimentos frente a uma cadeira. Com o recurso didático da cadeira, usado por Bimba, Cafuné disse que ficou com “menos medo, porque o que estava ali era uma cadeira e não um adversário, até que um dia eu comecei a fazer a sequência já com um colega, eu já estava com um pouco mais de confiança, mas ainda, muito tímido, muito medroso também”.