Capoeira Regional: a escola de Mestre Bimba

Hellio Campos · Capítulo 29 de 66

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Capoeira Regional: a escola de Mestre Bimba

Berimbau, atabaque e viola

O filme Vadiação, de Alexandre Robato Filho, rodado em 1954, no Cine Teatro Guarani, registra a beleza e o ritual do jogo de capoeira, mostrando em detalhes os golpes, chamadas, indumentárias, toques de berimbau, músicas e os principais mestres da época. A trilha sonora foi feita por Mestre Bimba.

Vale salientar que as principais e verdadeiras homenagens a Mestre Bimba acontecem a todo instante em qualquer roda de Capoeira, quer seja na rua, na academia, no meio estudantil, no Brasil ou mesmo no exterior. Nessas rodas, são cantadas músicas que são verdadeiras louvações, além das conversas capoeirísticas, nas quais invariavelmente se comentam histórias e lições de Bimba.

 

Berimbau, atabaque e viola

 

Mestre Bimba era músico por excelência: tocava berimbau, atabaque, pandeiro e viola como poucos. Para Muniz Sodré, “um dos maiores tocadores de berimbau de toda história da capoeira e também tocador de viola sertaneja em sua casa” (2002, p. 77). Itapoan afirma ser Mestre Bimba um artista que construía seus próprios instrumentos: pandeiros, atabaques e berimbaus, cuidando de maneira especial deles com arte e carinho (1994, p. 77).

O berimbau de Bimba era coisa sagrada. Poucas pessoas tinham acesso ao instrumento, somente com sua expressa autorização, e apenas alguns tocadores e raros alunos de sua inteira confiança. O berimbau utilizado nas aulas ficava preso à parede, no alto, próximo ao banco no qual Bimba costumava sentar para comandar a roda. Ninguém ousava pegá-lo, muito menos pedi-lo emprestado.

O mestre tinha um cuidado meticuloso na sua confecção e seguia um ritual que explicou em detalhes no filme Dança de Guerra:

 

A madeira era tirada no mato, com quinze dias depois de seca, a madeira

chamada beriba, então se pega um pedaço de couro, pega o arame, passa

cera e verniz. Não é como o berimbau de angola que eles tiram a madeira

verde, pintam e vendem aos turistas como um bom berimbau, o verdadeiro

berimbau é os que eu faço (sic).

Itapoan explica o processo artesanal de Bimba e lembra de curiosidades que definiam o berimbau construído por Bimba como o melhor:

 

a. Mestre Bimba era carpinteiro, um “carpina” como gostava de

dizer;

b. a biriba era cortada, descascada e deixada para secar atrás da

porta;

c. o arame era retirado de pneus velhos sem queimá-los;

d. a cabaça era aberta com faca amolada, tiradas as sementes,

lixada e experimentada no berimbau;

e. a verga era encerada com cera especial (pó da cabaça, açafrão

e cola); e

f. por fim, era todo envernizado.

 

Vale ressaltar que o mestre não aceitava o berimbau pintado e tinha verdadeira desconfiança dos berimbaus vendidos no Mercado Modelo. Dizia que o berimbau pintado, todo colorido, perdia a voz. Era pra enganar turista.

Com a experiência de carpinteiro, o mestre também fazia os pandeiros com a madeira forte e flexível do jenipapo e o couro do bode. O pandeiro era afinado no fogo. Antes das apresentações, juntávamos jornal velho, ateávamos fogo, colocávamos o pandeiro, aos poucos, na quentura, experimentado até achar a afinação. Os atabaques eram utilizados no candomblé e nas apresentações, marcando o ritmo do maculelê e a dança dos orixás.

Fazia gosto ver Bimba tocar o berimbau, tocava com elegância, descontração, o som era limpo, podia-se ouvir cada nota que se amplificava junto com a emoção. Nós, alunos, éramos impelidos a entrar na roda para jogar capoeira, embalados pelo som mágico daquele arco musical. Os alunos ficavam embevecidos no toque da “Iúna” e não raros eram aqueles que se diziam estar arrepiados e emocionados. Até hoje isso acontece.

No atabaque, o mestre era divino, dava um show à parte. Quando tocava o maculelê com som forte, ritmado, preciso e alucinante, impulsionava a todos; assim, também, era no candomblé.